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19/10/2012

às 8:00 \ Variedades

Em VEJA, ‘Avenida Brasil’ e as novelas que marcaram época

Chega ao fim nesta sexta-feira a trama que tem mobilizado o país nos últimos meses: Avenida Brasil. Na teledramaturgia brasileira, nunca houve uma criatura tão obcecada por vingança quanto Nina – aliás, Rita. Para todos os efeitos heroína de Avenida Brasil, a personagem revelou-se de uma monstruosa criatividade para bolar as mais diversas humilhações à mulher que fizera sua infelicidade na infância. Tratou-a por “vaca” e “vadia”, entre outros epítetos, fez com que ela lavasse roupa e esfregasse o chão e, suprema degradação, obrigou-a a comer o intragável macarrão com salsicha que Carminha adota como ração básica para os empregados da casa. Nina/Rita parece confirmar uma daquelas geniais tiradas misóginas do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900): “Na vingança e no amor, a mulher é mais bárbara que o homem”. Fazer o personagem “do bem” cruzar de forma tão ostensiva a linha que separa a equilibrada justiça da mais bárbara vingança foi uma das ousadias do autor João Emanuel Carneiro. O público aprovou essa novidade perversa: a novela tem batido sucessivos recordes de audiência. A mocinha vilanesca e a vilã carola da novela atestam: ousadia e êxito não são excludentes nos folhetins.

A primeira novela brasileira foi ao ar há exatamente 60 anos, em 21 de dezembro de 1951, pela TV Tupi: “Sua Vida me Pertence” marcou não apenas a estreia deste gênero de entretenimento no país, como também o primeiro beijo transmitido em um programa de TV no Brasil. O folhetim foi protagonizado por Vida Alves e Walter Forster e estendeu-se até fevereiro do ano seguinte. Em setembro de 1975, VEJA mostrou como esse tipo de atração na TV se tornara parte do cotidiano dos brasileiros. Sob o título “O país das telenovelas”, a reportagem descreve a história do gênero, que havia chegado ao país muitos anos antes. No início da década de 70 existiam 3,5 milhões de televisores no Brasil. Em 1974, esse número já ultrapassava os 10 milhões de equipamentos. Na época, Globo e Tupi eram os canais que investiam cada vez mais no setor.

Um dos primeiros grandes sucessos de audiência do país foi a novela do cafajeste bicão Beto Rockefeller, que atraiu um público até então distantes dos folhetins: os homens. “Por ser fraco e humano, Beto seduziu novos espectadores, muitos jovens e maridos que só pressionavam os botões da tevê para os vídeotapes do futebol ou noticiosos”. Assim VEJA descrevia o sucesso da trama, em maio de 1969. Como destacou a reportagem, as novelas já haviam se tornado uma “epidemia nacional”. Naquele ano, no horário nobre da televisão brasileira (das 18h30 às 22h), 80% dos televisores do país estavam sintonizados em novelas.

Em 1972, Selva de Pedra conseguiu um dos primeiros marcos na história das novelas no país. O último capítulo da trama de Janete Clair obteve audiência total em uma cidade, o Rio de Janeiro. Naquele dia, 77% das 1,158 milhões TVs cariocas estavam sintonizadas na Globo, enquanto as concorrentes, Tupi e Rio, tinham 0% de audiência. Apesar do crescente domínio da TV Globo na teledramaturgia, em 1973 a Tupi conseguiu retomar seu espaço. Com o mistério envolvendo as gêmeas Ruth e Raquel, personagens de Eva Wilma, Mulheres de Areia voltou conquistar 20% da audiência no horário das oito.

Já sem a concorrência da Tupi, a Globo emplacou, em 1985, sua novela de maior audiência até então: Roque Santeiro, escrita por Dias Gomes e Aguinaldo Silva. A trama atraiu a curiosidade de 60 milhões de pessoas, que diariamente acompanhavam as peripécias de personagens como a viúva Porcina (Regina Duarte) e Sinhozinho Malta (Lima Duarte).

