Confrontadas com Ruth Cardoso, as duas criaturas de Lula são a seleção do Brasil no dia daquele jogo contra a Alemanha

O trecho do Roda Viva protagonizado em 1999 por Ruth Cardoso figura entre as incontáveis evidências de que milagres civilizatórios podem ocorrer em qualquer grotão do planeta. A admirável paulista de Araraquara, que se casou muito jovem com o carioca Fernando Henrique Cardoso, seria a única primeira-dama a desembarcar em Brasília com profissão definida, luz própria e opiniões […]

O trecho do Roda Viva protagonizado em 1999 por Ruth Cardoso figura entre as incontáveis evidências de que milagres civilizatórios podem ocorrer em qualquer grotão do planeta. A admirável paulista de Araraquara, que se casou muito jovem com o carioca Fernando Henrique Cardoso, seria a única primeira-dama a desembarcar em Brasília com profissão definida, luz própria e opiniões a emitir ─ sempre com autonomia intelectual e, se necessário, elegante contundência.

Durante oito anos, o brilho da mulher que sabia o que dizia somou-se à luminosidade da antropóloga respeitada por colegas do mundo inteiro para clarear o coração do poder. A maioria dos jornalistas baseados em Brasília precisou de algum tempo para descobrir com quem estava lidando. No fim de 1994, por exemplo, os entrevistadores enxergaram uma blague na justificativa apresentada pelo presidente eleito para a viagem à Rússia: “Vou como acompanhante da Ruth”. Ela participaria como palestrante de um congresso de antropologia promovido em Moscou.

Nenhum repórter se animou a acompanhar a palestra. Perderam todos a chance de descobrir que Ruth era muito mais que a mulher do n° 1. Seria a melhor e mais brilhante das primeiras-damas se não tivesse abdicado do título já no dia da posse do marido. “Isso é uma caricatura do original americano, esse cargo não existe”, resumiu. Sem pompas nem fitas, longe de fanfarras e rojões, dedicou-se à montagem do impressionante conjunto de ações enfeixadas no programa Comunidade Solidária.

Em dezembro de 2002, os projetos em execução mobilizavam 135 mil alfabetizadores, 17 mil universitários e professores, 2.500 associações comunitárias, 300 universidades e 45 centros de voluntariado. Ruth Cardoso acabou simbolicamente promovida a primeira-dama da República no dia da morte que pareceria prematura ainda que tivesse vivido mais de 100 anos. A cerimônia do adeus comprovou que o Brasil se despedia, comovido, de alguém que o fizera parecer menos primitivo, mais respirável, menos boçal.

Ela merecia ter morrido sem conhecer a fábrica de dossiês cafajestes da Casa Civil chefiada por Dilma Rousseff. Instruída para livrar o governo da enrascada em que se metera com a gastança dos cartões corporarativos, Dilma produziu um papelório abjeto que tentava reduzir Fernando Henrique e Ruth Cardoso a perdulários incuráveis, decididos a desperdiçar o dinheiro da nação em vinhos caros e futilidades gastronômicas. Dilma foi a primeira e única personagem brasileira a agredir uma mulher gentil, que sempre soube conciliar a firmeza e a suavidade ─ e também por isso foi tratada com respeito até por ferozes inimigos do marido.

Dilma propôs mais de uma vez que o país comparasse FHC a seu padrinho. “O Lula ganha de 400 a 0″, previu a vidente de quermesse. Se o prognóstico do neurônio solitário fizesse sentido, o fabricante do poste instalado no Planalto não estaria fugindo há 13 anos de um debate público com o antecessor. O campeão mundial de bravata e bazófia sabe que seria nocauteado já nos primeiros minutos desse confronto entre a seriedade e o deboche, entre a análise e o falatório bocó, entre o conhecimento e a ignorância, entre o moderno e o antigo, entre o real e o imaginário.

