22/06/2010
às 7:15 \ BrasilChuvas: tragédias provocadas pela fúria das águas
As fortes chuvas que atingem o nordeste do país nos últimos dias já deixaram mais de 20 mortos e 57.000 desabrigados. O estado de Alagoas é um dos mais afetados e o que concentra a maioria das mortes. Por conta do caráter de emergência, o governador Teotonio Vilela Filho determinou a utilização de recursos de Fundo de Combate de Erradicação da Pobreza (Fecoep) para amenizar os prejuízos causados pela enxurrada. Todos os anos, chuvas de verão derrubam pontes, fecham estradas, deixam milhares de brasileiros desabrigados, matam. Em seguida, autoridades partem em romaria para os locais afetados, fazem discursos compadecidos e prometem verbas ou obras emergenciais, como se tivessem sido colhidas de surpresa pela catástrofe.
Em 1996, a região metropolitana do Recife foi palco da pior catástrofe provocada pelas chuvas em Pernambuco em 21 anos. A enxurrada nos morros derrubou tudo o que encontrou pela frente: casas, árvores, postes e trechos inteiros de ruas. Nos dias seguintes, ao remexer a lama e os detritos depositados no fundo dos vales, os bombeiros encontraram 51 corpos. Outras 2 200 pessoas ficaram desabrigadas. Os prejuízos são estimados em mais de 30 milhões de reais. Três meses antes da tragédia, uma pesquisa da prefeitura já previa o risco de desabamentos em 1 700 pontos da capital pernambucana caso ocorressem chuvas fortes. Sem espaço nem dinheiro para retirar as 450 000 pessoas que moram nas favelas, a prefeitura optou pela improvisação. Limitou-se a espalhar lonas plásticas pelas encostas dos morros, numa tentativa de evitar que a água se infiltrasse no solo e provocasse deslizamentos.
Um ano mais tarde, as tempestades deixaram um rastro de destruição em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, no Espírito Santo e no Paraná, com 85 mortos, 67 000 desabrigados e dezenas de cidades submersas pelas enchentes. Minas Gerais foi o Estado mais atingido, com 79 mortos. Em Ouro Preto, avalanches de lama e troncos de árvores soterraram ruas e casas. Numa única noite, treze pessoas morreram. Em meio à tragédia, o então governador mineiro Eduardo Azeredo fez uma aposta arriscada em sua carreira política. Continuou de férias na Europa até o meio da semana, em vez de voltar imediatamente ao Brasil para acompanhar o socorro às vítimas da chuva. “Não sou nenhum super-homem”, justificou ao retornar a Belo Horizonte.
A combinação catastrófica de dois fatores – um meteorológico e outro geográfico – provocou, no fim de 2008, a maior tragédia da história de Santa Catarina. Quando a tempestade despencou sobre as cidades, foi com uma fúria e constância jamais vistas, mesmo numa região historicamente sujeita a precipitações caudalosas e enchentes. Apenas na Blumenau dos laboriosos imigrantes alemães, caíram, em cinco dramáticos dias, 300 bilhões de litros de água. Somados, desabrigados e desalojados ultrapassaram 79.000. Dos 293 municípios do estado, 49 foram atingidos. Mais de 100 pessoas morreram.
Em abril de 2010, o Rio de Janeiro viveu um drama semelhante. A maior tempestade da história do estado provocou mais de 200 mortes de mortes nas favelas e expôs o lado sombrio da política de incentivos à ocupação ilegal de áreas de risco. Um após o outro, os morros foram lavados pela força das águas da chuva, perdendo sua fina cobertura de terra onde foram plantados os barracos irregulares não apenas com a complacência das autoridades mas com sua ajuda.
Palco de uma dramática avalanche, o Morro do Bumba, em Niterói, cidade vizinha ao Rio, é um caso emblemático de como o poder público não só é omisso em relação à proliferação das favelas como também pode ser decisivo para sua expansão. Encomendados pela própria prefeitura, dois relatórios técnicos (ambos solenemente engavetados) já haviam veementemente contraindicado a presença de casas naquele morro por duas razões: o lixo presente no subsolo tornava o terreno altamente suscetível a deslizamentos e o gás metano, proveniente da deterioração dos detritos, poderia, a qualquer momento, provocar uma explosão.
A cidade de São Paulo também sofreu com a força das águas no começo deste ano. Durante 45 dias, a cidade foi castigada por temporais intensos, que duravam em torno de duas horas e instauravam o caos. Em janeiro, o volume de água que se abateu sobre a capital foi de 480,5 milímetros. Isso representa o dobro da média histórica de janeiro e o maior volume registrado desde 1947 nesse mesmo mês. A cidade de São Paulo foi o epicentro das chuvas torrenciais que atingiram também outras áreas do Sul e do Sudeste do país. São Luiz do Paraitinga, cidade paulista no alto da Serra do Mar, foi devastada por uma enchente que destruiu dezenas de construções do século XVII tombadas pelo patrimônio histórico.
