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Medicina
Da proveta ao mundo

O nascimento do primeiro bebê concebido em
laboratório e os problemas que ele trouxe

2 de agosto de 1978

"Corra para o hospital, sua mulher dará à luz agora." Ao ouvir essa convocação, no último dia 24 de julho, o motorista profissional John Brown, 38 anos, apagou o enésimo cigarro e dirigiu-se apressadamente ao Hospital Geral de Oldham, cidade próxima a Manchester, Inglaterra. Na porta principal, seu rosto já bastante conhecido prescindiu da exibição da carteira de identidade, exigida por um pelotão de enérgicos porteiros, que haviam transformado o local numa barreira intransponível por pessoas estranhas. Quando, enfim, na ante-sala de cirurgia uma enfermeira anunciou-lhe o nascimento, mediante cesariana, de "uma menina perfeita, pesando 2 quilos e 608 gramas", Brown chorou. Afinal, sua mulher Lesley, 30 anos, acabava de dar à luz a primeira criança concebida numa proveta. Sobretudo, chegavam ao fim as tensões e os sacrifícios dos últimos nove meses: o bebê de Brown e Lesley, uma mulher estéril em razão de bloqueio das trompas de Falópio, fora fecundado num tubo de ensaio, com esperma do marido e um óvulo retirado de seu ovário, para logo depois ser colocado em seu útero, enfrentando nessa trajetória uma série permanente de complicações, inclusive o posterior risco de aborto.

Os primeiros momentos do nascimento de Louise, o nome dado ao bebê, assumiram as previstas características de um espetáculo comercial. Brown, que vendera a exclusividade da história ao Daily Mail, de Londres, por uma fortuna equivalente a 11,3 milhões de cruzeiros, encontrou à sua espera uma garrafa de champanha francês, um repórter e um fotógrafo. Ninguém mais tinha o direito de entrevistá-lo ou fotografá-lo e muito menos a sua mulher e filha - o Daily Mail chegou a colocar guardas particulares nos corredores do hospital e até a transmissão de fotos de suas páginas, feitas pela agência AP, foi bloqueada mediante pronta ação judicial. Suas palavras, reproduzidas pelo jornal, continham esperados elogios ao médico Patrick Steptoe, o cérebro da experiência e último de uma série de ginecologistas a que o casal havia recorrido, bem como a seu companheiro de equipe, o fisiólogo Robert Edwards.

PREOCUPAÇÕES - Na verdade, o médico Steptoe é um perfeito vitorioso: aos.65 anos de idade e dois meses após ter sido aposentado do Serviço Nacional de Saúde da Inglaterra, num momento da vida em que outras pessoas pouco esperam do futuro, ele encontrou o caminho da notoriedade e, seguramente, de muitas láureas internacionais. Para isso, aprimorou pacientemente a sua técnica ao longo dos últimos treze anos, provocando controvérsias e, não raro, a hostilidade de seus colegas, que o tratavam como uma espécie de Dr. Silvana da medicina inglesa, pouco afeito a princípios éticos. Logo após o nascimento de Louise, Steptoe admitiu ter feito, juntamente com Edwards, de 52 anos, cerca de 200 tentativas fracassadas de concepção em proveta, "mas não havia outra saída", no caso. Segundo explicou, "o principal problema consistia em obter o correto equilíbrio hormonal das pacientes".

Agora, embora sua técnica abra caminho para solucionar o problema dos 2% de mulheres casadas inglesas que apresentam o mesmo problema de Lesley, os louvores são acompanhados de preocupações. No vendaval de conjeturas ou simples deslumbramentos que cercam o sucesso de Steptoe e Edwards as perspectivas não podem ser julgadas a fundo. Mas a idéia de um próspero mercado de embriões de boa estirpe e tecnicamente garantidos, que de nenhum modo pode ser descartada, dá uma dimensão futurista à questão. Não estaria, por exemplo, aberta a possibilidade de uma mulher ceder apenas o seu útero para uma gravidez provocada com o óvulo de outra?

Steptoe e Edwards preferem tratar disso no relatório técnico que encaminharão à Associação Médica Britânica. Eles também se recusam a informar se haverá mais experiências num futuro imediato, embora em Londres, na semana passada, fosse divulgado que no Hospital St. Thomas existe uma paciente à espera dos primeiros resultados da reimplantação de um embrião. Mas. a certa altura da primeira entrevista que concedeu, indagado se sua técnica era segura ou apenas tivera sorte, Steptoe antecipou que, "dentro de pouco tempo, grande número de equipes médicas estará fazendo o mesmo tipo de trabalho, com êxito sempre maior".

