22/02/2012
às 15:47 \ Feira Livre‘O sentido de uma sentença’
EDITORIAL PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUARTA-FEIRA
Saiu há pouco a primeira sentença judicial que expõe a falsidade da principal ─ e quase única – alegação utilizada pelos cabeças do mensalão, para negar que tenha existido o esquema petista de suborno de parlamentares federais para servir ao governo do presidente Lula, então no primeiro mandato: tratava-se de uma “conspiração” para armar o impeachment de Lula. Revelada em 2005, a compra de votos na Câmara dos Deputados levou a Procuradoria-Geral da República a pedir ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de processo contra 40 envolvidos no escândalo ─ o mais escabroso da história recente da política nacional. O STF, que acolheu a denúncia em 2007, poderá julgar este ano os 36 réus remanescentes.
Na semana passada, o juiz substituto da 11.ª Vara Federal de Belo Horizonte, Henrique Gouveia da Cunha, condenou o publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza, apontado como operador do mensalão, a 9 anos e 8 meses de prisão por crimes de sonegação fiscal e falsificação de documentos públicos. Ele e dois sócios haviam sido acusados de omitir receitas e passar informações falsas ao Fisco. A maioria dos vultosos valores sonegados foram justificados como empréstimos ao PT para serem distribuídos a integrantes da base aliada na Câmara. Segundo a acusação, os empréstimos é que nunca existiram: foram simulados para encobrir o desvio de recursos públicos, sob a forma de contratos publicitários firmados pela administração federal com a SMP&B, empresa de Marcos Valério, para a compra de políticos.
No processo do mensalão, ele responde por formação de quadrilha, falsidade ideológica, corrupção passiva e ativa, peculato, lavagem de dinheiro, delito de gestão fraudulenta de instituição financeira e evasão de divisas. Em valores atualizados até 2007, a sonegação montava a R$ 90 milhões. Quando o mensalão veio a público, o criativo publicitário tentou se antecipar à devassa que a Receita Federal inevitavelmente faria na sua empresa, retificando as declarações manipuladas. A manobra teve efeito bumerangue. “A retificação”, concluiu o juiz Gouveia da Cunha, “constitui confissão das fraudes anteriormente encetadas para se lograr a sonegação.” Dez ações contra Valério correm na Justiça Federal de Minas Gerais.
Em dezembro passado, ele passou 10 dias preso na Bahia, sob a acusação de falsificar matrículas de propriedades no município de São Desidério. O golpe tem ligação com uma suposta dívida do grupo de Valério com o Banco Rural, no valor de R$ 38,4 milhões. O débito, ao que tudo indica, é tão fictício quanto os empréstimos da SMP&B ao PT. Como esses, também foi fabricado para acobertar o repasse de dinheiro público a deputados federais, por intermédio do partido do presidente da República. Como se recorda, ao vir à tona o mensalão apanhou Lula desprevenido. Depois de alegar, apesar das evidências, que nunca teve conhecimento da baixaria, declarou-se “traído”, sem nomear os traidores, e chegou a pedir desculpas ao País.
Mais adiante, porém, afirmou que a dinheirama se destinava ao caixa 2 do partido. “O que o PT fez do ponto de vista eleitoral é o que é feito no Brasil sistematicamente por outros partidos”, disse, numa entrevista tristemente memorável. Por fim, brandiu a confortável teoria de que o escândalo tinha sido confeccionado numa “conspiração das elites” para removê-lo do poder. Essa fabulação é sustentada, entre outros, pelo principal de seus companheiros à espera de julgamento no STF, o ex-ministro e “capitão do time” do Planalto, deputado cassado José Dirceu, que figura nos autos como “chefe da quadrilha” do mensalão.
É bem verdade que o PT não inventou o mensalão – apenas aplicou no atacado o que Valério fizera no varejo em Minas, em 1998, para beneficiar o governador tucano (e fracassado candidato à reeleição) Eduardo Azeredo. No ano passado, a Justiça Estadual o condenou a 6 anos de prisão. Assim como no caso da decisão da alçada federal, ele tem assegurado o direito de recorrer em liberdade. O que não se entende é a demora do Supremo Tribunal em marcar a data do acerto de contas dos mensaleiros com os delitos de que são acusados. Daqui a pouco, no dia 7 de junho próximo, a revelação do escândalo completará sete anos.
