Blogs e Colunistas

Feira Livre

24/05/2012

às 12:56 \ Feira Livre

‘Os bons companheiros’, um artigo de Demétrio Magnoli

PUBLICADO NO GLOBO DESTA QUINTA-FEIRA

DEMÉTRIO MAGNOLI

De “caçador de marajás”, Fernando Collor transfigurou-se em caçador de jornalistas. Na CPI do Cachoeira, seu alvo é Policarpo Jr., da revista “Veja”, a quem acusa de associar-se ao contraventor “para obter informações e lhe prestar favores de toda ordem”. Collor calunia, covardemente protegido pela cápsula da imunidade parlamentar. Os áudios das investigações policiais circulam entre políticos e jornalistas ─ e quase tudo se encontra na internet. Eles atestam que o jornalista não intercambiou favores com Cachoeira. A relação entre os dois era, exclusivamente, de jornalista e fonte ─ algo, aliás, registrado pelo delegado que conduziu as investigações.

Jornalistas obtêm informações de inúmeras fontes, inclusive de criminosos. Seu dever é publicar as notícias verdadeiras de interesse público. Criminosos passam informações ─ verdadeiras ou falsas ─ com a finalidade de atingir inimigos, que muitas vezes também são bandidos. O jornalismo não tem o direito de oferecer nada às fontes, exceto o sigilo, assegurado pela lei. Mas não tem, também, o direito de sonegar ao público notícias relevantes, mesmo se sua divulgação é do interesse circunstancial de uma facção criminosa.

Os áudios em circulação comprovam que Policarpo Jr. seguiu rigorosamente os critérios da ética jornalística. Informações vazadas por fontes diversas, inclusive a quadrilha de Cachoeira, expuseram escândalos reais de corrupção na esfera federal. Dilma Rousseff demitiu ministros com base naquelas notícias, atendendo ao interesse público. A revista na qual trabalha o jornalista foi a primeira a publicar as notícias sobre a associação criminosa entre Demóstenes Torres e a quadrilha de Cachoeira ─ uma prova suplementar de que não havia conluio com a fonte. Quando Collor calunia Policarpo Jr., age sob o impulso da mola da vingança: duas décadas depois da renúncia desonrosa, pretende ferir a imprensa que revelou à sociedade a podridão de seu governo.

A vingança, porém, não é tudo. O senador almeja concluir sua reinvenção política inscrevendo-se no sistema de poder do lulopetismo. Na CPI, opera como porta-voz de José Dirceu, cujo blog difunde a calúnia contra o jornalista. Às vésperas do julgamento do caso do mensalão, o réu principal, definido pelo procurador-geral da República como “chefe da quadrilha”, engaja-se na tentativa de desqualificar a imprensa ─ e, com ela, as informações que o incriminam.

O mensalão, porém, não é tudo. A sujeição da imprensa ao poder político entrou no radar de Lula justamente após a crise que abalou seu primeiro mandato. Franklin Martins foi alçado à chefia do Ministério das Comunicações para articular a criação de uma imprensa chapa-branca e, paralelamente, erguer o edifício do “controle social da mídia”. Contudo, a sucessão representou uma descontinuidade parcial, que se traduziu pelo afastamento de Martins e pela renúncia ao ensaio de cerceamento da imprensa. Dirceu não admitiu a derrota, persistindo numa campanha que encontra eco em correntes do PT e mobiliza jornalistas financiados por empresas estatais. Policarpo Jr. ocupa, no momento, o lugar de alvo casual da artilharia dirigida contra a liberdade de informar.

No jogo da calúnia, um papel instrumental é desempenhado pela revista “Carta Capital”. A publicação noticiou falsamente que Policarpo Jr. teria feito “200 ligações” telefônicas para Cachoeira. Em princípio, nada haveria de errado nisso, pois a ética nas relações de jornalistas com fontes não pode ser medida pela quantidade de contatos. Entretanto, por si mesmo, o número cumpria a função de arar o terreno da suspeita, preparando a etapa do plantio da acusação, a ser realizado pela palavra sem freios de Collor. Os áudios, entretanto, evidenciaram a magnitude da mentira: o jornalista trocou duas, não duzentas, ligações com sua fonte.

A revista não se circunscreveu à mentira factual. Um editorial, assinado por Mino Carta, classificou a suposta “parceria Cachoeira-Policarpo Jr.” como “bandidagem em comum”. Editoriais de Mino Carta formam um capítulo sombrio do jornalismo brasileiro. Nos anos seguintes ao AI-5, o atual diretor de redação de Carta Capital ocupava o cargo de editor de “Veja”, a publicação na qual hoje trabalha o alvo de suas falsas denúncias. Os editoriais com a sua assinatura eram peças de louvação da ditadura militar e da guerra suja conduzida nos calabouços. Um deles, de 4 de fevereiro de 1970, consagrava-se ao elogio da “eficiência” da Operação Bandeirante (Oban), braço paramilitar do aparelho de inteligência e tortura do regime, cuja atuação “tranquilizava o povo”. O material documental está disponível no blog do jornalista Fábio Pannunzio, sob a rubrica “Quem foi quem na ditadura”.

Na “Veja” de então, sob a orientação de Carta, trabalhava o editor de Economia Paulo Henrique Amorim. A cooperação entre os cortesãos do regime militar renovou-se, décadas depois, pela adesão de ambos ao lulismo. Hoje, Amorim faz de seu blog uma caixa de ressonância da calúnia de Carta dirigida a Policarpo Jr. O fato teria apenas relevância jurídica se o blog não fosse financiado por empresas estatais: nos últimos três anos, tais fontes públicas transferiram bem mais de um milhão de reais para a página eletrônica, distribuídos entre a Caixa Econômica Federal (R$ 833 mil), o Banco do Brasil (R$ 147 mil), os Correios (R$ 120 mil) e a Petrobras (que, violando a Lei da Transparência, se recusa a prestar a informação).

Dilma não deu curso à estratégia de ataque à liberdade de imprensa organizada no segundo mandato de Lula. Mas, como se evidencia pelo patrocínio estatal da calúnia contra Policarpo Jr., a presidente não controla as rédeas de seu governo ─ ao menos no que concerne aos interesses vitais de Dirceu. A trama dos bons companheiros revela a existência de um governo paralelo, que ninguém elegeu.

23/05/2012

às 18:02 \ Feira Livre

‘O poder do latifúndio nos domínios do PT’, por José Nêumanne

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUARTA-FEIRA

JOSÉ NÊUMANNE

Petrolina e, como a cidade às margens do São Francisco, Pernambuco inteiro, pela voz de seu governador, Eduardo Campos (do clã Alencar, do Cariri cearense), indignaram-se com as críticas ao ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, por ter destinado 90% de todas as verbas da pasta ao seu Estado. Também a Paraíba mobilizou suas tropas retóricas para atacar qualquer um que lembrasse a circunstância de o novo ministro das Cidades do mesmo governo soi-disant socialista de Dilma Rousseff, Aguinaldo Ribeiro, ser neto de Agnaldo Veloso Borges, vilão histórico da esquerda acusado de ter mandado matar os líderes camponeses João Pedro Teixeira e Margarida Maria Alves. Agora vem o repórter Leonencio Nossa, da sucursal de Brasília deste jornal, lembrar que o dono da empreiteira Delta ─ campeã de obras do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) e citada nas denúncias contra o bicheiro Carlinhos Cachoeira ─, Fernando Cavendish, é bisneto do coronel Veremundo Soares, de Salgueiro.

