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Devolva o fardão, Sarney

No fim dos anos 80, o grande Millôr Fernandes deu-se ao desfrute de ler o começo de Brejal dos Guajas, lançado pelo escritor José Sarney, que acumulava as funções de presidente da República entre um cacófato e uma próclise. Ficou perplexo com o cortejo de erros, contradições e maluquices, puxado pelo título. Nunca houve no Maranhão uma tribo dos guajas. Existiu a dos […]

No fim dos anos 80, o grande Millôr Fernandes deu-se ao desfrute de ler o começo de Brejal dos Guajas, lançado pelo escritor José Sarney, que acumulava as funções de presidente da República entre um cacófato e uma próclise. Ficou perplexo com o cortejo de erros, contradições e maluquices, puxado pelo título. Nunca houve no Maranhão uma tribo dos guajas. Existiu a dos guajajaras. Nas primeiras páginas, o romancista revela que a cidade em que a trama se desenrola (ou não) sofria de carências terríveis porque o governador era inimigo do prefeito. Nâo tinha, por exemplo, correio nem escola. Poucos parágrafos mais tarde, alguém manda um telegrama e um visitante ilustre é recepcionado por colegiais (com bandeirinhas).

Millôr comentou essas afrontas em dois textos. Pretendia parar por aí. Obrigado pelos leitores do Jornal do Brasil a ler o livro até o fim, produziu um clássico. Se a Academia Brasileira de Letras não fosse o que é, Sarney seria envenenado no primeiro chá das cinco. Se ele não fosse quem é, juntaria todos os exemplares de todos os livros numa bonita fogueira de São João e voltaria ao jardim da infância. Preferiu seguir em frente. 

O pelotão avançado da coluna tem mantido sob estreita vigilância o político. Faltava marcar de perto o intelectual. Não falta mais. Injuriado com a crueldade com que Sarney tratou o idioma, o raciocínio lógico e a coerência na Oração aos Parentes, aquela em que jurou não conhecer sequer o afilhado de casamento, o leitor Celso Arnaldo resolveu transcrever sem correções a discurseira e selecionar alguns espantos. Nesta manh~s, repetiu a dose com o improviso de ontem. Aí vão alguns dos melhores momentos, seguidos de comentários curtos e pertinentes. Divirtam-se:

Os meus netos estão estudando em São Paulo. E o meu filho Sarney Filho compra um apartamento no mesmo edifício, porque era mais fácil onde já moravam os seus primos, e declara no seu imposto de renda que está pagando um contrato de compra e venda. Está lá no imposto de renda dele. A escritura não foi passada porque ainda não terminou o seu pagamento, mas já constam no imposto de renda as prestações que ele tem passado”. (Que tal o “meu filho Sarney Filho”? Que tal “era mais fácil onde já moravam os seus primos”? Que tal “as prestações que ele tem passado”?)

“Eu comprei o primeiro apartamento ali em 1977, Sr. Presidente, ainda em construção. Para quê? Para ali morarem meus filhos que estudavam, um na Universidade de São Paulo, na Escola Politécnica, e outro na Faculdade Cristã, Católica”. (A Faculdade Cristã, Católica, deve ter uma fé fervorosa. O orador não informou se tem parentesco com a PUC).

“Se alguém comprasse algum imóvel, se houvesse algum pagamento de imposto que não tivesse sido feito, se soubesse você denunciaria à Receita Federal! Mas o que tem isso com o Senado?”
(Haver pagamento que não tenha sido feito, só na contabilidade dos Sarney).

“Uma afirmação dessa natureza! E ele (o orador refere-se ao jornal O Estado de S. Paulovem se empenhando numa campanha sistemática contra mim, ou adotando uma prática nazista, que era aquela que eles adotavam de acabar com as pessoas, denegrir a sua honra, a sua dignidade até, com os judeus, levá-los à câmara de gás”.(Os nazistas, segundo Sarney, adotavam a técnica que eles adotavam de primeiro levar os judeus à câmara de gás para depois denegrirem a sua honra).

Eu quero fazer uma ressalva: ainda hoje O Estado de S. Paulo mantém uma sequência no que ele foi. É o nome do dr. Ruy Mesquita, que é o símbolo da continuidade, da lembrança do que foi, no passado, O Estado de S. Paulo”. (Sequência no que ele foi são os discursos do Sarney).

