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21 de abril de 1993
A Europa descobriu Portugal O país
dá sua arrancada rumo ao futuro e à modernização com as verbas da Comunidade
Européia Luís
Costa Pinto, de LisboaO motorista de táxi
Jaime Muniz faz planos de deixar Lisboa, aonde chegou aos 15 anos de idade, e
voltar para a quinta da sua família na Ilha da Madeira. Desencantou-se
de Portugal depois de morar meio século na capital. "Há três
anos Lisboa está em obras e a cidade virou uma bagunça", reclama
Muniz. "Querem alargar as avenidas, mas estão atrapalhando o caminho
dos elétricos." Elétricos é como os portugueses chamam
os velhos bondes que andam a no máximo 40 quilômetros por hora. Fã
do falecido ditador Antônio Salazar, que governou Portugal com mão
de ferro por 36 anos, diz que o seu país acabou em 25 de abril de 1974,
na Revolução dos Cravos. "Essa Comunidade Européia veio
colocar a última pá de terra na nossa História", protesta.
Jaime Muniz só se parece com a maioria dos seus compatriotas por um motivo:
faz planos. Desde que se integrou à Comunidade Européia, CE, em
1986, Portugal planeja seu futuro. E o futuro chegou. No
dia 1º de janeiro começou a funcionar um dinheiroduto da CE ligando
Bruxelas, capital comunitária, a Lisboa. É o Fundo de Coesão,
ao qual têm direito Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda, os países
mais pobres da Comunidade Européia. Esse fundo despejará em terras
portuguesas 35 bilhões de dólares até o ano 2000, num fluxo
ininterrupto de mais de 8.000 dólares por minuto. Com esse dinheiro estão
sendo reformados 250 prédios históricos em Lisboa. No Porto, segunda
cidade do país, com 450.000 habitantes, 115 ruas estão em obras.
Os vales dos rios Minho, Douro e Tejo, que cortam Portugal no norte, no centro
e no sul, serão despoluídos num programa que consumirá 800
milhões de dólares até o início de 1996. Os trens
do metrô cruzarão o Porto e Lisboa até 1998, quando a capital
portuguesa sediará a Expo 98, exposição internacional de
tecnologia. O Fundo de Coesão serve ainda para financiar projetos de hotéis,
rodovias, centros comerciais e campos de golfe. "O dinheiro da CE integra
Portugal à Europa e faz do país um lugar atraente para investir",
diz o executivo brasileiro Francisco Castro Lima, diretor da Itaúsa Portugal,
o pé em terras lusitanas da holding que controla o banco Itaú. Só
essa empresa brasileira, que está há três anos no país,
tem 50 milhões de dólares aplicados em ativos financeiros de companhias
ali instaladas, além de controlar 12% das ações do banco
Fonsecas & Burnay, o primeiro a ser privatizado depois da onda nacionalista
desencadeada com a revolução de 1974. A
integração de Portugal à Europa unida custou-lhe até
o horário oficial. Com um fuso diferente do da maioria dos outros países
da Comunidade Econômica, uma hora a menos, os portugueses foram obrigados
a adiantar seus relógios em duas horas, no dia 28 de março passado,
por conta do horário de verão europeu. Quando acabar o horário
de verão, os portugueses retardarão seus relógios em apenas
uma hora - a outra hora vai para o espaço. É uma forma de ganhar
tempo. Nem todos estão felizes. O escritor José Saramago, o maior
nome da literatura portuguesa contemporânea, preferia seu país fora
da CE. "A participação de Portugal na comunidade não
é nada diferente da sua presença na Europa ao longo dos últimos
séculos", afirma. "Continuaremos a representar o papel do primo
pobre, do parceiro insignificante, com a agravante de que, agora, perdemos efetivamente
uma parcela de nossa soberania." ARCO-ÍRIS
- Quase todas as verbas que chegam a Portugal através do Fundo de Coesão
de Bruxelas são aplicadas em obras de infra-estrutura que preparam o país
para ser uma espécie de balneário da Europa unificada. A idéia
é que Portugal, uma terra ensolarada, com boas praias e mesa farta, seja
um pólo turístico de preços módicos para a classe
média européia. Ainda que o dinheiro europeu seja utilizado preferencialmente
em setores ligados ao turismo, as verbas estão servindo para que boa parte
dos portugueses melhore o padrão de vida. Só no ano passado foram
vendidos 250.000 carros novos em Portugal, um país de 10,5 milhões
de habitantes. A primeira montadora portuguesa, a Autoeuropa, uma sociedade da
Ford com a Volkswagen semelhante à Autolatina no Brasil, deverá
colocar nas ruas até o final do ano o primeiro carro fabricado na terra
de Pedro álvares Cabral: um furgão que será exportado para
