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Gilmar fala sobre tudo, com exceção do terremoto em Mato Grosso

Não existe esperança de salvação para gente como Dirceu, Eike Batista, Jacob Barata e outras flores do orquidário do Supremo Ministro da Defesa de Culpados

Sempre que livra da cadeia algum meliante irrecuperável, o ministro Gilmar Mendes recita 12 palavras atribuídas a Rui Barbosa: “O bom ladrão salvou-se, mas não haverá salvação para o juiz covarde”. Se foi mesmo produzido por Rui, o besteirol só ensina que até uma Águia de Haia pode viver seus momentos de Dilma Rousseff. Uma lição tão rasa convida a reflexões tão profundas que, na imagem de Nelson Rodrigues, uma formiguinha poderia atravessá-las com água pelas canelas.

Não há nada parecido com o bom ladrão do episódio bíblico no Brasil dos crápulas que chapinhavam no pântano que a Operação Lava Jato vem drenando há mais de três anos. A tribo que Gilmar livrou ou tenta livrar da cadeia reúne apenas larápios de quinta categoria, assaltantes incuráveis e vigaristas sem remédio. Não existe esperança de salvação para gente como Antonio Palocci, José Dirceu, Eike Batista, Jacob Barata e outras flores do orquidário do Supremo Ministro da Defesa de Culpados.

A primeira parte da frase, portanto, é uma fantasia em frangalhos. A segunda escancara a megalomania de um advogado e professor de Direito que deu de incorporar o onipotente, onipresente e onisciente Superjuiz da Nação. Para consumar a metamorfose, basta cobrir o terno cinza-Brasília com a toga adornada por medalhas imaginárias que eternizam atos de bravura em situação de combate. Se repete de meia em meia hora que “não haverá salvação para o juiz covarde”, é evidente que Gilmar enxerga no espelho uma ilha de coragem cercada de magistrados pusilânimes por todos os lados.

Essa disfunção visual ataca quem confunde coragem com atrevimento, insolência, arrogância e cinismo. Quem liberta bandidos que, no primeiro minuto em liberdade, recomeçam a ocultação de provas e a obstrução da Justiça é decididamente covarde. Valentes são os juízes decididos a mostrar aos nostálgicos do paraíso da impunidade que a norma constitucional enfim entrou em vigor: todos são iguais perante a lei. Gilmar Mendes imagina que socorrer “bons ladrões” é demonstração de bravura. O Brasil decente acha que isso é coisa de portadores do complexo de deus.

Até onde irá o surto de megalomania que chegou ao clímax neste agosto? Talvez não chegue ao fim de setembro, sugere a movimentação de placas tectônicas sob a superfície de Mato Grosso. Os tremores ganharam intensidade com a divulgação parcial da delação premiada de Silval Barbosa, qualificada de “monstruosa” pelo ministro Luis Fux, que autorizou o acordo em nome do Supremo Tribunal Federal. Ex-governador e amigo do peito de Gilmar, Silval só começou a abrir o bico. O que tem a dizer se somará à enxurrada de espantos prometida pela iminente delação do ex-deputado estadual José Riva.

Nos 16 anos em que comandou a Assembleia Legislativa, ao longo dos quais fez o suficiente para tornar-se portador da maior ficha suja do país, Riva acumulou informações com tamanho poder destrutivo que, divulgadas em sequência, submeterão Mato Grosso a um terremoto político sem precedentes. Mato-grossense de Diamantino, Gilmar Mendes conhece em detalhes o prontuário de José Riva. Apesar disso ─ ou por isso mesmo ─, não hesitou em premiar o amigo fora da lei, há pouco mais de um ano, com um habeas corpus que até o beneficiário considerou surpreendente.

Foi a última ousadia de Mendes nos campos minados de Mato Grosso. Neste agosto, o ministro se manifestou sobre Lava Jato, semipresidencialismo, reforma política, governo Temer, foro privilegiado, prisão preventiva, procuradores federais, STF e coisas que podem levar um juiz a declarar-se sobre suspeição, fora o resto. Mas não deu um pio sobre os estrondos ocorridos em Cuiabá e ouvidos no resto do Brasil. Se Silval Barbosa e José Riva contarem rigorosamente tudo, o nome do poderoso protetor será citado ─ para o bem ou para o mal. O silêncio do falante compulsivo informa que nem ele sabe o que vem por aí.

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  1. Mário Ralph Filho Corrêa

    Estamos aguardando quando a lava-jato atingirá em cheio a estratosfera do judiciário. Já demorou

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  2. Carla L.S. Lieberman

    Grata pelo texto, Augusto.
    É bom saber que há, nas redações, alguém digno e decente, disposto a representar a opinião dos honestos. Lembremos que são muitos aqueles que, em nome da eliminação do PT, tudo apostaram na indecência que sobrevive do outro lado, como se essa alternativa nos fosse melhor. São maus exemplos de jornalismo. Certamente não é o teu caso.
    Escrevi outro dia, aqui mesmo, que considero Gilmar Mendes o braço jurídico da corrupção institucionalizada, organizada. Não se precisa de muito esforço intelectual para chegar à conclusão. Como você bem lembra agora, essa figura parece ser também a bocarra, a bocarra maldita.
    Dizem que a modéstia, quando forçada, é a pior forma da vaidade.
    Curiosamente, com a vaidade acontece a mesma coisa…
    (Caro, Augusto, pesquise aí: não haveria nas planilhas da Odebrecht algum bandidão que atende pelo codinome de “Vaidoso”?)

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  3. …”ilha de coragem cercada de magistrados pusilânimes por todos os lados”. Disse tudo. Só você mesmo Augusto para dar lições como essa à imprensa que defende ou se omite diante de abissal absurdo.

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  4. Lauro Ferreira Melo

    Sempre achei suspeitas as atitudes deste ministro, quem sabe agora aparece algo.

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  5. Sonia Fausta Tavares Monteiro

    E pensar que , pelo fato de ocupar um cargo vitalício, seja concedido a esse ministro o pleno direito de fazer e desfazer o que bem entender, inclusive soltar bandidos que estavam presos por ordem de um conceituado juiz. Não respeita e ofende instâncias encarregadas de julgar aqueles que assaltaram vergonhosamente o País! Não respeita seus pares, e não respeita qualquer outro poder instituído, como seria ético e de direito. De Mato Grosso, quem sabe, pode vir o que mais esperamos, com relação ao que seria o empurrão para sua aposentadoria compulsória, além do seu impedimento para julgar casos onde deveria ser impedido de fazê-lo. Agora mesmo, existe a possibilidade de atuar no caso Jacob Barata, o que poderá acontecer, se providências sérias não forem tomadas, e o que seria uma vergonha! Enquanto isto não acontece, vamos aguardar e ver se justiça é mesmo para todos!

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  6. Francisco DE ASSIS BATISTA SANTOS

    Excelente, falou tudo. Sou seu fã de carteirinha.

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  7. No Mato Grosso tem muita gente que sabe de tudo e adoraria contar.
    Mas…………., quem tem coragem ?
    O “clima” lá é “QUENTE”…….

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