A Salgueiro do tempo dos coronéis tornou-se lendária pela citação num dos clássicos do repertório de outro sertanejo de Pernambuco, Luiz Gonzaga, em sua homenagem ao pai, o sanfoneiro Januário, do Vale do Araripe: “De Itaboca a Rancharia, de Salgueiro a Bodocó, Januário é o maior”. Hoje em dia, a região notabiliza-se pelo comércio de carros roubados e pelas plantações de Cannabis sativa, que a tornaram uma espécie de capital informal do “perímetro da maconha”. Assim como as plantações de coca florescem nos sovacos dos Andes bolivianos e em outros locais inóspitos, a “erva maldita” cresce e dá bons lucros num território que antes era definido como “polígono das secas” e agora recebe a crua denominação de semiárido. Neste ano, em que ocorre o mais penoso período de estiagem no Nordeste em 30 anos, por mais que incendeie roças da matéria-prima para a droga com a qual os viciados costumam se iniciar, a polícia não dá conta de seu avanço sertão adentro.

A exclusão do nome do bisneto do coronel Veremundo dos convocados a depor na CPI do bicheiro goiano reforça as evidências históricas de que a força inesgotável das oligarquias com poder sediado no sertão representa para a região específica e para todo o Brasil uma praga pior do que o flagelo das secas periódicas e a maconha perene.

Na falta de chuvas deste ano, a situação aflitiva das populações sertanejas é amenizada pela esmola estatal do Bolsa-Família. A famosa bravata de dom Pedro II, que prometeu empenhar o último diamante da coroa imperial para evitar que um cearense morresse de fome, foi assumida pela República assistencialista, que adotou o “neocoronelismo” com cartão magnético e trocou o voto de cabresto pelo sufrágio do guidom. Pois o jegue foi substituído pela moto, financiada a perder de vista, mas também a perder da vida, pois o comprador é dizimado nas rodovias em acidentes fatais e dificilmente sobrevive à própria dívida. No entanto, os animais criados pelas famílias dos camponeses pobres são sacrificados pela inclemência climática e pela insensibilidade do Estado ausente.

O poder do latifúndio no passado foi tema de clássicos da sociologia brasileira, tais como Coronelismo, Enxada e Voto, de Victor Nunes Leal, Coronel, Coronéis ─ Apogeu e Declínio do Coronelismo no Nordeste, de Marcos Vinicios Vilaça e Roberto Cavalcanti de Albuquerque, e Família e Coronelismo no Brasil ─ Uma História de Poder, de André Heráclio do Rêgo. A “inclusão” dos costumes desse mandonismo na República petista tem merecido um estudioso à altura desses citados expoentes da sociologia do latifúndio, o professor Luiz Werneck Vianna, que no artigo As cidades e o sertão, publicado nesta página, esclareceu: “Está aí a mais perfeita tradução da quasímoda articulação, no processo de modernização capitalista do País, entre o moderno e o atraso, ilustração viva do ensaio de José de Souza Martins A Aliança entre Capital e Propriedade da Terra: a Aliança do Atraso (in A Política do Brasil Lúmpen e Místico, São Paulo, Editora Contexto, 2011) e que se vem atualizando por meio da conversão do imenso estoque de capital social, econômico e político do latifúndio tradicional, que se processa no circuito da política e mediante favorecimento da ação estatal, em que seus herdeiros se reciclam para o exercício de papéis modernos. Para quem é renitente em não ver, este é o lado obscuro do nosso presidencialismo de coalizão, via escusa em que os porões da nossa História se maquiam e mudam para continuarem em suas posições de mando”. Ou seja, “ou fingimos que mudamos ou eles mudam contra nós” ─ parafraseando o príncipe de Salina, protagonista do romance O Leopardo.

O maquiavélico conselho do cínico protagonista da obra-prima de Giuseppe Tomasi di Lampedusa ao sobrinho Tancredi traduz a aliança entre os socialistas pragmáticos do PT e os senhores da terra do semiárido. Não se trata de acusar o neto pelos crimes atribuídos ao avô nem de atribuir ao bisavô os deslizes do bisneto, e sim de reconhecer a renitente sobrevivência do semifeudalismo rural sertanejo nos costumes políticos do Brasil contemporâneo. A transposição do Rio São Francisco, anunciada para matar a sede dos sertanejos, não passa de truque retórico para dar cunho social a uma obra faraônica, que custará caro ao contribuinte e entregará a água a quem já tem a terra para irrigar. A estéril discussão sobre os efeitos do clima no semiárido, sem consequências práticas, representa a manutenção do domínio político e econômico dos oligarcas, confirmado por fatos.

Este ano, a prefeitura de Campina Grande, centro universitário de alta tecnologia, será disputada por Daniela, irmã de Aguinaldo Ribeiro e neta de Agnaldo Veloso Borges, por Romero Rodrigues, primo do senador Cássio, parente de Zé Cunha Lima, de Brejo de Areia, e por Tatiana Medeiros, apoiada pelo prefeito Veneziano Vital do Rêgo Segundo, parente do célebre Chico Heráclio do Rego, personagem-síntese do mandonismo no sertão.

22/05/2012

às 14:37 \ Feira Livre

‘Verdade? Que verdade?’, um artigo de Marco Antonio Villa

PUBLICADO NO GLOBO DESTA TERÇA-FEIRA

MARCO ANTONIO VILLA

Foi saudada como um momento histórico a designação dos membros da Comissão da Verdade. Como tudo se movimenta lentamente na presidência de Dilma Rousseff, o fato ocorreu seis meses após a aprovação da lei 12.528. Não há qualquer justificativa para tanta demora. Durante o trâmite da lei o governo poderia ter desenhando, ao menos, o perfil dos membros, o que facilitaria a escolha.

Houve, na verdade, um desencontro com a história. O momento para a criação da comissão deveria ter sido outro: em 1985, quando do restabelecimento da democracia. Naquela oportunidade não somente seria mais fácil a obtenção das informações, como muitos dos personagens envolvidos estavam vivos. Mas ─ por uma armadilha do destino ─ quem assumiu o governo foi José Sarney, sem autoridade moral para julgar o passado, pois tinha sido participante ativo e beneficiário das ações do regime militar.

O tempo foi passando, arquivos foram destruídos e importantes personagens do período morreram. E para contentar um setor do Partido dos Trabalhadores ─ aquele originário do que ficou conhecido como luta armada ─ a presidente resolveu retirar o tema do esquecimento. Buscou o caminho mais fácil ─ o de criar uma comissão ─ do que realizar o que significaria um enorme avanço democrático: a abertura de todos os arquivos oficiais que tratam daqueles anos.

É inexplicável o período de 42 anos para que a comissão investigue as violações dos direitos humanos. Retroagir a 1946 é um enorme equívoco, assim como deveria interromper as investigações em 1985, quando, apesar da vigência formal da legislação autoritária, na prática o país já vivia na democracia ─ basta recordar a legalização dos partidos comunistas. Se a extensão temporal é incompreensível, menos ainda é o prazo de trabalho: dois anos. Como os membros não têm dedicação exclusiva e, até agora, a estrutura disponibilizada para os trabalhos é ínfima, tudo indica que os resultados serão pífios. E, ainda no terreno das estranhezas e sem nenhum corporativismo, é, no mínimo, extravagante que tenha até uma psiquiatra na comissão e não haja lugar para um historiador.

A comissão foi criada para “efetivar o direito à memória e a verdade histórica”. O que é “verdade histórica”? Pior são os sete objetivos da comissão (conforme artigo 3º), ora indefinidos, ora extremamente amplos. Alguns exemplos: como a comissão agirá para que seja prestada assistência às vítimas das violações dos direitos humanos? E como fará para “recomendar a adoção de medidas e políticas públicas para prevenir violação de direitos humanos, assegurar sua não repetição e promover a efetiva reconciliação nacional”? De que forma é possível “assegurar sua não repetição”?

