04/05/2009
às 21:30 \ Baú de PresidentesO dia em que bebi com Jânio

Jânio usa o dicionário para ensinar alguma coisa ao colunista
Parte 1
A fera do Guarujá
─ Eu não disse? ─ ouvi meu pai dizendo em outubro de 1960.
Depois daquele comício em que Jânio Quadros comeu um sanduíche de mortadela no palanque, o prefeito Adail Nunes da Silva tinha dito que o homem seria presidente da República. E repetiu nos dois anos seguintes a profecia que acabara de ser confirmada pelas urnas.
─ Eu não disse? ─ ouvi minha mãe dizendo em agosto de 1961.
Depois daquele jantar em que Jânio lhe pediu um sanduíche de mortadela depois da sobremesa, dona Biloca tinha dito que o homem era maluco. E repetiu durante os sete meses de governo o diagnóstico que, disso ela não tinha dúvida, a renúncia à Presidência acabara de ratificar.
─ Eu não disse? ─ ouvi o repórter Jomar Morais dizendo em maio de 1980, sentado no banco traseiro do fusca que subia a Via Anchieta.
Em companhia de Jânio desde a madrugada, ele estava no jardim da casa de praia no Guarujá quando cheguei com o fotógrafo Pedro Martinelli, no começo da tarde, para a segunda etapa da reportagem de capa da edição 613 de VEJA.
http://veja.abril.com.br/acervodigital/?edicao=613&pg=16
─ Esse é do ramo ─ disse Jomar com cara de espanto e voz em surdina. ─ Está tomando todas desde cedo e continua inteiraço. É fera.
Devia ter entendido o aviso, penitenciei-me em silêncio ao lado de Jomar no carro, com Pedrão no banco do co-piloto, que escalava a Serra do Mar à noitinha de volta a São Paulo. Que o homem era bom de copo eu sabia desde 1958, quando o vi derrubar mais de meia garrafa de conhaque enquanto jantava. Mas achei que o tempo conspirara a meu favor. Quase 22 anos depois da aparição em Taquaritinga, ele já tinha 63, eu pouco mais de 30. Dá pra encarar, acreditei naquele 28 de maio de 1980. Foi o dia em que bebi com Jânio Quadros.
Jomar soube com quem estava lidando logo depois de apresentar-se a Jânio em São Sebastião, última escala da rota percorrida pelo cargueiro norueguês que o trazia da temporada de dois meses na Europa. O viajante resolveu descer para passear na cidade deserta às sete da manhã. Ele já fez o aquecimento no navio, deduziu o repórter ao ver o candidato a homem da capa beijar com a mesma animação uma septuagenária vestida decorosamente e uma jovem de biquíni, traje que baniu por decreto tão logo assumiu a Presidência.
Entre São Sebastião e Santos, enquanto Jomar bebia água mineral, Jânio traçou 20 latas de cerveja dinamarquesa. Era só o começo, mostraria durante o almoço. Entre garfadas no prato com arroz, feijão, bife e batatas fritas, o anfitrião derrubou seis copos americanos de caipirinha sem interromper a entrevista, sem perder em nenhum momento o ritmo e o rumo. “Quem bebe caipirinha enquanto come é craque”, observou Pedro Martinelli ao ouvir a informação sussurrada no jardim. E então Jânio Quadros apareceu na porta da casa, vestindo um slack preto.
Continuava alegre, avisou o sorriso. Continuava loquaz, avisou a discurseira durante os cumprimentos. E continuava sedento, avisou a pergunta formulada tão logo se acomodou por trás da mesa do escritório:
─ O que os senhores jornalistas vão beber?, quis saber, estendendo a mão para a garrafa de vinho do Porto na estante.
Pedrão já estava do lado de fora da casa, testando lentes e ângulos perto da janela da sala. Jomar pediu mais um copo de água mineral.
─ Uísque ─ caprichei na voz de frequentador de saloon.
O duelo do Guarujá iria começar.
Tags: Guarujá, Jânio Quadros, Jomar Moraes, Pedro Martinelli, reportagem de capa de Veja






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19 Comentários
Valentina de Botas
-03/11/2011 às 23:32
Boa noite, Augusto!
