06/03/2011
às 18:30 \ Feira LivreSilêncios que falam
ARTIGO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTE DOMINGO
Fernando Henrique Cardoso
Desde quando vivi de muito perto a experiência da “revolta dos estudantes” de maio de 1968 em Paris, comecei a duvidar das teorias que aprendera sobre as mudanças sociais no mundo capitalista. Estas estavam baseadas na visão da História como uma sucessão de lutas entre as classes sociais visando ao controle do Estado para, por intermédio dele, seja manter a dominação de classes, seja destruir todas elas e construir a “sociedade do futuro” sem classes e, portanto, sem que os partidos tivessem função relevante. A qual seria crucial, na visão dos revolucionários do século 20 de inspiração leninista, apenas na “transição”, quando se justificaria até mesmo a ditadura do proletariado, exercida pelo partido.
Pois bem, nas greves estudantis da Universidade de Paris, em Nanterre e na Sorbonne (assim como nos câmpus universitários americanos, com outras motivações), que acabaram por contaminar a França inteira e repercutiram pelo mundo afora, vi, perplexo, que as palavras de ordem não falavam em “anti-imperialismo” e só remotamente mencionavam os trabalhadores, mesmo quando estes, atônitos, entravam nos auditórios estudantis “ocupados” pelos ativistas jovens. Falava-se em liberdade, em ser proibido proibir, em amor livre, em valorizar o indivíduo contra o peso das instituições burocratizadas, e assim por diante. É verdade que nas passeatas havia bandeiras negras (dos velhos anarquistas) e vermelhas (dos bolcheviques). Faltavam os símbolos do novo e mais, na confusão ideológica geral, pouco se sabia sobre o que seria novo nas sociedades, isto é, nas estruturas sociais, do futuro. Por outro lado, o estopim da revolta não foram as greves trabalhistas, que ocorreram depois, nem choques no plano institucional, mas pequenos-grandes anseios de jovens universitários que, como num curto-circuito, incendiaram o conjunto do país.
Só que, logo depois, De Gaulle, vendo seu poder posto à prova, foi buscar apoio nos paraquedistas franceses sediados na Alemanha e, com a cumplicidade do Partido Comunista, restabeleceu a antiga e “boa” norma. Por que escrevo essas reminiscências? Porque desde então o mundo mudou muito, principalmente com a revolução informática. Crescentemente as “ordens estabelecidas” desmoronam sem que se perceba a luta entre as classes. Foi assim com o desmoronamento do mundo soviético, simbolizado pela queda do Muro de Berlim. Está sendo assim hoje no norte da África e no Oriente Médio. Cada vez mais, em silêncio, as pessoas se comunicam, murmuram e, de repente, se mobilizam para “mudar as coisas”. Neste processo, as novas tecnologias da comunicação desempenham papel essencial.
Até agora, ficaram duas lições. Uma delas é que as ordens sociais no mundo moderno se podem desfazer por meios surpreendentes para quem olha as coisas pelo prisma antigo. A palavra, transmitida a distância, a partir da soma de impulsos que parecem ser individuais, ganha uma força sem precedentes. Não se trata do panfleto ou do discurso revolucionário antigo nem mesmo de consignas, mas de reações racionais-emocionais de indivíduos. Aparentemente isolados, estão na verdade “conectados” com o clima do mundo circundante e ligados entre si por intermédio de redes de comunicação que se fazem, desfazem e refazem ao sabor dos momentos, das motivações e das circunstâncias. Um mundo que parecia ser basicamente individualista e regulado pela força dos poderosos ou do mercado de repente mostra que há valores de coesão e solidariedade social que ultrapassam as fronteiras do permitido.
Mas ficou também a outra lição: a reconstrução da ordem depende de formas organizacionais, de lideranças e de vontades políticas que se expressem de modo a apontar um caminho. Na ausência delas, volta-se ao antigo – caso De Gaulle – ou, na iminência da desordem generalizada, há sempre a possibilidade de um grupo coeso e nem sempre democrático prevalecer sobre o impulso libertário inicial. Noutros termos: recoloca-se a importância da pregação democrática, da aceitação da diversidade, do direito “do outro”.
