A lista de Fachin ofuscou a agonia da Turma do Guardanapo

A história mostrou que os adereços, em vez de estarem presos na cabeça, fariam mais sentido abaixo dos olhos, como usavam os bandidos de faroeste

O barulho causado nacionalmente pela divulgação nesta terça-feira da Lista de Edison Fachin, documento assinado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal que oficializou a instauração de inquéritos contra dezenas de figurões da política, abafou uma boa notícia regional. Horas antes da revelação dos nomes, a prisão de Sérgio Côrtes, ex-secretário de Saúde do Rio de Janeiro no governo de Sérgio Cabral, comprovou a desintegração da Turma do Guardanapo, bando que saqueou o estado por mais de uma década.

Produzidas em 2009 no restaurante do Hotel Ritz, em Paris, e divulgada em 2012, as fotografias exibem um eufórico Sérgio Cabral, ao lado de políticos e empresários, todos com guardanapos amarrados na cabeça. O futuro mostraria que os adereços fariam mais sentido se estivessem presos pouco abaixo dos olhos, sobre o nariz e a boca, à maneira dos vilões dos velhos faroestes.

Menos um – A relação nebulosa entre Fernando Cavendish, dono da construtora Delta, e Cabral começou a ser exposta em junho de 2011, com a queda de um helicóptero na Bahia. No acidente, morreram Mariana Noleto, namorada do filho do então governador, Jordana Kfuri, mulher do empresário, e mais quatro pessoas. Cabral e o filho Marco Antônio por pouco não embarcaram na aeronave. A turma estava na Bahia para a festa de aniversário de Cavendish.

Embora a empreiteira tenha sido responsável por algumas das principais obras do governo fluminense, Cabral rechaçava as acusações de que a amizade entre ele e Cavendish tivessem alguma relação com a multiplicação dos contratos da construtora, que viveu seu auge entre 2006 e 2011. Em 2010, o faturamento da Delta foi de R$ 3 bilhões.

Um ano depois, a prisão de Carlinhos Cachoeira revelou que a Delta repassava boladas de dinheiro às empresas fantasmas do bicheiro goiano. Segundo o Ministério Público Federal, Cachoeira seria um sócio oculto da Delta. Apesar de todas as evidências, Cavendish foi encarcerado só em julho de 2016, na Operação Saqueador, que prendeu suspeitos de envolvimento em um esquema de lavagem de R$ 370 milhões desviados dos cofres públicos.

Menos dois – Em novembro do ano passado, chegou a vez de Sérgio Cabral. Batizada de Calicute, a operação que prendeu o ex-governador investiga o desvio de mais de R$ 220 milhões em obras públicas. O patrimônio ilegal do “Tio Patinhas da Corrupção” – como definiu Fernando Gabeira -, inclui ainda diamantes e ouro guardados em dois cofres alugados na Suíça, além de milhões em joias. As provas mostram que o ex-governador é um dos maiores ladrões da história do país.

Menos três – Nesta terça-feira foi a vez de Sérgio Côrtes. Preso na Fatura Exposta, mais um desdobramento da Lava Jato no Rio, a operação investiga fraudes em licitações para o fornecimento de próteses ao Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into). Segundo a delação de Cesar Romero Vianna, ex-subsecretário executivo da Secretaria e ex-assessor do Into, Cabral ficava com 5% do valor arrecadado. Côrtes com 2%, Romero com 1%, o Tribunal de Contas do Estado também com 1% e o 1% restante ia para a manutenção do esquema.

Os investigadores afirmam que, entre 2006 e 2017, os desvios chegaram a R$ 300 milhões. Conforme calculou uma reportagem publicada pelo UOL, com este dinheiro seria possível construir 300 postos de saúde, 278 Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou bancar o Hospital da Clínicas, o maior hospital público de emergência da América Latina, por mais de um ano.

O outro integrante da Turma do Guardanapo que aparece na foto que ilustra o post é Georges Sadala. Ainda em liberdade, ele participa do consórcio responsável pelo programa Rio Poupa Tempo, que oferece mais de 400 serviços aos fluminenses. Em 2012, época da publicação das fotos, ele havia recebido, desde 2008, R$ 56,8 milhões do estado. Em dezembro de 2016, o colunista Lauro Jardim revelou que Sadala acabara de comprar um apartamento de 600 m² no edifício Cap Ferrat, o mais caro da Avenida Vieira Souto, em Ipanema – e que o empresário estava entre os citados por Cavendish em sua delação premiada.

