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Sobre o que disse o ex-funcionário conservador do Google a VEJA

E de como as empresas digitais não podem ser vistas como nações ou igrejas

Quando a história estava passando, ela voltou à tona, como nessa entrevista que o engenheiro James Damore, ex-Google, deu ao site de VEJA. Um resumo da pendenga: ele foi demitido da empresa após redigir um memorando no qual defendia que diferenças biológicas entre mulheres e homens justificariam distinções entre os gêneros no ambiente de trabalho. Saiba mais neste post que escrevi sobre o assunto.

Agora, Damore quer propagandear a companhia para a qual trabalhava como injusta, por supostamente ser fundação de um ambiente de censura a quem pensa de forma conservadora. E ameaça o Google de processo judicial. Nesse ponto, tanto faz se ele estava certo, ou errado, em suas opiniões. Ou mesmo se estava localizado em um trecho cinza entre esses dois espectros. A discussão que levanto: o Google realmente falhou ao demiti-lo?; e, afinal, Damore estaria correto em sua decisão de processar sua ex-casa?

Por que levanto essas perguntas? Assusta-me um elemento muito presente nas empresas digitais / de tecnologia, ainda mais naquelas localizadas no Vale do Silício californiano. Essas marcas, como a Apple, o Facebook e o Google, não estão mais sendo vistas como, afinal, marcas. É comum – ainda mais em andanças pelo Vale – se deparar com a ideia de que as representantes do universo.com não seriam simples empresas. Elas seriam mais que isso.

“Há uma visão dessas companhias que em muito se assemelha a como nós antes vislumbrávamos igrejas e religiões”, resumiu, em conversa recente que tive com ele, o historiador e escritor israelense Yuval Noah Harari, autor dos best-sellers Sapiens e Homo Deus. Este último justamente sobre como a Apple, o Facebook, o Google e seus semelhantes estão construindo um mundo no qual surgirá uma casta de humanos melhorados pelas tecnologias (o homo deus do título).

Como se encaram essas empresas como igrejas ou, quiçá, nações, surgem discussões sem sentido como a proposta pelo caso de Damore. Fosse a história protagonizada por um empregado de uma fabricante de refrigerantes, de uma petrolífera, ou de uma rede de fast-food, a repercussão seria outra. Só que como foi no Google… o mundo ou, melhor, aquele mundo que surge nas redes sociais, na internet, veio abaixo.

Repito: já expressei minha opinião sobre o documento, digamos, canalha, cafajeste, redigido por Damore. Isso em nada tem a ver com o que redigirei agora.

No Vale, já ouvi de um designer de renome: “Não quero trabalhar para grandes companhias por nelas me sentir como uma peça de um quebra-cabeça, não como o dono. Prefiro startups”. Curiosidade: o mesmo profissional foi bater ponto no Instagram, depois comprado pelo Facebook. Esse tipo de discurso é tão comum quanto o do engenheiro conservador indignado por ter sido demitido após tornar públicas as suas opiniões.

Ambos julgam as empresas para as quais trabalham como algo muito maior, mais significativo. Um tinha fé de que precisava se sentir como parte integrante das decisões de um Google ou Facebook, como um ser que participa das escolhas de como a companhia estaria “mudando o mundo”. Ou seja, queria ser dono (ou um cidadão com poder de voto, ao menos), não funcionário. Outro achou um atentado à Primeira Emenda dos EUA ele ter sido demitido ao se expressar. Oi?

Ocorre que o Google não é os EUA. Nem a Igreja Católica. Nem uma versão modernizada de ambos. Por mais que exista essa noção deturpada, aproveitada até na ficção – como no livro / série de TV American Gods; no qual as marcas digitais se veem transformadas literalmente em deuses modernos –, tratam-se de empresas. Empresas que possuem códigos de conduta, regras, metas, um balança financeira que visa o lucro etc.

Recordo, por exemplo, quando visitei o X, um laboratório autodenominado semi-secreto no qual o Google experimenta seus projetos de estilo moonshot (em outras palavras, os mais ambiciosos do ponto de vista tecnológico). Uma dessas iniciativas procurava espalhar balões com, num resumo simplista, wi-fi pelo planeta. Para assim conectar à internet a (em torno de) metade da população global que ainda não possui acesso. Ao questionar Astro Teller, um dos manda-chuvas do X, sobre “qual seria o fim comercial dessa empreitada”, ele foi bem transparente. Primeiro, evidenciou o óbvio, de que mais gente na web representaria também mais clientes para os produtos by Google. Depois, deixou claro que, antes de dar start em qualquer projeto moonshot, é feito um plano de negócios que visa, obviamente, o lucro com a empreitada. E o que essas obviedades têm a ver com a questão central deste texto?

Mesmo na divisão mais inovadora do Google, o Google não deixa de ser… o Google. Nações e igrejas usualmente não necessitam de planos de negócios. Não era o lucro que estava na mente, por exemplo, da equipe que enviou o homem à Lua (e fez popular o termo moonshot) no programa Apollo, em 1969. Sendo assim, empresas não precisam também se ater a questões como liberdade de expressão (a interna, digo; não a externa) ou procurar fazer com que seus funcionários se sintam “donos do negócio”. Isso é tudo bobagem propagandeada pela minha geração, a dos millennials. Trata-se tão-somente de maquiagem para mascarar que essas empresas são, olhe só, empresas.

Logo, não há problema no Google ter demitido Damore por suas visões serem conflitantes com as da marca. Também não existe galho algum no Uber, por exemplo, escolher um novo CEO, como fez recentemente, sem se importar necessariamente com a opinião pública – enfezada após acusações de assédio dirigidas a ex-executivos uberianos, como seu ex-CEO.

O Google, vide bem, não censurou seu ex-funcionário. Ele continua a poder falar à vontade, o quanto quiser, onde quiser. Inclusive, veja só, caso queira, por meio de plataformas do próprio Google, como o YouTube. Repito: ele não está sendo censurado. Só foi demitido.

Em tempo: termino este texto achando tudo que está nele redigido tão, mas tão, óbvio. Contudo, parece um “óbvio” que tem sido esquecido pelos empolgados admiradores de qualquer coisa que surja do Vale do Silício – para esses, uma “Meca” contemporânea.

Para acompanhar este blog, siga-me no Twitter, em @FilipeVilicic, e no Facebook.

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  1. O azar do rapaz foi o de não ser da minoria defendida pelo politicamente correto. Né, Felipe Vilicic?

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