Fernando Henrique Cardoso: O certo e o errado

Publicado no Estadão O castelo de areia das grandezas do lulopetismo está desabando ao sopro da crise econômica e da Lava Jato, como tantas vezes escrevi. Em meio ao desmoronamento, o lulopetismo procura embaçar a vista de quem assiste à sua queda dizendo que tudo não passa de uma trama “da direita” para desacreditá-lo por […]

Publicado no Estadão

O castelo de areia das grandezas do lulopetismo está desabando ao sopro da crise econômica e da Lava Jato, como tantas vezes escrevi. Em meio ao desmoronamento, o lulopetismo procura embaçar a vista de quem assiste à sua queda dizendo que tudo não passa de uma trama “da direita” para desacreditá-lo por ser “de esquerda”.

Para desmontar a farsa vale a pena ler a entrevista dada às páginas amarelas da revista VEJA, na semana passada, por José de Sousa Martins, importante sociólogo e insuspeito de ser “de direita”. Martins diz que, no caso do PT, a dicotomia direita/esquerda provém da metamorfose do pensamento católico, que separa os bons dos maus, os fiéis dos que não creem. Há na matriz do petismo um reducionismo que transforma os adversários em inimigos e tem dificuldade de lidar com nuances de opinião. É a essa matriz que o lulopetismo busca retornar, agora como farsa.

Sobre a “esquerda” e a “direita” no Brasil, há anos eu repito a frase que ouvi do historiador Sérgio Buarque de Holanda quando examinava uma tese de livre-docência sobre a política brasileira no Império. No trabalho, o autor confrontava o pensamento liberal, o conservador e o progressista. Sérgio, referindo-se a um personagem simbólico de nossos conservadores naquele período, perguntou com certa ironia ao candidato: você acredita que Bernardo Pereira de Vasconcelos lia Edmund Burke (um clássico do conservadorismo inglês, que via com maus olhos a Revolução Francesa)? Não, respondeu o próprio Sérgio, ele não era um verdadeiro conservador, não defendia ideias; ele era apenas um “atrasado”. Boa parte dos atuais lulopetistas tampouco são de esquerda, defendem ou creem apenas em noções atrasadas.

Mas a disputa política não é uma batalha para ver quem são os mais bem informados. Ela sempre envolve percepções. Assim, o chavão dos “pobres versus ricos”, por mais que seja tosco, pode funcionar. Do mesmo modo pode aliciar muita gente o embuste de que a Lava Jato seja uma manobra para perseguir os deserdados da fortuna em favor dos poderosos, como se os poderosos nos últimos 13 anos não tenham sido eles, em ligação corrupta com parte da elite econômica e política.

Por isso cabe aos políticos de oposição, na luta ideológica, continuar a desmantelar as fortalezas do atraso. Além de desmontar o argumento da “armação jurídica”, é preciso reduzir ao ridículo a ladainha de que a crise atual decorre de fatores externos. Vejam só, dizem eles, estávamos certos, foram as ondas externas (não mais marolas, mas tsunamis) que nos afetaram. Tão certos pensam que estavam que, ao derrubar o ministro Joaquim Levy, renasceu a esperança do “mais do mesmo”, ou seja, mais crédito e mais consumo (por quem já está endividado, muitas vezes com menos renda e não raro sem emprego).

O que está claro para quem tem alguma noção das coisas e da História pode ser turvo para o cidadão comum. Por isso a repetição petista de uma argumentação descabelada pode parecer inútil, mas não é: é uma tentativa de preservar a imagem de que só o PT defende os pobres e só ele se opõe ao capitalismo desumano. Convém persistir em mostrar que o que foi feito na política econômica petista não foi obra do inevitável, mas produto de erros crassos.

Erros que não remetem à divisão esquerda/direita, mas se explicam pelo atraso na compreensão da política econômica e pelo interesse em manter o poder e os bolsos dos partidos e de alguns de seus dirigentes recheados com dinheiro alheio, dinheiro do povo. Que medida no presente pode ser mais “de esquerda”, mais progressista, do que recuperar o emprego e o poder de compra da maioria da população? E como fazer isso sem debelar a inflação? E como debelar a inflação sem ajuste fiscal? E como garantir o emprego futuro sem reconquistar a confiança do setor privado, já que o Estado sem os capitais privados não pode assegurar a retomada do investimento?

