J. R. Guzzo: A guinada à esquerda

Publicado na revista EXAME Há mais ou menos um ano, foi feita nesta página a seguinte pergunta: “o ministro Joaquim Levy vai ficar no governo até o final ou já está no corredor da morte, contando os dias que faltam para sua demissão?” Era uma indagação esquisita para fazer logo nos primeiros dias de uma administração — se […]

Publicado na revista EXAME

Há mais ou menos um ano, foi feita nesta página a seguinte pergunta: “o ministro Joaquim Levy vai ficar no governo até o final ou já está no corredor da morte, contando os dias que faltam para sua demissão?” Era uma indagação esquisita para fazer logo nos primeiros dias de uma administração — se o homem tinha acabado de ser escolhido pela presidente da República, por que diabos já estariam querendo que ele fosse embora? Mas o governo Dilma Rousseff é o governo Dilma Rousseff: qualquer disparate pode acontecer a qualquer momento em relação a qualquer assunto. No caso, não demorou muito para se perceber que Levy estava, sim, senhor, no corredor da morte, e nele permaneceu até o convidarem para ser torrado na cadeira elétrica com uma descarga de 5 000 volts. Qual a necessidade de uma coisa dessas? Nenhuma. Era só terem chamado para o cargo alguém que pensasse diferente dele. Chamaram agora, após um ano de perda de tempo, e lá vamos nós para o terceiro ministro da Fazenda em cinco anos de Dilma — o que levanta, entre outras suspeitas, a de que o Brasil talvez esteja voltando à era dos ministros da Fazenda de alta rotatividade, uma praga que acompanhou o país durante décadas de desatino econômico, até ser extirpada com o Plano Real. Fernando Henrique teve um só ministro da Fazenda em seus oito anos na Presidência. Lula teve dois no mesmo período de tempo. Já com Dilma não dá para apostar em nada, nem uma nota de 2 reais.

Ministros que entram e saem de seus cargos como de um motel em beira de estrada não deveriam ser motivo de preocupação séria para ninguém. São apenas ministros, no fim das contas; o país já teve possivelmente milhares deles desde o governo de Dom Pedro I, todos merecidamente esquecidos há longo tempo, sendo que a maioria não conseguiu desfrutar nem dos 15 minutos de fama previstos pela praxe. Mas há preocupação, e muita, quando se sabe que ficar trocando toda hora o ministro da Fazenda, especialmente, é sinal de desordem mental, política e administrativa no governo. É um dos clássicos da Teoria Geral da Incompetência: quando quem está no galho mais alto da árvore não resolve problemas, não tem nada que se possa chamar de ideia e na prática não governa, a saída de sempre é trocar o ministro encarregado da economia. Falou-se, no parágrafo anterior, em “outras suspeitas”, além da rotatividade do cargo. Podem botar suspeita nisso. Já se atribui ao novo ministro Nelson Barbosa a incumbência de fazer um cavalo de pau na orientação que vinha sendo seguida por Joaquim Levy, e tomar a direção inversa à dele — que não vinha dando em nada de útil, é bem verdade, mas pelo menos indicava a intenção de não continuar fraudando as contas públicas, ou gastando com a irresponsabilidade alucinada dos últimos anos. Seria a “guinada à esquerda”.

O próprio Barbosa não tem falado muito sobre essas coisas; para saber melhor o que ele quer será preciso esperar pelo que ele fará. Mas em volta de sua caneta a fornalha está rugindo. O ex-presidente Lula cobra um “retorno imediato ao crescimento” — como se isso dependesse de assinar papéis com o carimbo do Ministério da Fazenda. O PT, em graus variados, quer “mudanças” na política econômica “conservadora” do ex-ministro. Exige “investimento social”, crédito e mais gasto do governo, mas não admite corte em nenhuma despesa pública; propõe que Barbosa arrume dinheiro criando, aumentando ou ressuscitando impostos. Governadores de estados falidos, a começar de Minas Gerais e Rio Grande do Sul — que não conseguem pagar nem mesmo a folha de salários —, cercam a presidente e sua nova estrela econômica em busca de dinheiro que o Tesouro Nacional não tem. No seu rastro vão empresários com o quadro de desgraças em suas áreas — que, para complicar, é perfeitamente real. Segue-se muito mais do mesmo. Não ocorre a ninguém que o problema não é, e nunca foi, a política de “direita” de Levy. É, simplesmente, a bancarrota política, econômica e moral do governo que está aí.

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  1. Comentado por:

    FOREIGN

    Nessas canalhices envolvendo figuras estrangeiras que participaram de terrorismo, fizeram parte de facções, deliquiram e conseguiram se instalar aqui em Botucundia com benesses e tudo o mais, sob o beneplácito do governo petista, não tenham dúvida que , a mão que pincela e dá o start a toda trajetória , parafernália, estratagema para que a permanência dessa gente seja possível com privilégios no país, assim como a expulsão e o ocorrido com o senador boliviano é a do tal de Marco Aurélio TOP TOP.