os outros onze membros da Comunidade Européia. Por enquanto, os 3 bilhões
de dólares da Autoeuropa representam o único grande investimento
industrial em Portugal, mas a dinheirama derramada na infra-estrutura turística
faz a festa no país. Lisboa está
em obras, e isso deixa os lisboetas deliciados. Nos finais de semana, um dos programas
de quem mora na cidade é parar diante dos andaimes que escondem as velhas
fachadas e admirar as restaurações. Isso tanto ocorre na região
do Chiado, um dos mais antigos bairros de Lisboa, destruído por um incêndio
em 1988, quanto na Avenida Liberdade, a principal da cidade. Na Rua do Ouro e
na Rua da Prata, onde ficam as mais tradicionais lojas da cidade, as vitrines
cinzentas e sem graça do Portugal adormecido estão sendo trocadas
pelo colorido comum às grandes metrópoles da Europa e dos Estados
Unidos. O preto e o cinza, cores fundamentais no guarda-roupa dos velhos portugueses,
começam a dar lugar ao vermelho, ao azul e ao verde. "Morei seis anos
na Alemanha, como universitária, e quando chegava ao meu país tinha
um choque de gerações", diz a jornalista portuguesa Leonor
Ribeiro, natural do Porto. "Não havia cor jovem em Portugal, só
preto e cinza. Estamos descobrindo o arco-íris agora." O
choque modernizador na rotina portuguesa tem as suas piadas reais e particulares.
No Shopping Center das Amoreiras, o maior da cidade, com 300 lojas e dez cinemas,
ainda é possível encontrar metade das lojas fechada entre 1 e 2
horas da tarde com uma pequena plaqueta na porta avisando: "Fui almoçar.
Volto já". O Cascaishopping, localizado na cidade de Cascais - uma
Barra da Tijuca lisboeta -, precisou fazer um acordo especial com os funcionários
de suas lojas: instituiu-se o rodízio de funcionários na hora do
almoço para evitar a tradicional plaqueta portuguesa. "A filosofia
de shopping center aberto durante todo o horário comercial é uma
novidade para os portugueses, mas está dando certo", diz o brasileiro
Cláudio Buny, diretor da Banctec, empresa que implantou a rede de caixas
automáticos das maiores lojas do Cascaishopping. Tradicional
exportador de mão-de-obra - há 4,5 milhões de portugueses
morando fora de seu país -, Portugal vive um momento inédito de
sua história: o regresso de cidadãos à sua terra e o repatriamento
de capitais. Um relatório do Ministério da Administração
Interna português, divulgado no final do mês de março, calcula
em 3 bilhões de dólares o volume de dinheiro que ingressa anualmente
em Portugal vindo de cidadãos que fazem a vida em outros países.
Até 1983 esta era a principal fonte de renda do país. O português
Rui Lima Jr., filho de um imigrante que se estabeleceu como pequeno industrial
gráfico no Rio de Janeiro, voltou para Lisboa há quatro anos. Hoje
é dono de uma rádio FM na periferia da cidade e tem convencido os
amigos portugueses que ficaram no Brasil a regressar. "Portugal virou um
bom lugar para ganhar dinheiro." Estima-se
que existam em todo o país cerca de 400.000 residências fechadas
por famílias que saíram de Portugal ou que moram fora e mantêm
seus laços pátrios. O boom português está fazendo com
que essas residências reingressem no mercado imobiliário, mantendo
o preço dos aluguéis em Portugal em padrões aceitáveis
até para brasileiros. Com 500 dólares aluga-se um apartamento de
dois quartos, sala, cozinha e área de serviço em Lisboa. Não
é mau num país onde o salário mínimo é de 300
dólares, mas os pedreiros recebem pelo menos 700 dólares por mês
e um encanador nunca faz menos de 1.200 dólares em trinta dias de batente. ÁFRICA
DA EUROPA - A inflação portuguesa é de 9% ao ano, três
vezes menor que a inflação mensal brasileira. Há no país
100.000 desempregados oficiais, ou 1% da população. Os canteiros
de obras surgem diariamente nas grandes cidades. A vida noturna de Lisboa agita-se
e a cidade começa a ter boates e cafés abertos até as 7 horas
da manhã. Obras e gente na rua de madrugada criam uma atmosfera de "cidade
24 horas" para Lisboa e representam alternativas de emprego à mão-de-obra
não especializada num país que abre aceleradamente sua economia
e começa a abandonar as máquinas registradoras manuais das mercearias.
Agora são obrigatórios os pontos-de-venda informatizados com leitura
de códigos de barras. O momento atual
não atrai só os portugueses. Atrai também outros europeus,
brasileiros e africanos das antigas colônias do além-mar. Aí
começa um dos grandes problemas do rico Portugal contemporâneo. O
controle dos imigrantes em seu território não é tarefa fácil.