O presidente do Senado não quer devolver o cargo, o mandato, os empregos dos parentes, nada. Muito menos o auferido com a coleção de ilegalidades. Mas o fardão de imortal que o governo maranhense pagou, pelo menos esse ele tem de devolver agora que foi desmascarado: José Sarney é Lula de jaquetão.

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  1. Comentado por:

    Brasil, um país de tolos!

    Essa eu lí na internet:
    Um velho padre, durante anos, tinha trabalhado fielmente com o povo africano, mas agora estava de volta ao Brasil, muito doente e debilitado, no Hospital Geral de Brasília. Já nos últimos suspiros, ele faz um sinal à enfermeira, que se aproxima.
    – Sim, Padre… diz a enfermeira.
    – Eu queria ver dois proeminentes políticos antes de morrer: o José Sarney e o Renan Calheiros, sussurrou o padre.
    – Sim, Padre, verei o que posso fazer, respondeu a enfermeira.
    De imediato, ela entra em contato com o Congresso Nacional e logo logo recebe um retorno de que ambos gostariam muito de visitar o padre moribundo. A caminho do hospital, Sarney diz a Renan:
    – Eu não sei porque é que o velho padre nos quer ver, mas certamente isso nos ajudaria a melhorar a nossa imagem perante a Igreja e povo, o que é sempre bom, concorda?
    Renan Calheiros concordou de imediato. Disse que seria uma grande oportunidade para eles, tanto que até providenciaram o envio de um comunicado oficial à imprensa sobre a visita que iriam fazer.
    Quando chegaram ao quarto, com toda a imprensa presente, o velho padre pegou na mão de Sarney com sua mão direita e na mão de Renan Calheiros com sua mão esquerda. Houve um grande silêncio e notou-se um ar de pureza e serenidade no semblante do padre.
    Renan Calheiros então disse:
    – Padre, porque é que fomos nós os escolhidos, entre tantas pessoas, para estar ao seu lado nesse momento tão dolororoso?
    Foi nessa hora, que o Padre lentamente susurrou:
    – Sempre, em toda a minha vida, procurei ter como modelo o Nosso Senhor Jesus Cristo.
    – Amém, disse Sarney.
    – Amém, disse Renan Calheiros.
    E o Padre concluiu:
    – Então… como Ele morreu entre dois ladrões, eu quero fazer o mesmo!!!

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  2. Comentado por:

    Indignado

    Pergunta: Será que os imortais da ABL não se sentem constrangidos ao lado de Sarney, escritor de qualidade duvidosa e político com extenso histórico de corrupção?

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  3. Comentado por:

    otaviotc

    PRISÃO, PRISÃO, PRISÃO, PRISÃO, PRISÃO, PRISÃO, PRISÃO, PRISÃO, PRISÃO, PRISÃO, PRISÃO, PRISÃO, PRISÃO, PRISÃO, PRISÃO, PRISÃO, para o sarneylullantra…

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  4. Comentado por:

    Skorpio

    Agora sei porque o Evanildo Bechara fez toda aquela porcaria com o nosso idioma. Creio que consultou o Zé Sarney e o Paulo Coelho para fazer aquela reforma esdrúxula na ortografia.
    O que esperar de uma instituição que reúne Zé Sarney e Paulo Coelho como expoentes da literuatura? O resultado disso só poderia ser um país com um presidente analfabeto. Nessa ABL ainda cabe muita coisa, escritores excepcionáis como Chico Buarque, Arnaldo Jabor, Jô Soares…

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  5. Comentado por:

    joca

    Nos idos de 60, ainda no colegial, deixei de ganhar 10 em Portugûes em uma redação porque, em dado parágrafo escrevi que : ….. “constava NA ….. .;
    O professor era brilhante. E , em classe , justificou a nota 9,5 . Disse ele: o verbo constar exige a preposição DE. Logo, vc deveria ter escrito “constava DA….
    De lá para cá, mudou alguma coisa? O dono do fardão ( palavra horrível) pago pelo Maranhão ( rima horrível também) pode falar “constava no imposto de renda bl´pa blá blá , ..” ou é outro assassinato linguístico ?

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  6. Comentado por:

    Rodrigo

    Devido a seção estar tratando de assunto pertinente a ABL, gostaria de fazer correção ortográfica no horário das 11:58.
    Onde deveria estar escrito anti-intelectual, está antiintelectual.
    Já que José Sarney não tem chance de ser salvo, pelo menos os erros na ortografia precisam receber salvamento.

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