O encaminhamento dado ao tema pelo governo foi desastroso. Reabriu a discussão sobre a lei de anistia, questão que já foi resolvida pelo STF em 2010. A anistia foi fundamental para o processo de transição para a democracia. Com a sua aprovação, em 1979, milhares de brasileiros retornaram ao país, muitos dos quais estavam exilados há 15 anos. Luís Carlos Prestes, Gregório Bezerra, Miguel Arraes, Leonel Brizola, entre os mais conhecidos, voltaram a ter ativa participação política. Foi muito difícil convencer os setores ultraconservadores do regime militar que não admitiam o retorno dos exilados, especialmente de Leonel Brizola, o adversário mais temido ─ o PT era considerado inofensivo e Lula tinha bom relacionamento com o general Golbery do Couto e Silva.

Não é tarefa fácil mexer nas feridas. Há o envolvimento pessoal, famílias que tiveram suas vidas destruídas, viúvas, como disse o deputado Alencar Furtado, em 1977, do “quem sabe ou do talvez”, torturas, desaparecimentos e mortes de dezenas de brasileiros. Mas ─ e não pode ser deixado de lado ─ ocorreram ações por parte dos grupos de luta armada que vitimaram dezenas de brasileiros. Evidentemente que são atos distintos. A repressão governamental ocorreu sob a proteção e a responsabilidade do Estado. Contudo, é possível enquadrar diversos atos daqueles grupos como violação dos direitos humanos e, portanto, incurso na lei 12.528.

O melhor caminho seria romper com a dicotomia ─ recolocada pela criação da comissão ─ repressão versus guerrilheiros ou ação das forças de segurança versus terroristas, dependendo do ponto de vista. É óbvio que a ditadura ─ e por ser justamente uma ditadura ─ se opunha à democracia; mas também é evidente que todos os grupos de luta armada almejavam a ditadura do proletariado (sem que isto justifique a bárbara repressão estatal). Nesta guerra, onde a política foi colocada de lado, o grande derrotado foi o povo brasileiro, que teve de suportar durante anos o regime ditatorial.

A presidente poderia ter agido como uma estadista, seguindo o exemplo do sul-africano Nelson Mandela, que criou a Comissão da Verdade e Reconciliação. Lá, o objetivo foi apresentar publicamente ─ várias sessões foram transmitidas pela televisão ─ os dois campos, os guerrilheiros e as forças do apartheid. Tudo sob a presidência do bispo Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz. E o país pôde virar democraticamente esta triste página da história. Mas no Brasil não temos um Mandela ou um Tutu.

Pelas primeiras declarações dos membros da comissão, continuaremos prisioneiros do extremismo político, congelados no tempo, como se a roda da história tivesse parado em 1970. Não avançaremos nenhum centímetro no processo de construção da democracia brasileira. E a comissão será um rotundo fracasso.

21/05/2012

às 16:21 \ Feira Livre

‘Seca a CPI do Cachoeira’, editorial publicado no Estadão

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTE DOMINGO

Sem, talvez, o grosseiro erro de concordância da mensagem do deputado petista por São Paulo Cândido Vaccarezza ao governador fluminense Sérgio Cabral, pode-se apostar que um certo número de integrantes da CPI do Cachoeira poderia tranquilizar nos mesmos termos qualquer figurão da política ou dos negócios ameaçado de se tornar alvo do inquérito parlamentar das duas Casas do Congresso sobre as relações do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, com agentes públicos e privados.

Em plena sessão do colegiado, na quinta-feira, um cinegrafista flagrou o inadvertido ex-líder do governo na Câmara escrevendo ao peemedebista Cabral no celular: “A relação com o PMDB vai azedar na CPI. Mas não se preocupe, você é nosso e nós somos teu (sic)”.

A convicção de que Vaccarezza está longe de deter, entre os seus pares, o monopólio da proteção a possíveis protagonistas da trama da qual Cachoeira é o pivô ganhou força com as decisões tomadas naquela mesma sessão pelo relator da investigação, deputado Odair Cunha, do PT de Minas Gerais ─ com o apoio tácito ou explícito de setores da oposição ─, secando a CPI.

Como se temia, ele blindou os governadores de Goiás, o tucano Marconi Perillo; o do Distrito Federal, o petista Agnelo Queiroz; e o do Rio, o já citado Cabral, contra tentativas de apurar o envolvimento deles, ou com Cachoeira, ou com o dono da construtora Delta, Fernando Cavendish, de cuja empresa o contraventor seria “sócio oculto”, no dizer do Ministério Público.

Foram igualmente poupados de convocação para depor ou da quebra dos seus sigilos o empresário, a empreiteira sediada no Rio e três deputados da turma de Cachoeira.

Para que não se dissesse que melhor faria a CPI se, para todos os efeitos, desse os trâmites por findos, o relator aprovou 51 convocações e 40 quebras de sigilo fiscal, bancário e telefônico.

Contrariamente ao que o dono da Delta quis fazer crer, os nexos da cúpula da empresa com o bicheiro foram constatados em pelo menos 22 telefonemas interceptados pela Polícia Federal. E o nome de Cavendish aparece em conversas de Cachoeira com o senador Demóstenes Torres, enredado em negócios com as duas pontas da linha.

Sem investigar o empreiteiro, que certa vez proclamou que, “se botar 30 milhões na mão de um político”, seria convidado “pra coisa pra …”, aí sim não se chegará aos eventuais malfeitos do governador do Estado onde a Delta, em cinco anos da gestão Cabral, fechou contratos no valor de R$ 1,49 bilhão.

O que é notório é a proximidade entre ambos, incluindo cenas de esbórnia explícita em Paris. À falta de provas objetivas, sobrevive a palavra de Cabral de que não mistura governo e amizades, não obstante o prestimoso Vaccarezza ter achado necessário acalmá-lo com a lembrança de que ele é “nosso”.

18/05/2012

às 17:25 \ Feira Livre

‘Arreglo na comissão’, editorial da Folha

EDITORIAL PUBLICADO NA FOLHA DE S. PAULO DESTA SEXTA-FEIRA

Governo e oposição ensaiam acordo espúrio que confirma prognósticos de omissão e cumplicidade nos mal iniciados trabalhos da CPI

Já cansou, de tantas vezes repetido, o clichê segundo o qual é comum que as CPIs terminem “em pizza”. Mais raro, entretanto, é que já comecem nesse rumo.

Um acordo em gestação entre a base governista e representantes da oposição prenuncia esse final infeliz para a investigação sobre as relações suspeitas do empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, com políticos.

Os primeiros requerimentos aprovados deixam claro que a estratégia é restringir o inquérito a personagens secundários do escândalo, poupando governadores suspeitos de envolvimento.

Pesa sobre o goiano Marconi Perillo, do PSDB, por exemplo, a denúncia de ter permitido influências indevidas de Cachoeira em sua administração.

Segundo a Polícia Federal, três cheques, totalizando R$ 1,4 milhão, teriam sido entregues no Palácio das Esmeraldas, sede do governo goiano, por emissários de Cachoeira. Resultariam da venda a ele de uma casa de Perillo, tese que o mandatário tucano contesta.

Há mais: grampeados pela PF, personagens ligados a Cachoeira comemoram nomeações de apaniguados no governo goiano. A chefe de gabinete de Perillo, demitida após a eclosão do caso, teve gravadas conversas suas com o empresário; uma delas se referia cripticamente a “um maior” a seu lado durante a ligação.

