05/08/2010
às 12:42 \ Feira LivreA menina que ficou presa numa cela com 26 homens faz 18 anos
Texto publicado na Folha desta quinta-feira

VIDA EM LOOPING
Eliane Trindade
Os dreadlocks no cabelo são só uma nova etapa na vida de L., 18. Foi assim que a garota, que ganhou notoriedade ao ficar presa 26 dias numa cela com 26 homens no Pará, deixou a comunidade terapêutica em que cumpriu 18 meses de medida socioeducativa, a 35 km de Brasília. A maioridade é mais um início numa trajetória vivida em looping constante, plena de manobras e acrobacias -quase sempre na vertical.
A última vez que ela havia deixado os muros e as cercas eletrificadas para trás foi numa fuga no final de 2009. Uma entre tantas escapadas da garota que, há três anos, está no Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte (PPCAAM), da Secretaria de Direitos Humanos, da Presidência da República.
Apesar do sigilo que cerca o programa por questões de segurança, a Folha comprovou que ao longo dos últimos dois anos e meio, a trajetória de L. ficou marcada por fugas, pequenos furtos e episódios de prostituição para bancar o vício em crack. Sempre que escapava, L. vagava pelas cidades-satélites em busca da droga. Assim foi parar numa maloca na cracolândia da Ceilândia.
Na tarde de terça, a “tia” que controla a área, conhecida como Castelinho, baixou a guarda ao ouvir o nome de L. Ela não sabe precisar a data, mas se recorda de que o primeiro contato com a menina “mirradinha e bonitinha” foi no final de 2008. “Aquela ratazana era maior que as outras”, conta ela sobre sua reação diante da garota que se escondia em um dos becos pichados. O espaço de uns cinco metros quadrados, com paredes arrebentadas e lixo espalhado, fica em uma das extremidades da obra abandonada.
Não demorou muito para “noias” e traficantes descobrirem que a desconhecida era a “garota do Pará, aquela que apareceu na televisão”. Era assim que L., contrariando todas as regras do esquema de proteção, apresentava-se à galera do crack. “É por isso que levaram ela para a clínica. Querem ela bem caladinha”, diz a “tia”. Refere-se à Mansão Vida, clínica de reabilitação de luxo em Santo Antônio do Descoberto, a 35 km de Brasília.
A diária varia de R$ 150 a R$ 300. L. fugiu pelo menos três vezes da clínica com piscina, sauna, salão de jogos e cinco refeições por dia. Tomava oito remédios por dia. Mais simples, a comunidade terapêutica, a 10 km da clínica, é confortável, mas sem luxos. Ali, dividia o alojamento com outras 11 dependentes químicas. Não estava só em tratamento, mas cumprindo pena por furto.
Em fevereiro de 2009, a sequência de fugas de L. foi interrompida, quando, então com 17 anos, foi presa na cidade-satélite do Guará. Com uma faca, tentou furtar uma jovem, mas acabou presa. Por determinação da Justiça, L. foi mandada para o Caje (Centro de Atendimento Juvenil Especializado), a unidade de internação para menores infratores do DF. De lá, foi levada para a comunidade terapêutica.
Ao completar a maioridade em 10 de dezembro de 2009, o destino de L. voltou a ser debatido pelas autoridades. Deve trocar o PPCAAM, pelo similar para adultos, o Provita. Um novo recomeço. Quando chegou ao Distrito Federal, ela já era uma dor de cabeça para as autoridades. Ela foi recusada por vários Estados. A fama de que ela havia “tocado o terror” no Rio se espalhou, segundo um profissional que acompanhou a vinda dela para o DF. A primeira estratégia foi a mãe. Não funcionou.
Na saga para definir quem iria ficar com ela, técnicos do governo descobriram que o homem que a registrara como filha não era o pai biológico. Feito um exame de DNA, o pai verdadeiro foi aceito no programa, e L. passou a viver com ele e a madrasta em uma chácara. A menina novamente não se adaptou à vida familiar. Cresceu sem pai nem mãe e não gostava do mato. “Gastaram muito tempo e dinheiro com ela, mas L. não sabe o que fará da vida. Nesses três anos, o que foi construído?”, indaga uma amiga dela.
Tags: Castelinho, cela, Eliane Trindade, homens, menina do Pará, pará, Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte










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10 Comentários
priscilla
-01/11/2010 às 14:33
Camila não disse que “a culpa é da imprensa”. Uma lástima que os meios de comunicação e jornalistas continuem desrespeitando os direitos humanos, expondo uma vítima de forma grosseira e parcial.
luiz antonio - rj
-09/08/2010 às 12:09
Parece que o destino está traçado: engravida, continua dependente do crack, será assassinada ou morrerá com aids, deixará um órfão… enquanto isso ana julia carepa dança o carimbó, mantem o seu harem de vagabundos, contrata suas manicures e massagistas e ainda concorre à reeleição. É o pt no poder!
Leonardo Índio XLV
-06/08/2010 às 17:31
O Haiti é aqui.
Camila
-06/08/2010 às 11:25
Como pode a reportagem descrever todos os lugares, dar nomes e localização, sendo que a adolescente está num programa de proteção?! Ainda que se venha justificar que ela mesma se identifique como a vítima do caso do Pará, reportar isso em um veículo de comunicação é dar escala, por mais que seja fato. Não houve, outra vez, preocupação com a garota, que apesar de todos os crimes que cometeu, continua sendo vitimada. Tomara que, um dia, ela encontre um lugar no mundo.
Quer dizer: a culpa é da imprensa. Certo, Camila? Essa é dose.
Anita
-05/08/2010 às 23:16
E nunca saberá. Tentar superar o terror vivido aos 15 anos é tarefa árdua para quem recebe apoio em tempo integral, como será difícil para uma jovem rejeitada. O ECA lhe aplica medida socioeducativa quando deveria mantê-la sob cuidados psicológicos, além de responsabilizar o estado do Pará por seu representantes coniventes com a barbárie. E ainda Lula vem a público repreender palmada de pais, silenciando sobre abusos de autoridades contra menores.
maria-maria
-05/08/2010 às 22:11
Enquanto esses fatos se desenrolam, a governadora, uma juíza e uma delegada do Pará,criminosas responsáveis pela manutenção de L na cela prostíbulo continuam sua vida devassa sem que tenham de responder por suas ações.
Markito-Pi
-05/08/2010 às 17:55
Enquanto sso, Ana Julia dança carimbó com um de seus namorados.
Julia
-05/08/2010 às 14:06
A violência do descaso e dos desacertos nas rotinas da assistência social do estado, são corriqueiras, como são corriqueiras a gravidez sem responsabilidade e a paternidade sem conseqüências. Não acredito que as pessoas nunca se perguntem da sua real capacidade de gerar vida e criar. Espero que essa menina encontre forças para mudar o seu destino. E não aceite ser tratada como lixo como a prisão que foi submetida. O Lulla diria que isso é uma excessão, nós sabemos que ele menti.
Carlos RM
-05/08/2010 às 13:28
A trajetória da jovem L. parece o script de um filme de terror. Infelizmente parece se aproximar o último looping. Difícil atribuir a culpa a uma só pessoa. Parece estar distribuída entre a família, as autoridades públicas e uma pequena parcela à menina. Não é insensibilidade minha, mas quem flerta com o abismo fica tão próximo que pode ser engolido por ele.
Moacyr
-05/08/2010 às 13:20
Prezado Augusto,
Os paraenses dizem que lá na Índia a vaca é sagrada e no Pará ela governa.