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21 de abril de 1993
O sonho lusitano

Os profissionais brasileiros qualificados
são bem recebidos e têm espaço para
vencer em Portugal

1
Luís Costa Pinto, de Lisboa

Manhã de quarta-feira 31 de março, na escola de 2º grau Dom Dinis, na periferia de Lisboa. Os brasileiros Ed Carlos e Sílvia Zemella, principais locutores da Rádio Cidade, líder de audiência com 25 pontos no ibope de Portugal, estão dando uma canja num programa ao vivo. "E aí, mêr'mão. Diz comigo 'Cabral! Cabral! Cabral!'.'', pede Ed Carlos, com seu sotaque ítalo-paulistano, a um dos fãs. "Câbrall, Câbrall, Câbrall", repete o estudante português. "Quem descobriu a América?", devolve o locutor ao mesmo fã. "Câbrall", responde o estudante. "Errou, meu velho! Foi Colombo!", toca Ed Carlos. "Ai Jisús!!", lamenta-se o português. E roda o programa.

Brasileiros que se saíram bem em Portugal, Ed Carlos e Sílvia Zemella são a prova de que há espaço para quem tem boa qualificação profissional nesse país que até recentemente parecia estacionado em algum lugar do passado e agora precisa de mão-de-obra moderna para acertar o passo com a Europa. Aos 24 anos, o paulista Ed Carlos de Barros sente-se realizado em terras lusitanas, aonde chegou há dois anos. Trabalhava numa pequena rádio no interior de São Paulo. Seu melhor salário foi o equivalente a 500 dólares. Hoje, astro da Rádio Cidade, recebe 3.000 dólares fixos e é pago para animar festas e promoções. "Sinto-me realizado. Vim para Portugal fazer o que gosto e tenho um bom salário", diz Ed Carlos. Sílvia Zemella, 27 anos, companheira de Ed na Rádio Cidade, mudou-se para Lisboa depois de ter trabalhado nas rádios Jovem Pan, Transamérica e Capital, em São Paulo. Seu maior salário no Brasil foi de 500 dólares. Hoje recebe 3.000 dólares e é adorada pelos adolescentes lisboetas. No mês passado, Sílvia fez aniversário e teve que atender a uma centena de telefonemas, ganhou treze bolos e vinte buquês de flores. "Não vim para cá enriquecer. Vim levar a vida com tranqüilidade", afirma. "É bom saber que o salário não se desvaloriza ao longo do ano", comenta, referindo-se à inflação anual portuguesa de 9% no ano passado.

AUTORIZAÇÃO DE RESIDÊNCIA - Há em Portugal cerca de 20.000 brasileiros tentando ganhar a vida. Os trabalhadores braçais não têm nenhuma chance e amargam uma existência miserável atrás de empregos já ocupados por africanos igualmente desqualificados. Até fevereiro passado, quando houve o recadastramento dos imigrantes, 8.000 brasileiros pediram legalização. Ed Carlos e Sílvia entraram em Portugal aproveitando um acordo diplomático entre os dois países que não existe mais. Desembarcaram sem nenhum visto no passaporte e depois de um mês, com um contrato de trabalho nas mãos, pediram autorização de residência. Agora a burocracia não é mais tão amena. Quem quer ir a Portugal tentar a vida deve sair do Brasil com o pedido de residência já aceito pela embaixada portuguesa em Brasília. Sem esse cuidado, corre o risco de ser barrado no aeroporto e despachado de volta a seu país de origem, como ocorreu recentemente a uma leva de brasileiros que tentavam transferir-se para Lisboa.

O pernambucano Celestino Capeleiro, de 39 anos, há três anos e meio deixou seu emprego de gerente numa padaria do Recife e foi para a capital portuguesa junto com a esposa, Maria Verônica, e as filhas, Andressa e Alessandra. Recebia dois salários mínimos por mês e achava que só sabia vender pão na vida. Dois dias depois de chegar, arrumou emprego como encanador numa das inúmeras obras que se multiplicam nas principais cidades. Ao fim do primeiro mês no novo país, alugou uma pequena casa na periferia da cidade e especializou-se em instalações de gás. Deixou esse emprego no final do mês passado para montar seu próprio negócio, a instaladora Recifegás. Como empregado, Celestino tinha um salário de 2.500 dólares por mês. A esposa, conferente de dois supermercados no Cascaishopping, o segundo maior shopping center de Portugal, ganha outros 1.500 dólares.

