‘Lá’, um texto de Noemi Jaffe

TEXTO PUBLICADO NA REVISTA SERROTE DE MARÇO Noemi Jaffe* Minha mãe, que é húngara, quando fala comigo ao telefone e diz que vem até minha casa, fala assim: “Estou indo pra lá”. Ela, no Brasil há 60 anos, não conseguiu aprender a especificidade do termo “aí”, o que a faria dizer: “Estou indo aí”. Aí […]

TEXTO PUBLICADO NA REVISTA SERROTE DE MARÇO

Noemi Jaffe*

Minha mãe, que é húngara, quando fala comigo ao telefone e diz que vem até minha casa, fala assim: “Estou indo pra lá”. Ela, no Brasil há 60 anos, não conseguiu aprender a especificidade do termo “aí”, o que a faria dizer: “Estou indo aí”. Aí é o aqui do outro: um advérbio muito sofisticado e bem brasileiro, de difícil apreensão por um falante não nativo. Portadores do aqui do eu e do aqui do outro, para nós o “lá” fica reservado para usos e significados que considero, de forma chauvinista, mas amplos e poéticos do que, por exemplo, o there ou o do francês, que estranhamente também é “aqui”. Ao lá, em português, dispensado de ser o aqui do outro, ficou reservada uma distância que é, e ao mesmo tempo não é, indicativa. Lá pode ser um lugar determinado, mas também é, simultaneamente e sempre, um lugar incerto, todo ou nenhum lugar, uma distância física e imaginária, um lugar solto e sozinho no espaço e também no tempo. Afinal, se não fosse também uma indicação de tempo, por que dizemos “até lá” referindo-nos a uma data? Porque é, misteriosamente, um lugar no espaço e no tempo. É ─ para onde as coisas vão e de onde as coisas vêm, e ao dizer “até lá” é como se pudéssemos finalmente, como promessa e como cumprimento, por uma vez, alcançá-las. Quando chega o momento de cumprir o “até lá”, quando aquele vira agora e aqui, estranhamente o permanece intacto, uma fonte inexaurível que não cessa de se distanciar. Se não fosse assim, por que então, em vez de simplesmente dizer “não sei”, dizemos muito mais enfaticamente: “Sei lá”? “Sei lá” é não sei e não quero saber. É uma declaração de que meu interesse pelo assunto está e de não vai sair. Foi para ; portanto, não vai voltar. O contrário disso, entretanto, é a expressão “linda, lá vou eu”, indicando, agora sim, um desejo potente e confiante de, nesse caso, ir para . “Lá vou eu” é o enfrentamento de um desafio, é um aqui e agora carregado de , portanto mais nobre e temerário. A própria inversão da frase ─ lá vou eu, em vez de “eu vou lá” ─ já empresta nobreza e coragem ao sujeito que lá vai. É como um “seja o que Deus quiser” laico, cujo resultado é, no mínimo, engrandecedor. Quem diz e realiza a promessa do “lá vou eu” pode dizer que esteve . Gertrude Stein, enriquecendo a pobreza do inglês, pelo menos nesse sentido, diz que não ficaria nos Estados Unidos,  porque “there is no there there”. É verdade. O inglês, forçado ao pragmatismo, perdeu o sentido longínquo e incognoscível de um there maciço, inexpugnável. There se tornou simplesmente o contrário de here, deixando de compreender a beleza de uma expressão como there is, para querer dizer somente “há”. Em português, felizmente, além do “há”, também mantivemos o “lá está”. Penso que uma tradução totalmente não literal, mas de alguma forma fiel a “there is no there there”, poderia ser “lá lá lá”, não só porque ela mantém os três “lás”, mas principalemte porque ela diz, de forma bem brasileira, que aqui ainda há . Talvez seja porque é também uma nota musical. Sempre me lembro da tradução da canção do filme A noviça rebelde, em que ela ensinava aos filhos do sr. Von Trapp as notas musicais. Para o lá, em português, a letra dizia: “Lá é bem longe daqui”. Em inglês é “a note to follow so”. Quero que seja para sempre bem longe daqui e que fique mantido naquele lugar que está perfeitamente traduzido na piada dos dois caipiras, que veem pela terceira vez um elefante voando bem alto no céu, em direção ao leste, e então um deles diz: “Acho que o ninho deles é pra lá”.

*Noemi Jaffe é escritora, professora de literatura e crítica literária. Escreveu Todas as coisas pequenas (Hedra, 2005), Do princípio às criaturas (USP, 2008), Folha explica Macunaíma (Publifolha, 2001), entre outros. Mantém o blog Quando nada está acontecendo.

