Brasil e sociedade

Política e economia

Internacional

Ciência e tecnologia

Saúde e sexo

Artes e espetáculos

Gente e memória

Religião e História

Esporte e aventura

Educação e trabalho

Sugira uma capa

Sobre o site

Sobre VEJA

1968 - 2007 | imagens

1993 - 2007 | reportagens

1997 - 2007 | edições integrais

Edição n° 1

Edições extras

Edições especiais

Reportagens de capa
1968 - 1997



Busca detalhada


Imagens das capas
1968 - 2007



Busca detalhada


Em Dia


Acesse o site

 

21 de abril de 1993
A Europa descobriu Portugal

O país dá sua arrancada rumo
ao futuro e à modernização com
as verbas da Comunidade Européia

1
Luís Costa Pinto, de Lisboa

O motorista de táxi Jaime Muniz faz planos de deixar Lisboa, aonde chegou aos 15 anos de idade, e voltar para a quinta da sua família na Ilha da Madeira. Desencantou-se de Portugal depois de morar meio século na capital. "Há três anos Lisboa está em obras e a cidade virou uma bagunça", reclama Muniz. "Querem alargar as avenidas, mas estão atrapalhando o caminho dos elétricos." Elétricos é como os portugueses chamam os velhos bondes que andam a no máximo 40 quilômetros por hora. Fã do falecido ditador Antônio Salazar, que governou Portugal com mão de ferro por 36 anos, diz que o seu país acabou em 25 de abril de 1974, na Revolução dos Cravos. "Essa Comunidade Européia veio colocar a última pá de terra na nossa História", protesta. Jaime Muniz só se parece com a maioria dos seus compatriotas por um motivo: faz planos. Desde que se integrou à Comunidade Européia, CE, em 1986, Portugal planeja seu futuro. E o futuro chegou.

No dia 1º de janeiro começou a funcionar um dinheiroduto da CE ligando Bruxelas, capital comunitária, a Lisboa. É o Fundo de Coesão, ao qual têm direito Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda, os países mais pobres da Comunidade Européia. Esse fundo despejará em terras portuguesas 35 bilhões de dólares até o ano 2000, num fluxo ininterrupto de mais de 8.000 dólares por minuto. Com esse dinheiro estão sendo reformados 250 prédios históricos em Lisboa. No Porto, segunda cidade do país, com 450.000 habitantes, 115 ruas estão em obras. Os vales dos rios Minho, Douro e Tejo, que cortam Portugal no norte, no centro e no sul, serão despoluídos num programa que consumirá 800 milhões de dólares até o início de 1996. Os trens do metrô cruzarão o Porto e Lisboa até 1998, quando a capital portuguesa sediará a Expo 98, exposição internacional de tecnologia. O Fundo de Coesão serve ainda para financiar projetos de hotéis, rodovias, centros comerciais e campos de golfe. "O dinheiro da CE integra Portugal à Europa e faz do país um lugar atraente para investir", diz o executivo brasileiro Francisco Castro Lima, diretor da Itaúsa Portugal, o pé em terras lusitanas da holding que controla o banco Itaú. Só essa empresa brasileira, que está há três anos no país, tem 50 milhões de dólares aplicados em ativos financeiros de companhias ali instaladas, além de controlar 12% das ações do banco Fonsecas & Burnay, o primeiro a ser privatizado depois da onda nacionalista desencadeada com a revolução de 1974.

A integração de Portugal à Europa unida custou-lhe até o horário oficial. Com um fuso diferente do da maioria dos outros países da Comunidade Econômica, uma hora a menos, os portugueses foram obrigados a adiantar seus relógios em duas horas, no dia 28 de março passado, por conta do horário de verão europeu. Quando acabar o horário de verão, os portugueses retardarão seus relógios em apenas uma hora - a outra hora vai para o espaço. É uma forma de ganhar tempo. Nem todos estão felizes. O escritor José Saramago, o maior nome da literatura portuguesa contemporânea, preferia seu país fora da CE. "A participação de Portugal na comunidade não é nada diferente da sua presença na Europa ao longo dos últimos séculos", afirma. "Continuaremos a representar o papel do primo pobre, do parceiro insignificante, com a agravante de que, agora, perdemos efetivamente uma parcela de nossa soberania."