Talvez seja este o enigma a ser decifrado pelas correntes que desejem ser “progressistas” ou “de esquerda”. Enquanto não atinarem ao “novo” nas circunstâncias atuais – que supõe, entre outras coisas, a reconstrução do ideal democrático à base da participação ampliada nos circuitos de comunicação para forçar maior igualdade -, não contribuirão para que a cada surto de vitalidade em sociedades tradicionais e autocráticas surjam de fato formas novas de convivência política. Agora mesmo, com as transformações no mundo islâmico, é hora de apoiar em alto e bom som os germens de modernização, em vez de guardar um silêncio comprometedor. Ou, pior, quebrá-lo para defender o indefensável, como Hugo Chávez ao dizer “que me conste, Kadafi não é assassino”. Ou como Lula, que antes o chamou de “líder e irmão”! Para não falar dos intelectuais “de esquerda” que ainda ontem, quando eu estava no governo, viam em tudo o que era modernização ou integração às regras internacionais da economia um ato neoliberal de vende-pátria. Exigiam apoio a Cuba, apoio que não neguei contra o injusto embargo à ilha, mas que não me levou a defender a violação de direitos humanos. Será que não se dão conta de que é graças ao maior intercâmbio com o mundo – e principalmente com o mundo ocidental – que hoje as populações do norte da África e do Oriente Médio passam a ver nos valores da democracia caminhos para se libertarem da opressão? Será que vão continuar fingindo que “o Sul”, nacional-autoritário, é o maior aliado de nosso desenvolvimento, quando o governo petista busca, também, maior e melhor integração do Brasil à economia global e ao sistema internacional, sem sacrifício dos nossos valores mais caros?
Há silêncios que falam, murmuram, contra a opressão. Mas há também silêncios que não falam porque estão comprometidos com uma visão que aceita a opressão. Não vejo como alguém se possa imaginar “de esquerda” ou “progressista” calando no momento em que se deve gritar pela liberdade.
Tags: artigo, De Gaulle, esquerda, Fernando Henrique Cardoso, liberdade, O Estado de S. Paulo, Silêncios que falam







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20 Comentários
Bruna K.
-12/03/2011 às 13:15
Além dessa manifestação de sabedoria histórico-intelectual, FHC sabe muito bem jogar com ideologias para atingir o fim pragmático. O fim é sempre retornar ao poder; claro que ele sabe que em todas as esferas da política, e portanto também na política externa, o pragmatismo é o que dá a tônica dos movimentos políticos, inclusive na diplomacia. A Arábia Saudita é um país organizado em um sistema de governo absolutista; mas sendo o maior produtor de petróleo do mundo e aliado dos EUA, passa despercebida pelas comissões de Direitos Humanos. O medo de que o Irã desenvolva armas nucleares é motivo para pressão internacional, no entanto não há manifestação a cerca da posse de armamento nuclear por parte do Paquistão e da Índia. E não esqueçamos, o Brasil sempre manteve relações diplomáticas com a Líbia e os demais países africanos durante o governo FHC. FHC só parece se esquecer que a política externa de apoio indiscutível aos EUA durante seu governo não rendeu os frutos esperados, fazendo com ele mesmo fosse buscar apoio no mundo em desenvolvimento. Nesse sentido, seu discurso em Guayaquil (2002) é elucidativo. Lula só deu continuidade, com maior ênfase, a postura crítica em relação ao mundo desenvolvido. A cooperação Sul-Sul tem rendido grandes frutos sobretudo econômicos para os países em desenvolvimento, além de ter possibilitado a inserção mais soberana nos fóruns internacionais.
