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15/07/2010

às 8:11 \ Internacional

Cuba: a dura vida dos que lutam contra o regime dos Castro

Nove dissidentes cubanos que estavam presos por se opor à ditadura dos irmãos Castro chegaram nesta semana à Espanha, como parte de um processo de libertação gradual de 52 opositores do regime. Em resposta ao acordo, o dissidente Guillermo Fariñas decidiu encerrar a greve de fome iniciada em fevereiro após a morte de Orlando Zapata, que não resistiu a uma greve de fome de 85 dias. Zapata protestava contra as condições degradantes da cadeia. O sacrifício desses dois dissidentes serve para mostrar ao mundo as duras punições impostas a quem decide lutar contra o regime castrista.

Todos os presos beneficiados com a emigração para a Espanha foram detidos em 2003, na onda de repressão que ficou conhecida como “Primavera Negra”. Naquele ano, Fidel Castro aproveitou que a atenção internacional estava concentrada no Iraque como uma oportunidade para varrer de Cuba todo o vestígio de oposição organizada. Em três semanas, o governo comunista prendeu, processou e condenou a penas pesadíssimas 78 militantes dos direitos humanos, economistas e jornalistas independentes. Todos foram imediatamente enviados para o presídio, sem direito a apelação, para começar a cumprir sentenças cuja média é de vinte anos.

O julgamento sumário de oposicionistas teve a marca da tirania, pois os réus não tiveram direito de se defender. Todos os acusados foram enquadrados numa lei promulgada em 1999 que prevê até trinta anos de prisão a quem fizer críticas ao governo. A prisão dos dissidentes foi mais do que um simples espasmo de violência de dirigentes autoritários. Essas ações, além de servirem ao propósito claro de intimidar a oposição organizada, são a exteriorização de algumas mudanças fundamentais na política de Fidel Castro. A mais importante delas é a adoção da via chinesa de convivência com o capitalismo, na economia, e autoritarismo em todo o resto.

Pior sorte tiveram outros três cubanos que, naquele ano, foram fuzilados por sequestrar um barco para fugir da ilha. Presos num país sem perspectiva de melhora econômica, onde quase tudo é racionado e o ditador não larga o poder, os cubanos fazem de tudo para escapar. O resultado, muitas vezes, é trágico. Em 1996, o governo de Cuba derrubou dois pequenos aviões civis americanos que pertenciam ao grupo anticastrista Irmãos para o Resgate.

Os jornais do regime, como o Granma, o Juventud Rebelde e o Trabajadores, os únicos com direito a circular nacionalmente em Cuba, esforçam-se por difamar as vozes dissonantes no país acusando-as de ser financiadas pela CIA, o serviço secreto americano. Mas os cubanos críticos ao governo são pobres como quase toda a população e sobrevivem fazendo bicos A dificuldade de conseguir um sustento mínimo é até maior para quem ousa expressar-se livremente, porque o aparato estatal de repressão faz de tudo para atrapalhar.

Os jovens mais ativos, por exemplo, são seguidos na rua por policiais à paisana e hostilizados pelos vizinhos. Seus encontros com estrangeiros são delatados por motoristas de táxi, quase todos ex-agentes do Ministério do Interior. Frequentemente, são detidos por algumas horas e depois liberados. Alguns são encarcerados por tempo indefinido. Nas contas de Elizardo Sánchez, diretor da Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional, em Havana, três de cada quatro presos em Cuba têm menos de 35 anos. Cerca de 4 000 deles foram detidos com base no artigo de “periculosidade pré-delitiva”, um estranho tópico da legislação cubana que permite ao governo prender qualquer indivíduo com base na suspeita de que ele possa, um dia, cometer um crime.

Ainda assim, a oposição sobrevive em Cuba. Um dos casos emblemáticos é o de Yoani Sánchez, blogueira conhecida por driblar a censura. Ela escreve sobre as dificuldades de viver na ilha no blog Generación Y e é autora do livro De Cuba, com Carinho. Vencedora de diversos prêmios internacionais, nem Yoani escapou da mão pesada do regime castrista. Em 2009, ela estava a caminho de uma quase impossível manifestação de protesto em Havana quando foi atacada por agentes da polícia política. Sofreu ameaças e espancamentos antes de ser jogada na calçada de um bairro longínquo.

A internet e a música ganham força na ilha como um meios de luta contra a ditadura. Na gerontocracia dos irmãos Fidel e Raúl Castro, que governam a ilha há 51 anos, o acesso à web é restrito a certas repartições públicas, hotéis, embaixadas e às casas dos chefões do regime. Fora dos círculos privilegiados da nomenklatura castrista, a internet é, digamos, manual. Por meio de pen drives que passam de mão em mão, uma única pessoa com acesso esporádico à internet consegue abastecer centenas de amigos com informações sobre o mundo e sobre Cuba, além de músicas de protesto e blogs. Essa panfletagem pós-moderna conecta milhares de jovens cubanos

Um exemplo prático desse fenômeno aconteceu em 2008, quando o vocalista da banda Porno para Ricardo, Gorki Águila, foi preso com base na lei de periculosidade pré-delitiva. A pena prevista era de quatro anos de cadeia. A presença de embaixadores, dissidentes, artistas, jornalistas estrangeiros e dezenas de jovens no dia do julgamento inibiu os algozes. Gorki foi liberado. As ditaduras de direita têm data de validade. As de esquerda se presumem eternas. Ambas acabam tendo seu encontro amargo com a história. É esse processo que os jovens cubanos estão apressando com seus blogs, camisetas e seus hinos hip-hop.

Em 16/4/2003: Fidel coloca oposição na cadeia

Em 6/6/1996: Cuba derruba aviões civis

Em 14/4/2010: Os jovens conta a tirania

Em 18/11/2009: Polícia de Fidel espanca blogueira

Em 21/1/2004: Fidel contra a internet

Em 25/6/2008: A fuga dos cubanos

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