Até junho deste ano, Celestino e Maria Verônica terminam de pagar toda a mobília e os eletrodomésticos da sua residência e pensam em dar entrada numa casa própria. "Vou tirar meus 4.000 dólares por mês trabalhando na minha própria empresa. Portugal é o sonho realizado da independência financeira", anima-se ele. "Aqui tenho minha vida, educo minhas filhas e ainda posso conhecer outros países. No Recife, o sonho era ir à Praia de Boa Viagem."

ESPAÇO E SONHO - Existem 414 dentistas brasileiros trabalhando em Portugal, todos filiados à seção portuguesa da Associação Brasileira de Odontologia. Eles estão sendo processados pelo Conselho Português de Odontologia por falsidade ideológica, pois se recusaram a fazer o exame de validação dos diplomas brasileiros em Portugal. Os portugueses dizem que o curso de Odontologia no Brasil é fajuto, os brasileiros retrucam que são melhores que a concorrência lusitana. Isso gerou o problema diplomático entre os dois países no final de 1991 e até hoje não resolvido. Apesar das dificuldades, há espaço para quem chega com um diploma brasileiro de odontólogo no bolso e o sonho de trabalhar fora do país na cabeça.

O paulista Homero Fonseca, 32 anos, é um deles. Em janeiro de 1988, logo depois de colar grau em São Paulo, ele embarcou para Lisboa, onde seu irmão já ganhava a vida numa clínica dentária. Homero convenceu a esposa, Kátia Xavier, hoje com 29 anos e na época também recém-formada em Medicina, a acompanhá-lo. Naquela ocasião o exame de validação dos diplomas era desnecessário. Seis meses depois integraram-se a uma equipe clínica na cidade do Porto, no norte do país. Há dois anos abriram o próprio consultório conjunto em Póvoa de Varzim, uma cidadezinha de 50.000 habitantes próxima ao Porto. Faturam, juntos, 7.000 dólares por mês.

Com a renda obtida no exterior já compraram um apartamento de dois quartos em Vitória, no Espírito Santo, onde moram os pais de Kátia, e possuem dois automóveis - o Renault 19 de Homero e o Escort 1.4 de Kátia. Apesar do sucesso, não pensam em morar fora a vida inteira. "Já voltei ao Brasil três vezes e em todas elas fui com a idéia fixa de ficar lá", conta Kátia. Nunca ficou: "Quando deparo com a qualidade de vida dos brasileiros, sempre decido voltar para Portugal".

MINA DE OURO - O dentista carioca Hiram Trindade, 40 anos, é outro que pensa em voltar um dia para Nova Friburgo, cidade do interior do Rio de onde saiu há quatro anos. Aproveita a estada portuguesa para fazer o patrimônio de sua família. Seus três filhos, Daniel, de 12 anos, e as gêmeas Líscia e Mila, de 10, são modelos fotográficos de lojas de departamentos e tudo o que ganham vai para uma caderneta de poupança. A bolada permitirá que a família tenha uma vida mais do que confortável quando retornar ao Brasil. A esposa, Renilda, professora primária, não trabalha. Mesmo assim a renda da clínica de Hiram, na cidade do Porto, permite à família viver bem com cerca de 7.000 dólares mensais. "A instabilidade econômica do Brasil me levava a agir como comerciante com os meus clientes, negociando os preços mês a mês", lamenta-se ele, explicando por que deixou o Brasil. "Em Portugal encontrei as condições necessárias para fazer um trabalho tranqüilo, sem me preocupar com a sobrevivência da família."

Entre os brasileiros que trocaram os cruzeiros e uma inflação de 1.100% ao ano pelos escudos e estabilidade econômica, há aquele grupo que descobriu uma mina de ouro. São profissionais como o publicitário gaúcho Luís Cristelo, de 26 anos, que chegou em agosto de 1990. De saída arrumou emprego na Young & Rubicam portuguesa, onde era diretor de arte e ganhou os melhores prêmios de sua carreira até agora. No ano passado, Cristelo levou para Portugal o primeiro Leão de Ouro da história do país, prêmio do Festival Publicitário de Cannes, como resultado de uma campanha de incentivo à leitura de livros patrocinada por uma indústria gráfica.

