Coluna do

Augusto Nunes

Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido.
E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido.

O paciente rebelde sai pela rua, finge que é outro, berra na geral e ameaça divulgar o que guardou sobre Sarney

10 de julho de 2009

Figueiredo

Capítulo final

O GRANDE DESFECHO DA NOITE DAS ARÁBIAS

Numa ofensiva fulminante e exemplarmente sincronizada, meu amigo Carlos Maranhão ocupa a cadeira à esquerda da reservada ao ex-presidente João Figueiredo enquanto me instalo do lado direito. Estamos infiltrados na mesa principal. Georges Gazale parece cada vez mais inquieto com a loquacidade do homenageado.

─ Este moço é editor da Playboy e este é diretor da sucursal do Jornal do Brasil ─ especifica o anfitrião, acionando pela quarta vez o sinal amarelo.

Pelo jeitão indiferente, Figueiredo nem ouviu. Não está interessado em saber quem está na platéia, muito menos o que faz na vida. Está interessado em retomar a incursão pelo mundo dos jalecos que desafia, dos conselhos que ignora e das proibições que atropela.

─ Parei de fumar, mas não de cavalgar ─ informa a voz rouca. ─ Quando dói a coluna, falo um palavrão e  melhora.

Instruído para percorrer 4 quilômetros por dia, driblou o médico com a ajuda do dicionário.

─ Descobri no Aurélio que o verbo percorrer não quer dizer que o percurso deve ser feito a pé ─ diverte-se. ─ Pode ser de moto. Ou a cavalo.

Em seis anos de governo, o paciente rebelde levou frequentemente ao limite da paciência os médicos incumbidos de zelar pela saúde do presidente.

─ O doutor Newton Mattos, que era cardiologista, gostava de tirar a pressão toda hora, até no meio de uma conversa ─ exemplifica. ─ Quando vi que era assim, chamei o cara de lado e avisei que ele seria demitido no dia em que a pressão passasse de 13 por 8.

Oficialmente, nunca mais passou.

─  Médico quer que a gente renuncie a tudo ─ está ficando bravo. ─ Para não ter colesterol, o sujeito precisa abrir mão de tudo o que dá prazer. E eu não resisto a um leitãozinho pururuca.

Acaba de lembrar que, ainda presidente, recebeu pelo correio um panfleto publicitário que considerou especialmente engenhoso.

─ Era a progaganda de uma agência funerária ─ o narrador se entusiasma. ─ Começava explicando o que a gente deve fazer para não ter problemas com o colesterol: não pode isto, não pode aquilo. Em seguida dizia que, se alguém quisesse fazer o contrário do que era recomendado ali, deveria ligar para o número tal e reservar um túmulo.

Achou a peça publicitária tão criativa que telefonou para o dono da funerária, identificou-se e cumprimentou pela ótima idéia o comerciante perplexo. Mas não fez a reserva:

─ Expliquei que salário de presidente não dava para aqueles preços, eram muito salgados.

Gazale aparteia para avisar que o bom humor do amigo tem tudo a ver com os resultados dos exames.

─ Estou contente porque me sinto como quem sai da cadeia ─ corrige o general da reserva.  ─ Aquilo é pior que prisão.

“Aquilo” é o Palácio do Planalto.

─ Estão com saudade de mim, mas nem 50 japoneses conseguiriam me arrastar de volta para Brasília ─ delira Figueiredo antes da vírgula e exagera depois.

Como também o apartamento em São Conrado parece gaiola, prefere caminhar na orla. Está ficando difícil, murmura.

─ É só sair na rua e já aparece alguém querendo cumprimentar, conversar. As pessoas me abraçam, dizem que está na hora de voltar, me aplaudem, essas coisas.

Admite que a unanimidade já foi desafiada. Mas só uma vez:

─ Um desconhecido começou a me dizer desaforos. Não sou de levar isso para casa. Então,  soltei-lhe um tapa na cara.

E há os que não acreditam no que estão vendo.

─ Esses perguntam se eu sabia que sou muito parecido com aquele cara que foi presidente ─ ri. ─ Digo que sou outro e conto ao sujeito que essa semelhança vive me causando aborrecimentos.