Em 1990, foi a vez da TV Manchete dar dor de cabeça à concorrência. Apoiada na sensualidade da personagem Juma, interpretada por Cristiana Oliveira, Pantanal tornou-se um fenômeno avassalador. Um ano depois, foi o SBT que atingiu índices superiores a 20 pontos de Ibope ao colocar no ar uma novela mexicana para o público infantil. Carrossel fez com que os pais cedessem o controle remoto para os filhos e deixassem um pouco de lado O Dono do Mundo, exibida pela Globo, para acompanharem com toda a família os discursos da professora Helena e as travessuras de seus pupilos.

Em 1995, apostadores de todo o Brasil deram seu palpite sobre a identidade do assassino da novela A Próxima Vítima. Depois de 150 horas de mistério, a trama global conseguiu sustentar o suspense e a audiência – que atingia até 60 pontos – e chegou ao fim sem que os espectadores tivessem alguma prova concreta contra o responsável pela morte de onze pessoas. Nomes de suspeitos como o de Carmela, Alfredo, Juca, Nina e até a “bonitona do Morumbi” eram ouvidos em supermercados, restaurantes e rodas de conversas. Num procedimento inédito, o nome do assassino foi soprado pelo diretor Jorge Fernando no ouvido do detetive exatamente na hora de solucionar o grande mistério.

Os anos 2000 também tiveram tramas marcantes – embora tenham sido marcados por uma queda geral na audiência das novelas. Os temas polêmicos tratados em Mulheres Apaixonadas fizeram com que a novela batesse o recorde de 35 milhões de espectadores. Em julho de 2003, VEJA mostra como assuntos como violência doméstica, lesbianismo e alcoolismo garantiram à novela de Manoel Carlos uma média de 50 pontos de ibope (com picos de 58). A marca seria batida dois anos depois, por Senhora do Destino. As intrigas entre a mocinha Maria do Carmo (Suzana Vieira) e a vilã Nazaré (Renata Sorrah) foram assistidas por 45 milhões de pessoas.

Com Passione, em 2010, o autor Silvio de Abreu conseguiu emplacar mais uma novela de sucesso na TV – e a rede Globo recuperou os bons índices de audiência de suas novelas das oito. Em novembro do mesmo ano, o canal pafo Viva reexibiu um grande sucesso dos anos 80: a novela Vale Tudo. O folhetim logo virou um fenômeno de comentários nas redes sociais e garantiu à emissora a liderança de audiência na TV por assinatura. Vinte e dois anos depois de achincalhar o país em grande estilo e ser vítima do assassinato mais célebre das telenovelas, a vilã Odete Roitman, interpretada por Beatriz Segall, voltou a divertir – e horrorizar – os brasileiros. Escrita por Gilberto Braga em colaboração com Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, Vale Tudo alimenta a nostalgia dos antigos fãs e desperta o interesse de uma nova geração. A novela foi pioneira ao colocar em pauta a discussão de assuntos polêmicos como o alcoolismo, os direitos dos homossexuais e a exploração de crianças – temas que seriam explorados por muitos outros folhetins de sucesso.

Em 2011, a novela Fina Estampa, de Agnaldo Silva, arrancou o horário das 9 de um longo período de estagnação, no qual a Globo, ainda que mantendo sempre a liderança diante das concorrentes, patinava em audiências tíbias. No seu primeiro terço, a média do folhetim foi de 38 pontos, e os episódios mais recentes têm ficado acima dos 40. Parece pouco na comparação com os mais de 90 pontos que Roque Santeiro chegou a alcançar na década de 80. Mas a realidade hoje é outra: a concorrência entre emissoras está mais pulverizada, a televisão a cabo está se disseminando e há novas formas de informação e entretenimento – especialmente através da internet.

A capacidade que as novelas da Globo sempre tiveram de influenciar nas mudanças de comportamento e lançar modas – basta lembrar os brincos gigantes popularizados pela viúva Porcina de Roque Santeiro, ou a voga de adereços “orientais” na trilha de O Clone – hoje parece bem mais limitada. Nessas condições, é tanto mais impressionante o feito de Fina Estampa: a novela incorporou a heroína Griselda, interpretada por Lília Cabral, ao imaginário dos brasileiros. Trata-se de uma figura que ao mesmo tempo encarna a novidade – os valores do expressivo contingente de brasileiros que nos últimos anos ingressou na sociedade de consumo – e representa tradições que muitos teriam por antiquadas: a retidão moral, a autoridade (amorosa, mas inabalável) que se impõe na educação dos filhos.

