22/07/2010
às 7:49 \ EconomiaJuros: Entenda por que o dinheiro custa tão caro no Brasil
Em reunião realizada na terça-feira, os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiram elevar a taxa básica de juros da economia brasileira, a Selic, em 0,50ponto percentual. Conforme os analistas esperavam, a deflação apontada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15) resultou em um aumento menor do que o previsto anteriormente, de 0,75 ponto percentual. Ainda assim, o Brasil se mantém como um dos países com a maior taxa de juros do mundo – com o novo aumento, a Selic passou para 10,75% ao ano.
A prontidão de um BC para usar essa arma sem vacilações é um antídoto contra a expectativa inflacionária – a tentação dos agentes de mercado de apostar em uma inflação futura e, depois, trabalhar para que ela efetivamente ocorra. Qualquer ameaça à moeda – e uma aceleração brutal da atividade econômica com ênfase no consumo é uma ameaça – faz o Copom reagir com a agilidade de um felino, cujo único golpe é o aumento dos juros básicos, a taxa Selic. A ideia, que pode ser simplista, antiquada, mas funciona, é que juros altos resfriam o consumo e arrefecem o ritmo da economia antes que o crescimento sem base material para sustentá-lo produza o maior inimigo do povo, a inflação alta.
Juros elevados, porém, tendem a ser vistos como um gol contra que o governo marca. Eles retraem o consumo e inflam as dívidas de pessoas, empresas e do próprio governo. Também inviabilizam projetos que podem gerar empregos e travam o avanço econômico do país.
A experiência de controlar a economia lidando apenas com um instrumento — a taxa de juros — é nova no Brasil. O governo sempre teve ferramentas auxiliares. Controlava preços, câmbio, salários. Hoje, essas ferramentas estão descartadas. O governo não mexe com elas. Foram os juros altos que permitiram que o país sobrevivesse à crise financeira internacional entre os anos 1997 e 1999. No auge da crise russa, as taxas tornaram-se tão atraentes que os investidores estrangeiros achavam que o risco de manter seus dólares no Brasil valia a pena
As taxas altas também servem para que o comércio se proteja. Funcionam como um seguro-calote. Os bons pagadores acabam pagando pelos inadimplentes. Uma reportagem de VEJA de 1997, mostrava que, embora já não houvesse mais inflação, os juros cobrados por bancos e lojas beiravam a agiotagem. Pagava-se 7% ao mês de juros reais para comprar uma geladeira. Pelo dinheiro emprestado no cheque especial o banco cobrava 10% ao mês. Com o aumento da taxa de inadimplência à época, os juros do comércio não cediam porque os lojistas precisavam recuperar as perdas que tiveram com os inadimplentes.
Em 1998, a taxa cobrada no Brasil ganhava até mesmo dos juros cobrados na Rússia, país que se desmontou. Uma brutalidade. A taxa média cobrada do consumidor por bancos, administradoras de cartão de crédito e lojas chegou a 213% ao ano em dezembro. Reportagem de VEJA mostrou que, embora a culpa dessa situação seja frequentemente atribuída ao governo, isso é só meia verdade. O Banco Central determina os juros básicos da economia diariamente, vendendo papéis do governo. Esses juros podem ser muito altos se comparados aos americanos, por exemplo, mas não se parecem com a agiotagem praticada pelo comércio e por alguns bancos.
O governo lançou, em 1999, um pacote de medidas para tentar barrar essa discrepância. Naquele ano, o BC baixara os juros 11 vezes, mas o consumidor mal sentiu a diferença. Na hora de tomar um empréstimo pessoal ou acertar a conta do cheque especial, o cliente pagava até 178% de juros ao ano. Um espanto, quando se considera que os bancos pagavam muito menos para captar esse dinheiro no mercado – cerca de 21% ao ano.
Outra razão pela qual os juros no país não caem é porque o BC só consegue influenciar diretamente 60% do crédito nacional. Os 40% restantes são linhas subsidiadas e obrigatórias, como as voltadas ao setor agrícola e às do BNDES, que não seguem as taxas de mercado. Como mostra reportagem de VEJA de 2005, quem não tem acesso a essas linhas acaba pagando a conta, desembolsando juros mais elevados. Naquele ano, por exemplo, isso era ainda mais grave porque o baixo volume de crédito com recursos livres (não subsidiados) não chegava a 20% do PIB. Apenas essa parcela da economia fica sujeita à ação do BC, que precisa, mais uma vez, exagerar na dose para atingir o conjunto da economia.
Mas o que os brasileiros se perguntam é se não existe outro jeito de manter a estabilidade. Será que a inflação só pode ser contida com o sufoco da economia, com aumento dos juros e diminuição da liquidez? Será que toda a legião de sábios das finanças não produziu até hoje uma fórmula alternativa menos amarga de baixar os juros de forma sustentada, mantendo, ao mesmo tempo, a inflação sob controle? Em 2003, especialistas consultados por VEJA responderam o que deve ser feito para baixar o custo dos empréstimos bancários, da rolagem dos cartões de crédito, do crediário das lojas e dos financiamentos para lojistas, industriais e outros empreendedores.
A Selic, tem impacto sobre esse custo, mas outros fatores – até mais fáceis de ser mudados sem acarretar efeitos colaterais indesejáveis – podem ter um efeito de baixa mais expressivo e imediato. A mais evidente dessas mexidas é a diminuição dos impostos diretos e indiretos que encarecem os empréstimos. Um empréstimo pessoal em banco custa hoje aos brasileiros, em média, 112% ao ano. A Selic pesa 24,5% nesse custo. Os impostos cobrados pesam quase 30%. Como ocorre com qualquer outra transação no Brasil, os negócios financeiros são taxados com o peso de uma pata de elefante.