Gostou tanto do truque que agora usa todos os dias. Usara-o semanas antes para torcer em sossego no Maracanã. Quando percebia algum olhar de curiosidade, nem esperava que a pergunta viesse: ia logo avisando que não, ele não era quem o parceiro de torcida pensava que fosse.

─ O bom é ver futebol na geral ─ diz. ─ A gente fica discutindo à vontade, brigando, berrando palavrão. É muito mais gostoso.

Embora insatisfeito com o governo do presidente José Sarney, não pretende espalhar mais pedras pelo caminho do sucessor.

─ O que estou vendo de burrice por aí é uma grandeza, mas não quero sair por aí com declarações e entrevistas ─ franze a testa. ─ Aliás, nem preciso de entrevista. É só colocar no bolso uns papéis que guardo comigo e mostrar de repente o que está escrito neles. No dia que for preciso, eu mostro. O Sarney veria o que é bom…

No meio da madrugada, despedi-me pensando nos papéis. Mais de 20 anos depois daquela noite das arábias, 10 depois da morte de Figueiredo, estou agora imaginando o que diziam aqueles escritos. E me perguntando se o senador José Sarney sabe do que escapou.

11 comentários

  1. carlos disse:

    Caro Augusto.Permita-me procurar saber se nos dias de hoje em que o País esta procurando sair de uma creise,vem nosso governo falar na televisão que pressisamos nos armar por causa da descoberta do Pré-Sal vejamos que temos tantas priridades em SANEAMENTO BASICO,que realmente fico triste com a preocupação do nosso governo acompahando o colega VENEZUELANO,hugo chaves,nesta corrida armamentista,não seria mais producente,investir em saúde e educação,pois aí fico a pensar que para acalentar o presidente franês parte nesta corrida desenfreada.

  2. Cassia disse:

    Uma frase do J.B.Figueiredo que com certeza nunca irei me esquecer, e que ultimamente ela vive ativa na minha memória….foi quando ele disse no final da “ditadura” (viviamos realmente em uma ditadura?? tenho cá minhas dúvidas) “”"- Hoje nos militares, estamos devolvendo a democracia para o Brasil, mas daqui há 15 anos voces vao nos pedir para voltarmos”"”!!!Se a tal “democracia” é este rouba rouba geral nos cofres públicos, um presidente da república que nao respeita a legalidade e que nunca sabe de nada, esta violencia continua nas grandes metropoles, este senado corrupto, na qual nao se salva nem o porteiro, estes traficantes que tomaram conta dos Morros do Rio e das favelas de SP……sinceramente meus amigos, posso dizer sem me arrempeder “Que saudades dos militares”!!!!!

  3. vera husadel disse:

    outra vera pode plagiar?
    Tb sinto falta de um bom porão para conversar com os Sarney’s.
    Mas por que o Figueredo não conta loga, por que precisa valorizar seus conhecimentos?
    Pronto, já está desmoralizado: ou conta logo ou manda tb pros porões que tanto devem agradar o Protogenes.

  4. Humberto Nogueira disse:

    A série dos ex-presidentes está demais!
    Li todas de uma vez e queria mais. Maravilhosa a descoberta dessa coluna.
    Parabéns.

  5. Vera disse:

    Caro Amigos

    Estou sentindo uma falta dos militares!!!!!!!!pq será???????

    Vera

  6. Paulo Mota disse:

    Caro Augusto. O espaço é para comentários ao texto sobre o Figueiredo, mas uso para falar do artigo do Jânio, aquele em que relata sua bebedeira com o ex-presidente. Recordou-me história semelhante, ocorrida na mesma época, quando eu era reporter do jornal A Tribuna, de Santos, e costumava participar de entrevistas na casa dele, em Guarujá.Certa vez, meu chefe de reportagem- veja você a pretensão- cismou que iria tirar do Jânio os segredos da renúncia usando a seguinte estratégia: com uma tropa de jornalistas bons de copo, faríamos uma entevista com ele, dar-lhe-íamos um fogo monumental e arrancar-lhe-íamos os mistérios, aproveitando o que seria inevitável ( na previsão de meu editor): o descontrole mental do homem da vassoura. Eu, que não bebo, seria o responsável pelas anotações e observações gerais, enquanto meu editor e mais dois colegas repórteres, famosos por beberem até nitroglicerina sem perder o equilíbrio físico, nem o autocontrole, iriam derrubando o homem. Não é preciso dizer que, ao final de umas duas horas, saiu todo mundo trôpego da casa, cuja piscina, não sei se você lembra, era em forma de “J” . Não foi possível fazer reportagem nenhuma e o segredo da renúncia- se é que existe- continuou segredo.