Para tentar esclarecer tais suspeitas, seria útil quebrar o sigilo telefônico do governador de Goiás. A movimentação nesse sentido teve, contudo, vida curta. Seu colega de partido e senador Álvaro Dias (PSDB-PR) reagiu na CPI: “Se houver deliberação a respeito do Perillo, vamos dar o troco”.

O troco seria requerer a quebra de sigilo de outros dois governadores, estes da base governista: o petista Agnelo Queiroz, do Distrito Federal, e o peemedebista Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, também suspeitos de negociação com o grupo do empresário.

Em conversas grampeadas, assessores de Agnelo Queiroz teriam dito a um aliado de Cachoeira que o “01″ queria falar com ele. Assim como no caso do “maior” goiano, nega-se que “01″ seja uma referência ao governador do DF.

Um esquema de propinas, ainda segundo a investigação da PF, estaria acertado entre o governo de Agnelo Queiroz e a empresa Delta, que faz a coleta de lixo no DF.

Quanto a Sérgio Cabral, os vídeos de suas confraternizações com o dono da Delta, Fernando Cavendish, seriam apenas uma nota ilustrativa do fausto em que se comprazem os governantes, não tivesse a empreiteira tantos contratos com a administração fluminense.

Tais indícios ficarão no forno, em fogo baixo, até segunda ordem. Só a CPI não vê a gravidade deles.

16/05/2012

às 19:29 \ Feira Livre

O prêmio Kluge aprofunda o fosso que separa um estadista do sucessor rancoroso

MAURO PEREIRA

Ao receber do Congresso norte-americano o prêmio Kluge, versão alternativa do Nobel sueco, em reconhecimento à inquestionável obra intelectual e ao notável desempenho como chefe do governo brasileiro, Fernando Henrique Cardoso não só esparge um pouco de luz sobre a embolorada intelectualidade do País do Carnaval como também desagrava a Presidência da República, instituição tão vilipendiada nos últimos nove anos.

Hoje, todos os brasileiros desprovidos de rancores rendem homenagens ao risonho octogenário que mudou a história política e social do Brasil pós-ditadura. A lamentar, apenas a pouca disposição da imprensa para compreender a importância do evento. As publicações que noticiaram o acontecimento não foram além de textos comprometidos pelo espaço acanhado e pelo laconismo. Todos se abstiveram de contar aos leitores o que levou os julgadores a considerarem FHC o maior pensador da América Latina, e a premiá-lo com a soma de um milhão de dólares.

Democrata autêntico, avesso à retórica vazia e oportunista, Fernando Henrique retirou o Brasil da categoria de república terceiromundista para colocá-lo no patamar reservado às grandes nações.  Sábio, ensinou que é possível fortalecer a sociedade sem fragilizar o estado. Hábil, restituiu aos cidadãos o poder de definir os rumos do país.

O sucesso irrefutável de sua administração transformadora fez com que aflorassem sentimentos pouco nobres, como o ciúme e a inveja. Incentivados pela omissão dos companheiros de partido do ex-presidente, adversários políticos afundados em rancores e na miséria ética colocaram em prática uma sórdida campanha cujo único propósito era a desconstrução impiedosa do grande legado administrativo, político e moral deixado pelo governante formidável.

Abandonado por correligionários pusilânimes e injustiçado por grande parte da imprensa, o maior presidente de nossa história travou praticamente sozinho a luta desigual em defesa das grandes conquistas de seu governo. Liderados por Lula, seus algozes tentaram consumar outro linchamento moral com uma violência jamais vista. Bilhões de reais foram torrados na tentativa de apagar da memória política nacional o líder que venceu a hiperinflação que vitimava sobretudo os mais pobres, estabeleceu os fundamentos do equilíbrio macroeconômico ─ preservados até hoje por seus detratores, ressalte-se ─consolidou a democracia e fixou as diretrizes de programas sociais que, expropriados cinicamente pelo PT, desembocaram no Bolsa Família.

FHC saiu mais fortalecido da ofensiva permanentemente alimentada pelo ódio inexplicável do seu sucessor. Aos 80 anos, sereno e extraordinariamente lúcido, a vítima dos ataques virulentos coleciona demonstrações de admiração e respeito oferecidas por brasileiros decentes, pelas plateias das conferências que tem feito no exterior por leitores das obras que se espalham pelas bibliotecas das universidades de dezenas de países.

A conquista do Kluge aprofunda o formidável fosso que separa Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. O confronto das inumeráveis diferenças atesta que FHC, sem nunca ter reivindicado tal status, é o estadista que Lula imagina ser, mas jamais será. O prêmio concedido pela Biblioteca do Congresso norte-americano não deve ser visto como mais um exemplo de que a justiça tarda mas não falha. No caso de FHC, um dos intelectuais mais reverenciados do século 20, a justiça jamais tardou, tampouco falhou. Seus inimigos é que se divorciaram dela.

15/05/2012

às 19:31 \ Feira Livre

Diário da Dilma: Quem foi mordido por cobra até de minhoca tem medo

PUBLICADO NA EDIÇÃO DE MAIO DA REVISTA PIAUÍ

1º DE ABRIL ─ Só agora deu para falar sobre a Índia. Eita lugarzinho longe! Mas gostei daquela confusão. É gente de lá para cá, de cá para lá, levando oferenda para uma deusaiada tão vasta que me deixou até confusa. Comparado àquilo, a Bahia é o berço do monoteísmo.

Agora, tenho de dizer: voltei maravilhada com aquele Taj Mahal. Será que não dá para aproveitar o combo Copa do Mundo + Olimpíadas para erguer alguma coisa parecida lá no Rio? Mandei um SMS para o Serginho Cabral.

Tô cansada dessas piadinhas de Primeiro de Abril. Esse pessoal aqui é muito imaturo…

2 DE ABRIL ─ Cheguei no meu gabinete e topei com o Lula. O espaçoso estava com os pés em cima da mesa, fuçando meus e-mails. Ainda olhou para mim e soltou “Quem vai à feira perde a cadeira”. Quando o homem ficar 100%, sei não.

Serginho encaminhou um orçamento da Delta para construir o Taj Mahal na Barra. Que rapidez, menino. Mas achei caro demais.
3 DE ABRIL ─ Estou com medo que descubram que o Cachoeira já foi crupiê nas nossas partidas de tranca. Se isso vier à tona, ponho a culpa na Ideli, que não sabe contar direito as cartas. Já disse para ela: “Em caso de necessidade, casa a freira com o frade.”

4 DE ABRIL ─ Santa periquita do bigode loiro! Nunca imaginei chegar a 77% de popularidade. O Lula, claro, ligou em seguida e pediu para eu transferir uns pontos percentuais para o Haddad, tadinho.

5 DE ABRIL ─ Que chatice esse negócio de visto para os Estados Unidos. Fiquei hoooooras na fila e ainda tive que comprovar que tenho emprego fixo. Mostrei logo meus índices de popularidade, no guichê, para provar que estou garantida no cargo até 2018. Funcionou. Agora ando com essa pesquisa na carteira, menina.

6 DE ABRIL ─ A verdade é que falei para o Patriota dar um tempo nessas viagens. É uma mão de obra! Manda fazer roupa, marca depilação, pé, mão, sobrancelha, tintura, é um tempo danado. E aproveito pouco. Mal dá para comprar uma coisinha ou outra, sempre correndo para chegar naqueles compromissos com gente de meia-idade que só fala, fala, fala.

Taí uma pergunta pertinente: suco natural pode ser substituído pelo de caixinha?