OPOSITORES - As preocupações com o futuro, de todo modo, já chegaram ao Parlamento, em Londres, onde um velho guardião das causas públicas, o deputado trabalhista Leo Abse, preferiu uma abordagem prática, em vez do fulgurante palavreado técnico que encheu os jornais nos últimos dias. "Hitler tentou driblar a engenharia genética mediante o extermínio dos judeus e dos mentalmente insanos", lembrou Abse. "Mas só agora a ciência genética atinge por si um estágio perigoso, no qual uma ditadura poderia estabelecer como meta a criação de uma raça superior." Abse também não perdoou a briga dos jornais Daily Mail e Daily Express pela exclusividade da informação (o Daily Express conseguiu descobrir a história e a publicou com grande estardalhaço antes de seu concorrente), declarando: "Acabamos de ver o nascimento de uma criança imaculada. Mas o milagre da ciência foi infectado pelo deplorável comercialismo".

Estranhamente, porém, a mais firme oposição à experiência partiu de uma sobrinha do próprio Steptoe, Val Brown - o sobrenome é igual ao dos pais de Louise, mas não há qualquer parentesco. "Discordamos inteiramente do que tio Steptoe tem feito", disse ela. "Vemos sua técnica da concepção em proveta como desumanizadora." Por coincidência, Val, de 22 anos, recentemente submeteu-se à extirpação de uma das trompas de Falópio, estando ainda ameaçada de perder a outra. "Temo que isso aconteça", admite ela, "mas preferiria adotar uma criança a aceitar a ajuda de tio Steptoe."

Por outro lado, o julgamento ético-moral da experiência tende a converter-se numa inesgotável fonte de debates. Do ponto de vista religioso, nenhuma das grandes igrejas possui qualquer política específica em relação à concepção em proveta. O nascimento de Louise, no entanto, foi muito mais bem recebido pela Igreja Anglicana, cujos dignitários prometeram "estudá-la profundamente", que pela Católica. Tomado de surpresa, o Vaticano apenas reiterou declarações feitas em 1956 pelo então Papa Pio XII a respeito da inseminação artificial, considerada "um ato contra a natureza e intrinsecamente mau". E o porta-voz que transmitiu essa advertência lembrou que a humanidade poderia estar dando ‘um passo perigoso na direção do futuro descortinado pelo escritor Aldous Huxley em ‘Admirável Mundo Novo’, quando será possível excluir Deus da escolha do sexo, da cor dos olhos, dos cabelos e da pele dos seres humanos".

 

O que se pode esperar da nova técnica

Há quase vinte anos dedicado à ginecologia e à obstetrícia, o médico paulista Décio Noronha ocupa-se, nos últimos tempos, em estudar com especial atenção a esterilidade. Paralelamente, ele criou, com outros médicos, um Grupo de Atendimento Psicossomático, onde as gestantes recebem orientação sobre seu relacionamento com o filho, a família e a sociedade. Na sexta-feira passada, Noronha falou a VEJA.

VEJA - É grande no Brasil o contingente de mulheres que poderão se beneficiar com o processo de concepção em laboratório?
NORONHA - Não há números, mas sabe-se que cerca de metade dos problemas de esterilidade em mulheres brasileiras se deve a obstruções tubárias.

VEJA - Que perspectivas abre a concepção em laboratório?
NORONHA - A curto prazo, poderá resolver problemas de obstrução e má-formação de trompas, esterilidade alérgica do espermatozóide, ou seja, problemas mecânicos em relação à gravidez. Serão beneficiadas ainda mulheres com problemas psicológicos, como o medo de relacionamento com homem, conflitos não resolvidos com a imagem paterna, etc.

VEJA - E a longo prazo?
NORONHA - Desde que um espermatozóide possa fecundar um óvulo fora do útero, abre-se a possibilidade de se modificar o código genético da futura criança, dando margem ao· controle de doenças hereditárias, como a diabete ou a esquizofrenia. E, mais, o próprio sexo poderia ser predeterminado.

VEJA - Em termos sociais, o que pode significar o bebê de proveta?
NORONHA - Acho que isso afeta a própria luta pela emancipação da mulher. Na medida em que ela se der conta de que é o centro de procriação, ela deverá modificar ainda mais os vínculos com o homem. Poderá, mesmo, passar a ver no processo a oportunidade de firmar seu narcisismo, independendo do homem como complemento de uma relação.

 

 
     
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