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24/01/2011

às 16:43 \ Feira Livre

Objetos voadores quase identificados

Bruno Abbud

Segunda-feira, 23 de junho de 1969. Passava da meia-noite, chovia fino e ventava fraco quando Dayse Arantes Carneiro, 42 anos, dona-de-casa e ex-datilógrafa, chamou a atenção do filho para um ponto que brilhava no céu sem estrelas do centro-norte de Minas Gerais – mais precisamente entre as cidades de Guaraciama e Bocaiúva, a cerca de 400 quilômetros de Belo Horizonte. A bordo de uma caminhonete Rural Willys, a 40 km/h, Dayse notou um objeto flutuando sobre as árvores, a 500 metros de distância, no pé do morro. “Era algo semelhante a uma fogueira”, relatou na época. “Ou a um edifício redondo com as janelas iluminadas à noite”. No dia seguinte, a dona-de-casa acordou com os olhos inchados e doloridos. Caminhou até o espelho e percebeu que estavam opacos. A sensação desapareceu depois de alguns dias. Nunca sentira algo parecido.Um mês e meio depois, Dayse relatou o caso para um funcionário do Sistema de Investigação dos Objetos Aéreos Não Identificados (Sioani), órgão da Aeronáutica criado em abril de 1969 e extinto três anos depois pelo governo Médici. O rapaz analisou as características físicas e psíquicas da depoente – considerada sã – e preencheu um relatório de 22 páginas, arquivado sob uma sigla de informação classificada das Forças Armadas. Hoje, o documento está entre as quase 5.000 páginas abrigadas no Arquivo Nacional, em Brasília, disponíveis ao público, que detalham aparições de objetos voadores não-identificados, supostos extraterrestres e casos de pessoas “infectadas” por focos de luz registrados no Brasil de 1952 a 2009. É possível acessar boa parte do material pela internet.

Idealizado pelo major-brigadeiro José Vaz da Silva e pelo major-aviador Gilberto Zani de Mello – ambos falecidos – o Sioani reuniu e investigou todos os casos relacionados a Ovnis no Brasil durante os três anos de existência. Por não ser uma atividade prioritária para o governo, o órgão encerrou as atividades. A Aeronáutica explica que não dispõe de equipamentos ou recursos para fazer investigações de OVNIs, por isso se limita a fazer o registro de episódios relatados. Esse registro continua a ser obrigação das Forças Armadas. A Aeronáutica, por exemplo, desenvolveu um questionário padrão que até hoje é preenchido por quem afirma ter presenciado algum fenômeno extraterrestre.

A abertura dos documentos começou em outubro de 2008, depois de insistentes pedidos de ufólogos brasileiros. Contudo, só no fim de 2010, por meio da portaria 551/GC3, o tenente-brigadeiro-do-ar Juniti Saito regulamentou o acesso aos papéis, definindo como seriam recebidos, catalogados e arquivados. Assim como ocorre em todos os países, ufologia e teorias da conspiração também andam de mãos dadas no Brasil. Enquanto a Aeronáutica garante que 100% dos documentos foram liberados, os ufólogos falam em menos de 5%.

“Estimo que 2% ou 3% do total de documentos existentes foram revelados pelo governo”, diz Ademar José Gevaerd, diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores (CBPDV). “Eles liberaram menos de 400 páginas relativas a toda a década de 2000. Eu, sozinho, produzo isso em três meses”. Fernando de Aragão Ramalho, vice-presidente da Entidade Brasileira de Estudos Extraterrestres (EBE-ET), concorda: “Com certeza absoluta as Forças Armadas escondem parte do material”. A dupla afirma que durante anos teve acesso a documentos que não constam do lote disponibilizado pelo governo. A Aeronáutica nega.

“Em cumprimento à determinação do Comando da Aeronáutica, desde agosto de 2010, o Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA), que tem como missão realizar a defesa do território nacional contra todas as formas de ataque aeroespacial, passou a enviar anualmente todos os seus registros sobre avistamentos para o Arquivo Nacional. Todos os registros, sem exceção, estão sendo repassados”, afirmou, em nota, o Centro de Comunicação Social da Aeronáutica.

As divergências entre ufólogos, militares e cientistas são tão antigas quanto a existência de pessoas que afirmam ter visto Ovnis e ETs. Em 27 de junho de 1986, por exemplo, o ufólogo Claudeir Covo e o físico da Universidade de São Paulo (USP) Luiz Carlos Menezes protagonizaram um debate nas páginas do Jornal da Tarde. “É sério, os discos voadores existem, e os ETs estão interessados na Terra”, declarou Covo. Menezes rebateu: “Ah é? Então, por que não descem para um café?”