Jluz
-11/03/2011 às 9:14
Vamos fazer uma campanha para FHC na ABL!!!! Ele merece, é um verdadeiro intelectual, estadista… É melhor que um Sarney. E, antes que o PT abra uma campanha para o Lula – Epedeuta na ABL, motivo: os discursos vazios. Não precisar ter escrito nada e nem ter lido uma revista em quadrinhos…
Nico Andrade
-10/03/2011 às 18:29
Opa, “abrido” não, aberto!
Tá vendo, efeito colateral do lulismo até em minha escrita.
Nico Andrade
-10/03/2011 às 18:26
Saudades de ter um presidente culto!
O lula só é capaz de assinar o próprio nome, e mesmo assim para atos degradantes para a educação. Fiquem sabendo que ele agora é Doutor Honoris Causa da Faculdade Federal de Viçosa. Se isso não é sintoma da inveja, ele poderia ter abrido mão deste título, né?
http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/historia-em-imagens/a-celebracao-da-ignorancia-em-45-palavras/
Daniel Araujo
-08/03/2011 às 20:13
FHC, realmente um grande homem. Se os petralhas soubessem ler deveriam ler este artigo.
edson
-08/03/2011 às 10:26
O contraste entre FHC e lula é muito grande. O primeiro sabe do que fala; o segundo não sabe nem falar. O primeiro inseriu o Brasil na modernidade; o segundo nos inseriu na era da mediocridade.
Eudas Marques
-08/03/2011 às 8:47
Fernando Henrique esse sim um estadista. Parabéns pela publicação Augusto.
Sergio Hora
-08/03/2011 às 7:45
Esquerda “progressista”? Será que alguém consegue apontar um, um só país que viva ou tenha vivido sob qualquer tipo de regime da equerda autoproclamada “progressista” – socialista, comunista… – que tenha alcançado algum tipo de progresso: cultural, econômico, científico, tecnológico, social…?
Alguém conhece?
Semperdestro
-07/03/2011 às 16:54
Um pequeno reparo ao belo texto de FHC: a esquerda e os “progressistas” só gritam por liberdade quando estão na oposição. Quando chegam ao poder…
indio véio
-07/03/2011 às 15:49
sou da classe d 43. jovem, acompanhei os discursos d lacerda, ouvia brizola na marink veiga,rede da legalidade, golpe de 64, ciclo dos militares, campanha das diretas – enfim a constituinte -. brizolista sim, cheguei a participar dos g 11. sintetizando: considero essa geração super previligiada, além dos avanços da informatica e afins, fomos presididos por aquele q é o legitimo ESTADISTA, q conhecemos. tivemos tb a infelicidade d sermos presididos por luiz inacio, o maior mentiroso d todos os tempos. é ou n é vivenciar esses 2 extremos?
1 abração
ilmarnasc
-07/03/2011 às 15:07
Parabéns FHC.Gostei do seu texto.Alás tudo o que senhor escreve,e tudo o que o senhor fala mostra que é muito inteligente.Lula sabe disso.Por isso sente uma inveja danada do senhor.O senhor vive em simplicidade enquanto Lula vive e gosta de luxo.O senhor foi massacrado,e,perseguido pelos miseráveis dos petralhas,o senhor acabou com a inflação,deixou o Brasil em condições de seguir,de ser um País digno dos brasileiros.Mas veio o ódio, a inveja,as intrigas dessa cambada petista,que ganharam o poder e não querem largar de maneira nenhuma,estão destruindo tudo que nós conquistamos.Do jeito que a coisa estão indo,o Brasil vai ter muitas crises por causa da quadriha que se instalou no governo.Não tem dinheiro para nada.Gastaram tudo,compraram votos,tudo para eleger uma ex-terrorista.Ganhou!Mas não foi fácil.Mesmo com dinheiro Lula não conseguiu levar a vitória no primeiro turno.E a oposição recebeu quase 44 milhões de votos.Espero que essa oposição lute e que não faça nenhum acordo com essa corja.Eles não são de confiança,são falsos e invejosos.Dilma não fala da herança maldita que recebeu de Lula.E não adianta jornalistas petralhas quererem dizer que Dilma não tem culpa da gastança.Tem sim!Tudo que foi feito foi para eleger o poste.Ela sabia de tudo…É isso mesmo FHC!Devemos gritar pela liberdade!Democracia e liberdade sempre.Lula,Dilma e cambada nada falam…
RINALDO
-07/03/2011 às 14:02
Augusto, muitos já falaram isso, vou repetir, o Serra não é hoje presidente porque escondeu FHC.
