27/07/2009
às 22:00 \ Baú de PresidentesTancredo Neves, lição n° 1: “Fazer visita é bem melhor que ser visitado”

O senador Tancredo Neves batia todo fim de tarde na porta do apartamento do deputado Thales Ramalho em Brasília. Eram sempre três batidas compassadas, sempre na porta dos fundos. Embora imobilizado numa cadeira de rodas desde o acidente automobilístico sofrido em 1976, Thales fazia questão de atender pessoalmente à chamada em código. E então Tancredo perguntava se havia mais alguém por lá.
Quase sempre havia: forçado a evitar deslocamentos cada vez mais dolorosos, o secretário-geral do MDB acabou transformando o apartamento 101, Bloco D, SQS 302 numa extensão do gabinete no Congresso. Levemente contrariado, o senador mineiro pedia a relação dos presentes. Se nenhum dos nomes lhe causasse desconforto, juntava-se à conversa por duas doses de uísque com gelo e menos de meia hora. Tancredo sempre tinha pressa.
Tinha tempo de sobra se podia conspirar longe de testemunhas com o parceiro de quem se tornara amigo quando frequentavam a escola do velho PSD. Nascido no Rio Grande do Norte, adotado pelos eleitores de Pernambuco, Thales era deputado federal desde 1967. No outono de 1979, o discípulo e o mestre tocavam de ouvido.
─ Tancredo acabou de sair ─ soube ao entrar no começo da noite na sala onde o anfitrião acariciava um copo de uísque. ─ Conversamos quase duas horas ─ deu outro gole.
Thales bebia bem, sobretudo depois do encerramento de outra maratona de conversas vespertinas. A agenda andava carregada, assunto era o que não faltava. Um ano e tanto, aquele. O AI-5 foi revogado no dia 1° de janeiro. Em 15 de março, o general João Figueiredo assumiu a presidência da República disposto a concluir o processo de abertura política iniciado no governo Ernesto Geisel. Eram iminentes a decretação da anistia e a volta do sistema pluripartidário. Qual desses temas teria deixado a dupla mais excitada? Nenhum deles, surpreendeu-me a informação seguinte:
─ Aprendi mais uma com Tancredo: fazer visita é bem melhor que ser visitado.
Thales então reproduziu a aula desde o começo. O senador, explicou, só tinha conseguido encontrá-lo sozinho na terceira tentativa. Dois dias antes, não passou da soleira porque havia muita gente na sala, que continuava cheia de gente na véspera. Ficou vazia no meio daquela tarde.
─ Até que enfim ─ suspirou Tancredo enquanto se acomodava no sofá. ─ Está ficando cada vez mais complicado conversar aqui. Você precisa aprender a visitar mais e receber menos visitas.
─ Eles telefonam e avisam que estão a caminho ─ explicou Thales. ─ Não posso fazer nada.
─ Pode. Quando alguém diz que quer vir à minha casa, vou logo dizendo que faço questão de homenageá-lo com a minha visita. Se estiver a caminho, peço que volte.
Faz sentido, pensou Thales.
─ Fazer visita só tem vantagens ─ continuou a aula. ─ Quem vai à casa de alguém come a comida do dono, bebe a bebida do dono e, melhor que tudo, escolhe a hora de ir embora. A pior coisa do mundo é aguentar visita que fica duas horas além da conta.
Faz sentido, achou Thales outra vez. Mas havia um problema: se passava todo o tempo numa cadeira de rodas, como poderia desandar a fazer visitas?
─ Deixe sempre muito claro que você tem essas dificuldades todas ─ liquidou a questão Tancredo Neves. ─ Além de feliz com a visita, o visitado vai ficar muito comovido.
Tags: AI-5, anistia, Arena, Ernesto Geisel, João Figueiredo, MDB, Tancredo Neves, Thales Ramalho










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17 Comentários
VÍRUS (PARA CAUSA JUSTA)
-16/08/2009 às 8:32
FORA SARNEY! FORA SARNEY! FORA SARNEY!
francisco
-08/08/2009 às 13:33
Concordo com a xará: a gente estava merecendo uma nova série de coisa boa para curtir. Às vezes é bom dar um refresco nestes collors,lullas,procuradores,sarneys,renans,etc…
Por oportuno,não vá divulgar uma série de algum dos citados acima.Por favor.
Francisca Cardoso
-31/07/2009 às 16:37
Que bom saber que teremos outra bela saga pela frente.
Estava ansiosa pelo novo capítulo. Adorei.
Abração.
Cibele Pitangueiras
-29/07/2009 às 11:29
Meu avô foi amigo de Tancredo Neves e ele sempre me dizia que muito melhor que o político era o ser humano: justo, lúcido, sábio como poucos. Parabéns pelo lindo artigo.
FERNANDO
-28/07/2009 às 17:42
Parabéns pelo texto!!!.
Augusto Nunes
-28/07/2009 às 16:40
Beleza, amigo.
abração.
