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Sobre mamilos, peitos, pênis e a internet

Como a caretice off-line também prejudica a liberdade online, antes uma das características mais instigantes da web

O mundo está careta demais. Qualquer pessoa tem o direito de ser careta, veja bem. O problema é quando se tenta obrigar que todos os outros sejam. Mais que isso, que essa atitude culmine em censura e, por consequência, limite o que eu e outros podem fazer, criar ou ver. Provas descabidas de caretice, que levam ao dominó da censura como descrito acima, são as recentes reações à performance do coreógrafo Wagner Schwartz no MAM, em São Paulo – ele, despido, deixava que a plateia interagisse com seu corpo; ao menos num caso, uma criança fez isso (com supervisão da mãe; e aviso na porta de que a performance seria explícita) –, e o cancelamento da mostra Queermuseu, em Porto Alegre. Está por fora desses casos? Clique nos links destacados. Porém, esses exemplos são só recortes de um cenário muito maior. Um que pode ser resumido pela ilustração de como a internet, antes um refúgio para aqueles que queriam se expressar livremente, encaretou.

Há duas semanas, li um texto do historiador Jorge Coli na Folha de S. Paulo no qual ele relatava seu incômodo com o fato do Facebook ter suspendido seu perfil por três dias. O motivo: ele postou um quadro do francês Gustave Courbet (1819-1877), no qual se retratava uma jovem, do umbigo para cima, com os mamilos à mostra. A razão da punição: os mamilos. Quando Coli voltou a publicar a mesma imagem, com os mamilos cobertos, não houve problema.

É de Courbet, também, outro trabalho que gerou polêmica no Facebook. Em 2011, a rede social proibiu que um artista francês postasse uma das criações mais famosas do pintor realista: A Origem do Mundo, que exibe a genitália feminina. Quem compartilhou a imagem foi banido do Facebook. Em solidariedade, outros usuários resolveram publicar a mesma obra em seus perfis. Também foram banidos. Após muita controvérsia, o Facebook reabilitou os perfis, mas continuou a censurar A Origem do Mundo, em muitas ocasiões.

Em seu texto, Coli ainda escreve sobre outras expressões artísticas que não poderiam existir no mundo de Facebook. Por exemplo, as incríveis fotos do americano Robert Mapplethorpe e do brasileiro Alair Gomes, que atualmente são tema de uma mostra (ótima; recomendo) em São Paulo. Nas imagens, há nu, também.

No universo das redes sociais, parece valer a máxima “Toda nudez será castigada”, título de peça de Nelson Rodrigues – pergunto-me como seria encarado, hoje, um perfil de Nelson Rodrigues no Facebook, caso ele tivesse presenciado este careta mundo conectado. Ou, ao menos, quase toda nudez.

Menina corre nua em uma estrada após um ataque de napalm sobre tropas vietnamitas e civis em um vilarejo em Trang Bang, no Vietnã

Foto clássica (e horrorizante) da Guerra do Vietnã, de autoria de Nick Ut: proibida no Facebook, que depois voltou atrás na decisão repressiva (Nick Ut/AP)

No ano passado, uma clássica foto da Guerra do Vietnã, que joga em nossas caras a terrível cena de uma garota, pelada, fugindo de uma bomba de napalm, foi removida do Facebook. Após queixas em série, em especial de representantes da mídia dos EUA, o censor digital voltou atrás e resolveu permitir a publicação. Em solidariedade aos casos off-line no Brasil, do MAM e o do Queermuseu, brasileiros começaram a postar famosos nus artísticos, de pinturas a fotos, em redes como o Instagram e o Facebook. No primeiro, obras de nomes como Spencer Tunick (de pessoas nuas no Parque Ibirapuera, em São Paulo) e Marina Abramovic foram removidas.

Mas como Facebook, YouTube, Instagram, Twitter e afins realizam essa curadoria careta? Em conversas que tive justamente com responsáveis por esse trabalho, no Facebook, no YouTube e no Instagram, a explicação é sempre a mesma. O primeiro filtro é comandado pelos algoritmos que regem esses sites. Sim, agora a inteligência artificial nos diz o que é arte, e o que não é. Neste ano, vazou um relatório de 100 páginas no qual o Facebook explicava a empregados do setor responsável quais seriam os critérios. O algoritmo, por exemplo, pode punir automaticamente fotos e obras classificadas como “digitais” que contenham nu. Mas “pensa” duas vezes antes de eliminar quadros de pintores clássicos; o que não impede que, às vezes, ele faça isso, como com Courbet.