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  1. Comentado por:

    Mauro Pereira

    Caro Augusto Nunes.
    A competência na evolução do texto e o notável conhecimento da língua portuguesa da articulista são inquestionáveis. Mas caro amigo, não é crítica, não, até mesmo porque eu não estou autorizado intelectualmente para fazê-la, mas a Dona Noemi deu um nó no meu cerebelo. Minha cabeça tá doendo!
    Me sinto hoje, como sempre me sinto aos sábados à noite. Completamente lesado. Na metade da leitura eu já estava beudinho.
    Um artigo magistralmente bem entabulado como esse, tem para o meu cérebro, em avançado estado de decomposição, o mesmo efeito que o FHC tem para o Lula. É kriptonita pura!
    Rapaz, até agora eu não sei se estou aqui ou se já fui pra lá. Sei menos ainda se este aqui é o meu. Se não for, antecipadamente peço desculpas pela apropriação indevida. Talvez eu já esteja lá, ou si, ou dó. Será?
    Eu sou banguela e querendo me mostrar para umas visitas que estavam aqui em casa me meti a ler em voz alta o tal de “there is no there there” e minha netinha, na inclemência dos seus quatro aninhos, rolou pelo chão da sala tirando o maior sarro da minha cara!
    Quer saber de uma coisa, é melhor prevenir do que remediar. Vou parar com essa desgraceira antes que um ovo de elefante caia na minha cabeça!

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  2. Comentado por:

    Vânia Cavalcanti

    Olá, Augusto!
    Que texto maravilhoso! Daqueles em que o encadeamento das palavras vai embrulhando o sentido de um jeito e, quando o desembrulhamos, ele nos surpreende se revelando outro. De fato, como professora de português para estrangeiros, constatei a dificuldade dos alunos em “desembrulhar” os sentidos de “aí”. Certa vez, um aluno muito inteligente, croata, me perguntou quando é que se poderia dizer “eu estou aí” já que ele ouvira “não estou nem aí”. O “lá” que encanta Noemi Jaffe, hoje vilipendiado no triunfo do “toma lá, dá cá”, é mais uma das muitas joias do tesouro inesgotável que parece ser a nossa língua, mas em cujo baú nós, às vezes, não conseguimos encontrar a mais preciosa delas – aquela palavra certeira, naquele determinado momento, para aquele pensamento ou sentimento já conscientes e que nos interpelam em busca de uma forma. Um abraço
    Um abraço, Vânia.

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  3. Comentado por:

    isaura

    Advérbio de Entreatos – Lula a 30 dias do poder. Tá tudo lá, mas o tempo é aqui. João Moreira Sales é um dos melhores documentaristas. Imagens inconscientes ou erro da culatra do berro.
    Elementar meu caro, dizem que Conan Doyle não escreveu , mas ficou melhor. A ciência analisa e elabora metodologias. Travessuras ou doces. Quando não tem mais salvação, vem Lula na defesa. Juntando as fatias. Todo filme de western, ou quase todos ou em alguns – não importa – faz parte da receita do filme – sempre haverá a barbearia. Coppola aproveita essa herança mítica dos filmes e cria uma nova cenografia, tem barbearia no poderoso chefão. Variantes,amantes e berros.
    Os Dons e Getúlio, o melhor do melhor de Lula no imaginário . Sentado na cadeira da barbearia – são medievais, fantásticas e medicinais, tanto quanto a dos dentistas mas são masculinas. Lula sentado na cadeira e bonito para a posse , numa barbearia qualquer, o Lula bonachão fala para câmara do jeito que os marqueteiros adoram e o barbeiro cinematográfico com a tesoura, tic tic , cortes mímicos, mudanças até mesmo para uma senhora de 70 .Aliais , também como nos filmes,uma mulher sempre grita alguma moralidade nesse ambiente que só os homens deixam um outro por a navalha no pescoço.

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  4. Comentado por:

    Inácio

    Augusto,
    texto pra lá de interessante, pra lá de hilariante e pra lá de inteligente.
    Obrigado por nos apresentar a Noemi.

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  5. Comentado por:

    Wilson Vaccari

    Mas que terno, terníssimo texto. Já me apaixonei eternamente por Noemi Jaffe.

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  6. Comentado por:

    Alline

    Amei o texto! Começou me lembrando de uma crônica do Veríssimo sobre o “pois sim” e o “pois não”, mas acabou se mostrando ainda mais interessante. Vou procurar mais material dela para ler.

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