Barnes reconta história de músico censurado pelo regime soviético

'O Ruído do Tempo', do autor laureado com o Man Booker Prize, chega às livrarias no dia 11 de fevereiro

“Um escritor para escritores”: foi assim que Umberto Eco definiu Julian Barnes em entrevista a VEJA em 2015. Talvez não por hermetismo ou escrita rebuscada, mas porque o autor (vencedor do prêmio Man Booker com o romance O Sentido de um Fim) já dedicou livros à figura de escritores como Sir Arthur Conan Doyle e Gustave Flaubert. Com sua linguagem sutil, contudo, ele não se encerra apenas aos mais aficionados pela literatura.

É o caso de seu novo romance, O Ruído do Tempo (Editora Rocco, 176 págs), em que se volta ao cenário musical. Ao montar o quebra-cabeças delicado da vida de Dmitri Shostakovich, compositor russo com obras censuradas pelo regime stalinista que acabou ingressando no Partido Comunista, ele oferece um retrato humano sobre a integridade e a coragem quando confrontadas pelo poder.

Confira, em primeira mão, o início do livro, que chega às prateleiras no dia 11 de fevereiro:

Um: No Hall

Tudo o que ele sabia era que esta era a pior hora.
Estava parado ao lado do elevador havia três horas. Fumava o quinto cigarro, tinha a mente a mil.
Rostos, nomes, lembranças. O musgo pesava em sua mão. Aves aquáticas suecas esvoaçavam sobre sua cabeça. Campos de girassóis. O cheiro de óleo de cravo. O cheiro quente e doce de Nita saindo da quadra de tênis. O suor escorria de um bico de viúva. Rostos, nomes.
Os rostos e nomes dos mortos, também.
Ele poderia ter trazido uma cadeira do apartamento. Mas de qualquer forma o nervosismo não permitiria que descansasse. E sem dúvida pareceria excêntrico esperar o elevador sentado.

 

A situação tinha surgido inesperadamente e, no entanto, era perfeitamente lógica. Como o resto de sua vida. Como o desejo
sexual, por exemplo. Surgia inesperadamente e, no entanto, era perfeitamente lógico.
Tentou focar o pensamento em Nita, mas a mente não lhe obedeceu. Parecia uma mosca-varejeira, barulhenta e promíscua.
Pousou em Tanya, é claro. Mas depois zumbiu até chegar àquela moça, Rozaliya. Ele ficou vermelho ao lembrar, ou se orgulhou
secretamente daquele impróprio incidente?
O apoio do marechal – isso também tinha surgido inesperadamente e, no entanto, era perfeitamente lógico. O mesmo poderia
ser dito em relação ao destino do próprio marechal?
O rosto afável, barbudo, de Jurgensen; e, logo então, a lembrança dos dedos da mãe, ferozes, zangados, em volta do seu pulso. E o pai, doce, adorável e irrealista, parado ao lado do piano, cantando ‘Os crisântemos do jardim já murcharam há muito tempo’.

Será que tudo aquilo poderia, mesmo neste estágio adiantado, ser consertado, posto no lugar, revertido? Ele sabia a resposta: o mesmo que o médico dissera sobre a restauração de seu nariz. ‘É claro que ele pode ser colocado no lugar, mas eu garanto que vai ser pior para o senhor.’


A cacofonia ecoava em sua cabeça. A voz do pai, as valsas e polcas que ele próprio tinha tocado enquanto cortejava Nita, quatro toques de uma sirene de fábrica em fá sustenido, o latido de cães, mais alto do que o som de um fagotista inseguro, uma confusão de percussão e metais debaixo de um camarote oficial revestido de aço.
Esses ruídos foram interrompidos por um que veio do mundo real: o zumbido e o rosnado súbitos das engrenagens do elevador. Agora foi o pé dele que vacilou, derrubando a maleta encostada em sua perna. Ele esperou, subitamente vazio de memória, repleto apenas de medo. Então o elevador parou num andar mais abaixo, e suas faculdades mentais voltaram a funcionar. Ele levantou a maleta e sentiu os objetos guardados mudarem ligeiramente de lugar. Isso fez sua mente saltar para a história dos pijamas de Prokofiev.
Não, não como uma mosca-varejeira. Mais como um daqueles mosquitos em Anapa. Pousava em toda parte, sugava sangue.

 