7 DE ABRIL ─ Queria comprar umas camisas de seda iguais àquelas da Cristiana Lôbo. Ficam tão bem! De um chic

8 DE ABRIL ─ Cheguei em Washington e adotei o conselho da Ideli: vesti um pretinho básico e desci do avião de óculos escuros. Ninguém merece aparecer com olheira e roupa saída da boca do cachorro. Essa Ideli é eficienta demais.

10 DE ABRIL ─ Vou falar uma coisa: esse Obama me paga! Quando ele veio para o Brasil trouxe até a sogra! Tratei todos com a maior delicadeza! Até aula de capoeira eles assistiram. Agora, quando vou lá, não me oferecem nem um prato de comida?! Depois, quando dou uns pitos nele, o pessoal fica dizendo que o meu passado isso, meu passado aquilo… não é nada disso. É sem educação mesmo! Menos mal que o conjuntinho rubro-negro me caiu muito do bem.

Batata! De noite, lá estava a Patricinha Poeta de quê? De quê? Terninho vermelho! Popularidade de 77% é ditar moda, mon chéri.

“Joãozinho do Passo Certo.” De onde eu tirei isso, meu Deus?! Acho que foi o Velho Barreiro que levei para o Obama.

11 DE ABRIL ─ Cruzei com a Hillary. Ela elogiou meu penteado e perguntou quem era meu cabeleireiro. Para ser simpática, disse que pagaria um corte com o Kamura quando ela viesse ao Brasil.

12 DE ABRIL ─ Fecharam o cerco em cima do Cachoeira. Vão descobrir que ele me passou a dama de copas por debaixo da mesa. Esse homem é um Midas ao contrário: se comprar um circo, o anão dispara a crescer.

Uma das coisas que mais me orgulho é ter levado a classe C para as tramas das novelas. Adoro núcleo pobre! Titia ficou apegada a esse Tufão.

O Zé Dirceu está em polvorosa. Toda vez que ouve falar em CPI, fica com mania de perseguição. Mas também não é para menos. Quem foi mordido por cobra até de minhoca tem medo.

13 DE ABRIL ─ Não é que a Hillary vem mesmo? Foi só oferecer um corte grátis! A crise tá braba mesmo. Pedi logo para ela trazer um box com os novos episódios de Mad Men. Ela disse que ainda não saiu em DVD. E para que serve aquele poderzão todo, meu Deus?

14 DE ABRIL ─ O Sarney teve um piripaque e a República se transferiu para a UTI, o que provavelmente encerra alguma lição. Soube que o Temer já conseguiu enfiar três assessores no almoxarifado do Sírio. Cartagena, aqui vou eu!

15 DE ABRIL ─ Ô reuniãozinha besta! Nem eu aguento mais falar de Cuba. A Cristina resolveu dar piti com as Maldivas. Subiu nas tamancas porque ninguém deu bola para ela e foi embora sem se despedir. Grossa que só!

A Hillary é mesmo um amor. Se não fosse ela, eu não tinha com quem puxar assunto.

16 DE ABRIL ─ Sabia que não ia ficar só nisso. Como não conseguiu nacionalizar as Maldivas, a Cristina acabou descontando na Espanha e garfou a Repsol. Já disse para ela várias vezes: esse negócio de dar troco nos colonizadores é tão século XX… Mas vai explicar isso para uma mulher que usa aquela maquiagem. Dizem que dá até problema de coluna. E aquele meninote vice-ministro de olhos azuis? Hum.

O Patriota me lembrou que não é Maldivas, mas Malvinas.

17 DE ABRIL ─ Mamãe anda impossível! Chata, chata, chata!

18 DE ABRIL ─ Tem gente que deve estar morrendo de inveja. Não vou nem dizer o nome… Estou na lista da Time dos 100 mais influentes do mundo! Tem a Gracinha também. E o Eike. Não sei quem está com o cabelo mais feio. Já dei um toque para a Gracinha cortar no ombro, uma coisa mais apropriada para a idade dela. A desculpa é que o marido gosta. Agora, o que é aquele aplique do Eike?! Me explica! Com o dinheiro que ele tem podia conseguir coisa melhor. Bastava se espelhar no Lobão.

19 DE ABRIL ─ Vem Paul McCartney, Bob Dylan, Tom Cruise, Blatter, todo mundo mamar na onça. Agora, a Rio+20, que é coisa séria, vai ficar às moscas. Culpa dos ecochatos do PV. Disse e repito: enquanto o Minc não largar aqueles coletes, o Brasil não avança.

20 DE ABRIL ─ Pedi para a Helena Chagas mandar gravar aquele programa que ensinou a dançar okuduro. Acho sensual e deve fazer perder peso.

21 DE ABRIL ─ Santa Bigudina, o que a gente não descobre numa CPI! Achei um senador que se chama Sérgio Petecão!!! Isso não pode ser sério…

22 DE ABRIL ─ Novela boa essa da Carminha! E a das sete é uma graça! Só gente boa. Aquele Ricardo Tozzi é um gato. A Cláudia Abreu pegou direitinho o jeito da Gaby Amarantos, que eu adoro!

Tomara que o Sarkozy vença. Esse Hollande tem cara de programação da TV Câmara.

23 DE ABRIL ─ Hoje à noite começa a nova temporada de Mad Men. Nem que a imprensa diga que o Cachoeira instalou um ofurô na casa do Zé Dirceu eu me levanto desse sofá.

24 DE ABRIL ─ Esse Don Draper mexeu com o meu metafísico.

25 DE ABRIL ─ O documentário do Stuckinha é uma graça, perfeito mesmo, não fosse o 3D. Para que isso, Deus meu? Nem falo dos óculos, que são até engraçadinhos. O problema são os quilos, que saltam da tela feito assombração. O Lula, coitado, está uma baleia.

28 DE ABRIL ─ Será que o Lobão gosta de ofurô?

15/05/2012

às 12:20 \ Feira Livre

‘Há Cabrais e Cavendishes’, por Roberto Pompeu de Toledo

TEXTO PUBLICADO NA EDIÇÃO DE VEJA DESTA SEMANA

Thomas Cavendish e Fernando Cavendish

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

Entre o primeiro Cabral (o Pedro Álvares, descobridor do Brasil) e o segundo (o Sérgio, governador do Rio de Janeiro) medeiam cinco séculos, mas algo os une: ambos se tornaram célebres pelas viagens. A bem da verdade, a viagem do primeiro Cabral tomou-o célebre já faz tempo, enquanto as do segundo só recentemente se impuseram com a evidência merecida. Isso não impede que o segundo, assim como o primeiro, entre para a história por força delas.

O primeiro Cabral deslumbrou-se com o mundo com que deparou. Araras, índios nus enfeitados com penas e índias que vão mostrar as vergonhas “têm tanta inocência como em mostrar os rostos”, conforme registro do escrivão Pero Vaz de Caminha, fizeram o espanto e a alegria da comitiva. O segundo igualmente se deslumbrou. Miçangas como finos restaurantes e sapatos para senhoras, segundo imagens captadas nos locais visitados, proporcionaram à sua comitiva alegria que não ficou a dever à distante antecessora. A comitiva do primeiro Cabral observou, curiosa, como os índios “andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante dos outros”. A comitiva do segundo Cabral tratou ela própria de exibir seu exotismo, os homens dançando e folgando com guardanapos na cabeça.

