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Leia o primeiro capítulo de ‘Diários de Raqqa’

Assinado pelo pseudônimo 'Samer', o testemunho do sírio é dos poucos que conseguiram quebrar o cerco à comunicação imposto pelo Estado Islâmico

Em março de 2013, o Exército Livre da Síria ‘libertou’ Raqqa, cidade ao norte da Síria, do domínio de Bashar Assad. Ele contava com a ajuda da milícia Al-Nusra, ligada à Al-Qaeda. Pouco depois, uma dissidência do grupo se tornaria o Estado Islâmico e ganharia protagonismo entre terroristas com seu projeto expansionista.

O livro Diários de Raqqa (Ed. Globo, 112 págs., R$ 29,90), escrito pelo pseudônimo Samer, traz um relato bastante direto sobre como o domínio do EI (aqui denominado Daesh) dominou aos poucos o cotidiano sírio com sua brutalidade e terror.

Confira o trecho inicial do livro, que chega às prateleiras amanhã (17):

 

“6 de março de 2013

Certa manhã, todos na cidade acordaram ao som de explosões e disparos. Meu Deus, eu pensei, o que está acontecendo? Será que a revolução contra o governo finalmente chegou?

Então ouvimos gritos e batidas frenéticas na porta de nossa casa. Quando meu pai a abriu, nosso vizinho lhe agarrou o braço e gritou a plenos pulmões: ‘Aconteceu! Aconteceu! Os rebeldes entraram na nossa cidade… Eles tomaram o poder!’.

Meu pai perguntou se ele estava brincando. Mas nosso vizinho insistiu que a polícia e o exército não existiam mais; alguns soldados haviam sido mortos, mas o resto simplesmente tinha fugido. Não se encontrava mais na cidade.

Não pude acreditar no que estava ouvindo. Saí correndo porta afora e vi carros passando a toda velocidade com a bandeira do Exército Livre da Síria. Um deles logo parou bem na minha frente. Um homem inclinou‑se na janela e me disse que não era para eu ter medo. Disse que ele e seus colegas soldados haviam vindo nos libertar da tirania e da corrupção. ‘Somos todos irmãos’, acrescentou.

A primeira vez que vi a Hisba — a polícia religiosa do Daesh — patrulhando as ruas, estavam gritando com uma mulher (…) A mãe tinha aparência muito decente, de acordo com os usos locais. Trajava uma abaya e um hijab, mas a polícia a xingava e questionava sua honra por não estar usando um véu no rosto. Os policiais usavam palavras que a maioria de nós se envergonharia de repetir. Como ousavam dizer que eram religiosos?, eu me perguntava.

Perguntei se eu ainda poderia voltar à universidade e terminar meus estudos. Ele respondeu que sim, que tudo ficaria bem assim que se livrassem dos tiranos. Minha cabeça estava girando, eu não podia crer que tudo aquilo estava acontecendo.

Em algumas horas, tudo ficou claro. O Exército Livre da Síria, o Ahrar al‑Sham e a Frente Al‑Nusra haviam assumido o controle da nossa cidade.

De noite, ainda muito agitado, me encontrei com meus amigos. Sentamo‑nos e discutimos o que fazer a partir de então. Todos concordamos que devíamos dar total apoio ao Exército Livre da Síria, já que eram todos sírios como nós e compartilhavam nossos desejos. Todos queríamos nos ver livres do regime de Assad. Mas não sabíamos o que dizer a respeito dos dois grupos islâmicos — o Daesh e a Frente Al‑Nusra — que haviam ajudado a libertar nossa cidade. Estávamos um pouco receosos em relação a eles.

*

Eu nunca vou me esquecer da primeira vez que o Daesh apareceu nas ruas de nossa cidade. No começo, forças de oposição cercaram os combatentes que ocuparam os prédios do governo. Estávamos otimistas. Mas então tudo mudou. O Exército Livre da Síria começou a fraquejar. Ocupava‑se de combater o regime em outras partes, e suas forças em Raqqa minguavam mais e mais. Seus soldados eram atingidos por seguidos ataques aéreos do governo. O Daesh revidou, rompeu o cerco do Exército Livre da Síria e rapidamente tomou nossa cidade indefesa.

Aproveitou‑se de nossa confusão e ignorância e começou a persuadir o povo a juntar‑se às suas fileiras. No começo, os militantes cativavam as pessoas com uma fala dócil, prometendo‑lhes de tudo. Mas eu não engoli nada disso.

Há dois tipos de membros do Daesh: os que realmente acreditam que vieram nos salvar e estavam entre os primeiros a entrar na cidade; e um segundo tipo, muito mais violento.

A primeira vez que vi a Hisba — a polícia religiosa do Daesh — patrulhando as ruas, estavam gritando com uma mulher que tinha puxado a filha de volta à calçada depois que a garotinha saíra correndo em direção à rua. A mãe tinha aparência muito decente, de acordo com os usos locais. Trajava uma abaya1 e um hijab2 mas a polícia a xingava e questionava sua honra por não estar usando um véu no rosto. Os policiais usavam palavras que a maioria de nós se envergonharia de repetir. Como ousavam dizer que eram religiosos?, eu me perguntava.

Todo dia o Daesh reúne uma multidão na praça, como se estivesse prestes a ensaiar uma peça de teatro. Também inflige algumas dessas brutais punições bem no meio de rotatórias de ruas movimentadas. O grupo está determinado a mostrar ao máximo de testemunhas o que pode acontecer àqueles que o contestam.