Tags: editorial, Estadão, Lula, Marcos Valério, mensalão, SMP&B, STF







Urbanização precária compromete a qualidade de vida nas cidades brasileiras
Maratona diária para quem usa cadeira de rodas
Mortalidade materna caiu 21% em 2011, diz ministério
Dilma apresenta vetos ao Código Florestal a parlamentares












Deixe o seu comentário
Aprovamos comentários em que o leitor expressa suas opiniões. Comentários que contenham termos vulgares e palavrões, ofensas, dados pessoais (e-mail, telefone, RG etc.) e links externos, ou que sejam ininteligíveis, serão excluídos. Erros de português não impedirão a publicação de um comentário.
» Conheça as regras para a aprovação de comentários no site de VEJA
10 Comentários
Tuco
-23/02/2012 às 16:26
.
Continuo afirmando que o
Mensalão não vai dar em nada.
Talvez uma rebarba pra um
peixinho, sei lá.
O que causa espanto é que se
um pobre-diabo furta um pneu
vai logo preso e faz périplos
pelas penitenciárias do Estado.
Essa gentalha pinta e borda e
a tal presunção de inocência não
termina nunca!
.
Levi
-22/02/2012 às 23:23
O mensalão continua funcionando normalmente e agora dentro do STF. Se alguém for condenado eu invado um pedaço de terra no Paraguai e viro brasiguaio!
Spitfire
-22/02/2012 às 23:11
Caro Augusto, O Marcos Valério está vendo agora em que fria se meteu! Associar-se à lulla e ao PT é a pior viagem que se pode fazer. São gente sem escrupulos, da pior laia, corruptos, mentirosos, falsificadores de dossiês, a começar por lulla. A podridão é tanta que fede em qualquer assunto de governo que se apresente. Até assassinatos aparecem no rastro deixado por esse governo criminoso, certamente o mais corruptos e criminoso que já passou pelo Brasil. Dilma não fica atrás!
Siará Grande
-22/02/2012 às 20:00
Quantos dias o carequinha do PT vai passar no xilindró desta vez? Aposto com quem quiser, ze-r-o-ró. Afinal, o Marcus Vallérius é um homem incomum, para elle a lei não vale.
Tuco
-22/02/2012 às 18:35
.
Mais eficaz seriam Sentenças
vindas de cima para baixo…
Esperamos que a ordem dos
fatores não altere o produto.
.
Petista arrependido
-22/02/2012 às 17:33
Augusto,
Se o Supremo não enquadrar essa quadrilha,ficará sob suspeita de corporativismo.
Será?
Aguardemos!
Carlos
-22/02/2012 às 16:48
Lula, Ze Dirceu, Delubio, Berzoini, Genoino etc… estes quadrilheiros ficarãso soltos ou o Supremo vai criar vergonha na cara e esquecendo que foram alçados a Suprema corte pela via politica e portanto não precisam absolver o chefe e seus cupichas.
Isto tudo é uma vergonha
Homo Anômallus
-22/02/2012 às 16:19
Feliz ano Velho!
Surfando na marola do mesalão, Gilmar Mendes concedeu liminar garantindo salários aos ratos de toga do DF. Noves fora a destipificação de Palocci,mais o HC para o Velho estuprador, agora libânes, os dentes amarelecidos do STF institucionalizaram a presunção da impunidade.Decisões contra majoritárias sempre serão exceções de regra! Ainda q Gilmar Mendes tente transformar exceção de regra em regra de exceção.
Estado democrárico e de direito de koo é hola! By Tio Rei!
Valeu!
M@atheus
-22/02/2012 às 16:14
Se entende sim, deixar prescrever, e assim deixar os bandidos livres, leves, e soltos, para roubar + ainda…
Dirceu Inacio
-22/02/2012 às 16:11
São tantas as condenações, uma a cada seis meses.
Então vem a pergunta irrespondível. Quando é que esse
Marcos Valério vai para a cadeia, cumprir todas estas
penas? Do jeito que esta, parece que tudo é brincadeira.