PAULO BOCCATO
-28/07/2009 às 16:35
CABEI DE VER !
SORRY PELA FALTA…
AINDA DOU MUITAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAS RISADAS COM ESTA HISTORIA !!
BAÚ DE PRESIDENTES É UM BARATO !!
MOSTRA QUE SÃO GENTE DE CARNE E OSSO…TÊM DE DOR DE BARRIGA, VAO AO BANHEIRO, BRIGAM COM A PATROA,BLÁ-BLÁ-BLÁ…
DESCULPE PELA FALHA E CONTINUE COM O BAU POR FAVOR !
TEM MUITA HISTORIA BOA AÍ…
Augusto Nunes
-28/07/2009 às 16:27
Grande Paulo: contei a história na série de quatro textos sobre o Jânio. Vá até o começo do Baú de Presidentes, confira e não deixe de dizer o que achou.
um abraço.
PAULO BOCCATO
-28/07/2009 às 16:18
ÔRRAAAAAAAAAAAAAA AUGUSTOOOOOOOOOOO !!!!
QUANDO TÚ VAI CONTAR AQUELA DO JANIO E DO BARBUDO GASTONE RIGHI QUE TRAVOU UM DUELO PELA “ALMA” DO JANIO ?
BAITA ABRAÇO AQUI DA ROÇA !
PAULO BOCCATO
Flavio Guarniero
-28/07/2009 às 13:09
Caro Augusto,
Gostaria de saber se procede a informação,contada por Tancredo,que ele mandou o neto Aécio Neves,entrar para a política porque era vagabundo.Só queria pegar praia,surfar,etc.Dizem que essa declaração foi dada numa entrevista ao Roberto D*avila,no programa Conexão Nacional.Procede?
Vanderlei Simionatto
-28/07/2009 às 12:43
Augusto, essas conversas são bastante interessantes. Os bastidores é que de fato interessam. Pesquise, confirme ou desminta. Consta que Ulysses, ao encontrar dois amigos conversando em voz muito baixa, quase que susurrando, perguntou se era confidencial. A negativa provocou uma resposta engraçada: então não interessa.
Quando a gente lembra do Congresso Nacional, onde Tancredo, Ulysses, Montoro e tantos outros líderes de todas as tendências transitavam, reuniam, concordavam, discordavam, debatiam, disputavam, e vê hoje, Mùcio, Renan, Sarney, Collor, Mercandante, Ideli, Jucá, Wellington, Paulo Duque, Gin Argelo e… …. …., dá vontade de vomitar. Nem o Fluminense foi tão rebaixado quando caiu para a série C. Será que um dia vamos dar a volta por cima? Voltar para a série A? Espero que a saída de Lula e o desmanche da quadrilha que o cerca possa proporcionar a realização desse sonho. Prefiro mil Tancredos regados a uísque que um Lula a cachaça.
Marco Silva
-28/07/2009 às 10:16
O Baú de Presidentes é talvez a leitura mais leve e gostosa que podemos encontrar na internet.
Esse lado de mais divertido da política, com os bastidores do poder é interessantíssimo. E, claro, várias vezes engraçado.
Para mim, este pedacinho do blog é tão bom quanto o Direto ao Ponto. Claro, cada um em seu objetivo.
José Rubenildo
-28/07/2009 às 9:27
É sempre muito gratificante ler sobre o nosso Tancredo Neves. Minas Gerais se orgulha muito de sua vida política. A lição de sagacidade de Tacredo estimula ainda hoje muitos “novos” políticos, que ostentam aquela sua esperança no desenvolvimento e crecsimento do Brasil. Excelente trabalho esse de exaltar a figura de pessoas que tiveram importante papel na história do Brasil.
Augusto Nunes
-28/07/2009 às 1:15
De pleno acordo, caro F Tavares. Contei o caso que ouvi do Thales Ramalho para mostrar a sagacidade do Tancredo. Ele tinha incontáveis qualidades, como pretendo deixar claro nos próximos textos. Merece ser lembrado com respeito e admiração.
um abraço.
f tavares
-28/07/2009 às 0:59
posso imaginar as reações à reportagem sobre o presidente tancredo. não tenho procuração pra afirmar isso, mas será ótimo se entendermos a picardia do político mineiro de antigamente, como uma lição de vida, de história contemporânea, de boas maneiras, de sagacidade. conhecia como ninguém as malandragens da política e seus personagens, um leão de um metro e sessenta que não se deixava levar na conversa, sabia como se proteger das pressões e foi um player vencedor no jogo político. ninguém pode negar ao velhinho o mérito de ter sido sempre parte da solução, e não do problema.
Augusto Nunes
-27/07/2009 às 23:15
Gratíssimo, caro Marco. Vou corrigir imediatamente.
abraço,
MARCO LOSS
-27/07/2009 às 22:58
Pequena correção, q não muda nada a ‘magna aula’: Thales foi deputado federal desde 67.
Abços.