No ano seguinte, Avenida Brasil fez o que só as grandes novelas do passado faziam: hipnotizou e, sobretudo, inquietou os espectadores de todo o país. Isso graças a um enredo de retaliações desmedidas. ‘Avenida Brasil’ explora um elemento perturbador, mas absolutamente incontornável na vida em sociedade: o desejo de vingança. Revidar à altura um ato lesivo é um impulso comum a várias espécies animais. Em uma novela que – como a anterior, Fina Estampa – dramatiza dificuldades e dilemas da ascensão social, era inevitável que a vingança embutisse elementos classistas. A retaliação de Nina contra Carminha não se esgota na expiação de seus traumas de infância: significa também a desforra das domésticas reprimidas contra as patroas abusivas. E que os moradores do Leblon durmam com outra causa barulhenta abraçada por ‘Avenida Brasil’: a vingança do subúrbio contra as décadas de monopólio da Zona Sul carioca como cenário das tramas contemporâneas da Globo.

Em 8/8/2012: Vingança, a emoção primordial
Em 16/11/2011: Pereirão, esse mulherão
Em 7/5/1969: Beto Rockefeller
Em 18/10/1972: Selva de Pedra
Em 16/5/1973: Mulheres de Areia
Em 2/10/1985: Roque Santeiro
Em 21/12/1988: Vale Tudo
Em 9/5/1990: Pantanal
Em 6/6/1991: Carrossel
Em 1/11/1995: A Próxima Vítima
Em 10/1/2001: Laços de Família
Em 9/7/2003: Mulheres Apaixonadas
Em 9/2/2005: Senhora do Destino

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26 Comentários

  1. lucas dos santos

    -

    19/04/2013 às 10:59

    eu achei muito ruim

  2. Tamyris

    -

    21/02/2013 às 15:47

    Ótima, adorei a novela.

  3. Antonio

    -

    27/10/2012 às 20:40

    RENASCER baita novela!!!

    deveria ate virar mini-serie a primeira fase é demais e a segunda tb

  4. JUAN

    -

    16/07/2012 às 21:14

    a carrocel ta voltando para o sbt no modo desse seculo , vc min intenderão e mais uma vez ódio dos brancos com os negros.

  5. Generino

    -

    03/06/2012 às 20:33

    Os enlatados americanos estão disponíveis nas 24 horas do dia. Portanto, não há nenhum motivo para os brasileiros assistirem novelas. Quando os enlatados americanos estiverem no horário nobre, no lugar das novelas, o Brasil certamente se tornará um país muito melhor.

  6. nana

    -

    05/05/2012 às 14:48

    vem ai carrocel a nova novela do sbt que vai acirrar o ódio entre brancos e negros!!!

  7. J Gomes

    -

    14/02/2012 às 17:35

    Fina Estampa é a pior novela dos últimos 20 anos, exibida pela vênus platinada. Seu autor, no ocaso de sua carreira, se perde em meio a termos chulos, lugares comuns, vulgaridade. Ótimos atores não conseguem salvar personagens que mais parecem marionetes apenas com um fugaz sopro de vida. O estrago feito na audiência para este tipo de atração pode ser irreversível.

  8. carla

    -

    21/12/2011 às 13:24

    Adoro novelas,e cabe ressaltar que uma que está passando no momento é ótima.AQUELE BEIJO é simplesmente hilária.

  9. Sandra

    -

    21/12/2011 às 11:58

    O que me deixa triste é ver que, com o passar dos anos, a tendência das novelas foi perder a qualidade de texto e interpretação e cair nesse verdadeiro mar de mediocridade que avassala a TV brasileira. Quem diria que sairíamos de novelas do nível de Vale-Tudo, Roque Santeiro, Guerra dos Sexos, e cairíamos em verdadeiras atrocidades como Caminho das Índias, Viver a Vida, e outras tranqueiras do mesmo nível. É por isso que não perco mais meu tempo assistindo novela.

  10. Melissa

    -

    21/12/2011 às 10:31

    Quando assisto as reprises no canal Viva fica evidente o pq das novelas atuais estarem perdendo ibope, têm a trama sem graça, atores fracos, com interpretações super artificiais (na verdade eles estão preocupados somente com a própria aparência). Lamentável!