  7. luiz disse:

    Desculpe prezado Augusto, mas esse nosso amigo Hugo Werneck, do dia 11,41 hs., merece um premio pela maneira como resumiu seus sentimentos em face de tudo que acontece em nosso País. Com sua licença e a dele, faço dessas palavras as minhas.

  8. Moraes disse:

    Cara, acordar e lê teus textos faz bem a saude, carajo… Só tá faltando alguns sobre o “omi” do topete né? Akele de Juiz de Fora… tu sabe quem é…
    Tô mandando e-mail pra tu e volta tudo. Preciso de um endereço pra mandar meu livro e… nada…
    abs
    Moraes
    http://www.historiadetorcedor.com.br

  9. marcos luís disse:

    Que falta fazem sujeitos como o Figueiredo. Homem de fraquezas e grandezas, mas homem comprometido com o Brasil.
    Não um canastrão que precisa de um publicitário antes e depois de cada declaração, para dizer o que todo mundo quer ouvir, como os presidentes chamados “democráticos” . A atual ditadura de criaturas midiáticas que espelham e potencializam a falta de caráter do povo vai demorar dez vezes mais para ser derrubada. Até 2200!

  10. Raquel Amaro disse:

    A história é hilária e o texto está primoroso. Qual é mesmo o próximo presidente que sairá do baú? Itamar? Ai Meu Deus!

  11. Hugo Werneck disse:

    Augusto,

    Realmente a democracia não é um sistema perfeito mas, infelizmente, é o menos ruim. Mas poderia ser melhorado, caso a bandidagem permitisse. Mas, claro, eles são corruptos mas não são burros. Aliás, acho que a burrice é incompatível com a corrupção. Mas voltando aos problemas do regime, é só ver o que tem ocorrido nos últimos anos. Centenas de homens públicos, foram denunciados nos últimos anos e, a não ser breves passagens por alguma carceragem de alguns poucos como Maluf, José Reinaldo Tavares, Barbalho, nada mais acontece. Veja os parlamentares do mensalão, Zé Dirceu à frente, todos estão gozando as delícias do dinheiro surrupiado e NADA ACONTECE.
    O presidente João Figueiredo, que primou pela grossura e falta de educação, além da fama de corajoso, insinuou claramente que teria “nitroglicirina pura” contra Ribamar. E o que fez? Se omitiu, preferiu ficar calado. Sabem por que? Porque, mesmo sendo um ex-presidente, a sua palavra seria logo desqualificada por algum pilantra. Logo viria um advogado, daqueles defensores de presos políticos, para “provar” que tudo não passou de uma “questão política”, um dos mais usados sinônimos para a corrupção que grassa nesse meio. Ribamar diria logo, não sei e nunca vi.
    Talvez esteja me tornando, depois de velho, um anarquista e isso me dá um certo prazer e me libera daquela odiosa dicotomia do totalmente bom e totalmente ruim. Por exemplo, seria injusto dizer que Lula é um cara totalmente ruim. Afinal, uns dois palmos acima da cabeça e um ou dois abaixo dos pés, ele até que é aceitável.
    A verdade é que estou cansado do tal amplo direito de defesa, do registro de candidato com ficha menos limpa que poleiro de pato e dos “transitados em julgado”.
    Uma das faces que mais me desagrada no regime democrático escrachado em que vivemos é ver um Arthur Virgílio denunciar o Ribamar, sendo tão pilantra quanto ele e depois jogar pra debaixo do tapete as suas vigarices. Vou parar por aqui porque a sujeira é incomensurável e esses vigaristas continuarão a saquear os cofres públicos e depois, como fez Suplicy e mesmo Virgílio, dizerem que vão devolver o dinheiro desviado. Mas e aí? Se um ladrão de galinha devolver a penosa estará perdoado? Pro que eu ganho já está bom.

    Abraço

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