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26 de abril de 1995
Dicionário
maquilado
Senado aprova o Acordo Ortográfico
que
introduz mudanças insignificantes no português
Na semana passada, o modorrento chá
das 5 da Academia Brasileira de Letras teve outro assunto, além
da consistência dos biscoitos amanteigados e da disputa entre
Fernando Morais e Roberto Campos por um prêmio literário:
a aprovação pelo Senado do Acordo Ortográfico
da Língua Portuguesa. O acordo, formalizado em Lisboa, em
dezembro de 1990, uniformiza a grafia de um pequeno número
de palavras do português, idioma oficial de sete países
(Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau,
Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). As mudanças
são irrelevantes. Basicamente, foram abolidos o trema e uma
parte dos acentos agudos. Desapareceram também algumas consoantes
mudas, medida mais sentida em Portugal, e incluídas as letras
"k", "w" e "y" no alfabeto oficial
(veja quadro). Os entusiastas do acordo gostam de dizer que ele
unifica a forma escrita de 98% das palavras da língua, mas
em sua maior parte o texto estabelecido por filólogos repisa
velhas regras e traz mudanças cosméticas. No caso
do Brasil, apenas 3% das palavras terão sua grafia modificada.
Para entrar em vigor, as inovações
ortográficas precisam ser ratificadas pelos parlamentos de
todos os países signatários - até agora, só
o fizeram os de Portugal, Cabo Verde e Brasil. A tramitação
em Brasília, por exemplo, foi demorada como um canto de Os
Lusíadas. No Congresso desde setembro de 1991, o acordo só
foi aprovado pela Câmara dos Deputados em junho do ano passado.
No Senado, as resistências também foram muitas. Em
dezembro último, o assunto chegou a entrar em pauta, mas
a votação foi barrada pelos senadores Alfredo Campos,
Cid Sabóia de Carvalho e Esperidião Amin. Como os
dois primeiros não se reelegeram e Amin não estava
no plenário na terça-feira passada, o acordo passou
em votação simbólica. Os parlamentares contrários
acreditam que as novas normas ortográficas servem apenas
para as editoras de livros faturarem. "Vai ser uma festa para
quem pode imprimir novas gramáticas", lamenta Amin.
O argumento é banal. Por esse raciocínio simplista,
os brasileiros ainda estariam soletrando farmácia com "ph",
apenas para que os donos de editoras não ganhassem dinheiro.
FORA DE FOCO - A reforma ortográfica
é mais uma daquelas questões fora de foco que volta
e meia dividem o país. Poucos a analisam sem cair no emocionalismo
ou sem o auxílio do chutômetro. Embora o senador Amin
veja na reforma uma chance de os editores de livros didáticos
ganharem dinheiro, boa parte dos próprios esperneia contra
a mudança. Eles alegam que os livros já impressos
terão de ser jogados fora assim que o acordo entrar em vigor
e que os custos das reimpressões serão altíssimos.
Evidentemente, trata-se de um equívoco - as reformas não
serão implantadas do dia para a noite. Depois de unanimemente
ratificadas pelos sete países, é natural que seja
estipulado um prazo suficiente para que as adaptações
necessárias aconteçam. Para se ter uma idéia,
no texto assinado em Lisboa, em dezembro de 1990, quando ainda não
se vislumbrava tanta demora na aprovação dos diversos
parlamentos, determinava-se que o acordo passaria a vigorar a partir
de janeiro de 1994. Ou seja, três anos mais tarde.
Existem outros delírios, além
daqueles de ordem pecuniária. O ex-ministro da Cultura Antônio
Houaiss, principal negociador brasileiro do acordo, afirma que a
falta de uma ortografia inteiramente padronizada complica as relações
diplomáticas entre os países de língua portuguesa.
É um argumento espantoso, como se o fato de os portugueses
escreverem "António" e "académico"
e os brasileiros, "Antônio" e "acadêmico"
(o que não foi mudado na nova regra) fosse relevante para
o mundo e um obstáculo para as relações culturais
entre os dois povos. O acordo ortográfico deve ser encarado
na sua justa medida: trata-se de mais uma simplificação
do idioma, que, se não fará os brasileiros escrever
melhor, pelo menos fará com que eles cometam menos erros
de acentuação.
CABRESTO - Acentos não devem
ser vistos como uma espécie de cabresto etimológico.
Na maioria das vezes, funcionam somente para indicar como as palavras
devem ser pronunciadas. O erro está em acreditar que surgiram
antes da linguagem falada, e não como decorrência dela
- que sua ausência pode levar à modificação
da pronúncia. "A pronúncia das palavras não
vai mudar por causa de uma reforma ortográfica", diz
o professor de lingüística Flávio Di Giorgio.
"A escrita, comprova a história, nunca se impôs
à linguagem das ruas." No caso do trema, isso é
exemplar. A esmagadora maioria das pessoas escreve "conseqüência"
e "seqüestro" sem o acento no "u". Nem
por isso as palavras passaram a ser pronunciadas de maneira diferente.
Mudanças podem ocorrer apenas no que se refere aos vocábulos
que estão fora do uso cotidiano. "No caso de redargüir,
as pessoas podem começar a falar redarguir", aponta
o professor de fonética Luís Carlos Cagliari. Mas
é improvável que alguém fale essa palavra,
além de Antônio Houaiss.
A maior quantidade de acentos obrigatórios
não torna uma língua melhor ou pior. No italiano,
cerca de 90% dos acentos são facultativos. Da mesma forma,
o fato de um idioma manter idêntico padrão ortográfico
há séculos não significa que seja mais ou menos
dinâmico. O inglês atual preserva sem mudanças
profundas a ortografia do século XVIII, embora de lá
para cá tenham aumentado as variações em sua
pronúncia, dependendo do país em que é falado.
"A ortografia inglesa tem pouco compromisso com a pronúncia",
observa o lingüista Mário Perini. "Daí a
sua estabilidade." Entre as raras variações que
ocorrem no inglês, está a da palavra que designa centro
- escreve-se "centre" na Inglaterra e "center"
nos Estados Unidos.
Um exemplo de reforma ortográfica
bem-sucedida é a que o francês sofreu em 1991. Depois
da grita contra a simplificação - houve quem exigisse
"a guilhotina moral contra os tecnocratas sem alma que ousaram
profanar nossa língua" -, foram eliminados, entre outras
coisas, o trema, o circunflexo no "i" e no "u"
e o "ph". Mas as novas regras só são obrigatórias
nos textos oficiais e na escola. Elas irão conviver com a
ortografia antiga até que se imponham no uso cotidiano. A
coabitação, na França, chegou até as
letras.
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