Uma das primeiras referências da humanidade a discos voadores, segundo os ufólogos, aparece registrada na Bíblia. Em 60 a.C., o profeta Ezequiel parou às margens do Rio Quebar, na Mesopotâmia, e avistou “uma roda dentro de outra roda, toda cheia de olhos, que desceu do céu numa nuvem de fumaça”. Os teólogos atribuem a imagem a “uma visão divina”.

Desde então, o formato de objetos voadores como os descritos por Ezequiel tornaram-se um clássico. No Brasil, o mais célebre deles entrou para a história depois da “Operação Prato” – que deslocou militares da FAB até o Pará para investigar estranhas aparições. Em outubro de 1977, no município de Colares, perto da ilha de Marajó, um misterioso objeto luminoso era visto sempre depois das 19h voando a poucos metros do solo. Nos documentos do Serviço Nacional de Informações (SNI) o caso aparece descrito como um Ovni que emitia um intenso foco de luz na direção das pessoas que, trêmulas, perdiam os sentidos e amanheciam doentes. Wellaide Cecim de Carvalho, na época médica da Unidade Hospitalar de Colares, confidenciou aos agentes do SNI que havia atendido homens e mulheres com pequenos orifícios na pele, paralisia generalizada e queimaduras. Prestes a enviar relatórios à Secretaria Estadual de Saúde, Wellaide preferiu conter-se, com medo de cair no ridículo.

Alfredo De La Ó, padre da cidade, e Ildone Favacho Soeiro, prefeito de Vigias, município vizinho, também declararam ter visto o Ovni: “Um objeto que cruzava o céu em espantosa velocidade, lançando uma luz amarela e em absoluto silêncio”. O SNI enviou uma equipe para fotografar o que a população ribeirinha chamava de “bicho”. Munidos com uma câmera Minolta SRT-101, os oficiais conseguiram registrar a imagem: “uma mancha clara, como uma luz, não permitindo que se faça qualquer conjectura sobre a sua forma”. Entretanto, quando voltaram a Belém, mantiveram-se lacônicos, também com receio de serem ridicularizados pelos colegas. Durante dias, no crepúsculo, os moradores de Colares continuaram a organizar procissões, acender fogueiras e soltar foguetes com o objetivo de espantar o “bicho”. O caso ganhou proporções mundiais e o assunto foi destacado nas capas de vários jornais.

Igualmente emblemático, outro episódio que impressionou ufólogos do mundo inteiro foi “A Noite oficial dos OVNIS no Brasil”, em 19 de maio de 1986: um controlador de tráfego aéreo de São José dos Campos detectou luzes desconhecidas nos céus da região e avisou a FAB. Rapidamente, caças supersônicos foram deslocados para perseguir os Ovnis, sem no entanto localiz’a-los (provavelmente os ETs fugiram depois de constatar a potência do arsenal bélico nacional sobre asas).

No entanto, o caso Roswell brasileiro aconteceu em Varginha, meio século depois do mais famoso episódio extraterrestre da história dos Estados Unidos. Enquanto os ufólogos americanos acusam o governo de ter apreendido artefatos e corpos de alienígenas, capturados depois da queda de um disco voador no Novo México, em 1947, os brasileiros acreditam que o ET mineiro (por adoção, é bom ressaltar) só parou de visitar a região depois de ter sido aprisionado pelo Exército em 20 de janeiro de 1996.

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19 Comentários

  1. Luciana Guedes

    -

    21/02/2011 às 12:24

    Meus pais já viram um ovni, no interior de Minas, á noite, quando da janela de casa observavam a rua. Descreveram como um objeto redondo, como uma “peneira”, cheio de luzinhas piscando, voando baixo e lentamente. Eles são pessoas muito simples e OVNIS e ETS não constam da preocupação e da vida deles. Achavam que era coisa “dos americanos”.

  2. Lilian

    -

    28/01/2011 às 14:09

    Bruno, boa tarde!
    Eu ví o vídeo de EDGAR MITCHELL (astronauta U.S.A.)postado pelo Cláudio Pereira – 26/01/2011 às 3:52 é muito bom!
    Assisti também o vídeo exibido pelo History Channel na série Arquivos Extraterrestres, o documentário “O Caso Roswell Brasileiro”. http://www.youtube.com/watch?v=XDzIHk1sA_8
    Eu concordo com a seguinte frase:
    “Você pode não acreditar em um fato, mas tenha respeito”.
    Bruno parabéns pelo post!
    Abraços!

    Obrigado, querida Lilian. Abraços, Bruno Abbud

  3. Ricl

    -

    27/01/2011 às 22:23

    E os que não vão prá Brasília comer pizza,vão prá onde? Pro bairro da luz comprar um pó e ter mais luz?