Qual a alternativa “de esquerda” a essas medidas? O novo “pacote de crédito público”, versão envergonhada da política que pedalou a ilusão da prosperidade em 2013 e 2014 rumo à reeleição e resultou em mais dívida para as famílias e mais desarranjo das finanças públicas, essa preocupação “de direita” que obceca os “neoliberais”?

Houve quem escrevesse, e o fez em inglês, que às vezes há uma confusão no senso comum entre os conceitos políticos de esquerda e de direita (right) e as noções corriqueiras de certo (right) e errado. As políticas de crescimento econômico do lulopetismo não foram “de esquerda”, mas certamente foram erradas.

É importante repisar isso para mostrar que as políticas de distribuição de renda precisam ser sustentáveis para produzir resultados duradouros. Muito do que foi conquistado desde o Plano Real está hoje ameaçado. Para amenizar o drama da terrível crise atual é preciso manter a rede de proteção social que foi tecida em meu governo e reforçada no governo Lula. Mas é urgente corrigir os desatinos fiscais do lulopetismo, desaparelhar o Estado, reconquistar a confiança da sociedade e retomar a agenda de reformas que o lulopetismo abandonou em favor de anabolizantes pró-crescimento que produziram medonhos efeitos colaterais para o país. Só assim será possível retomar a trajetória que corresponde às aspirações da Constituição de 1988, contra a qual o PT votou, por julgá-la conservadora: um Brasil democrático, não apenas mais desenvolvido, mas, sobretudo, socialmente mais justo.

Há forças capazes de corrigir os desatinos cometidos. Para isso é preciso que lideranças não comprometidas com o lulopetismo, apoiadas pelos grupos sociais que nunca se deixaram ou não se deixam mais seduzir por seu falso encanto, assumam a sua responsabilidade histórica, dentro da Constituição, para fazer o certo em benefício do povo e do país.

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  1. Comentado por:

    Ricardo M

    Ao caro amigo Oliver.
    Obrigado,pensei que eu tinha ficado pendurado na caneta.
    Fechamos em opinião,e pagamos por isso.
    Novamente,muito obrigado!
    Ricardo M.

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  2. Comentado por:

    Lúcia

    Me decepcionei com FHC, quando ele disse que a Dilma é uma mulher honrada. Um estadista como Fernando Henrique, tem que ter cuidado com as palavras por ser um formador de opinião. Com todo o respeito que ele merece, acho que foi infeliz com o comentário. Melhor não se manifestar.
    Essa quadrilha que está no governo comemora. Como se diz aqui na minha terra é dar a cara pra bater. Algum petista reconhece o legado que FHC nos deixou?Citando o mais importante que foi o Plano Real. Fizeram terrorismo com a Senhora Rute Cardoso, uma senhora íntegra, de caráter.Jamais tiveram a humildade de pedir desculpas pelo ocorrido.Me desculpe, mas na minha opinião, essa quadrilha que está no poder, não merece a mínima consideração. A Dilma tem culpa sim pela safadeza e ladroagem que está ocorrendo. De santa não tem nada. Não roubou, mas foi conivente com a roubalheira, portanto não considero uma mulher honrada. Os bandidos presos da Petrobrás não roubaram hoje, esse roubo já era de muito tempo atras. Estava com a caneta na mão e nada fez. Uma oportunista, que não merece o mínimo de consideração e tem que desocupar a cadeira o mais rápido possível para o bem do Brasil.

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  3. Comentado por:

    santos

    Então mãos à obra FH. Chega de cenas, chega de artigos que não dão em nada. Chegam de usarem o Instituto FH para defender o Instituto Lula. Tá na hora de descer do muro e tomar atitude de quem tem vergonha na cara. Até agora o FH fica esperando que uma dádiva caída do céu salve o Brasil. Não vai cair Deus não ajuda pecadores ativos e muito menos pecadores omissos. Até agora o FH se faz de líder mas segue o Lula. É pautado pelo que Lula e os petistas detrminam através da mídia. O FH vive fazendo o jogo do PT no estilo Chaves do SBT “sem querer querendo”.