Ele tinha pensado, ali parado, que conseguiria controlar a mente. Mas à noite, sozinho, sentia que a mente o controlava. Bem, não há como escapar ao próprio destino, como o poeta nos garantiu. E não há como escapar à própria mente.
Recordou a dor que sentira na noite anterior à cirurgia de apêndice. Vomitara vinte e duas vezes, gritara todos os palavrões
que sabia para uma enfermeira, depois havia implorado que um amigo chamasse o soldado para pôr fim à dor com um tiro. Faça ele entrar e atirar em mim para acabar com a dor, tinha implorado. Mas o amigo havia se recusado a ajudar.
Agora não precisava nem de um amigo, nem de um soldado. Já havia voluntários suficientes.
Tudo tinha começado, muito precisamente, ele disse à própria mente, na manhã do dia 28 de janeiro de 1936, na estação de trem de Arkhangelsk. Não, a mente respondeu, nada começa desse jeito, numa certa data e num certo lugar. Tudo começa em muitos lugares e em muitos momentos; algumas coisas até mesmo antes do próprio nascimento de alguém, em países estrangeiros, e na mente de outras pessoas.
E depois, tudo o que podia acontecer em seguida, é que tudo iria continuar da mesma forma, em outros lugares e na mente dos outros.
Ele pensou em cigarros: maços de Kazbek, Belomor, Herzegovina Flor. Em um homem que desmanchava o tabaco de meia dúzia de cigarros dentro do cachimbo, deixando sobre a mesa restos de tubos de papelão e papel.
Será que tudo aquilo poderia, mesmo neste estágio adiantado, ser consertado, posto no lugar, revertido? Ele sabia a resposta: o mesmo que o médico dissera sobre a restauração de seu nariz. ‘É claro que ele pode ser colocado no lugar, mas eu garanto que vai ser pior para o senhor.’
Ele pensou em Zakrevski, e na Grande Casa, e em quem poderia tê-lo substituído. Alguém teria servido. Nunca faltavam Zakrevskis, não neste mundo, do jeito que ele era constituído. Talvez quando o Paraíso fosse conquistado, depois de quase exatamente 200.000.000.000 anos, os Zakrevskis não precisassem mais existir.
Às vezes sua mente se recusava a acreditar no que estava acontecendo. Não podia ser, porque não era possível, como o major
disse quando viu a girafa. Mas podia ser, e era.

 

Destino. Este era apenas um termo grandioso para designar algo a respeito do qual não era possível fazer nada. Quando a vida dizia a alguém: “E então”, a pessoa balançava a cabeça e chamava a isso de destino. E, então, seu destino tinha sido o de ser batizado como Dmitri Dmitrievich. Não havia nada a ser feito quanto a isso. Naturalmente, ele não se lembrava do próprio batismo, mas não tinha motivos para duvidar da veracidade da história. A família toda havia se reunido no escritório, ao redor de uma pia batismal portátil. O padre chegou e perguntou que nome os pais pretendiam dar ao recém-nascido. Yaroslav, responderam. Yaroslav? O padre não estava satisfeito. Disse que era um nome muito incomum. Disse que crianças com nomes incomuns sofriam brincadeiras e deboches na escola: não, não, não podiam chamar o menino de Yaroslav. O pai e a mãe ficaram perplexos com aquela oposição tão veemente, mas não quiseram ofender o padre. Que nome o senhor sugere, então?, perguntaram. Um nome comum, disse o padre: Dmitri, por exemplo. O pai respondeu que se chamava Dmitri, e que Yaroslav Dmitrievich soava muito melhor do que Dmitri Dmitrievich. Mas o padre não concordou. Então ele se tornou Dmitri Dmitrievich.

E com as mulheres, quando perdia a timidez, oscilava entre o entusiasmo absurdo e o desespero enlouquecido. Era como se estivesse sempre no ritmo errado.


Qual era a importância de um nome? Ele tinha nascido em São Petersburgo, tinha sido criado primeiro em Petrogrado e depois
em Leningrado. Ou em São Leninsburgo, como às vezes gostava de chamar a cidade. Qual era a importância de um nome?
Ele tinha trinta e um anos. Sua esposa Nita estava deitada a poucos metros de distância, ao lado da filha dos dois, Galina. Galya tinha um ano. Nita parecia estável havia algum tempo. Ele nunca achara que tudo aquilo era fácil. Sentia emoções fortes, mas nunca tinha aprendido a expressá-las. Mesmo num jogo de futebol, raramente gritava e perdia o controle como as outras pessoas; se contentava com a observação calma da habilidade de um jogador ou da falta dela. Alguns achavam que se tratava da típica reserva formal de um leningradense; mas por cima disso – ou por baixo – ele sabia que era uma pessoa tímida e ansiosa. E com as mulheres, quando perdia a timidez, oscilava entre o entusiasmo absurdo e o desespero enlouquecido. Era como se estivesse sempre no ritmo errado.

No entanto, mesmo assim, a vida tinha finalmente adquirido alguma regularidade, e com isso o ritmo correto. Só que agora tudo havia se tornado instável outra vez. Instável: isso era mais do que um eufemismo.”

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  1. AÍDA PAIVA CAETANO

    É muito difícil acreditar numa história contada por um norte – americano, principalmente quando se trata das histórias dos intelectuais russos. Porque? Porque todos os intelectuais russos que o Ocidente gosta possuem a mesma história de serem perseguidos por Stalin. Quem se lembra do “Arquipélago Gulag” de Alexandre Soljenitzen? Quem leu “Pavilhão de Cancerosos” do mesmo autor?
    As novas vítimas do Sistema são sempre adolescentes que acreditam que a Rússia não presta. Os perseguidos pela antiga URSS e hoje Rússia são sempre os mesmos e apresentam a mesma história. Cadê a Verdade?

    Curtir