  4. Eddie Moraes

    -

    27/01/2011 às 20:57

    Claro que eles existem!! Eles desaparecem porque seus discos vão para baixo da terra onde não podem ser encontrados. E os `serzinhos` verdes se travestem de humanos e entram na política!! Principalmente no Brasil. É por isso que os políticos conseguem quase tudo! Eles ET´s que nos dominam!! Rsss

  5. Ricl

    -

    27/01/2011 às 15:32

    Quando se sabe que a estrela mais próxima da Terra está a cerca de 20 anos-luz de distância, fica difícil imaginar alguém com tal vontade de viajar, mesmo com naves que alcancem esta velocidade. E depois só ficar mostrando luzinhas pros nativos!!!

  6. Pedro Guimaraes

    -

    27/01/2011 às 0:58

    Bill Waterson (o autor de Calvin e Haroldo) já dizia: “a maior prova de vida inteligente fora da Terra é que eles nunca quiseram visitar a gente”.

  7. Perseus

    -

    27/01/2011 às 0:19

    Eu ja’ vi disco voador.

  8. Leonardo Borges

    -

    26/01/2011 às 18:33

    Acredito em vida extraterrestre, só não acredito que eles vem pra cá. Na verdade não vejo muita lógica em visitar a Terra. Seria como percorrer 2 mil quilômetros pra comer no Subway.

  9. Luiz

    -

    26/01/2011 às 16:06

    Outro grupo que costuma ver disco voador é o de artistas que têm fama de usar drogas. Rita Lee, por exemplo, assume abertamente que usou drogas e, coincidência?, diz que já viu muitos ovnis.

  10. Luiz

    -

    26/01/2011 às 15:42

    Por que será que a maioria dos ufólogos é de malucos ou de gente que tem cara de maluco?

  11. sexagenário

    -

    26/01/2011 às 13:58

    Se existissem OVNIs, os antigos Gregos teriam calculado a velocidade, a intensidade da luz, o diâmetro, a frequência, etc.

  12. Luiz

    -

    26/01/2011 às 13:29

    ET’s não é o plural de ET nem em português nem em inglês. ET’s, em inglês, significa “pertencente ao ET”.

  13. Carlos RM

    -

    26/01/2011 às 10:19

    Nunca vi uma imagem límpida em lugar algum de um objeto desses. Sempre péssimas imagens, desfocadas, nubladas e que não permitem conclusão alguma. A mim me parece vigarice, empulhação ou fator psicológico superveniente.

  14. Gustavo Henrique

    -

    26/01/2011 às 8:01

    Caro Augusto, você acredita em vida inteligente fora da Terra?

    Olá, caro Gustavo Henrique. O Augusto está em Taquaritinga, volta para moderar este e os outros comentários à noite. Abraços, Bruno Abbud

  15. Cláudio Pereira

    -

    26/01/2011 às 3:52

    AOS INCRÉDULOS ASSISTAM AQUI:

    http://www.youtube.com/watch?v=e8f3W03xOLU&feature=autofb

    .
    NÃO É UM ORELHUDO FALANDO NÃO…

    .
    ABRAÇOS A TODOS AE!

  16. Oiram

    -

    25/01/2011 às 22:16

    Nenhum ufólogo estrangeiro desses que a gente vê nos programas do History ou brasileiro me passa um mínimo de credibilidade. Milhôes de avistamentos e casos e sempre o exército chega antes e leva as provas, isso é impossível. Viagens estelares só nas cabeças dessas pessoas que no fundo só querem ser notícia.

  17. f tavares, na oposição.

    -

    25/01/2011 às 19:53

    em algumas cidades, quando o noticiário nem lembra mais que elas existem, sempre aparece um disco voador, um chupa-cabras ou uma imagem de santa que chora lágrimas de sangue… é pra dar um fôlego praquela pensão tradicional, um faturamento extra pro bar que vende o melhor sanduiche misto do brasil, o X-tudo+egg, uma audiência adicional, pra alegria da rádio daquele ex-político que ainda tem prestígio e não divulga sua opinião, pra não correr risco eleitoral. os fenômenos são discutidos em nível nacional por uns dias, mas passam, como epidemia de conjuntivite (et pour cause…)…

  18. Tostão

    -

    25/01/2011 às 17:39

    Desde que o Cruzeiro fotografou como OVNI uma tampa de chapa de fogão de lenha, a coisa ficou desmoralizada. E isto foi há mais de cinquenta anos, meu velho!

  19. Macrix

    -

    25/01/2011 às 16:00

    ora! faça-me o favor!
    Como disse o físico Menezes: “Ah é? Então, por que não descem para um café?”. Ou como dizem os adolescentes “fala sério!?!”

 

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