Sérgio Cabral passou 128 dias no exterior desde que assumiu o governo do estado, em 2007, segundo contabilizou o jornal O Estado de S. Paulo, com base em informações do Palácio Guanabara. O total o estabelece como um viajante de respeito. Ainda mais que nele não se incluem as viagens particulares; só as ditas “oficiais”. Pedro Álvares Cabral gastou 44 dias em sua penosa viagem de Lisboa até o local hoje conhecido como Brasil ─ um terço do que gastou em suas perambulações o homônimo de cinco séculos depois. O destino preferencial de Sérgio Cabral foi Paris, onde esteve cinco vezes; quatro vezes esteve em Londres, e outras quatro em Nova York. A Pedro Álvares, na viagem à Índia que encetou em seqüência à breve passagem pelo Brasil, couberam destinos como Melinde e Calicute. Não parece, mas na época eram lugares igualmente glamourosos. Pena que até chegar a eles mais da metade dos navios foi destroçada nas tempestades e a tripulação foi dizimada.

Entre o primeiro Cavendish (Thomas, navegador inglês) e o segundo (Fernando, até outro dia dono da construtora Delta) há igualmente cinco séculos de distância, mas também pontos em comum: a busca da riqueza, para começar; os vaivéns da sorte, em seguida. O primeiro Cavendish poderia ter entrado na história pela glória de, entre os anos de 1585 e 1588, ter repetido a proeza de Fernão de Magalhães ao circunavegar o globo. Na história do Brasil, entrou na qualidade de pirata. O segundo Cavendish poderia ter se destacado como empresário que em poucos anos conduz a pequena empreiteira herdada do pai ao posto de uma das maiores do país. Acabou enredado na teia das operações do bicheiro Carlos Cachoeira.

Fernando Cavendish começou pequeno, virou grande e ameaça acabar em nada. Thomas Cavendish conheceu também os altos e baixos. Na viagem de circunavegação, amealhou fortuna saqueando navios e portos das colônias espanholas da América, numa época em que a Espanha estava em guerra com a Inglaterra. Tal foi seu sucesso que recebeu da rainha Elizabeth I o título de “sir”. Esbanjou a fortuna, no entanto, e na tentativa de refazê-la fez-se de novo ao mar, desta vez tendo por alvo os portos brasileiros. No dia de Natal de 1591, chega a Santos. Para sua sorte, praticamente toda a população da cidade se encontrava na igreja, celebrando a data. Foi fácil mantê-la ali dentro, presa, enquanto a vila era saqueada.

Fernando Cavendish, amigo íntimo de Sérgio Cabral, seu vizinho nas casas de veraneio de Mangaratiba e companheiro de estripulias em Paris, é um dos integrantes da agora famosa roda do guardanapo. Seu distante homônimo também gostava de festividades. Apesar de não passar de um “franco ladrão dos mares”, nas palavras de um historiador, “sabia dar às suas façanhas e depredações uma cor de elegância cavalheiresca, tomando-se popular, e sendo aplaudido, em vez de renegado, pela própria aristocracia europeia” (Rocha Pombo). Terminou mal, no entanto. Ao voltar a Santos, para um segundo assalto, foi repelido, assim como o seria em seguida no Espírito Santo, perdendo na aventura a frota e o grosso de seus homens. Morreu no mar, sem conseguir voltar à Inglaterra, “provavelmente ralado pelo remorso”, segundo outro historiador (Varnhagen).

14/05/2012

às 18:07 \ Feira Livre

‘A embromação da Carta Capital e da Record’, por Flavio Morgenstern

PUBLICADO NO SITE IMPLICANTE

“Jornalismo é publicar algo que alguém não quer que seja publicado.
Todo o resto é publicidade.”
– George Orwell

FLAVIO MORGENSTERN

A Carta Capital publicou na capa dessa semana uma capa fictícia da revista Veja (uma capa dentro da capa), com uma foto de Roberto Civita, atual presidente da editora Abril, e a chamada: “O Nosso Murdoch”. A provocação tenta igualar Roberto Civita a Rupert Murdoch, que fechou um jornal no Reino Unido, o News of the World, após um escândalo revelar que o tablóide fazia escutas ilegais de políticos, celebridades e cidadãos comuns.

O assunto da Carta Capital é a Veja. A revista de Mino Carta apenas saiu do armário e admitiu que não tem muito mais do que falar. Ou alguém se lembra de algum escândalo que tenha sido descoberto pelo jornalismo investigativo da Carta Capital? Algum caso de corrupção flagrado por ela? Algum ministro derrubado?

Não é a primeira vez em que isso ocorre. Quando o escândalo dos aloprados veio à tona, todas as revistas cuidaram de publicá-lo na primeira página. Carta Capital, temendo ficar mal com seus asseclas, esperou, e publicou uma capa em que afirmava que o segundo turno das eleições havia sido produzido por uma “farsa” entre a tríada satânica, responsável por todos os males do mundo: o PSDB, a Veja e a Globo. Todo o busílis foi baseado no fato de que, quando o escândalo vazou, havia um carro do PSDB na frente do hotel antes mesmo de a imprensa lá chegar. É com esse tipo de “fato” que a Carta Capital faz “denúncia”.

A tática funciona. Ninguém, absolutamente ninguém no mundo lê Carta Capital para se informar, e sim para acreditar que não precisa se informar na imprensa maior de idade. A revista é apenas lida para se confirmar o que já se pensa. Seu público é de petistas e esquerdistas de quilates mais violentos. A revista, incapaz de produzir uma denúncia, cega aos trambiques de Brasília ou de qualquer lugar do país e do mundo, muda quanto a qualquer desvio de conduta do PT, funciona apenas para aqueles que querem continuar acreditando na ideologia iluminada da esquerda, e que não podem ler qualquer jornal sem o alto risco de não conseguir mais sustentar a crença na competência e honestidade vermelha.

Suas relações com o governo são desabridas. Suas páginas têm um percentual altíssimo de propaganda estatal ─ percentual absurdamente maior do que o que há em qualquer outra revista. Uma propaganda pode servir para apresentar um produto novo (as vendas do SWU dos pôneis no ano passado valem um curso de marketing), para vendê-lo diretamente (como os anúncios em nossa própria página, ali do lado) ou para firmar uma marca. Como muitas das empresas estatais não têm concorrência, ou ao menos não precisam jogar regras de mercado para se preocupar com elas, não há produtos novos e nem venda direta, resta este último artifício.

Porém, por que firmar tanto a marca de uma empresa às vezes sem concorrentes ─ vamos supor, uma hipotética grande estatal de petróleo? Quando a propaganda não tem retorno auferível em números, e o dinheiro escorre em mão única, é de muito mais bom alvitre compreender que a empresa só está fazendo “propaganda” para financiar uma revista que lhe ajude de volta, falando bem do governo ─ uma espécie de Diário Oficial do Partido, com diagramação de semanal e texto mastigadinho para o leitor médio. Se a artimanha ainda soa teórica, analisemos em números: a Carta Capital possui tiragem média de 75 mil exemplares (menor do que o número de alunos da USP). A Veja possui tiragem de 1,2 milhões. Se você quer “firmar a marca” da estatal de sua preferência (mesmo aquelas sem concorrência, como a empresa de postagem e a de petróleo), em qual das duas revistas vai apresentar a marca ao povão? Nenhum leitor da Carta estranha o fato de o governo que a revista do Mino tanto elogia preferir entupir suas páginas com uma porcentagem muito maior de propaganda estatal. Nunca é demais lembrar: a Carta Capital oferecia desconto em assinatura para filiados ao PT, e a mamata só acabou por denúncia. Da Veja.