A mesma campanha lhe rendeu o primeiro prêmio do Eurobest, em Londres, o principal festival publicitário europeu. No dia 1º de abril passado, Cristelo largou o cargo na Young & Rubicam portuguesa para montar sua própria agência de publicidade em terras lusitanas. "O mercado português está todo aberto ao publicitário que chega aqui falando a língua deles e com boas idéias na cabeça", comemora. "Saí de um salário fixo de 5.000 dólares para ganhar uns 10.000 dólares gerindo o meu próprio negócio." O gaúcho Luís Cristelo sabe o que fala quando diz que o mercado português está aberto para quem tem criatividade. Existem por lá 140 publicitários brasileiros, todos empregados e filiados ao Clube de Criação de Portugal, a associação que organiza os profissionais de publicidade e propaganda. A Young & Rubicam, maior agência no país, tem quatro duplas de criação e um brasileiro em cada uma delas. "A história da publicidade portuguesa é dividida em antes e depois dos brasileiros", atesta o português José Campos, presidente do Clube de Criação.

Assim como a publicidade, a televisão portuguesa poderia dividir sua história em antes e depois dos brasileiros. Diariamente vão ao ar catorze horas de programação brasileira nas quatro emissoras de televisão de Portugal. São oito novelas, alguns filmes do combalido cinema nacional e programas como Você Decide. Tanta aceitação fez com que alguns profissionais mudassem para lá levando bons contratos debaixo do braço.

NOVELA LUSITANA - O diretor Walter Avancini, por exemplo, que há um ano mora no Estoril, largou um emprego certo na Rede Globo, com salário de 12.000 dólares, para tocar o projeto de formação de um núcleo de produção de novelas em Portugal. Ele trabalha para a produtora Fábrica de Sonhos em troca de um salário duas vezes maior que aquele oferecido pela Globo. Está no ar, pela RTP 1 (Radiotelevisão Portuguesa 1), sua primeira novela lusitana, A Viúva do Enforcado, e se encontra em fase de produção a segunda, A Banqueira do Povo. São duas produções feitas exclusivamente com atores portugueses.

Para trabalhar com os portugueses e ensiná-los a fazer televisão com o dinamismo brasileiro, Avancini importou do Rio de Janeiro sete técnicos de TV. O menor salário pago a eles é de 3.000 dólares. Os dois diretores de TV, além de receber 5.000 dólares por mês, têm o aluguel de seus apartamentos pago pela produtora. Na Fábrica de Sonhos há contudo dois portugueses para cada brasileiro trabalhando em cada uma das funções. "Não quero colonizar a televisão portuguesa. Quero ensiná-los", justifica Avancini. "Eles têm grandes atores e uma enorme possibilidade de ganhar o mercado europeu na área de produções televisivas."

PRIMEIRA PROVA - O dramaturgo carioca Doc Comparato fixou-se em Portugal em 1989. Mora numa casa de nove cômodos que pertenceu ao arquiteto português Raul Lino, em Sintra, a 30 quilômetros de Lisboa. Consultor de linguagem da SIC, a mais nova emissora de TV portuguesa, e professor de Dramaturgia da Universidade Católica de Lisboa, Comparato apenas escolheu Portugal para morar. Ele também é o coordenador do mestrado em Dramaturgia da Universidade de Barcelona e acaba de lançar o guia oficial de linguagem televisiva da RTVE - Fundação Rádio e Televisão Espanhola. Além dessas suas atividades fixas, Doc Comparato tem uma agenda cheia com cursos, seminários e produções independentes em Portugal, na Espanha e na França. "Escolhi Sintra porque aqui encontrei tranqüilidade e paz de espírito", diz. "Meu padrão de vida em Portugal não caiu do céu. Há mercado, mas para quem tem qualificação." Junto com sua esposa, Leila Mendes, fonoaudióloga que somente no ano passado conseguiu formar uma clientela mínima, Comparato alcança uma renda média de 25.000 a 30.000 dólares por mês.

Quando chegou a Portugal, Doc Comparato não imaginava que ficaria por lá. Foi dar um curso especial numa universidade. Depois, aceitou um convite para dirigir uma nova produção, e foi ficando. O passo seguinte, já que havia desembarcado como turista, foi transformar seu visto em autorização de residência e trabalho no país. Já não é possível a um brasileiro repetir a odisséia do dramaturgo. "Quem quiser sair do Brasil para morar em Portugal tem de desembarcar com a autorização de residência", alerta o ministro português dos Negócios Estrangeiros, Durão Barroso. Ele zela pelas normas da Comunidade Européia, que há alguns meses chegou a pressionar os portugueses para exigir visto de entrada até de turistas brasileiros, com medo da imigração ilegal. Por enquanto ainda não se chegou a tanto, mas a primeira prova a ser superada por um brasileiro que quer vencer em Portugal é conseguir entrar no país.

 
   
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