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Arquivo de 1 de fevereiro de 2010

01/02/2010

às 21:46 \ Direto ao Ponto

Trapaceiros não poupam nem resultado de final de campeonato

Como em novembro os governadores voltariam a ser escolhidos pelo voto direto, a revista VEJA encomendou ao Instituto Gallup, em junho de 1982, a realização de pesquisas quinzenais em 10 Estados brasileiros. Na primeira, publicada em agosto, o quadro desenhado em Santa Catarina mostrou Esperidião Amin, do PDS, bem à frente de Jaison Barreto, do PMDB. “Alguma coisa está errada”, alertou-me um amigo catarinense. “As disputas aqui são sempre pau a pau”.

Transmiti o aviso ao presidente do Gallup, Carlos Matheus. Ele nem apagou o cachimbo. Entre  bonitas baforadas, dissertou sobre a moderníssima metodologia utilizada e sobre o mundo encantado da estatística. Na pesquisa seguinte, cresceram a vantagem de Amin e a multidão de catarinenses perplexos.  Matheus aumentou o tamanho da amostragem, mas os índices se mantiveram estáveis até a última pesquisa, divulgada em 27 de outubro. Com 50% das intenções de voto, Amin apareceu 18 pontos percentuais à frente de Jaison Barreto. Era esperar a abertura das urnas no dia 15 de novembro e correr para o abraço.

Faltou combinar com o eleitorado.  A apuração oficial confirmou a vitória de Amin, mas desmoralizou as pesquisas. O vencedor teve 838.150 votos e Jaison, 825.500. A diferença foi de 12.650, menos de 1% do total de 2 milhões de eleitores. Duas semanas depois, Carlos Matheus  contou-me que desvendara o enigma. Subornados por partidários de Amin, dois pesquisadores da região de Joinville, reduto eleitoral do PMDB, fraudaram sistematicamente os 24 formulários entregues ao Gallup a cada 15 dias. Quer dizer que duas dúzias de formulários adulterados fazem um estrago desses?, intriguei-me. Fazem, confirmou Matheus. Se é verdade que os indecisos tendem a votar no favorito, Esperidião Amin deve seu primeiro mandato a mim e ao Instituto Gallup.

Quase repetimos a façanha em 1985. Nesse ano, também os prefeitos das capitais voltaram a ser eleitos pelo voto direto, a VEJA voltou a contratar o Gallup, eu voltei a jogar em dupla com Carlos Matheus e a pesquisa voltou a colidir com as urnas, desta vez em Fortaleza. No levantamento divulgado em 30 de outubro, Paes de Andrade conseguiu 50% das intenções de voto. Metade do total de 750.000 eleitores, portanto, resolvera que o candidato do PMDB merecia governar a capital cearense.

Lúcio Alcântara aparecia em segundo lugar com 21%, Maria Luiza Fontenelle claudicava no terceiro com 10%. Coloquei Paes de Andrade no topo da lista dos que já deviam ter encomendado o terno da posse. Foi assim que o futuro fundador da República de Mombaça virou prefeito de Fortaleza por 15 dias. De novo, faltou combinar com o eleitorado. E o vitorioso nas pesquisas acabou surrado nas urnas por Maria Luiza Fontenelle.

O que houve agora?, espantei-me outra vez. E então ouvi de Carlos Matheus que o Gallup, por acreditar que a questão estava liquidada, havia encerrado em 1° de novembro as pesquisas de campo. No espaço de duas semanas, por insondáveis razões, dezenas de milhares de devotos haviam trocado de seita. Naquele dia, a desconfiança surgida em 1982 se transformou em descrença. Sim, existem pesquisas sérias. O problema é que nem todas são. E mesmo as feitas com seriedade não descobrem nada que o olhar atento de um bom jornalista não consiga enxergar.

Pelo que vivi e pelo que sei, não dou maior importância a pesquisas eleitorais (que o Gallup, aliás, deixou de realizar). Não perco tempo sobretudo com as realizadas a léguas do dia da eleição. Vi como são feitas. Nem desperdiço textos com institutos que  escondem nomes de candidatos, ou trabalham para o governo entre uma eleição e outra, ou servem apenas a um único patrão.

As fábricas de índices devem a sobrevivência à pesquisa de boca de urna, que  corrige os desvios colossais registrados nas anteriores. É que no dia da eleição os entrevistadores não perguntam em quem alguém pretende votar, e sim em quem votou. Pesquisa de boca de urna não faz sondagens. Faz constatações, e aí sim a estatística vira ciência. Malandramente, a avaliação do desempenho dos institutos se baseia no último levantamento. Se os resultados oficiais fossem confrontados com índices colhidos dias antes, quem encomendou as pesquisas poderia devolvê-las por defeito de fabricação e pedir o dinheiro de volta.

Brasileiros vigiam com muito mais rigor as coisas do futebol que as coisas da política. E nem os gramados escapam. É difícil acreditar que resultado de pesquisa esteja fora do alcance de trapaceiros que mudam até resultado de final de campeonato.

01/02/2010

às 20:45 \ Sanatório Geral

A arte da tradução (4)

“Ao sair da Presidência, Lula vai ter que se dedicar ao PT para transformar esse partido no dobro que tem hoje, chegado a 35% dos votos. Temos que fazer outra mudança no Brasil nos próximos 12 anos. Tem a Dilma, agora, e tem a volta de Lula em 2014, que é um desejo do Brasil e do PT”.