Foi seu maior erro. Que pena!
RINALDO
-07/03/2011 às 13:53
O Lulla é invejoso, vamos ter que ler o dele tambêm.
Semperdestro
-07/03/2011 às 12:32
FHC, sempre lúcido e democrático. Mas para os petistas, qualquer maluco que “peite” os norte-amercanos é um aliado, um “amigo e irmão”.
Kátia Bacana Bahia de Oliveira
-06/03/2011 às 23:57
Como não morrer de inveja de um Homem que escreve coisas assim, hein lula da silva?
francisco penin
-06/03/2011 às 22:43
Corrijo: deve doer,e não dever doer.
francisco penin
-06/03/2011 às 22:36
Augusto,
Inveja: do latim invidia,nada mais é que desgosto, desconforto,pesar,ódio ou extrema inquietação pelo sucesso ,pelo bem ou pela felicidade de outrem (leia-se FHC). Pois bem, a petralhada e seu chefe, El troglô,morrem de raiva todo dia um pouquinho, principalmente quando leem um texto desses, escrito com maestria e objetividade. Augusto, isso dever doer “pra dedéu”, no fundo do peito.FHC não precisava escrever tanto. Quero citar um texto do artigo que é a síntese de tudo. Por favor,levantemo-nos:”Não vejo como alguém possa se imaginar “de esquerda” ou “progressista” calando no momento em que se deve gritar pela liberdade”.Sentemo-nos,por favor. Como castigo por não querer estudar, Lula deveria ler, em voz alta, o artigo de FHC. E repetir 100 vezes, até aprender.
Mauro Pereira
-06/03/2011 às 21:28
Caro Augusto,é sempre um privilégio a oportunidade de aprender lições memoráveis de equilíbrio político e devoção à democracia, nas aulas do presidente Fernando Henrique Cardoso. É uma honra compartilhar a cidadania brasileira como ele.
“Há silêncios que falam, murmuram, contra a opressão. Mas há também silêncios que não falam porque estão comprometidos com uma visão que aceita a opressão. Não vejo como alguém se possa imaginar “de esquerda” ou “progressista” calando no momento em que se deve gritar pela liberdade”.
E o apedeuta ganhou duzentinhos para entreter uns empresários coreanos entediados. Fazer o quê!
ALAERCIO FLOR
-06/03/2011 às 19:41
FHC não esqueceu tudo que escreveu…Ele ao ser presidente viu que o poder político se opõe ao poder da escrita,principalmente de um sociólogo mais inteligente do que vaidoso,que deu o Brasil um plano Real, que colocou o economia nos trilhos.Isso o povo não pode esquecer…
Naná
-06/03/2011 às 18:34
12 de Março de 2011 – Um milhão de pessoas na Avenida Paulista pela demissão de toda a classe política
Amigos, recebi esse e-mail da Resiliência Cidadã. Espero que se concretize dentro do respeito à vida. Leia a proposta de iniciativa brilhante. Espero não estar sonhando. Vamos tomar alguma atitude. Queremos nosso Brasil de volta! Quem paga imposto sabe
que , temos que cortar algumas despesas em casa para dar aos vagabundos, até procurar escolas mais baratas sem nenhuma qualidade para nossos filhos, entre outras necessidades, temos que abdicar do essencial….Movcc/Gabriela
http://movimentoordemvigilia.blogspot.com/