Com uma tiragem tão ínfima, é natural que ninguém, fora quem acreditará no Partidão não importa o que a realidade diga, se preocupe com suas páginas. Há também o fator psicológico: Mino Carta já trabalhou com Civita, depois preferiu o reino mais rentável de bajular os adversários da Veja. Primeiro partiu para a defesa de Orestes Quércia, depois chegou no PT e na operação “a culpa é toda da mídia golpista”. Só um psicanalista sem mais o que fazer se preocuparia com a saúde e higiene mental das páginas da Carta Capital. Ou seja, sempre sobra para nós o trabalho paleontológico e pouco higiênico de descer às crostas do jornalismo do Reino Monera.

O nosso capachão

Em coluna de Maurício Dias, após um sem número de ilações e dislates pouco substanciosos sobre a Veja (a velha tática de afirmar generalidades como prova, à guisa de “a revista sapateia as regras do jornalismo”), há um clímax que ultrapassa muito as raias do delírio. Afirmando que “a imprensa brasileira, particularmente, tem assombrosos erros históricos” (erros históricos? alguma nasceu na data errada? alguma publicou algo antes de ela própria existir?), o “prontuário inclui, entre outros, a participação na pressão que levou Vargas ao suicídio, em 1954″. Tradução: se a imprensa faz pressão sobre uma figura pública, um governante, um presidente ou um ditador, ela, a imprensa, está cometendo um erro histórico. Onde já se viu uma coisa dessas?! Liberdade de imprensa não é liberdade para fazer pressão sobre ditadores ─ ainda mais se estes pedem pinico. A Carta Capital usa um argumento pior do que os lunáticos da FOX News, que atribuem à “mídia golpista da Costa Leste” o escândalo que derrubou Nixon. Deixando bem claro: Nixon, um dos piores presidentes do século, estava longe de ser um ditador como Getúlio Vargas.

Antes da “bombástica” matéria de capa, também a coluna do próprio Mino Carta, que exige um grau de leitura very hard, já tasca de cara que a  Mino também afirma que “a corporação é o próprio poder” (interpretem aí), “de sorte a entender liberdade de imprensa como a sua liberdade de publicar o que bem lhe aprouver. A distorcer, a inventar, a omitir, a mentir”. Descontando a velha ojeriza pela liberdade de imprensa dos outros, é o tipo de acusação que faz leitores da Carta Capital jurarem que provaram que sua nêmesis “distorceu, inventou, omitiu e mentiu”, sem apontar uma única linha que comprove o fato.

Ao marcar cada frase da reportagem principal passível de discussão em caneta vermelha, as páginas ficam mais vermelhas do que o jornal do PCO.

A tal reportagem, assinada por Cynara Menezes, afirma que “Veja serviu antes de tudo aos interesses políticofinanceiros (sic) de um grupo organizado de criminosos”. O fato é que Veja usou Cachoeira como fonte ─ o que denunciou a quadrilha do Ministério dos Transportes / Dnit que Dilma mesma acabou por demitir em massa. A quadrilha do Dnit era um aparelhamento de cima abaixo orquestrada por José Dirceu. Havia uma encrenca entre Dirceu e Cachoeira. Para denunciar Dirceu, Veja usou quem tinha as melhores fontes possíveis: seu arqui-inimigo. Alguém aí pensaria em fonte diferente? E por acaso, inverter a lógica também não funcionaria? Criticar Cachoeira acaso seria “servir aos interesses politicofinanceiros (bleaght) de Dirceu”? Ademais, Dirceu e Cachoeira estarem concorrendo em algo já não é vergonha demais pra um país só?

 Reportagem dessa mesma semana no semanário da Abril mostra fotos de Sérgio Cabral na esbórnia em hotéis caríssimos de Paris com Fernando Cavendish, presidente da construtora Delta, atolada, pode-se dizer literalmente, nas obras superfaturadas que forneceram o mar de dinheiro sujo que gerou todo o atual escândalo. As fotos foram publicadas no blog de Anthony Garotinho e de César Maia, ambos inimigos entre si, mas também inimigos de Sérgio Cabral na velha disputa pelo governo do Rio de Janeiro. Acaso Veja estaria “servindo antes de tudo aos interesses políticofinanceiros (sic)” de Garotinho e Maia? Devemos ignorar as fotos graças às fontes? Será que Carta Capital teria coragem de, ao invés de informar uma generalidade, com todas as fontes “melhores” que possui e o jornalismo investigativo de maior qualidade que julga praticar, afirmar claramente qual crime arrolado no Código Penal a revista Veja teria cometido? Tim Lopes, se sobrevivesse, deveria então ser investigado por uma CPI?

Seguem-se três longos parágrafos (cerca de 40% das primeiras 2 páginas de 5) de ilações sobre Rupert Murdoch. É uma comparação tão infundada que ultrapassa os limites da boa-fé. Murdoch praticou escutas ilegais. Veja tinha uma fonte que cagüetou falcatruas de um inimigo. Nenhuma atitude minimamente similar, que dirá qualquer crime, para haver tanta vontade de pechar Civita como “o nosso Murdoch”. Os que adoram criticar a Veja, por sinal, não se furtam a pegar opiniões de gente muy amiga dos chefões das falcatruas inimigas. Quantas vezes por aí você viu Luis Nassif, Vladimir Safatle, Paulo Henrique Amorim et caterva lado a lado a José Dirceu, em evento com dinheiro público, onde todos falam, justamente, sobre mídia? Quem pode dizer que “Nassif, Safatle e Paulo Henrique Amorim servem antes de tudo aos interesses politicofinanceiros de José Dirceu”? E não soa, assim, até crível tal hipótese?

A própria reportagem dá ensejo a tal idéia logo após. Os encontros de José Dirceu, ex-ministro todo poderoso apeado do cargo por ser considerado o “chefe da quadrilha” pelo Procurador Geral da República, aparece como vítima da “parceria Veja-Cachoeira”, quando Dirceu dá queixa na polícia após um repórter da revista tentar entrar no apartamento em que se hospedava em um hotel de Brasília.

A defesa do “chefe da quadrilha”, ao invés de mostrar alguma prova de algo, é prestar uma queixa contra um repórter meio atrapalhado? A reportagem ainda questiona: “qual a relevância da divulgação de encontros feitos à luz do dia em um local público da capital federal?” Ora, um hotel não é um local público, ou Dirceu não poderia dar queixa. E que relevância tem um ex-ministro envolvido em denúncias que somam 111 anos de prisão fazer encontros com o presidente da Petrobras, o ministro do Comércio Exterior, além de deputados do porte de Vaccarezza e senadores (dois do PSDB, pra quem acredita que é uma disputa partidária em jogo)? Não há nada de estranho nisso? Não há nada a estranhar de Dirceu ter sido contratado pela Delta como uma assessor empresarial da única empresa do ramo inteiramente baseada em contratos públicos? Aliás, da principal empresa do PAC, defendido tão aguerridamente pela Carta Capital?

Diz a Carta: “Cachoeira afirma que ‘arrumou uma fita’ para o repórter, mas não especifica como”. Fala que a “intimidade” do contraventor com o diretor da Veja Policarpo Jr. é “inegável”, pois o bicheiro em uma gravação o chama de “Poli”. Humm. Ouvindo a gravação por inteiro, vê-se que é Cláudio Abreu, executivo da Delta, quem fala sobre o “PJ”, e Cachoeira sequer entende de quem Abreu estava falando. A Record acredita que isso é um “apelido íntimo” que Policarpo ganhou… de Cachoeira.

Intimidade inegável? Pode até ser que houve intimidade, mas se isso é prova de intimidade, não quero imaginar quantos amigos íntimos tenho pela quantidade de pessoas que abreviam meu sobrenome. Por sinal, até a própria Carta admite que aVeja publicou em suas próprias páginas conversas de seu repórter com Cachoeira. Alguém que praticaria “toma lá dá cá” faria o mesmo?