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  4. Comentado por:

    Tarcísio

    É triste ver uma oposição apática.
    É triste ver uma população alienada, esperando que apenas um juiz venha resolver todos os problemas dessa frágil república.
    Acorda Brasil!

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  5. Comentado por:

    José C

    Respeito muito o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Sei da sua elegância com as palavras. Sei da sua preocupação com a estabilidade do Brasil nas áreas social, econômica etc.. Muitos dos comentários abaixo não são dignos da magnitude, das composturas verbal e educacional do ex-presidente. Inequivocamente, é um homem de diálogo e de apaziguamento social. É um homem que vê longe. Que se preocupa com o presente e com o futuro. Ele sabe que o PT não é um rival político. Com a sua inteligência e perspicácia tem consciência que o PT é um inimigo político. Mas sua condição de ex-presidente, sociólogo e intelectual lhe determinam não nivelar as relações por baixo. Nós, povo, é que devemos ter a capacidade de discernir o certo do errado. O belo do feio. O bem do mal. Para tal precisamos ser educados… mas educados não existem sem educação. Pena que para atingirmos esse estágio sofreremos muito.

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  6. Comentado por:

    Abreu:.

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    Oliver – 9/2/2016 às 23:24, concordamos discordando e discordamos concordando – eu, Você e outros comentaristas, aqui, no blog, mas creio que haja mais do que subliminar maldade de sua parte nesta sua afirmação à Valentina, quando Você diz que «(…)FHC nunca roubou, que eu saiba. Lula também não; mandou roubar.(…)», porque (como os petralhas gostam) você os colocou no mesmo balaio.
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    Nada sei sobre as defesas de FHC ao socialismo – e não acho desonesto que alguém simpatize com tal ideologia (pelo contrário!), mas olho exatamente para aquilo que quando teve o poder nas mãos ele realizou: valorizou a meritocracia, privilegiou o livre mercado, associou-se aos melhores e mais bem qualificados, deu prioridade à transparência e distanciou-se o mais que pode dos corruptos e dos obscuros.
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    Okay, okay! Romero Jucá esteve em seu governo, mas no final de sua gestão, personalidades como Jáder Barbalho, José Sarney (sim!, ele mesmo!) e Renan Calheiros caminhavam para o ostracismo até serem cooptadas pelo petralhismo para aquilo que hoje ninguém mais duvida, por ser público e notório.
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    ‘Odeio’ sair “em defesa” de quem dela não precise (até porque nem qualificado sou, para tanto), mas gosto ainda menos de ver injustiças que eu possa pelo menos questionar.
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    Insisto: FHC pode ser socialista – como Você diz, mas como executivo, sempre teve a responsabilidade de ser prático, produtivo e autor das melhores realizações – deixando a ideologia reservada às teses acadêmicas. Aliás, acho que é até por isso mesmo que FHC é tão ardentemente odiado (sim!) por tantos acadêmicos que não lhe poupam críticas de cunho personalíssimo, acusando-o de vaidoso, de príncipe, etc., jamais podendo atacar-lhe a honra e princípios éticos e morais.
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    FHC não roubou – não mandou que roubassem nem permitiu que amigos e parentes enriquecessem durante seus dois mandados.
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    Lembra-se que seu filho PHC erada casado com a filha (salvo engano) dos Magalhães Pinto, situação em que suas filhas (netas de FHC) seriam herdeiras do Banco Nacional – um dos então mais importantes do Brasil? Pois é: FHC não pestanejou e não interferiu na decisão de intervenção e posterior falência do banco. Idem com o Bamerindus, de seu então amigo e ministro de seu governo…
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    Não vou me estender, mas resumo acreditando que se a corrupção seja um dos defeitos humanos mais antigos e arraigados – presente em todas as gestões (públicas ou privadas) ao redor do mundo, FHC e a maioria dos tucanos (que são mesmo tíbios, na maioria das vezes, quando gostaríamos que fossem enfáticos, etc.), não tem a corrupção como plano de governo e jamais a institucionalizam, como desde sempre fizeram os petistas (antes pelo contrário).
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    Por isso, acho que Você “pegou pesado”.
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