Há ainda mais dois caminhos para a censura virtual. Outros usuários das redes sociais podem se queixar de uma imagem e enviar a reclamação adiante. Nisso, um time de profissionais avalia o protesto e decide, assim, se tira ou não o post do ar. Por fim, essa mesma equipe também faz, por conta, uma peneira do que pode ou não ser publicado. Há reclamações desses funcionários, que chegaram a revelar que em alguns momentos eles têm apenas dez segundos para realizar seus julgamentos éticos/morais.

Quando se conversa com esses empregados, eles se defendem. Dizem que a censura é necessária para coibir a prática de pedofilia, revenge porn e afins. Sim, isso é verdade. É preciso monitorar os sites. Entretanto, os critérios são extremamente questionáveis. Mamilos femininos são veementemente proibidos. Masculinos, liberados. No Instagram, páginas como @novinhas_gostosas_dançando – que mostra, adivinhe, meninas (provavelmente, menores de idade) dançando sensualmente, com lingerie – estão dentro das regras. Mas uma capa de disco com Caetano Veloso pelado, ao lado de sua esposa e seu filho, também nus, não pode.

Um perfil intitulado @genderless_nipples tira sarro desses julgamentos: publica, sem distinção, closes de mamilos masculinos e femininos (só os segundos são proibidos, vale recordar). Como o Instagram não consegue identificar qual é de uma mulher, qual é de um homem, os métodos de censura digital não funcionam direito. Resultado: no fim, tão-somente umas das imagens foi banida; o curioso é que essa, especificamente, retratava um peitoral masculino (ou seja, em teoria, permitido).

Em anúncios no Google e em qualquer vídeo do YouTube, são proibidas imagens de mamilos de mulheres. Independentemente de como são apresentados os mesmos. Contudo, procure pelo nome de qualquer musa de Hollywood no Google e logo, em “imagens”, aparecerão ou fotos da mesma pelada (quando há) ou montagens, falsas, que insinuam o mesmo. No YouTube, nada de um clipe fofinho e bestinha de Clarice Falcão em que se exibem genitálias. Entretanto, é fácil encontrar vídeos de menores de idade em cenas praticamente pornográficas.

Quando a internet começou a se popularizar, entre os anos 80 e 90, ela se configurava como um refúgio para aqueles que queriam se expressar sem amarras moralistas. Se fulano vivia sob as duras regras da ditadura chinesa, podia burlar a censura acessando (com IP estrangeiro) sites de fora. Se outro estava imerso em uma família conservadora, mas queria era experimentar as liberdades do mundo, uma forma de realizar isso era recorrer à navegação online. Em minha adolescência, na década de 1990, e início da de 2000, a web representava para mim esse ideal de liberdade de expressão. Para as novas gerações, que exploram as águas virtuais nesta careta década de 2010, ela cada vez mais pode ser sinônimo de cerceamento.

Já para aqueles que participaram da criação da web tal conhecemos, como o inventor inglês Tim Berners-Lee, os conceitos fundamentais da internet estão em risco frente a esse cenário. Afinal, nas palavras de Berners-Lee: “Eu imaginei a web como uma plataforma aberta que permite qualquer um, de qualquer lugar, compartilhar informações, ter acesso a oportunidades e colaborar independentemente de fronteiras geográficas ou culturais”.

Vide bem, todo mundo tem direito de não gostar de uma obra X, de achar outra repugnante etc. Para mim, o clipe de Clarice Falcão é sem graça e não me atrai, artisticamente, a performance de Wagner Schwartz. Entretanto, não se pode proibir que, quem goste ou não, assista à obra de Clarice, ou à de Schwartz. Isso é uma tirania. Uma cada vez mais presente (quase que onipresente) na internet. E que não pode se cercar na desculpa de Facebook e afins de que algoritmos “têm de ter critérios”. Sim, lógico que precisam. Pornografia pura, crimes etc., têm de ficar de fora desses ambientes? Sim, isso é o óbvio.

Só que será que cabe a esse mesmo Facebook o julgamento do que é, ou não é, arte? Ou expressões artísticas não deviam ser livres, e ponto? Se sua resposta é “não” para a segunda pergunta, realmente se corre o risco de um dia nos vermos atados em uma sociedade análoga à do clássico 1984, de George Orwell – que, ele mesmo, sofreu com uma censura caretíssima (e politizada), na década de 1940, ao tentar publicar pela primeira vez uma de suas obras-primas, A Revolução dos Bichos.

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  1. Anselmo Fukuciro

    O politicamente correto, a questão homofóbica e racial, bullyng… São temas que estão sendo indevidamente usados como controle social… temos uma constituição que nos garante a liberdade de expressão, mas que está sendo mitigado com o uso subliminar destes instrumentos acima mencionados.

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