─ Eu não disse? ─ Confirmadíssimo: comecei a incursão Baú adentro há pouco mais de uma semana e comentei que a primeira e ótima impressão tendia a permanecer. Dito e feito, meu caro. Agradabilíssima, a viagem concluída não esclarece se estamos diante de um profissional brilhante se divertindo enquanto trabalha, de um homem correto fruindo a paixão por seu ofício, de alguém tão inteligente que consegue orientar sua genialidade inquieta para o crescimento profissional e aprimoramento pessoal. Ou se de tudo isso, hipótese mais provável. Numa demonstração eloquente de que o menino é o pai do homem, percebe-se, nos salões do poder, nas entrevistas com os poderosos, nos jantares com empresários e políticos graúdos, até mesmo nas bebedeiras, a radiosa aura do garotinho adoravelmente inquieto que não recuou perante a muralha humana na sala do dr.Adail, naquela noite primígena do longíquo agosto de 1958. Das frestas por onde espiou Jânio Quadros na sala de jantar do prefeito de Taquaritinga, abriram-se janelas pelas quais o prodigioso rapazinho contemplou o mundo que conquistaria numa vigorosa trajetória profissional, o mundo aqui exposto. Intricado; muitas vezes sórdido; surpreendente até quando previsível; arena de vaidades; de jogo jogado entre brutalidades e sutilezas, tal universo traduzido para o Baú do Augusto Nunes só poderia resultar neste lúcido e bem-humorado paranorama da história recente do país. Claro, pois quem está lá, costurando as histórias com argúcia incomum, brincando seriamente de viver? O profissional brilhante ancorado em sólida formação moral, o homem correto e apaixonado, a pessoa genial de maduro otimismo e o pai de todos: aquele encanto de menino danado. Do mesmo modo como desço o lenho naquilo de que não gosto – Lula e seu legado, por exemplo –, elogio entusiasticamente tudo aquilo de que gosto – você e seu trabalho, por exemplo. Que os patrulheiros, que veem exagero nesse entusiasmo, leiam mais isto: você e seu trabalho, por inseparáveis, são nada menos do que estupendos, Augusto, e têm a minha mais sincera, respeitosa e entusiasmada admiração! Com um beijo, Valentina.
Um beijo, Valentina.
Diogo Gianeri
-23/07/2010 às 20:26
Bem, Augusto, sorte a sua que o “bebedor” profissional era o Jânio, e não o Aureliano Chaves; já imaginou um búfalo daqueles com o teor etílico no teto??? Aí, acho que o título não teria o “quis sair no braço”, mas faria alusão ao ato consumado (por sorte, esportes e vícios não combinam; por vezes andam juntos, apenas); no mais, felicita-me a narrativa; Lula não será lembrado nem como o mais bebum!!Abraços!
Ri muito com o comentário, caro Diogo. Logo vou aparecer bebendo com o Collor. Má companhia, mas a história é boa. abração
José Simões
-27/04/2010 às 18:57
Caro Augusto;
Acho que o seu título foi: “Injustiça com um campeão”. A crônica discorria sobre algumas das bebedeiras do Jânio, ainda no JB, quando o Lula fora acusado de bebum por um jornalista americano. Fiquei rindo por vários dias. Abraços.
Foi isso mesmo, caro José Simões! Tinha esquecido, veja só. Vou procurar o texto. abração
jorginete da silva jordão
-24/06/2009 às 9:13
Fiquei emocionada e a paixão pela história
Augusto Nunes
-16/05/2009 às 10:10
Sai nesta segunda, Ilton. Não é desorganização nem falta de seriedade, não. É nisso que dá uma bebedeira com o Jânio.
abração.
Ilton Foltran
-16/05/2009 às 8:31
Está faltando seriedade ou organização ao blog. O terceiro episódio iria aparecer amanhã, depois sexta, e agora segunda!
