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04/03/2010

às 9:13 \ Saúde

Cigarro: do consumo sem culpa ao cerco antifumo

Há medidas antitabagistas em vigor em diversos lugares do mundo. No estado de São Paulo, por exemplo, é proibido fumar em ambientes públicos fechados, como bares e restaurantes. Mas houve uma época em que as pessoas se mantinham distantes das preocupações com os efeitos negativos do cigarro. É o que mostra uma matéria publicada em VEJA em janeiro de 1969. Com o título  O desafio do bom cigarro, o texto falava da busca das empresas de tabaco por uma forma de fazer um cigarro saboroso e vendável.

Não que a associação entre cigarro e câncer não existisse. Existia, mas o cigarro com filtro era considerado uma opção “saudável” o suficiente. ”Se existe uma psicose do câncer entre os fumantes de cigarro, ela ainda é incipiente”, revela uma reportagem de capa de VEJA publicada em fevereiro de 1976. O texto já listava o fumo entre os dez agentes do ambiente capazes de provocar tumores no pulmão, bexiga, boca, esôfago, faringe e laringe.

Interromper o vício, porém, não estava nos sonhos de ninguém. Fumar era tão normal quanto falar palavrão em estádio de futebol, anota um texto de abril do mesmo ano. O jogador Gerson, por exemplo, disse em entrevista à revista, que fumava um maço por dia. “Fumo, sim, e vou continuar fumando, inclusive antes do jogo e no intervalo.”

No exterior, porém, o cerco ao tabaco se fechava. A chegada de cigarros de baixos teores de alcatrão e nicotina ao mercado era um reflexo do endurecimento do governo americano com a indústria de cigarro, uma ação que incluía a proibição de anúncios no rádio e TV e a obrigatoriedade de os maços estamparem alertas sobre os malefícios que o fumo poderia causar. O Brasil tinha projetos de lei semelhantes em tramitação no Congresso, mas a luta contra o cigarro ainda estava longe de prosperar.

Foi só no final da década de 1970 que a relação entre cigarro e vida curta começou a ganhar contornos sólidos. Capa da revista de abril de 1980 anunciava, com todas as letras, a chegada da guerra antitabagista ao país. “Com vinte anos de atraso, chega ao Brasil, um país com 15 milhões de viciados, a guerra contra o fumo e seus tóxicos”, dizia a reportagem.

Daí em diante, o cigarro não teve mais sossego. Numa sociedade que mudava, o fumo foi migrando de seção: das páginas de economia para as de saúde e ciência, ampliadas também com textos sobre como melhorar a forma física. Capa de fevereiro de 1982 é prova dessa transição. Nela, a composição de cigarros de diferentes marcas era esmiuçada, revelando o teor de nicotina e de alcatrão de cada um. A análise exaustiva é parte do cerco contra o fumo: a informação como arma.

Capa de maio de 1988 ia além. “Estudo americano revela que a nicotina tem um poder de gerar dependência tão grande quanto o de drogas como a heroína e a cocaína”, afirmava o texto. E a capa de maio de 1996 já assumia um tom de denúncia: “A indústria mistura amônia no tabaco para aumentar a dependência dos fumantes”. O cerco estava definitivamente fechado contra o fumo.

Viriam, então, não sem atraso, as medidas oficiais contra o cigarro. Em 2001, tornou-se proibida a propaganda do produto – exceto nos locais de venda. No ano seguinte, medida do Ministério da Saúde estamparia os maços com fotos trágicas e tragicômicas, como imagens de bebês à beira da morte, de impotência sexual e de outros efeitos nocivos da fumaça. Além disso, a indústria do tabaco teve de reduzir níveis de alcatrão, nicotina e monóxido de carbono e ficou proibida de usar termos como “baixos teores”, “suave” ou “light”. O Brasil contava, então, com 30 milhões de fumantes, 78% dos quais, segundo pesquisas da época, querendo parar de fumar. A guerra não teria mais fim.

Em 22/1/1969: O desafio do bom cigarro
Em 23/4/1969: Os palavrões no ar
Em 02/7/1969: Entrevista com Gerson
Em 11/2/1976: De onde vem o câncer
Em 2/6/1976: Nova opção
Em 16/4/1980: A epidemia do século
Em 10/2/1982: A fumaça afinal revela os seus segredos
Em 25/5/1988: A química do vício
Em 29/5/1996: O segredo do cigarro turbinado
Em 23/1/2002: A marca da morte nos cigarros

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4 Comentários

  1. john

    -

    05/03/2010 às 10:05

    Muito interessante a matéria! Além de estar bem escrita ainda acrescenta um tom sarcástico em algumas partes do texto,adorei!!

  2. ana maria dora

    -

    04/03/2010 às 22:49

    fumo sem tragar. depois desse lei vem o sentimento de culpa. pastilhas e toda parafernália, não ajudam
    para deixar de fumar. a solução seria o governo destinar parte da arrecadação do imposto do cigarro,
    para distribuição gratuíta de um remédio eficiente para se deixar este vício. o pior de tudo foi a propaganda enganosa das companhias de cigarro para nós consumidor, nunca falaram que o cigarro
    era maléfico. deviam distribuir a cada compra de um maço de cigarro um remédio para combater a vontade de fumar sem cobrar pelo mesmo, assim evitariam processo com idenização milionárias das pessoas que foram enganadas por tantas propagandas enganosas. veja seu departamento jurídico podia
    pedir uma idenização para eu que estou na lista dos enganadas por esta propaganda.seu jurídico sabe
    os caminhos mais fácil de consegui-la, o valor máximo a ser pedido mais o pagamento dos advogados.
    se quiserem abraçar a minha causa ,agradeço. cheguei até fumar cigarro mentolado,mas o que mais irrita pois fumo a mais de 40 anos é ter sido enganada. ana maria dora.

  3. Willian Yahz

    -

    04/03/2010 às 21:24

    Já vem muito tarde a lei anti-fumo para ambientes fechados. Se o sujeito quer se defumar por dentro, problema dele. O que não pode é obrigar os outros a compartilhar os seus maus hábitos. Já foi o tempo em que a gente saia a noite e na volta tinha de ficar embaixo do chuveiro para tirar o cheiro impregnado de cigarro. A esperança está nas novas gerações. É preciso acabar com a imagem falsa de que fumar é elegante, sofisticado ou descolado.


 

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