Também no interior paulista, Campinas, Sorocaba, São José do Rio Preto e Atibaia sofreram com os temporais. Em Angra dos Reis, no estado do Rio, deslizamentos de terra causados pela chuva no Ano-Novo soterraram casas e mataram 53 pessoas. Deu-se o recorde de extensão de deslizamentos em encostas de mata preservada na história da cidade. Angra dos Reis é o caso mais dramático e, também, o retrato mais preciso do conjunto de fatores que desencadeia esse tipo de tragédia. Tudo era previsível. Na bela região em torno da Baía de Angra, com suas 365 ilhas e mais de 2 000 praias, chove quase o dobro da média do Rio de Janeiro, e a instabilidade das encostas é conhecida.
Em 2002, 39 pessoas morreram em Angra num deslizamento com características semelhantes. Apesar disso, nunca foi feito um mapa geológico para verificar quais terrenos são impróprios para construção. A ocupação do solo é regida por regras municipais, estaduais e federais que se sobrepõem, e ninguém as cumpre. Como se não bastasse, existe um impressionante histórico de corrupção nos órgãos responsáveis pela fiscalização em Angra.
Em 8/5/1996: Uma catástrofe anunciada
Em 15/1/1997: Fúria do dilúvio
Em 3/12/2008: O horror diante dos olhos
Em 13/1/2010: Trágico, absurdo, previsível
Em 10/2/2010: Dilúvio… 45º dia
Em 14/4/2010: Rio… do descaso, da demagogia, do populismo e das vítimas de suas águas
Tags: alagoas, angra dos reis, caos, chuvas, pernambuco, recife, RJ, santa catarina, São Paulo, Tragédias






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5 Comentários
Fernando
-09/09/2011 às 16:06
Acredito sinceramente que o problema é tão simples quanto é grandioso: a total falta de estudo, planejamento e direção do desenvolvimento das cidades. Não é a simples falta de redes de drenagem ou piscinões, a ocupação indevida das terras, falta de educação, falta de tratamento do lixo… É falta de estudo a princípio. Os japoneses vivem em uma das áreas com maior incidência de terremotos. O que fizeram? Estudaram a fundo o problema. Quanto uma cidade pode crescer? Em que ponto do crescimento haverá estrangulação? Há muitas cidades no mundo onde há severas restrições à ampliação das cidades. Como se controla e acompanha isto? Com planejamento. Como tornar estudo e planejamento viáveis? Com direção. Mas para haver direção tem que existir competência e continuidade. Mas ao que parece na política brasileira há pouco ou nhenhum espaço para competência e continuidade não combina com herança maldita. Assim Japoneses sofrem um terremoto grandioso. Sofrem com um tsunami. Sofrem com um vazamento radiotivo. E as baixas são de apenas cerca de 20.000 vidas. 1 vida já é muito, eu sei. Mas se estas 03 catástrofes tivessem ocorrido no Brasil, certamente o número de vítimas teria ao menos um dígito a mais.
Renildo
-13/05/2011 às 9:43
temos que orar ao senhor que é poderoso para nos proteger, isto é, por causa de pessoas que não querem compromisso com a palavra de Deus o senhor permite isso acontecer para lemramos dele, só assim porque muitos não dão a honra e a glória para ele mas para outros deuses que não tem poder e nem pode! porque são deuses falsos. o verdadeiro Deus que criou o ceus e a terra é o Senhor Deus Jeová!
Fabio Andre Balthazar
-16/01/2011 às 10:44
As causas são muitas, e depois que o dilúvio vem só resta enterrar os mortos e transformar tudo como antes dilúvio: o déficit habitacional alto leva a ocupação desordenada que por sua vez torna as encostas e as várzeas lugares ocupados. Não se investe em saneamento básico, tratamento de esgoto, e não de constrói grandes piscinãos com grandes galerias, não se investe em uma política pública de limpeza e educação no tratamento dos resíduos sólidos. Existem mais uma dezenas de medidas que dariam efeito conforme o lugar que sofre periodicamente dos trágicos, absurdos e previsíveis dilúvios, mas tempos em tempos o brasileiro está conseguindo mostrar ao mundo uma capacidade louvável de solidariedade para se recuperar de catástrofes, mas está deixando muito a desejar na criatividade, ciência, coragem e ousadia em prevení-las. Os brasileiros precisam criar uma grande rede de esforços para reduzir as causas de tanta vulnerabilidade aos dilúvios recorrentes, e atacá-las para que quando chega a fúria da natureza esteja razoavelmente preparado para enfrentá-la. Solução definitiva, talvez só um grande gênio da engenharia civil descobrirá.
heloisa
-02/08/2010 às 19:33
que pena