‘Amplia-se o campo da oposição’, um texto de Sergio Fausto

Publicado no Estadão deste domingo SERGIO FAUSTO Dissidências são um problema para quem está no poder. Exemplos disso não faltam. O fim do reinado de 70 anos do Partido Revolucionário Institucional (PRI), no México, iniciou-se quando uma dissidência à esquerda lançou candidato próprio nas eleições presidenciais de 1988. Os sucessivos governos da Concertación, no Chile, […]

Publicado no Estadão deste domingo

SERGIO FAUSTO

Dissidências são um problema para quem está no poder. Exemplos disso não faltam. O fim do reinado de 70 anos do Partido Revolucionário Institucional (PRI), no México, iniciou-se quando uma dissidência à esquerda lançou candidato próprio nas eleições presidenciais de 1988. Os sucessivos governos da Concertación, no Chile, entre 1990 e 2009, interromperam-se por igual razão. Aqui, no Brasil, o governo de Fernando Henrique Cardoso começou a perder a sucessão quando se rompeu a aliança entre PMDB, PFL e PSDB, em 2001.

Ainda é cedo para prever os reflexos eleitorais da aliança entre Eduardo Campos e Marina Silva. Mas já é possível dizer que se abriu uma dissidência que ameaça a reeleição de Dilma Rousseff. Não se trata de um evento menor. Campos e Marina são as duas novas lideranças políticas mais expressivas do bloco de forças que se reuniu em torno da candidatura do ex-presidente Lula em 2002 e 2006.

Não será simples combinar a “sustentabilidade” de Marina com o “desenvolvimentismo” de Campos, tampouco o “utopismo” dela com o “pragmatismo” dele. Não estamos diante, porém, de uma dupla de amadores. Quem supunha que Marina se enquadrava nessa categoria mudou de ideia depois da ousadia da aliança com o governador de Pernambuco. Foi um lance de mestre não apenas porque surpreendeu a todos, mas principalmente porque definiu um claro objetivo estratégico: pôr um ponto final na já longa permanência do PT no poder. Depois de sentir na carne a mão pesada do governo, pelas dificuldades criadas para o registro de seu partido, ela concluiu, como há muito já o fez a oposição, que a penetração do PT no Estado brasileiro alcançou um estágio perigoso para a vida democrática do País. “Mais quatro anos, não” – essa já era a mensagem implícita da candidatura de Campos. Coube a Marina, entretanto, pronunciá-la em alto e bom som político.

A ex-senadora empresta à aliança a legitimidade das “jornadas de junho”. Campos oferece a perspectiva de transformar a aliança na base de um governo viável, com apoio e interlocução mais amplos do que Marina poderia obter. Seria relativamente fácil para o governo neutralizar ambos isoladamente. Contra a ex-senadora pesaria o argumento de que o Brasil é um país complexo demais para ser governado por uma força incipiente, sem base parlamentar e quadros experimentados, à margem das correntes principais da política brasileira. Já a candidatura do governador se encontrava no divã político do ser ou não ser de oposição e ante a dificuldade de converter a alta popularidade em Pernambuco em maior intenção de votos no âmbito nacional. Juntos, Marina e Campos representam um desafio muito mais complicado para o governo.

Pela primeira vez desde que o PT ascendeu ao poder existe a possibilidade real de uma frente de oposições capaz de mobilizar as diversas insatisfações contra o governo e organizá-las em torno do objetivo de encerrar o ciclo político aberto em 2002. Partido mais bem estruturado da oposição, o PSDB vem com candidato novo para as eleições de 2014. O estilo agregador de Aécio Neves facilita em muito a formação dessa frente de oposições, seja quem vier a encabeçá-la num provável segundo turno. É sintomática a forma leve e amistosa como o senador reagiu à notícia da surpreendente aliança entre Campos e Marina, mesmo sabendo dos desafios que o fato novo coloca para a sua candidatura. Prova de inteligência política de quem confia em suas boas credenciais como ex-governador de Minas e tem o respaldo de seu partido.

A possibilidade de derrota do governo alargou-se no horizonte. Dilma tem a maioria dos partidos, o que lhe dará mais tempo na televisão, mas é uma maioria com cara velha. E que envelhece a olhos vistos à medida que se intensifica a disputa por cargos e verbas dentro do condomínio governista. Grande parte da energia do governo é consumida em reuniões políticas para fazer e refazer o quebra-cabeças das alianças eleitorais e do loteamento do Estado. Outra parte é destinada a medidas e anúncios que visam a dividendos eleitorais, atividade que se tornou frenética, com ajuda do twitter presidencial. O que sobra é dedicado à tentativa de reconquistar a confiança perdida com os insucessos do “novo paradigma de política econômica” e do “novo modelo de desenvolvimento”. Como a tentativa é atrapalhada e os ventos externos não a favorecem, o governo terá um balanço modesto a apresentar em 2014. E dificuldade para convencer que, sob a mesma administração, dias melhores virão nos quatro anos seguintes.