Para a Carta, isso foi um “toma lá dá cá”. Misteriosamente, não houve menção nem na Carta Capital, nem na reportagem orquestrada por Paulo Henrique Amorim na Record, da reclamação de Cachoeira pela falta de contrapartida de Policarpo pelos favores que lhe prestou (embora tanto a revista de Mino quanto a Record não parem de repetir uma tal “troca de favores”). Como era mesmo o papo sobre “distorcer, inventar, omitir, mentir”?

Há informações completamente desconexas e sem provas, como Cachoeira “utilizar” a Veja para “promover” Demóstenes Torres. Se até a cúpula do PT acreditava na lisura de Demóstenes, qual a prova de que só a toda-poderosa Veja conseguiu passar sozinha tal imagem do senador? Que prova tem de que “a revista sabia das relações carnais (sic) de um senador com um contraventor, e não só não o denunciou, como o promoveu constantemente”? A primeira ligação de Demóstenes com Cachoeira surgiu, justamente, na Veja: mais especificamente no blog de Ricardo Setti. Ou foi o jornalismo investigativo politicamente correto da Carta Capital que descobriu alguma coisa?

Ultrapassa portanto o ápice do ridículo ler Carta Capital reclamando de “‘denúncias’ sem comprovação” (aspas do original), de “buscar o contraditório” (vão oferecer desconto em assinatura para filiados ao PSDB também?) e de fontes com “problemas legais” (e defender a teoria conspiratória da “farsa que levou ao segundo turno” em 2006 ao mesmo tempo). É apenas uma aleivosia que só converte os já convertidos, uma retórica malemolente que acha que citar Merval Pereira, que esmirilha de cabo a rabo tal acusação, e chamá-lo de “funcionário dos Marinho” depois é prova suficiente de que Merval está errado. Mas o mais divertido foi ver uma reclamação de “falta de capas” da Veja sobre o escândalo (embora tenha havido duas, e chamadas de capa em todas as últimas sete edições), no mesmo fim de semana em que a Veja publica uma curiosa capa desenhada (e, portanto, bem pensada e demorada) incriminando toda a turma de Cachoeira, situação e oposição, todos naufragando no mesmo barco. Quer dizer, alguns já sem barco.

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Está tentando ligar pro Cachoeira, mas o Nextel tá dando ocupado. No Twitter, @flaviomorgen

14/05/2012

às 14:27 \ Feira Livre

‘Julgar o mensalão’, editorial publicado na Folha de S. Paulo

Publicado na Folha de S. Paulo neste domingo

Foram necessárias mais de cem páginas para o ministro Joaquim Barbosa reduzir ao essencial, em relatório divulgado na quinta-feira, o processo do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF). Apesar de longo, o documento resulta de um considerável esforço de concisão e objetividade.

O processo, que examina o maior escândalo político ocorrido no país depois do Collorgate (1992), acumulou cerca de 70 mil páginas, distribuídas em 147 volumes e 173 apensos. Mais de 600 testemunhas foram arroladas pela defesa ─ meia centena de advogados.

Dos 40 envolvidos, apenas quatro tiveram, até agora, dissipadas as ameaças de sofrer condenação. Por falta de provas, Luiz Gushiken, ministro das Comunicações no governo Lula, e Antônio Lamas, irmão do então tesoureiro do PL, Jacinto Lamas, tiveram a absolvição pedida pelo Ministério Público Federal. O secretário-geral do PT na época do escândalo, Sílvio Pereira, fez acordo e aceitou prestar serviços comunitários. José Janene, deputado federal pelo PP, morreu em 2010.

Acusados de crimes como corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, peculato (desvio de bens por funcionário público), formação de quadrilha ou gestão fraudulenta de instituição bancária, restam nomes célebres, e outros nem tanto, dentro e fora da hierarquia petista.

Passados sete anos, muitos detalhes do escândalo se esvaem da memória geral. O relatório do ministro Barbosa, sumarizando os argumentos da acusação e da defesa, repõe o caso nos seus devidos ─ e espantosos ─ termos.

Não se tratou, em absoluto, de um simples episódio de “recursos não contabilizados”, ou caixa dois, com sobras de uma campanha política sendo distribuídas informalmente a membros de uma coalizão política. Tal versão, veiculada insistentemente pelas áreas do PT mais implicadas no escândalo, já seria por si só desmoralizante, em se tratando de um partido que por tanto tempo prometera introduzir novos padrões éticos na política brasileira.

Bem mais do que isso, entretanto, veio à luz com o mensalão ─ e será relembrado durante o julgamento do caso pelo STF.

Um partido, o PT, recebe empréstimos bancários sem apresentar em troca as necessárias garantias legais. Os empréstimos, segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República, eram a fachada para um esquema mais complexo.

Resultavam das operações comandadas pelo publicitário Marcos Valério, em troca de vantagens obtidas de setores do poder petista. A saber, o favorecimento de suas agências publicitárias em contratos com o Banco do Brasil e a Câmara dos Deputados, cujo presidente na época, o petista João Paulo Cunha, de acordo com a peça de acusação, se beneficiou de R$ 50 mil sacados em espécie.

Ainda segundo a denúncia, os favores oferecidos por Marcos Valério não serviram apenas para o caixa petista ou para interesses pessoais de membros do partido (por exemplo, a concessão de um empréstimo à ex-mulher do então ministro José Dirceu).

Deputados de outros partidos da base aliada beneficiaram-se de ajuda financeira para, em tese, votar favoravelmente ao governo.

Dois argumentos em defesa dos envolvidos não cessam de ser postos em circulação ─ e se notabilizam pela fragilidade. Sustenta-se, por exemplo, que “não existiu o mensalão”, porque não tinham regularidade mensal as doações aos deputados. Uma vez que estes já pertenciam à base aliada, acrescenta-se, não era necessário corrompê-los com doações diretas em dinheiro.

Esses e outros argumentos, relativos por exemplo à ausência de irregularidade na prática dos contratos publicitários, serão examinados pelos ministros do STF por ocasião do julgamento. Com o relatório de Joaquim Barbosa, cabe agora ao ministro Ricardo Lewandowski, no papel de revisor, dar andamento ao processo.

Como se sabe, o STF corre contra o tempo. Alguns dos crimes, como peculato e evasão de divisas, poderão prescrever (coisa que depende da pena que será efetivamente aplicada pelo STF). No cenário mais favorável aos réus, mesmo a acusação de corrupção ativa, uma das que pesam contra José Dirceu e outros dirigentes petistas, como Delúbio Soares e José Genoino, já estaria em risco. O mesmo raciocínio se aplicaria ao crime de corrupção passiva, de que são acusadas figuras como João Paulo Cunha, Roberto Jefferson e Valdemar da Costa Neto.

Não se leva em conta, num processo jurídico, mais do que a letra dos autos. Está no âmbito da subjetividade de cada ministro, todavia, avaliar o quanto são suficientes os indícios de envolvimento de cada acusado.

Pesam nisso, sem dúvida, inclinações políticas individuais e as pressões contraditórias do mundo político e da opinião pública. Tratando-se de julgamento em corte colegiada, com ampla oportunidade de defesa, é de esperar que haja equilíbrio na decisão final.

O que mais importa, num caso que se arrasta há tanto tempo, é que possa ser julgado o mais breve possível ─ a menos que se queira, pelo mecanismo da prescrição, dar a muitos dos envolvidos a vantagem da impunidade, ao mesmo tempo em que persiste o descrédito que, com tantas evidências acumuladas, fizeram por merecer na opinião pública.


 

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