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04/05/2012

às 16:17 \ Feira Livre

‘As chances de ser uma CPI verdadeira’

EDITORIAL PUBLICADO NO GLOBO DESTA SEXTA-FEIRA

Consideradas um instrumento da minoria, as comissões parlamentares de inquérito, demonstra a já longa experiência brasileira no ramo, costumam ser instaladas sob controle cerrado da maioria. Se as rédeas palacianas serão sempre firmes, vai depender das revelações. Munição de alto poder de destruição na luta político-partidária, CPI tanto pode dar contribuições efetivas a aperfeiçoamentos para evitar os problemas que justificaram sua criação, como corre o risco de nada fazer, paralisada pelos interesses do governo.

A CPI do Cachoeira, cujo plano de trabalho para os 180 dias de funcionamento foi apresentado quarta-feira, precisará esquivar-se de muitos interesses para poder de fato ser uma radiografia fiel, e identificar os respectivos responsáveis, do avanço do grupo do bicheiro Carlinhos Cachoeira em delinquências de colarinho branco para muito além das fronteiras do estado de Goiás. O crucial é que a comissão aproveite o vasto material levantado por operações da PF em torno do grupo do Cachoeira, para mapear a infiltração do crime organizado nos poderes da República. A CPI precisa aproveitar a vantagem de pouco ou nada ter de investigar, pois tudo parece já ter sido levantado.

Ela começa com os interesses de varejo de sempre. Há tentativas de acerto de contas pessoais de políticos com veículos de imprensa, pressões sobre a mídia profissional por motivos ideológicos, brigas políticas regionais, oposição em choque com situação em ano eleitoral etc. O fato de a base parlamentar do governo ser fluída, mudar de consistência em função da agenda do momento, pode ajudar a CPI a ir adiante no levantamento das articulações de Cachoeira, ajudado, entre outros, pelo seu representante VIP em Brasília, o senador Demóstenes Torres, ex-DEM.

O relator da comissão, Odair Cunha (PT-MG), já não conseguiu teleguiar a agenda de trabalho. Se dependesse dele, seria tratada apenas a atuação de Cachoeira no Centro-Oeste. Dessa forma, poderia ficar de fora um tema importante: a forma de a empreiteira Delta, ligada ao bicheiro, agir dentro do PAC, no qual é a maior dona de contratos. Ou era até surgir o escândalo.

A área de atuação do grupo goiano é muito ampla, demonstram os constantes vazamentos de grampos legais feitos pela PF. Tudo gira em torno de negócios de interesse do bicheiro. Há de manobras para a aprovação do jogo à disputa de concorrências públicas, até mesmo com o encaminhamento de demandas junto ao Poder Judiciário e MP. Os subterrâneos financeiros da política parecem estar presentes o tempo todo.

A CPI do Cachoeira reúne ingredientes que a tornam, em potencial, a mais abrangente de todas as já realizadas. A dos Anões jogou luz nos esquemas no Congresso de manipulação do Orçamento; a do PC/Collor serviu para fundamentar o histórico impeachment do atual senador com assento na CPI; e duas outras (Mensalão/Correios) ajudaram a embasar o encaminhamento do processo do mensalão ao STF pelo MP, o maior esquema de corrupção de compra de apoio parlamentar, efetuado pelo PT, de que se tem notícia. Caso a CPI escape da armadilha de ser apenas instrumento de guerra política, há chance de dar grande impulso à faxina na vida pública. A Lei da Ficha Limpa terá sido apenas o início.

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2 Comentários

  1. Santeófilo

    -

    04/05/2012 às 17:40

    Enquanto isso, no palácio enlameado do Planalto…

    Como se fosse um pião enlouquecido, Dilma deu umas dez voltas pela sala presidencial e depois, exausta, se jogou na poltrona. Ela se encontrava tão aflita, mais tão aflita que naqueles breves instantes de desesperado devaneio chegou a pensar com carinho num parapeito do qüinquagésimo quinto andar de um prédio qualquer de Brasília. Em seguida, não satisfeita, lembrando-se do filme “Missão impossível 4”, que fora forçada a assistir com a filha, no final de semana na granja do torto, começou a sonhar com a cidade de Dubai e com os 828 metros do Burj Khalifa, mais precisamente o local em que o personagem de tom Cruise “Ethan Hunt” em dado momento ia despencando.
    Um suor frio e abundante rapidamente encharcou os seus sovacos, desceu pela sua barriga flácida e proeminente e parou na sua acolchoada caçola de algodão egípcio. Suas mãos tremeram de ódio quando ela lembrou da entrada intempestiva e desrespeitosa de Gilberto Carvalho trazendo as ultimas ordens e instruções do ex-presidente sobre o destino da CPI do Cachoeira e dos ajustes na caderneta de poupança. “Cão dos infernos, purque tu não levasse aquele disgraçado”? Ela se lamentou, entre soluços, dando varias cusparadas raivosas na direção da foto de um Lula sorridente dentro de uma luxuosa moldura.
    Claro que ao aceitar ser a candidata a Presidente, Dilma sabia que se ganhasse quem efetivamente ia mandar no governo era Lula. Mas Deus, não daquele jeito, não daquela forma tão acintosa. Tá bom. Ela até concordava que o primeiro ano, exceção feita a ser obrigada pela Veja a demitir os amigos ministros larápios, foi muito legal. Aliás, nesse particular ela era até agradecida a todos os demônios pelo agravamento da doença do ex-presidente. O fato ajudara bastante na sua performance de gerentona e de faxineira. Liberta, aos trancos e barrancos conseguira, sim, dá alguns passos sozinha. “E que dias, que dias”!! Ela exclamou, revirando os olhos ao recordar mais uma vez das manchetes dos jornais (comprados e alugados) enaltecendo a sua bravura em ter botado pra correr a cambada de cabras safados dos ministérios. O brilho repentino dos olhos da Presidente novamente se esvaneceu dando lugar a mesma tristeza profunda dos últimos meses. “Merda, como é qui pode um negoço desse? Eu sô dona do Brasil intêro e aquele miserável não me deixa mandá em nada? Isso num tá certo, isso num tá certo”. Ela resmungou entre furiosa e resignada para em seguida se recompor e no exercício pleno da Presidência chamar à desditado moço do cafezinho e passar-lhe mais uma injusta e terrível carraspana.

  2. João Caetano

    -

    04/05/2012 às 17:34

    Aqui pra nos: só pode ser brincadeira de mau gosto um fajuto salafrário e safado tipo collor participar de uma CPI. Me ajuda ai Datrena.

 

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