Como Lula foge de duelos com FHC como o diabo da cruz, que tal comparar Ruth Cardoso a Dilma Rousseff, que não diz coisa com coisa? Ou a Marisa Letícia, que nada tem a dizer ─ e, como prova o vídeo abaixo, é incapaz de decorar o nome completo de um navio? Confrontadas com uma brasileira que melhorou o país, as duas criaturas de Lula lembram a seleção brasileira de futebol naquele 7 a 1 contra a Alemanha.

A mulher de Fernando Henrique vive na memória nacional como um exemplo comovente de dignidade, inteligência e sabedoria. Dilma e Marisa Letícia talvez sejam lembradas por historiadores detalhistas como dois ícones da Era da Mediocridade. A dupla cabe num único asterisco.

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  1. Comentado por:

    Puresa

    Parabéns por suas palavras!!! D. Ruth Cardoso é um exemplo a ser seguido!!
    Sou sua fã Augusto Nunes!!

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  2. Comentado por:

    Candanga

    Ruth Cardoso, mulher de brilho próprio! Dilma e Marisa Letícia, dois postes do Lula, que era poste do regime militar e sempre foi e será o rei dos hipócritas. Acorda Lula, porque o povo, o do bolsa-família, já acordou para quem vc é. Os demais brasileiros, esperam chegar o dia em que os corruptos e corruptores serão presos, tão-logo os tribunais confirmem as sentenças condenatórias. E o Luis Estevão? Até quando este Sr. continuará pagando por sua liberdade?

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  3. Comentado por:

    chico prado

    em tempos de Dilma “No brain” que saudades de Dona Ruth…a que nível de mediocridade chegamos…

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  4. Comentado por:

    Manuel Antonio Fialho

    Lendo este artigo, me lembrei de um fato que ocorreu com a Dona Ruth e a Doutora Zilda Arns , infelizmente também já falecida.A Dona Ruth uma ocasião informou a Dra. Zilda que tinha meios de dobrar a verba transferida para a pastoral e, perguntou se a doutora estava em condições de administrar a nova quantia. Dra. Zilda respondeu que não, que precisava de um tempo para se estruturar. Com certeza as duas estão no ceu fazendo o bem, juntas. Lembrando pessoas desse nível dá nojo dessa ralé `Tralha.

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  5. Comentado por:

    César

    E quem morreu? Ela.
    E quem está viva e muita viva? Dilma.
    Só podem ter pacto com o demo esses petistas.

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  6. Comentado por:

    Ricardo

    Sem duvida…Dona Ruth foi superior em todos os sentidos.

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  7. Comentado por:

    antonio carlos kersting roque

    Sem dúvida uma mulher que engrandeceu essa pátria agora “presa de ideias malfazejas” (Bilac, Credo), que deu sentido maior a um universo da educação, lato sensu, que perpassa a simples ideia do aprender/conhecer.
    A rainha das cafonas e a confusa de sanatório, jamais ombreariam um simples diálogo com D. RUTH (em maiúsculo), o que se dirá um debate sobre um tema qualquer.
    Diriam as duas parvas, o que é tema?

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  8. Comentado por:

    Carlos Fabricio Fernandes

    Por isso eu a chamo de D. NULLA

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  9. Comentado por:

    Márcia Cristina Alvarez

    Augusto, fico maravilhada com seus artigos lúcidos que, em meio a essa lama toda, nos consola de que não estamos errados ao lutar e exigir um Brasil melhor e mais digno!!!! Parabéns e continue firme na função de botar voz nos nossos pensamentos!!!

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  10. Comentado por:

    Augusto Freitas

    Rumor que corre em lojas chiques nos Jardins: uma ex-primeira dama escolheu produtos caros para a reforma de sua residência, pegou o talão de cheques, preencheu, assinou e pagou. Outra ex-primeira dama escolheu produtos caros para a reforma de sua residência, chamou um de seus seguranças, retirou uma bolada de dinheiro da caixa de sapatos que ele tinha em mãos, e pagou. Estilos diferentes de fazer negócios. Quem teria sido uma, e quem teria sido a outra?

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