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13/08/2011

às 0:53 \ Internacional

Muro de Berlim: há 50 anos, nascia o símbolo da guerra fria

Este sábado é marcado pelo aniversário de 50 anos da construção da Muro de Berlim. A obra, que começou a ser erguida em 13 de agosto de 1961, era a representação física da Cortina de Ferro – expressão cunhada pelo primeiro-ministro inglês Winston Churchill para designar a divisão entre as democracias ocidentais e os países comunistas da Europa Oriental. Naturalmente, sua queda se tornou o marco simbólico do fim do comunismo.

O muro infame que dividia a capital da Alemanha veio abaixo na noite de 9 de novembro de 1989, sem que um só tiro fosse disparado. “A Europa criada após o fim da II Guerra Mundial terminou com um enorme carnaval. Flores, lágrimas, aplausos, gritos de alegria, uma montanha de garrafas de champanhe e a inebriante sensação de participar de um daqueles momentos que levam décadas ou até séculos para acontecer, quando a História dá um salto rumo ao novo, selaram o porre de liberdade tomado dos dois lados de Berlim”, descreveu a reportagem de VEJA no dia 15 de novembro daquele ano.

Enquanto os berlinenses de ambos os lados comemoravam o fim de quatro décadas de opressão, Mikhail Gorbachev, o último premiê soviético, dormia em Moscou. Com seu histórico de milhões de mortos, a União Soviética desmanchou-se no ar dois anos depois. Quinze anos após a derrocada, documentos secretos revelaram que os soviéticos – e alguns líderes mundiais – temiam a Alemanha unificada. Em uma reunião de janeiro de 1990, o premiê Nicolai Rizhkov expressa a preocupação soviética: “Se permitirmos isso, a Alemanha será capaz de começar a III Guerra Mundial daqui a 20 ou 30 anos”. Em uma conversa com Gorbachev, Margaret Thatcher (primeira-ministra inglesa) pediu, de supetão: “não anote o que vou dizer agora – sou completamente contra a reunificação da Alemanha, mas não posso dizer isso publicamente em casa ou na Otan”.

O grande muro foi construído para acabar com o êxodo dos alemães do lado oriental para o ocidente. À época, o governo comunista justificou a decisão dizendo que esta era uma forma de acabar com “o contrabando de divisas e a atividade dos espiões”. Para se conseguir atravessar de um lado a outro, era preciso passar por 18 operações de controle alfandegário, incluindo a revista das malas e bagagem, da carteira de dinheiro, do carro, além de um estudo minucioso do passaporte – tudo sob a mira de um guarda com o dedo no gatilho da metralhadora. De tempos em tempos, o governo comunista fechava a única porta entre os dois territórios, juntamente com todas as ferrovias, rodovias e linhas fluviais que ligavam as duas capitais.

Nos 28 anos de existência do Muro de Berlim, 809 pessoas foram mortas enquanto tentavam transpô-lo para fugir do comunismo. Em 1984, o governo comunista chegou, inclusive, a erguer uma segunda muralha na capital alemã. Mas nem isso conseguia impedir as pessoas de arriscarem a vida pela liberdade. Documentos dos arquivos da polícia secreta da Alemanha comunista, a Stasi, revelaram, em 2001, que mais de 75 000 alemães foram presos tentando escapar entre 1961 e 1989. Dos mortos, 250 foram baleados junto ao muro, 370 ao longo do que então era a fronteira entre as duas Alemanhas e 189 na região do Mar Báltico.

O Muro marcou não somente o território, mas a mente dos alemães. Um levantamento feito 15 anos após sua derrubada mostrou que os berlinenses não conseguiam se unir totalmente – nem como povo nem como casais. Apenas 2% dos casamentos celebrados em Berlim no ano de 2004 eram entre alemães do Leste e do Oeste. A separação era tão grande que os berlinenses se apaixonavam mais por pessoas de fora do país do que por seus conterrâneos do outro lado da cidade: 24% dos casamentos em Berlim foram, naquele ano, entre alemães e estrangeiros.

As diferenças entre as Alemanhas Oriental e Ocidental iam mais além: o lado comunista encerrou a separação extremamente mais pobre do que o capitalista. Mesmo depois da queda do Muro de Berlim, os alemães do lado oriental continuavam utilizando a mesma rota para a prosperidade dos tempos do comunismo: viver no lado ocidental da Alemanha, muito mais próspero. Nos anos que se seguiram à queda do Muro, o governo alemão chegou a injetar mais de 1 trilhão de dólares na economia do que antes era a Alemanha Oriental. Os incentivos fiscais e os subsídios oferecidos, porém, não foram suficientes para atrair a iniciativa privada no volume necessário. Com a conclusão das obras maiores e urgentes, no fim dos anos 90, restaram o desemprego e a certeza de que um muro invisível continuava separando os dois lados.

Com o passar dos anos, porém, a fronteira imaginária de que tanto se falou nos anos subsequentes à abolição da fronteira geográfica entre as duas Alemanhas torna-se cada vez mais tênue. São raros hoje, no lado oriental, os sinais de precariedade tecnológica e má qualidade de vida. Em toda Berlim fica difícil encontrar vestígios da divisão da capital, a não ser pelos que se tornaram atrativos turísticos. A capital alemã voltou a ser, como um todo, uma metrópole aberta política e economicamente. Como descreveu VEJA ainda em setembro de 1990, “unida e com mais força do que nunca, a Alemanha recuperou o lugar que sua insânia guerreira lhe tirou no passado: o de grande potência da Europa e do mundo”.

Em 19/2/1969: Um bloqueio para Berlim
Em 21/03/1984: Novo muro em Berlim
Em 15/11/1989: O muro de Berlim cai com festa
Em 22/11/1989: Primavera em Berlim
Em 26/9/1990: A unificação alemã
Em 17/11/1999: 10º aniversário da queda do Muro
Em 15/8/2001: Os mortos de Berlim
Em 03/04/2002: Orientais continuam fugindo
Em 24/11/2004: Alemães continuam separados
Em 22/11/2006: Temor da Alemanha unificada

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1 Comentário

  1. Leonardo

    -

    22/08/2011 às 20:04

    Como faço para localizar no acervo todos os textos do colunista Roberto Pompeu de Toledo a respeito de um determinado tema? Por exemplo, quero localizar todos os textos dele que falam sobre futebol. Como faço?

 

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