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23/08/2010

às 22:26 \ Feira Livre

“Seu nome”, poema de Fabrício Corsaletti

Em homenagem à leitora Liz, a coluna publica o poema Seu nome, de Fabrício Corsaletti.

.
“se eu tivesse um bar ele teria o seu nome
se eu tivesse um barco ele teria o seu nome
se eu comprasse uma égua daria a ela o seu nome
minha cadela imaginária tem o seu nome
se eu enlouquecer passarei as tardes repetindo o seu nome
se eu morrer velhinho, no suspiro final balbuciarei o seu nome
se eu for assassinado com a boca cheia de sangue gritarei o seu nome
se encontrarem meu corpo boiando no mar no meu bolso haverá um bilhete com o seu nome
se eu me suicidar ao puxar o gatilho pensarei no seu nome
a primeira garota que beijei tinha o seu nome
na sétima série eu tinha duas amigas com o seu nome
antes de você tive três namoradas com o seu nome
na rua há mulheres que parecem ter o seu nome
na locadora que frequento tem uma moça com o seu nome
às vezes as nuvens quase formam o seu nome
olhando as estrelas é sempre possível desenhar o seu nome
o último verso do famoso poema de Éluard poderia muito bem ser o seu nome
Apollinaire escreveu poemas a Lou porque na loucura da guerra não conseguia lembrar o seu nome
não entendo por que Chico Buarque não compôs uma música para o seu nome
se eu fosse um travesti usaria o seu nome
se um dia eu mudar de sexo adotarei o seu nome
minha mãe me contou que se eu tivesse nascido menina teria o seu nome
se eu tiver uma filha ela terá o seu nome
minha senha do e-mail já foi o seu nome
minha senha do banco é uma variação do seu nome
tenho pena dos seus filhos porque em geral dizem “mãe” em vez do seu nome
tenho pena dos seus pais porque em geral dizem “filha” em vez do seu nome
tenho muita pena dos seus ex-maridos porque associam o termo ex-mulher ao seu nome
tenho inveja do oficial de registro que datilografou pela primeira vez o seu nome
quando fico bêbado falo muito o seu nome
quando estou sóbrio me controlo para não falar demais o seu nome
é difícil falar de você sem mencionar o seu nome
uma vez sonhei que tudo no mundo tinha o seu nome
coelho tinha o seu nome
xícara tinha o seu nome
teleférico tinha o seu nome
no índice onomástico da minha biografia haverá milhares de ocorrências do seu nome
na foto de Korda para onde olha o Che senão para o infinito do seu nome?
algumas professoras da USP seriam menos amargas se tivessem o seu nome
detesto trabalho porque me impede de me concentrar no seu nome
cabala é uma palavra linda, mas não chega aos pés do seu nome
no cabo da minha bengala gravarei o seu nome
não posso ser niilista enquanto existir o seu nome
não posso ser anarquista se isso implicar a degradação do seu nome
não posso ser comunista se tiver que compartilhar o seu nome
não posso ser fascista se não quero impor a outros o seu nome
não posso ser capitalista se não desejo nada além do seu nome
quando saí da casa dos meus pais fui atrás do seu nome
morei três anos num bairro que tinha o seu nome
espero nunca deixar de te amar para não esquecer o seu nome
espero que você nunca me deixe para eu não ser obrigado a esquecer o seu nome
espero nunca te odiar para não ter que odiar o seu nome
espero que você nunca me odeie para eu não ficar arrasado ao ouvir o seu nome
a literatura não me interessa tanto quanto o seu nome
quando a poesia é boa é como o seu nome
quando a poesia é ruim tem algo do seu nome
estou cansado da vida, mas isso não tem nada a ver com o seu nome
estou escrevendo o quinquagésimo oitavo verso sobre o seu nome
talvez eu não seja um poeta a altura do seu nome
por via das dúvidas vou acabar o poema sem dizer explicitamente o seu nome”

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13 Comentários

  1. Carolinne Phinheiros

    -

    18/11/2013 às 21:37

    Incrível a forma como este poema foi inscrito. Fabrício Corsaletti conseguiu juntar tudo de uma forma simples, mas magnifica, estou encantada com o poema. Meus parabéns!