Contra os europeus, mesmo quando pobres e sem profissão, nada podem fazer.
Pelo Tratado de Maastricht, que pôs de pé o Mercado Comum Europeu,
holandeses, ingleses ou italianos são tão portugueses quanto o primeiro-ministro
Aníbal Cavaco Silva. Os brasileiros, que abrigam em seu país cerca
de 2 milhões de portugueses, são um caso à parte (veja reportagem
à página 58). Já os africanos das ex-colônias, libertas
na década de 70, são extremamente malvistos. As
próprias associações de imigrantes africanos em Portugal
calculam que existam no país cerca de 125.000 angolanos, moçambicanos,
guineenses e cabo-verdianos. A maioria não tem nenhuma formação
profissional e muitos são analfabetos. Eles moram nos "bairros de
lata", as favelas lisboetas que nada deixam a desejar às da periferia
de São Paulo ou dos morros do Rio de Janeiro. Só em Lisboa moram
35.000 guineenses, o equivalente a 3,5% de toda a população da Guiné-Bissau,
1 milhão de habitantes. Até a efetivação do Tratado
de Maastricht, no início do ano, a convivência dos africanos com
os portugueses era pacífica. Os africanos podiam trabalhar na construção
civil ou nas atividades de baixa qualificação e remuneração
- faixa do mercado em que os ilegais disputavam o trabalho entre si, e não
com os europeus. "Os portugueses passaram a nos rejeitar depois da unificação.
É uma bobagem. O trabalho que os imigrantes das antigas colônias
fazem não será feito por quem se considera superior", diz o
moçambicano Natvaralall Dayalal, presidente da Associação
de Imigrantes de Moçambique em Portugal. O
otimismo do africano não é compartilhado pelo ministro dos Negócios
Estrangeiros de Portugal, Durão Barroso, um jovem social-democrata que
segue à risca os passos de Cavaco Silva. Para Barroso, as relações
internacionais de qualquer país neste final de século devem ser
ditadas antes pelos interesses comerciais, e não pelas identidades culturais
ou lingüísticas. É a teoria do toma lá, dá cá
que pauta a filosofia diplomática dos Estados Unidos e da CE. "Não
podemos abrir mais ainda as fronteiras de Portugal aos imigrantes das antigas
colônias, principalmente aos africanos", diz o ministro. "A realidade
social deles é muito pobre, e nós reluzimos como um eldorado. Se
abrirmos as portas, eles nos invadirão. Não podemos transformar
a periferia de Lisboa em África da Europa." CALENDÁRIO
DE EVENTOS - Portugal também já está integrado à
Europa pelo calendário de eventos. Antes da Expo 98, uma feira de tecnologia
que reeditará a Expo 92 de Sevilha, na Espanha, Lisboa será a capital
cultural da Europa em 1994. Na primavera e no verão do ano que vem a capital
portuguesa sediará festivais de música, teatro, cinema e monumentais
exposições retrospectivas de artistas plásticos de várias
épocas. Para isso foi construído no ano passado o Centro Cultural
da Europa, uma obra de arquitetura moderna e arrojada que custou 350 milhões
de dólares e fica entre o Mosteiro dos Jerônimos e a Torre de Belém,
prédios erguidos no século XVI e que são o orgulho da arquitetura
portuguesa. Há muitas críticas contra o centro cultural porque ele
seria desnecessário e não combina com as linhas arquitetônicas
do Mosteiro dos Jerônimos e da Torre de Belém. "Bobagem criticar
o centro cultural. O dinheiro que o ergueu não poderia ser usado em obras
sociais. Ele é a síntese do Portugal moderno que está nascendo
de um país cujo passado foi glorioso, mas não representaria nada
se ficasse sozinho num mundo de economia de blocos", explica o ministro Durão
Barroso. Todo o esforço de modernização
português pode não fazer do país um eldorado, mas é
um dos poucos lugares do mundo onde a intolerância com os imigrantes, até
agora, tem poucos ou nulos componentes ideológicos ou raciais - não
há em Portugal nada parecido com os skinheads neonazistas da Alemanha ou
com a Frente Nacional do francês Jean-Marie Le Pen - e que tem garantido
pelo menos durante os próximos sete anos a desembocadura de um rio de dólares.
Essas duas condições combinadas à cordialidade do povo fazem
de Portugal uma alternativa às rotas de imigração de mão-de-obra
que partem da América Latina e da áfrica, onde as esperanças
se reduzem com a desordem econômica. Depois que o futuro estiver instalado
e os portugueses se sentirem verdadeiros europeus na Europa, a história
poderá ser outra. | |