Hugo Werneck
-10/05/2009 às 23:03
Meu caro Augusto,
Creio que você ainda não leu o Código da Vida, do nosso Forrest Gump tupiniquim, também conhecido como Saulo Ramos. Pelo que ele conta, nada existiu antes dele e creio mesmo que Jânio aprender a beber com ele, assim como o hoje vetusto e incansável José Sarney, Donatário das Capitanias Hereditárias do Maranhão e Amapá aprendeu a ser um “bom moço” que somente pensa no bem do povo, desde que tenham Sarney no nome. Assim, meu caro, preciso que você esclareça se a sua história e aSR ou dSR.
Augusto Nunes
-10/05/2009 às 14:36
O colunista informa que o histórico Duelo do Guarujá vai começar nesta segunda-feira, dia em que será sempre atualizada a seção Baú de Presidentes.
Nei
-10/05/2009 às 12:39
Cadê a sequencia? Procurei no site e não achei.
Francisco C.C. Duarte
-09/05/2009 às 9:11
A parte 2,a parte 2 ! Ainda bem que o reporter sobreviveu a esta aventura pois tem mais o que contar a respeito de gente no poder chegada ao trago. Pena Brizola ter morrido sem detalhar um episódio da campanha eleitoral feita em conjunto com um personagem atual em que afirmava que o mesmo saiu “em braços”do avião,tendo o “caudilho velho” recomendado cautela ao dito cujo.Parece que , como sempre,não foi muito levado a sério… Espero que naquela fauna toda tenha alguem coletando episódios para,nestes casos comuns de descontentamentos/rachas/traições que ocorrem no partido possa nos brindar com os mesmos.
Yara
-07/05/2009 às 11:18
Augusto,
A primeira linha da Carta ao leitor, da Veja, 1980, diz : “Jânio Quadros voltou novamente”.
Hoje, podemos dizer: — Que bom que o Augusto também está de volta.
Maravilha de relato. Conte mais, estamos aguardando.
Lydia Lupo
-06/05/2009 às 18:41
Caro Augusto,
Parabéns pelo retorno tão esperado pelos leitores da Veja.
É muito bom quando você “desce a ripa” em quem precisa; por outro lado, é também muito bom passear com você pelo passado através de suas histórias.
Conte mais, conte sempre, conte todas.
Um abraço saudoso.
Bob Bruza
-06/05/2009 às 10:29
Augusto, as constantes embriaguez de Jânio fê-lo esquecer de muitos atos que praticara. Consta que, num deles, depositou vultosa quantia em conta bancária no exterior e nunca mais se lembrou do local aonde havia depositado. A família até que tentou localizar o destino da bolada. Mas não conseguiu. Lamentável!
Orlando Silveira
-06/05/2009 às 10:18
Delícia, Augusto.
Parabéns pela inteligência e texto.
Agora, ao ponto: quando sairá seu livro sobre Jânio?
Grande abraço.
Orlando Silveira
Aluizio Amorim
-06/05/2009 às 3:48
Caro Augusto Nunes,
você é um craque. É disparado o melhor texto da imprensa brasileira. Por isso farei uma chamada especial no meu blog para esta sua matéria.
Grande abraço do
Aluízio Amorim
Emílio Menon
-05/05/2009 às 19:34
Você escreve bem pra cacete, rapaz. Parabéns pra v., parabéns pra mim, parabéns pra todos nós, sobreviventes destes bêbados trópicos.
Benvinda Gonçalves
-05/05/2009 às 19:29
Como nossos presidentes gostam de beber, não é mesmo. Vem um, vem outro, vem . . . sempre brindando a nós, brasileiros de boa vontade e tontos de tudo.
Luis Dinarte Holsbach
-05/05/2009 às 16:44
Tô até meio grogue só de ler esse pedaço. Imagina ler ou esperar até o fim, será o maior porre da minha vida!!!!
Marco Nunes
-05/05/2009 às 12:57
Não sei qual dos seus estilos eu mais gosto: se do político, descendo o sarrafo nos idiotas, ou das crônicas pessoais, falando das passagens deliciosas da vida da família e suas ramificações.
De qualquer maneira, é sempre um prazer….
(a parte triste vai ser ficar esperando o fim do duelo…rs….)
Beijo grande