A mulher ficava cada vez mais assustada e tentava fugir deles. Dizia que apenas queria levar a filha para casa, mas eles não a deixavam em paz. A essa altura, havia alguns sírios por perto; estávamos todos em choque, mas não arriscamos abrir a boca. Foi então que Abo‑Saeed resolveu intervir. Desde que se aposentara havia uma década, ele era o muezim3 da mesquita que havia nas redondezas. Em toda a cidade as pessoas estavam habituadas a ouvir sua voz nos alto‑falantes. Se não o ouvíssemos de noite chamando para a reza, imaginaríamos que algo ruim teria lhe acontecido. Agora ele estava falando aos berros, exigindo saber se aquela era a mensagem sagrada que eles estavam tentando propagar. ‘Acreditem’, dizia ele, ‘vocês não têm nada a ver com o Islã.’ Ele era popular, e o povo começou a juntar‑se em volta dele. Ficar atrás do nosso muezim nos fazia sentir mais corajosos, conforme ele investia contra esses estrangeiros que, do nada, haviam aparecido em nossa cidade. Por fim, Abo‑Saeed ficou tão exaurido que sofreu um ataque cardíaco ali mesmo, na rua. Enquanto alguns espectadores o carregavam até um carro e disparavam até o hospital, começamos a avançar. Logo, uma turba furiosa estava cercando a patrulha do Daesh. Claramente receosos do que poderia acontecer, os homens escapuliram correndo.

‘O que foi que os trouxe até aqui?’, ouvi alguém perguntar. Consentimos que não os desejávamos em nossa cidade. Um homem na minha frente exclamou a todos que não deveríamos dizer tais coisas. Alertou que o Daesh agora tinha espiões por toda parte. ‘Não ouviram o que aconteceu ontem à noite?’, disse. ‘Decapitaram um sujeito na praça Naeem porque estava fazendo críticas a eles.’ Ignorando o aviso, uma voz ardente atrás de mim gritou: ‘Essa gente vai nos devolver à Idade das Trevas!’.

Eu me pergunto o que o Daesh vai fazer em seguida. Primeiro toma nossa cidade, depois ordena o que as pessoas devem vestir, instaurando uma polícia religiosa e reforçando a lei da Sharia4. E amanhã, o que diabos inventará?

*
O Daesh começou a se vingar de todos os seus oponentes, perseguindo revolucionários e outros ativistas e seus apoiadores. Acusa‑os de apostasia, o que não passa de mais uma desculpa para as execuções. Todo dia o Daesh reúne uma multidão na praça, como se estivesse prestes a ensaiar uma peça de teatro. Também inflige algumas dessas brutais punições bem no meio de rotatórias de ruas movimentadas. O grupo está determinado a mostrar ao máximo de testemunhas o que pode acontecer àqueles que o contestam.

Não consigo acreditar no que está acontecendo. A cada dia que passa a arrogância do Daesh se agrava e seu domínio malévolo na cidade se aperta. No momento não há maneira nenhuma de desafiar seu controle. Eles tomaram muitas armas dos soldados derrotados de Assad, os quais são com frequência levados a desfilar pelas ruas e depois assassinados. O Daesh os prende e em seguida os reúne em grande número. Os homens do Daesh os perfilam e os fuzilam. Seu objetivo é instilar medo no coração dos espectadores para que não ousem desafiar seu império de terror.

As coisas aqui ficam cada vez piores, cada vez mais sombrias. É o pior período da história de Raqqa. O otimismo morreu.

*

Nos alto‑falantes, ouço que algumas pessoas estão prestes a ser executadas. De pé, há um grupo de homens com os olhos vendados. Na frente deles, um homem mascarado começa a ler suas sentenças.

Eissa, um ativista de mídia, é acusado de falar com estrangeiros. Sua punição: decapitação.
Um homem com uma espada realiza as execuções.
Estamos incapacitados de fazer qualquer coisa em relação ao que acontece diante de nossos olhos. É muito perigoso dar vazão aos nossos verdadeiros sentimentos, porque o Daesh está vigiando a multidão.

Hassan lutou ao lado das forças do regime. Sua punição será a decapitação.

Eissa, um ativista de mídia, é acusado de falar com estrangeiros. Sua punição: decapitação.

Um homem com uma espada realiza as execuções.

Estamos incapacitados de fazer qualquer coisa em relação ao que acontece diante de nossos olhos. É muito perigoso dar vazão aos nossos verdadeiros sentimentos, porque o Daesh está vigiando a multidão. Estamos desesperadamente cercados. Encaro os rostos à minha volta, tentando ler os pensamentos que há por trás de tantos olhos tristes e calados. Em alguns, vejo raiva. Esses rostos irados encaram o carrasco, sem dúvida planejando a vingança que lhe perpetrarão assim que surgir a oportunidade. Muitos estão à espera da centelha que irá deflagrar o levante contra aquele homem e todos os assassinos do Daesh.

Por ora, o povo está se contendo por causa do medo, mas certamente não será por muito tempo. Enquanto me perco em pensamentos, algumas pessoas atrás de mim começam a se despegar da multidão, desesperadas para abandonar a cena sem que sejam notadas. Contudo, isso é arriscado demais. O Daesh está resolvido a garantir que todos nós assistamos aos assassinatos.”

 

Notas:

(1) Traje comprido e folgado no corpo.

(2) Tradicional cobertura dos cabelos e do pescoço.

(3) Aquele que é escolhido para dirigir e recitar o chamado à reza na mesquita.

(4) Criada centenas de anos após a morte do profeta Maomé, a Sharia é o sistema de leis que regem a vida de um muçulmano. Nela há princípios fixos, que versam sobre questões mais pessoais, como casamento, ritos religiosos, heranças etc., e princípios mutáveis, como, por exemplo, penas para diferentes tipos de crime, que podem ser interpretadas e aplicadas de acordo com a vontade de cada país ou corte. (N.E.)

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