José Dirceu, ainda em liberdade, de passagem pelo Piauí, numa discurseira assim interpretada pelo senhor Andrade, tradutor juramentado da coluna: “Ele acha que o camburão não vai chegar antes de 2022″.

01/02/2010

às 19:45 \ Homem sem Visão

Vannuchi dedica o troféu a Lula e Jobim ameaça trazer soldados do Haiti para destituir o campeão

hsv-janeiro-2010

“Dedico o troféu ao presidente Lula, meu chefe e Nosso Guia, que pela primeira vez assinou um documento sem ler”, emocionou-se Paulo Vannuchi ao saber que acabara de ser eleito Homem sem Visão de Janeiro, garantindo a primeira vaga na finalíssima de 2010. Nos 55 minutos do discurso de agradecimento, previu a morte do neo-liberalismo, a falência do neo-imperialismo ianque e a vitória da revolução neo-comunista.

“O Programa Nacional de Direitos Humanos é o programa de governo da companheira Dilma”, encerrou. Com 1.344 votos (70% do total de 1924), Vannuchi roubou o recorde estabelecido por José Sarney, que se elegeu HSV de Junho com 973 votos.

Nelson Jobim (273 votos, 14%) conquistou a medalha de prata e José Roberto Arruda (180 votos, 9%) completou o pódio. A lanterninha ficou com Sérgio Cabral (131 votos, 7%).  Um assessor de Nelson Jobim confidenciou que o candidato,  inconformado com o segundo lugar, planeja requisitar cinco soldados que integram a Força de Paz da ONU no Haiti para dar voz de prisão a Vannuchi e confiscar o troféu. “O chefe está uma arara porque o Vannuchi concorreu com um programa eleitoral de 71 páginas”, revelou a fonte.

Em janeiro, mais uma vez, venceu o pior! A eleição de fevereiro já começou. Amanhã terá início também a espetacular eleição que elegerá o Homem sem Visão da Década! Quem levará o troféu menos cobiçado pelos concorrentes? Que vença o pior dos piores!

01/02/2010

às 19:30 \ Sanatório Geral

A arte da tradução (3)

“Eles vão ter que nos engolir”.

José Dirceu, de passagem pelo Piauí, ampliando a frase copiada de Zagallo com um plural assim interpretado pelo senhor Andrade, tradutor juramentado da coluna: “Ele está querendo dizer que quem pedir uma Dilma Rousseff tem direito a porções de Zé Dirceu, Zé Genoíno, Delúbio Soares e Marcos Valério”.

01/02/2010

às 18:16 \ Sanatório Geral

A arte da tradução (2)

“No Legislativo, estamos também precisando dar um passo na consolidação das leis. É um trabalho lento, que estamos começando e vamos acelerar, embora com esse instrumento monstruoso que foi colocado em nosso caminho que são as Medidas Provisórias, que mutilam o Congresso”.

José Sarney, vulgo Madre Superiora, desandando num palavrório assim simplificado pelo senhor Andrade, tradutor juramentado da coluna: ”Ele está querendo dizer que Medida Provisória é pior que tungar um convento, arranjar emprego no Senado para o namorado da neta e censurar o Estadão, fora o resto”.

01/02/2010

às 15:40 \ Sanatório Geral

Sem banho também

“Se Chávez está apagado, se Chávez está sem luz, então tirem-me”.

Hugo Chávez, ao desafiar os descontentes a propor um plebiscito para afastá-lo do poder, esquecendo de dizer que, como além de luz também falta água. Chávez também está sem banho.

01/02/2010

às 12:42 \ Sanatório Geral

A arte da tradução

“A criação de cargos ocorre por conta de reorganizações internas de diversos órgãos do Poder Executivo federal, bem como a criação de estruturas para suporte à expansão e/ou redirecionamento de atividades de diversos setores, de maneira pulverizada”.

Paulo Bernardo, ministro do Planejamento segundo a placa na porta do gabinete, num trecho da nota enviada à Folha para explicar a criação de 4.225 cargos de confiança entre 2007 e 2009, redigida no dialeto resultante do cruzamento de Tarso Genro com Dilma Rousseff, assim interpretado pelo senhor Andrade, tradutor juramentado da coluna: “Ele está querendo dizer que o Programa Desemprego Zero para a Companheirada é um sucesso”.

01/02/2010

às 11:18 \ Sanatório Geral

Paraíso da bandidagem

“Por ser um ano de eleições, tudo o que a gente faria no ano inteiro vai ter de ser feito em cinco ou seis meses”.

João Paulo Rodrigues, dirigente nacional do MST, confirmando que o Brasil é o único país do mundo em que bandidos são sustentados pelo governo, divulgam antecipadamente o cronograma da temporada de delinquências e, entre a destruição de um laboratório e o ataque a um laranjal, são levados não para a cadeia, mas para um encontro com o presidente da República.

01/02/2010

às 0:15 \ Sanatório Geral

Gran Circus Brazil (2)

“É muito importante que o Haiti e a ONU sejam donos do programa de reconstrução do país”.

Celso Amorim, no começo da semana, lançando a candidatura do governo brasileiro a salvador do Haiti.

“Eu pedi ao presidente Obama uma espécie de Plano Marshall para o Haiti, implementado pela comunidade internacional sob a liderança dos Estados Unidos”.

Raymond Joseph, embaixador do Haiti nos EUA, no fim da semana, avisando ao governo brasileiro que não se deve brincar com coisa séria.


 

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