ARCO-ÍRIS - Quase todas as verbas que chegam a Portugal através do Fundo de Coesão de Bruxelas são aplicadas em obras de infra-estrutura que preparam o país para ser uma espécie de balneário da Europa unificada. A idéia é que Portugal, uma terra ensolarada, com boas praias e mesa farta, seja um pólo turístico de preços módicos para a classe média européia. Ainda que o dinheiro europeu seja utilizado preferencialmente em setores ligados ao turismo, as verbas estão servindo para que boa parte dos portugueses melhore o padrão de vida. Só no ano passado foram vendidos 250.000 carros novos em Portugal, um país de 10,5 milhões de habitantes. A primeira montadora portuguesa, a Autoeuropa, uma sociedade da Ford com a Volkswagen semelhante à Autolatina no Brasil, deverá colocar nas ruas até o final do ano o primeiro carro fabricado na terra de Pedro álvares Cabral: um furgão que será exportado para os outros onze membros da Comunidade Européia. Por enquanto, os 3 bilhões de dólares da Autoeuropa representam o único grande investimento industrial em Portugal, mas a dinheirama derramada na infra-estrutura turística faz a festa no país.

Lisboa está em obras, e isso deixa os lisboetas deliciados. Nos finais de semana, um dos programas de quem mora na cidade é parar diante dos andaimes que escondem as velhas fachadas e admirar as restaurações. Isso tanto ocorre na região do Chiado, um dos mais antigos bairros de Lisboa, destruído por um incêndio em 1988, quanto na Avenida Liberdade, a principal da cidade. Na Rua do Ouro e na Rua da Prata, onde ficam as mais tradicionais lojas da cidade, as vitrines cinzentas e sem graça do Portugal adormecido estão sendo trocadas pelo colorido comum às grandes metrópoles da Europa e dos Estados Unidos. O preto e o cinza, cores fundamentais no guarda-roupa dos velhos portugueses, começam a dar lugar ao vermelho, ao azul e ao verde. "Morei seis anos na Alemanha, como universitária, e quando chegava ao meu país tinha um choque de gerações", diz a jornalista portuguesa Leonor Ribeiro, natural do Porto. "Não havia cor jovem em Portugal, só preto e cinza. Estamos descobrindo o arco-íris agora."

O choque modernizador na rotina portuguesa tem as suas piadas reais e particulares. No Shopping Center das Amoreiras, o maior da cidade, com 300 lojas e dez cinemas, ainda é possível encontrar metade das lojas fechada entre 1 e 2 horas da tarde com uma pequena plaqueta na porta avisando: "Fui almoçar. Volto já". O Cascaishopping, localizado na cidade de Cascais - uma Barra da Tijuca lisboeta -, precisou fazer um acordo especial com os funcionários de suas lojas: instituiu-se o rodízio de funcionários na hora do almoço para evitar a tradicional plaqueta portuguesa. "A filosofia de shopping center aberto durante todo o horário comercial é uma novidade para os portugueses, mas está dando certo", diz o brasileiro Cláudio Buny, diretor da Banctec, empresa que implantou a rede de caixas automáticos das maiores lojas do Cascaishopping.

Tradicional exportador de mão-de-obra - há 4,5 milhões de portugueses morando fora de seu país -, Portugal vive um momento inédito de sua história: o regresso de cidadãos à sua terra e o repatriamento de capitais. Um relatório do Ministério da Administração Interna português, divulgado no final do mês de março, calcula em 3 bilhões de dólares o volume de dinheiro que ingressa anualmente em Portugal vindo de cidadãos que fazem a vida em outros países. Até 1983 esta era a principal fonte de renda do país. O português Rui Lima Jr., filho de um imigrante que se estabeleceu como pequeno industrial gráfico no Rio de Janeiro, voltou para Lisboa há quatro anos. Hoje é dono de uma rádio FM na periferia da cidade e tem convencido os amigos portugueses que ficaram no Brasil a regressar. "Portugal virou um bom lugar para ganhar dinheiro."

Estima-se que existam em todo o país cerca de 400.000 residências fechadas por famílias que saíram de Portugal ou que moram fora e mantêm seus laços pátrios. O boom português está fazendo com que essas residências reingressem no mercado imobiliário, mantendo o preço dos aluguéis em Portugal em padrões aceitáveis até para brasileiros. Com 500 dólares aluga-se um apartamento de dois quartos, sala, cozinha e área de serviço em Lisboa. Não é mau num país onde o salário mínimo é de 300 dólares, mas os pedreiros recebem pelo menos 700 dólares por mês e um encanador nunca faz menos de 1.200 dólares em trinta dias de batente.

ÁFRICA DA EUROPA - A inflação portuguesa é de 9% ao ano, três vezes menor que a inflação mensal brasileira. Há no país 100.000 desempregados oficiais, ou 1% da população. Os canteiros de obras surgem diariamente nas grandes cidades. A vida noturna de Lisboa agita-se e a cidade começa a ter boates e cafés abertos até as 7 horas da manhã. Obras e gente na rua de madrugada criam uma atmosfera de "cidade 24 horas" para Lisboa e representam alternativas de emprego à mão-de-obra não especializada num país que abre aceleradamente sua economia e começa a abandonar as máquinas registradoras manuais das mercearias. Agora são obrigatórios os pontos-de-venda informatizados com leitura de códigos de barras.