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  2. Comentado por:

    Inides

    Não é com chá de CAMOMILA que se vai curar dengue, zika, catapora, sarampo e outras doenças mais. Tem de ir na raiz do problema.
    No Governo Dilma, há direções opostas a tudo que sabemos em matéria de controle de gastos. Mas a PresidAnta direciona sempre para onde o vento sopra.
    Assim, não há ministro da fazenda que dê jeito. Mesmo porque ela desautoriza sempre a medidas que poderiam aliviar.

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  3. Comentado por:

    Ivan, o Terrível

    As pessoas não estão se dando conta de um fato seríssimo: o Brasil hoje é um país DECADENTE em praticamente todas as esferas de sua sociedade. Não apenas na esfera política, mas nas artes, nos esportes, na gestão empresarial, etc. Olhem o noticiário. Só desgraça.

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  4. Comentado por:

    Lobista

    Ou seja política econômica sem rumo. Para refletirmos um pouco mais:
    http://www.alertatotal.net/2016/01/a-cinica-jogatina-da-presidenta-golpista.html
    Cade o marqueteiro?

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  5. Comentado por:

    Oswaldo

    Levy foi regiamente pago para fazer o papel de Judas e ser malhado no sábado de Aleluia. Alguns dizem (eu, por exemplo…) que nao há dinheiro no mundo que pague este vexame. Haverá quem discorde. Há vocacionados para tudo. Há talento em palhaços autênticos (Carequinha, Fred, Arrelia…).

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  6. Comentado por:

    Aldo soares

    perfeito .O Levy quis apenas ser patriota juntar os cacos da desgraça financeira ;da desordem moral,ética…um bando.Meritocracia ? onde? Jacques W , Aldo R.Ministros da defesa. NÃo sabem diferenciar um canhão de uma 9MM.Vai pro trono quem for do agrado da tirana majestade: “feita seja vossa vontade “Entonces Levy rapou fora’ é honesto,competente e é isso que as não estatais premiam . Insistem em achar que o país é um sindicato.

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  7. Comentado por:

    Arthur Tavares

    Nãoooo presidANTA. Deixe de ser estúpida.
    Para reequilibrar o País é necessário DIMINUIR o peso do estado sobre NÓS, o povo que trabalha e paga impostos.
    Venda as empresas estatais e a participação nas mistas para a iniciativa privada, principalmente aquelas que dão apenas prejuízos, pois a vantagem adicional que assim diminuímos a possibilidade de corrupção.
    Venda as empresas que não tem nada a ver com Saúde, Segurança, Educação e Infraestrutura, e as que nestas áreas específicas, foram criadas apenas para serem aparelhadas pelos apaniguados do PT, e portanto só dão prejuízo.
    Dispense os mais de 100.000 cargos de confiança, pois aí, a consequência é diminuir Custos e Despesas indiretos gerados por estes parasitas e incompetentes, tais como; Encargos Sociais, Previdência, Carros, Telefones, Seguros, Assistência Médica etc…
    Faça seu looby no congresso, não para criar impostos ou CPMF mas sim, para diminuir as despesas e custos, legais mas imorais, nos três poderes; Executivo, Legislativo e Judiciário, e exemplo para os três níveis de governo. Federal, Estadual e Municipal.
    Seja coerente no combate a corrupção. Apoie os orgãos e principalmente aqueles que buscam acabar com a impunidade, ou a senhora tem medo de ser presa também.
    Não basta ser honesta, tem de parecer honesta e a senhora não parece honesta. Mentirosa por principio não é honesta.
    Crie vergonha e dê o exemplo que é muito melhor que as estúpidas palavras que profere ao vento.
    Ninguém acredita mais na Gorda Doida.
    A senhora, o estúpido do Lulla e seus asseclas (Renan, Sarney, Collor, Cunha, Maluf, João, Delcidio, Jacques, Gabrielli, Graça Foster, Mercadante e outros menos votadas é que são a crise.
    Ou atue como uma estadista ou Renuncie.
    A oposição também não perde por esperar …… Vai faltar forca pra todos. inclusive pra eles.

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  8. Comentado por:

    Beta

    Sr. Guzzo
    na mesma semana em que Dilma ressuscita a pauta da CPMF, ela aprova mais de R$ 800 milhões para o fundo partidário.
    Não há esperança, independente de quem estiver no ministério.
    É um governo de joelhos ao próprio plano de se perpetuar no poder.

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  9. Comentado por:

    Oswaldo

    Executivo paquidermico, Legislativo elefantino e Judiciário monstruoso. Justiça para tudo. Trabalhista, eleitoral, civil e militar. Prédios para todo mundo. E cargos. Muitos cargos. Banco do Brasil, BNDES e caixa econômica. Estatais, 23 estados com assembleias legislativas paquidermicas, 5. 000 municípios com secretarias e prefeitos e vice prefeitos, 5. 000 câmaras de vereadores. 30 vereadores com 15 assessores cada um. Lapis e papel na mão, pessoal. O surpreendente foi o Brasil ter demorado tanto para falir…

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