  11. Rosângela

    -

    09/12/2010 às 19:45

    Eu gosto muito de novelas, mesmo com tudo isso aí que falaram acima. E quem critica muito as novelas, deve até assistindo bastante, porque senão não conheceriam tão bem os conteúdos.

  12. JUAN

    -

    06/12/2010 às 21:00

    irmãos coragem(1970) foi uma novela que marco muito também.rmãos Coragem é tida como a primeira novela que os homens assumiram que assistiam. Uma união de faroeste, futebol (com o país embalado pela Copa do México) e romance que resultou numa das mais importantes produções da Rede Globo e da TV brasileira.

  13. Reila

    -

    25/11/2010 às 10:23

    Reila
    - 25/11/2010 às 10:22

    Seu comentário está aguardando moderação
    Novela é uma grande perda de tempo na minha opinião. Seu papel é de desestabilizar a família brasileira e banalizar questões como sexo e drogas. Novela não ensina nada e ainda faz o povo perder temp vendo histórias fictícias que nada tem a ensinar. Muito melhor ler um bom livro ou assistir a um documentário útil. Lamentável!!!!

  14. Reila

    -

    25/11/2010 às 10:22

    Novela é uma grande perda de tempo na minha opinião. Seu papel é de desestabilizar a família brasileira e banalizar questões como sexo e drogas. Novela não ensina nada e ainda faz o povo perder temp vendo histórias fictícias que nada tem a ensinar. Muito melhor ler um bom livro ou assistir a um documentário últil. Lamentável!!!!

  15. Daniela Oliveira Oliver

    -

    17/11/2010 às 21:36

    A daniela adora novelas?
    A daniela gosta muita de novelas?

  16. Carlitos

    -

    11/11/2010 às 16:05

    Eu acho que faltou O CLONE nessa lista, que com certeza foi um marco também.

  17. Patricia

    -

    11/11/2010 às 15:53

    Acho que faltou O Clone. A novela teve recordes de audiencia e falava de um tema bem polemico!

  18. Patricia Brito

    -

    11/11/2010 às 15:44

    Gabriela – a melhor novela de todos os tempos…

  19. gustavo h a araujo

    -

    11/11/2010 às 15:41

    a melhor novela do pais que ate hoje em dia retrata

  20. Camilinha

    -

    11/11/2010 às 13:42

    FOi se o tempo q se faziam boas novelas.
    A ultima boa novela q valeu a pena assistir foi Senhora do Destino, graças a Nazareth interpetada magistralmente por Renata Sorrah. Depois disso, rarissimas exceções como Caras e Bocas q foi mt legal.

    Hje em dia vale mais a pena assistir a programação da TV a cabo.

  21. ÃNGELO ERNESTO MONTEIRO BUGINI

    -

    11/11/2010 às 12:49

    Esqueceram de mencionar a novela AMÉRICA com Déborah Secco, a melhor das atrizes da nova geração.O público está sentindo sua falta como protagonista absoluta de uma novela marcante.Que tal MANOEL CARLOS escalá-la para sua próxima trama!

  22. Beto

    -

    11/11/2010 às 12:01

    Até onde sei a novela “Caras e Bocas” foi a última a fazer sucesso no horário das sete e isso não faz tanto tempo, levando em consideração que cada novela dura pelo menos 6 meses.

    só por que o assunto é televisão, vocês não fazem o dever de casa?

  23. Ingles No Supermercado

    -

    11/11/2010 às 10:11

    Alguns brasileiros fazem questão de menosprezar as telenovelas brasileiras e enaltecer os enlatados norte-americanos. Talvez por conta do genes de colonizados herdados dos antepassados. O fato é que as telenovelas brasileiras são sucessos não só no Brasil, mas também no exterior. Isso ocorre porque elas dão destaque a temas polêmicos tais como homossexualidade, racismo, clonagem, barriga de aluguel, drogas, corrupção política, recuperação de dependentes químicos, violência contra a mulher, desprezo pelos idosos, etc.

  24. marina

    -

    11/11/2010 às 10:09

    pra mim que nasci em 92 á melhor novela foi mulheres apaixonadas eu amava essa novela,foi a melhor para mim.

  25. marina

    -

    11/11/2010 às 10:07

    concordoooo

 

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