23/02/2012
às 14:27 \ Feira Livre‘Privatizar? Não pense’, de Cristiane Alkmin J. Schmidt
PUBLICADO NO GLOBO DESTA QUINTA-FEIRA
Cristiane Alkmin J. Schmidt
Quando se lê “não pense em um elefante”, qual é a primeira figura que lhe vem à mente? Um elefante, certo? Foi assim que George Lakoff intitulou seu livro, um best-seller, para mostrar quão bons são os republicanos na formação de enquadramentos (ou frames) e como este conhecimento lhes possibilita mobilizar os eleitores americanos. Essa é a razão do título deste texto. Pensar nas privatizações deve ser prioridade. O que dizer, então, sobre frames, as recentes concessões e o novo posicionamento do PT?
Enquadrar situações é uma arte. E esta foi usada ardilosamente pelo PT no passado para demonstrar aos seus eleitores quão supostamente impatriotas eram aqueles que argumentavam em prol das privatizações. E indubitavelmente esse foi um dos pilares ideológicos mais importantes do PT nas duas últimas disputas presidenciais.
Não só Lula colocou junto às cordas seu desafiante Geraldo Alkmin com o tema em 2006, como Dilma fez o mesmo com José Serra 4 anos depois. Só que neste caso, ainda que nos debates ela não tenha reconhecido os excelentes resultados das privatizações e tenha desmerecido os ganhos em deixar para o setor público o que de fato lhe compete, ela privatizou.
O frame para vencer as eleições foi tão bem articulado que o PT se elegeu novamente. O PSDB, por outro lado, ao se esquivar do debate, perdeu a oportunidade de convencer os eleitores sobre os benefícios que uma privatização bem feita lhes poderia trazer. A armadilha de não identificar o frame pelos progressistas, que Lakoff comenta, ocorreu aos tucanos. Uma pena para os eleitores, que poderiam ter feito um melhor discernimento sobre o tema.
E isto, mesmo com evidências ao seu favor, pois os benefícios sociais trazidos pela privatização acompanham o dia a dia do brasileiro. Quem não tem um telefone celular, por exemplo? A inclusão social associada aos serviços de comunicação foi expressiva.
Quintino Severo, secretário-geral da CUT e filiado ao PT, parece indignado e disse que “o partido e o governo terão que explicar à sociedade por que eram contra a privatização” (“Valor”, 07/02, pág. A10). Álvaro Dias, líder do PSDB no Senado, diz que o PT cometeu um “estelionato eleitoral” e “que deve desculpar-se com a sociedade” (O GLOBO, 08/02, pág. 22). É fato que, se há não petistas orgulhosos de Dilma, muitos petistas devem estar se sentindo enganados.
Independentemente, pois, de brigas partidárias, agora, com uma suposta convergência de pensamentos, seja por ideologia ou por necessidade, o que deve ser discutido com seriedade é de que forma as futuras privatizações devem ocorrer, que tipos de leilões devem ser feitos e como devem ser os procedimentos.
Para evitar erros futuros, assim, seria bom compreender questões tais como: por que empresas de peso do setor aéreo, como a Fraport, não venceram as concessões?; como uma empresa endividada, a Triunfo, arrematou Viracopos, pagando um ágio de 160%?; por que 60% das obras e 80% dos equipamentos serão financiados pelo BNDES, ou seja, por impostos dos brasileiros?; e qual a razão de o ágio total ter sido tão elevado (350%)? Deve-se à má avaliação do setor público ou à certeza do setor privado de que os contratos serão renegociados e as tarifas aumentadas, uma vez que os valores pagos, em geral, superam a capacidade de geração de caixa?
Estas são apenas algumas das inquietações que precisam ser entendidas. Há que garantir que os grandes beneficiados sejam os consumidores e contribuintes. Por isso urge uma discussão sobre privatizações de cunho mais técnico. Afinal, seguir dando passos na direção correta é o que o Brasil precisa para continuar conquistando a confiança de todos, que inclui a dos próprios brasileiros.
Tags: aeroportos, concessão, Dilma Rousseff, George Lakoff, Lula, privatização, PSDB, PT







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5 Comentários
Leonardo X, na Resistência
-25/02/2012 às 7:16
Eles já perderam a bandeira da honestidade e do probidade administrativa. Numa guinada sensacional do discurso para a prática, o PT patenteou-se como o partido mais corrupto de todos os tempos.
Eles também perderam a bandeira da luta contra a ditadura em favor da democracia. A evidência de que eles são a favor da implantação de um regime totalitário, como o de Cuba, por exemplo, entra pelos olhos de um cego de nascença.
Os papais generosos (com os banqueiros) também perderam a bandeira da estatização da economia, da defesa intransigente do patrimônio público contra a privatização que criminosamente o dilapidaria. “A voz rouca dos palanques”, puxador desse samba-enredo de quinta categoria, que ele intitulou de A Herança Maldita, não consegue levantar as arquibancadas nem levar uma multidão a correr atrás do trio elétrico da PilanTragem.
Eles só não perderam o que se revela, cada vez mais nitidamente, como o mais importante trunfo para que prossigam com o seu projeto político de permanecer no poder “ad eternum”: o PSDB.
Como dizia Trancredo Neves, a escolha do adversário é mais importante do que a escolha de um correligionário. E os adversários que o PSDB escolheu para Lula e Dilma são para PT nenhum botar defeito.
fpenin
-23/02/2012 às 23:39
Não consigo entender mais nada.Quintino Severo, militante do partido que não róba nem deixa robá, não foi avisado de que o que aconteceu foi apenas CONCESSÃO?
Pedro
-23/02/2012 às 17:42
A cúpula petista tem que convencer os idiotas úteis que votam no pt de que concessão e privatização são duas coisas diferentes.
Todo este malabarismo com as palavras me fez lembrar um ditado:
“Todo eleitor do PT é CORNO MANSO: sabe que está sendo traído, mas se conforma.”
Dirceu Inacio
-23/02/2012 às 17:40
O pt não tem nada de ideológico. A turma la, é mesmo
“boquinhológica”. Esta cantilena esquerdista é apenas
argumento para enganar a torcida. É um pega ratão.
Ser contra as privatizações, era apenas discurso.
Agora a coisa mudou, deram outro nome ao negócio e
passaram a vender como coisa boa.
A militancia petista, tem a vantagem de repetir tu-
do que a cacicaria do partido deseja.
A oposição vive assustada com o vozerio petista.
Deveria era ter tambem um coro bem ensaiado, para
cantar as misérias petistas, que são muitas.
Sem uma boa gritaria, jamais serão governo outra vez.
fernando pawlow
-23/02/2012 às 15:13
Bravo Augusto,sempre me pareceu que estatismo x privatismo é falso dilema:quando um povo é respeitado,tanto faz quem é o acionista das empresas.Aqui privatizar(embora necessario ,muito necessario)de nada adiantará,pois fatalmente os oligopólios que se formarão invalidarão o caráter de sanitização da iniciativa,e a exemplo de outras privatizações,que parecem feitas sob medida para desmoralizar a idéia daprivatização,esta também causará frustração a quem espera milagres advindos da privatização.As agencias pouco fazem para proteger os usuários de serviços,esta é a verdade,e a classe política nada faz para que as agencias cumpram sua tarefa,e nada fará se a massa não se tornar povo(novamente minha birra com a lei da Ficha Limpa,que impedirá tal maturação da coletividade).Saudações do Pawlow