O eventual encerramento do atual ciclo de poder desobstruirá canais para a renovação da vida democrática brasileira. O PT tornou-se uma força conservadora. A lógica férrea da manutenção do poder freia o debate interno ao partido e limita as possibilidades de consolidação de novas forças no campo da centro-esquerda. A dissidência de Marina e Campos é uma resposta a esse cerceamento ativo. De igual forma, a denegação da gravidade específica do “mensalão” é sintoma de esclerose dentro do partido, embora a disciplinada ausência de crítica pareça sinal de força. A mesma lógica férrea da manutenção do poder estimula deliberadamente o auxílio à criação e proliferação de legendas de aluguel, a deterioração da política e das instituições do Estado e o amesquinhamento do debate público.

O possível retorno do PT à planície refletirá a formação de uma maioria em favor de fronteiras de separação mais nítidas entre Estado e governo, entre governo e partido, entre governo, partido e sociedade civil. No Brasil consolidamos algumas conquistas: democracia eleitoral, estabilidade, prioridade à inclusão social. Falta-nos uma República em que o Estado esteja a serviço da coisa pública e o fortalecimento da cidadania, definida como exercício efetivo de direitos e obrigações iguais para todos, seja a razão de ser da vida política. É um logo processo, sem um ponto fixo de chegada. Nesta etapa, avançar nessa construção requer a quebra da hegemonia do PT na política nacional.

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  1. Comentado por:

    roby

    Chega a ser uma piada — cruel — dizer que o PT chegou onde está por causa dos “quadros experimentados” de que dispõe. Por acaso na novilíngua lulopetista “canalha incompetente” mudou de nome? Pois não precisaram ir buscar um presidente do BC na oposição? Não temos o pior Ministério de todos os tempos?
    Contudo, quem sabe Eduardo Campos represente uma esperança sob outra perspectiva: já tivemos um jumento, estamos com uma mula; talvez o que esteja faltando é o bode para que o povo perceba que é preciso purgar a sala urgentemente. Chegaremos ao nadir sem haver passado pelo zênite — é a ruptura institucional que se faz necessária para recomeçar tudo do zero.
    Quem viver, verá.

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  2. Comentado por:

    marilda longo kestering

    Concordo com você Sílvia. As urnas eletrônicas não são confiáveis. Não vai adiantar irmos votar,pois esse bando de PTralhas vão fazer de tudo pra se manter no poder, até a manipulação das urnas eletrôcias.

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  3. Comentado por:

    wilsonrodrigues de oliveira

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  4. Comentado por:

    fpenin

    Quando a população de ratos cresce desmesuradamente, a natureza usa vários mecanismos para controlar a situação. Primeiramente, as fêmeas tornam-se inférteis, visando à diminuição do número de nascimentos na comunidade. Além disso, ocorrem epidemias -epizootias-, que dizimam as populações até haver um equilíbrio. Se mesmo assim perdurar a situação, alguns ratos entredevoram-se. Num determinado momento, o equilíbrio final acontece e a vida segue. Mutatus mutandis, é o que está começando a acontecer com os murinos petistas e seus aliados. É muito rato…

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  5. Comentado por:

    Marques

    Discordo do texto. Marina, Eduardo Campos e Aécio Neves NÃO SÃO oposição coisa nenhuma. São faces da mesma moeda. Os conteúdo programáticos dos respectivos partidos são, na essência, os mesmos. As promessas que ambos tem lançados são as mesmas. A única oposição existente será se o DEM lançar Ronaldo Caiado candidato a presidente.

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  6. Comentado por:

    Ferreira Pena

    Marina e Campos não representam nada novo na política brasileira. Esperar o que de dois comunistas, mesmo que não sejam designados assim? Mesmo que a oposição ganhe (pessoalmente espero que o Aécio seja o vencedor), o PT infelizmente continuará a mandar por aqui por muito tempo, tal o crescimento do partido. Quer dizer que o PT virou um partido conservador, mesmo sendo um partido revolucionário conforme seu estatuto? Não entendi nada!

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