Como se vê, o governo tem meios mais potentes do que mexer para baixo na taxa Selic quando se trata de diminuir o custo do dinheiro, aumentar a oferta de crédito e turbinar o ritmo de crescimento da economia. Usar esses meios é vital porque há um limite mínimo para os juros básicos que, se for ultrapassado, pode ter consequências graves para as finanças.
Em 15/10/1997: O garrote dos juros
Em 2/121/1998: Continua salgado
Em 20/10/1998: Vai ter de cair
Em 5/4/2000: Uma carga mais leve
Em 28/6/2000: Se as economias fossem aviões…
Em 26/2/2003: Será que não tem outro jeito?
Em 30/11/2005: Por que não caem mais?
Tags: alta, BC, Copom, crediário, crédito, dinheiro, Economia, juros, selic



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12 Comentários
Giovani
-31/08/2011 às 12:23
Na verdade isto é apenas uma metáfora economica. O que destrói a nação é o roubo escancarado e diário do dinheiro público por quadrilheiros espalhados democraticamente em todo o Brasil, e oficialmente são chamados de políticos. São nefastos, arrogantes, violentos, e, às vezes, quando são pegos não gostam de serem algemados e confundidos com bandidos comuns, e por isso, agem em grupos, encontram-se invariavelmente em Brasília, que é onde o roubo é planejado por seus líderes em uma escala que conta com pilantras disfarçados de funcionários públicos. Quandos descobertos aparece o pior e maior ladrão e além de passar a mão na cabeça dos bandidos, manda apurar quem vazou o roubo, manda soltar quem roubou, repreende quem prendeu, e renova a equipe de malandros para o próximo golpe.
BRASILIA
-29/08/2011 às 22:27
NÓS ESTAMOS VOLTANDO A ÉPOCA DOS ANOS 80 QUEM ERA A SALARIÁDO NÃO TINHA VALOR, COITA DO FUCIÓNARIO PUBLICO.
Welson DeSouza
-29/08/2011 às 19:55
Infelismente, o Brasil, o Governo e o povo brasileiro continuam a ser “colonias” dependemos dos estrangeiros para tudo. Vejam os preços das Comoditis. A própria cana de açucar que produzimos o alcool ethanolo pagamos um alto custo do combustivel, que deveria ser vendido ao público pela metade do preço que é vendido.
Enquanto continuarmos com a mentalidfade ‘POBRE” e não termos um Brasil “INDUSTRIAL”. Governantes capazes de mudar essa mentalidade pobre avançando e dando condiçoes de ESTUDO DE EXCELENCIA para todos.
Viverermos nessa imcompetencia de não sermos um Pais de 1* MUNDO.
Precisamos se tornar um Pais ‘MADE IN BRASIL’. ISSO SIM.
marcelo vergara
-22/01/2011 às 7:39
A taxa Selic foi elevada para 11,25%, e não para 10,75% como está na matéria.
Victor
-27/12/2010 às 14:35
Coitado do Povo Brasileiro !
Mauro
-10/10/2010 às 15:59
Aborto é assassinato, é tolher o direito à vida, vida do ser humano que não pode e não tem como se defender. Isso torna o aborto o mais cruel dos homicídios. Como podem respeitar o meio ambiente sem antes ter respeito a incipiente vida humana. Hipócritas! Não veem que o mundo está ficando triste com cada vez menos crianças. Assim sendo, vamos dar uma resposta a altura para os homicidas abortistas, votando contra, aquela que é a favor do aborto. Entendo que ser contra o aborto é uma questão moral e ética; não é uma questão somente religiosa,ou da religião, como tentam fazer crer algumas pessoas. CELEBREMOS A VIDA EM SUA PLENITUDE!
Sebastião José
-27/07/2010 às 22:05
Excelente reportagem.
Guilds
-25/07/2010 às 12:14
Hora de comprar titulos prefixados do tesouro. Uma hora essa festa vai acabar!!!!!!!
jota g.
-25/07/2010 às 6:47
Nos eua as taxas de juros sao baixissimas e o estimulo a demanda e uma constante. O que gera aumento de produtividade, emprego , e mais demanda.
E assim que funciona a primeira economia do planeta.
Her
-24/07/2010 às 18:27
Os juros não baixam porque a minoria que vive deles tem 2/3 do orçamento da união para si e vive falando que tem que reduzir a despesa do pouco que sobra para o país manter-se e desenvolver-se, isto é, o terço que sobra. Quando tem que subir voa e quando tem que baixar o ritmo é tão lento que a próxima onda de subida sempre pega a taxa mais alta que no período anterior.
Just-for-fun
-22/07/2010 às 11:10
Qual a razão da mídia não apontar o dedo no verdadeiro fato gerador do mega imposto, mega juros ou hiper inflação? Conivência ou ignorância?
Todos estes 3 fatores acima mencionado são ferramentas utilizando para financiar a farra governamental; chama se custo Brasil ou melhor o custo corrupção, falta de transparência nos gastos, e manicômio burocratico.
Caso o BC abaixasse o benchmark (Selic) ao nível do Japão (0,1%) ou USA (0,25%) o que aconteceria no Brasil? Teria dificuldade a casa da moeda em colocar no mercado LTN, LFT, NTN’s, ai sobraria a opção de girar a manivela para imprimir a “merreca” em três turnos.
Portanto nada de querer complicar coisas simples!