  2. cranety

    -

    15/07/2012 às 12:13

    legal

  3. Valentina de Botas

    -

    07/03/2012 às 19:06

    Adorei, Augusto. Confesso que não conhecia o autor nem o poema. Não esquecerei. Uma brincadeira encantadora. O poeta se comporta como um trovador a serviço do nome da amada, mais do que a ela própria. A ode ao nome o eleva tanto, que, ao findar-se sem revelá-lo, o torna ainda mais nobre: a dúvida do poeta não é só quanto a ele estar à altura daquele nome, mas quanto a haver alguém que esteja. Proteger da curiosidade alheia um nome tão adorado é resguardá-lo de certa vulgarização, certa profanação. O nome da pessoa que amamos nos soa como música que repetimos, nos momentos íntimos, como um cântico murmurado. Na ausência dela, repetimos seu nome como uma oração à saudade. Mas também queremos anunciá-lo para o mundo inteiro e se, por qualquer motivo, não podemos fazê-lo e não temos o talento de um Fabrício Corsaletti, a saída é cuidar desse nome querido como cultivamos um segredo precioso: guardando-o nos olhos. Um beijo, Valentina.

    Um beijo, Valentina

  4. Eleitor

    -

    04/09/2010 às 22:10

    Espetacular Fabrício Corsaletti. Só o amor faz brotar coisas simples e com tanta intensidade. Obrigado Augusto por poder gastar meu tempo tão bem. Permitam-me, os dois, enviar o poema para minhas amigas, citando claro o autor e o blog que o publicou.

    À vontade, amigo. Use como quiser o que sair por aqui. É uma honra. abração

  5. Mariana Tavares

    -

    29/08/2010 às 22:10

    Sou a maior fã do Fabrício. Encontrá-lo na Feira Livre iluminou o meu domingo.

  6. Deolho

    -

    25/08/2010 às 23:53

    À você, Augusto, obrigado pela divulgação; ao Fabricio, pela inteligência. Valeu! O Brasil anda precisando disto!!!

  7. Vera

    -

    25/08/2010 às 22:05

    Fabrício, sua poesia me fez lembrar de um nome, de alguém, que foi muito importante em minha vida. O nome dele soa como música e mesmo tão distante não dá para não ficar emocionada. Valeu!

  8. mario

    -

    25/08/2010 às 12:40

    Como dizia Oscar Wilde, “toda poesia ruim é sincera”. Parabéns!

  9. f tavares

    -

    24/08/2010 às 20:18

    o fabrício é dos muito bons…

  10. Liz Cintra

    -

    24/08/2010 às 19:35

    Acreditando que a Liz homenageada seja eu, me permiti ficar um tanto orgulhosa com o carinho. O poema, que eu não conhecia, agora está escrito em papel, que é para materializar a alegria de ser lembrada de forma tão especial. Ler sua coluna e poder compartilhar minha opinião é um grande privilégio. Muito obrigada…

    Quem agradece sou eu, Liz.

  11. f tavares

    -

    24/08/2010 às 18:17

    ô fabrício, depois de cinquenta e oito versos e mais dois, e nada de nome ? se for paixão que seja esperança, se for amor, que seja vitória, mas sempre é bom ter nome pra não confundir, quando atender o telefone…

    Mas o Fabricio é dos bons, hein, grande FP?

  12. Rosângela

    -

    24/08/2010 às 0:51

    Liz conseguiu encontrar um nome sem chave interpretado por FC e o mistério se completa nessa rima completa. O nome não significaria nada perante o seu criador. A criatura continua apesar dele. Achei um significado impar e bem feito para que se queira desvendar apenas um nome. Abraços.

  13. Nina

    -

    23/08/2010 às 22:34

    Que paixão avassaladora! Quando se ama o nome do amado(a) vira poema.

 

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