Pelos números, era quase um sonho ser um dos integrantes da Turma do Guardanapo. Desde o início da Operação Lava Jato, tornou-se um pesadelo.

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  1. Juca Leiteiro

    Perguntinha básica. A festa do guardanapo realizada na França foi para zombarem do de Gaulle?

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  2. Claudio Stainer

    Quando se usava papel contínuo para impressoras o record em 2010, de um estelionatário, media 540 metros de indiciamentos. O Lüladravaz conseguiu aplicar o 171 na capacidade empresarial brasileira como um todo. Merecia uma erma e uma taça de , pelo menor, 5 metros, cravejada de diamantes e receber o prêmio usando uma toga pulla com o tecido pintado com a cor púrpura extraída do gastrópode Murex. . Jamais aparecerá outro na história. Ele é o maior enrolador do Mundo! Creio que os nossos empresários, com os seus “deplomas” de toda Ivy League, deveriam devolver o canudo para as Universidades. Ou usar para limpar…

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  3. Sou q favor de anistiar todos com uma condição: desviou um centavo ou favoreceu uma empresa por centavos: – Pena de morte!

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  4. Alberto G Filho

    Caro Augusto.
    Nesse espanto causado até agora com a lista do ministro Fachin, não posso deixar de fazer a seguinte pergunta: Por que a ausência do pilantra que “governou”a Bahia por dois mandatos? Onde está o Jacques Wagner?

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  5. Claudio Stainer

    O conteúdo programático da USP vai mudar. O princípio da produção será capital, matéria prima, energia, trabalhador economicamente mobilizável, tecnologia e Lula, em substituição à Capacidade Empresaria, que não mais tem razão de existir .

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  6. Vlady Oliver

    ENTÃO FALA DO QUE VOCÊ NÃO SABE…
    Acho que o Valdo, comentarista do canalzinho vermelho de notícias, foi muito infeliz ao afirmar que “está cansado de conhecer gente que quer lisura na política e faz campanha eleitoral recebendo por caixa 2”. Parece que ele se esquece que a empresa onde ele trabalha é uma das campeãs em oferecer este tipo de mão de obra técnica “não contabilizada” – editores de imagens, redatores, roteiristas, repórteres – para este tipo de trabalhinho sujo, não é mesmo? Eu fiz muita campanha política na vida. Fiz para o Mário Covas e para o José Serra. Jamais recebi um centavo de caixa dois de ambos e dos comitês de campanha de ambos, o que não significa que a prática não existisse ou não fosse do conhecimento dos candidatos envolvidos. Não há motivos para o corpo técnico de uma campanha estar envolvido neste tipo de falcatrua. O caixa dois entrava numa campanha de um outro modo, pagando dentaduras, laqueaduras e milheiros de telhas para os compadres eleitores, ou ainda pagando o “tempo ocioso” em que uma equipe desse nível não tinha emprego na iniciativa privada. Ou “aliciando comunicadores” para falar bem do candidato Brasil afora. Ou seja: o trabalho honesto era remunerado honestamente. O que me chama a atenção é uma outra coisa; apesar de participar de equipes vitoriosas em todos os pleitos em que fomos contratados, fomos sendo chamados cada vez menos para o embate, lentamente sendo substituídos pelos colegas mais bandidos. Nunca mais fiz campanha política. Perdi dois clientes não políticos, mas agentes públicos, no começo das investigações da Lava Jato por um motivo insólito: eles exigiam minha presença física nos locais de trabalho e nenhum contato telefônico. Achei por bem reduzir meus proventos à metade, mas continuar dormindo de noite. Acho que fiz a escolha certa. Calaboca, Valdo !!!

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  7. Viveram como nobres sangue azul, não é à toa que o Rio já foi a capital do império. Ainda bem que os ares estão sendo renovados pelos furacões das operações da PF e que muito mais grana seja devolvida ao estado falido, em benefício do povo explorado e maltratado de lá. Bandoleiros, mesmo, com os guardanapos no lugar errado. O país está assolado por tanta “nobreza” com lenços nas caras de pau. Rs

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  8. A polícia federal pode levar todos da assembléia legislativa do Rio, juntamente como já fizeram com os conselheiros do tce.todas essas excelências ganham pra fiscalizar o executivo e mais nada. E pra facilitar quem for na assembléia pt e pmdb não precisa nem de mandado judicial, pode levar todos pra fazer companhia ao Sérgio Cabral. Há! Não esquecer que tem que municipalizar as investigações no Rio de janeiro.

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