O momento atual não atrai só os portugueses. Atrai também outros europeus, brasileiros e africanos das antigas colônias do além-mar. Aí começa um dos grandes problemas do rico Portugal contemporâneo. O controle dos imigrantes em seu território não é tarefa fácil. Contra os europeus, mesmo quando pobres e sem profissão, nada podem fazer. Pelo Tratado de Maastricht, que pôs de pé o Mercado Comum Europeu, holandeses, ingleses ou italianos são tão portugueses quanto o primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva. Os brasileiros, que abrigam em seu país cerca de 2 milhões de portugueses, são um caso à parte (veja reportagem à página 58). Já os africanos das ex-colônias, libertas na década de 70, são extremamente malvistos.

As próprias associações de imigrantes africanos em Portugal calculam que existam no país cerca de 125.000 angolanos, moçambicanos, guineenses e cabo-verdianos. A maioria não tem nenhuma formação profissional e muitos são analfabetos. Eles moram nos "bairros de lata", as favelas lisboetas que nada deixam a desejar às da periferia de São Paulo ou dos morros do Rio de Janeiro. Só em Lisboa moram 35.000 guineenses, o equivalente a 3,5% de toda a população da Guiné-Bissau, 1 milhão de habitantes. Até a efetivação do Tratado de Maastricht, no início do ano, a convivência dos africanos com os portugueses era pacífica. Os africanos podiam trabalhar na construção civil ou nas atividades de baixa qualificação e remuneração - faixa do mercado em que os ilegais disputavam o trabalho entre si, e não com os europeus. "Os portugueses passaram a nos rejeitar depois da unificação. É uma bobagem. O trabalho que os imigrantes das antigas colônias fazem não será feito por quem se considera superior", diz o moçambicano Natvaralall Dayalal, presidente da Associação de Imigrantes de Moçambique em Portugal.

O otimismo do africano não é compartilhado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Durão Barroso, um jovem social-democrata que segue à risca os passos de Cavaco Silva. Para Barroso, as relações internacionais de qualquer país neste final de século devem ser ditadas antes pelos interesses comerciais, e não pelas identidades culturais ou lingüísticas. É a teoria do toma lá, dá cá que pauta a filosofia diplomática dos Estados Unidos e da CE. "Não podemos abrir mais ainda as fronteiras de Portugal aos imigrantes das antigas colônias, principalmente aos africanos", diz o ministro. "A realidade social deles é muito pobre, e nós reluzimos como um eldorado. Se abrirmos as portas, eles nos invadirão. Não podemos transformar a periferia de Lisboa em África da Europa."

CALENDÁRIO DE EVENTOS - Portugal também já está integrado à Europa pelo calendário de eventos. Antes da Expo 98, uma feira de tecnologia que reeditará a Expo 92 de Sevilha, na Espanha, Lisboa será a capital cultural da Europa em 1994. Na primavera e no verão do ano que vem a capital portuguesa sediará festivais de música, teatro, cinema e monumentais exposições retrospectivas de artistas plásticos de várias épocas. Para isso foi construído no ano passado o Centro Cultural da Europa, uma obra de arquitetura moderna e arrojada que custou 350 milhões de dólares e fica entre o Mosteiro dos Jerônimos e a Torre de Belém, prédios erguidos no século XVI e que são o orgulho da arquitetura portuguesa. Há muitas críticas contra o centro cultural porque ele seria desnecessário e não combina com as linhas arquitetônicas do Mosteiro dos Jerônimos e da Torre de Belém. "Bobagem criticar o centro cultural. O dinheiro que o ergueu não poderia ser usado em obras sociais. Ele é a síntese do Portugal moderno que está nascendo de um país cujo passado foi glorioso, mas não representaria nada se ficasse sozinho num mundo de economia de blocos", explica o ministro Durão Barroso.

Todo o esforço de modernização português pode não fazer do país um eldorado, mas é um dos poucos lugares do mundo onde a intolerância com os imigrantes, até agora, tem poucos ou nulos componentes ideológicos ou raciais - não há em Portugal nada parecido com os skinheads neonazistas da Alemanha ou com a Frente Nacional do francês Jean-Marie Le Pen - e que tem garantido pelo menos durante os próximos sete anos a desembocadura de um rio de dólares. Essas duas condições combinadas à cordialidade do povo fazem de Portugal uma alternativa às rotas de imigração de mão-de-obra que partem da América Latina e da áfrica, onde as esperanças se reduzem com a desordem econômica. Depois que o futuro estiver instalado e os portugueses se sentirem verdadeiros europeus na Europa, a história poderá ser outra.

 
   
voltar
 
  VEJA on-line | Em Dia