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Foi numa reportagem sobre a queda-de-braço entre o então recém-empossado governo Figueiredo e os sindicatos do ABC que Luiz Inácio da Silva, o "Lula" (assim, entre aspas), pela primeira vez apareceu na capa de VEJA, em 1979. Era só um retrato do momento - no texto em si, ele ganhou apenas duas linhas. Mas não demoraria para que fosse reconhecido como um líder com força suficiente para fechar acordos em nome da massa, e ser aprovado por ela.

Junto com a ascensão de Lula no cenário político, nasceu o Partido dos Trabalhadores, em 1980. Fundado por sindicalistas, militantes egressos da luta armada, integrantes da esquerda católica e marxistas, o PT surgiu apoiado no tripé Igreja, intelectuais e trabalhadores. Essa mistura fez do partido, durante o início da década de 80, uma bomba prestes a explodir. Saco de gatos indóceis, ele abrigava desde o mais incendiário militante do MR-8 até o mais moderado egresso do PCB. Para que se tornasse um partido político de representação, foi preciso que esmagasse sua ala ultra-radical - tarefa conduzida por José Dirceu -, e que fortalecesse a figura de Lula na posição de mediador, de líder acima das correntes e das disputas pessoais.

Dessa maneira, o PT conseguiu eleger o ex-metalúrgico para a Assembléia Nacional Constituinte com 650.000 votos, a maior votação de um deputado na história do país até então. Em 1987, enquanto grande parte de seu partido ainda defendia a luta revolucionária, o deputado Lula brigava por reformas no Congresso. E a legenda daria um salto maior ainda em 1988, ao ganhar as eleições para 37 prefeituras do país - entre elas, Porto Alegre e São Paulo. A partir dali, foram catorze anos de presença nem sempre pacífica do PT em diferentes esferas do poder público, até a chegada de Lula à Presidência do país, na quarta tentativa, em 2002.

A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para seu primeiro mandato foi uma novidade na história do Brasil. Pela primeira vez o país teve à frente um mandatário de origem humilde, líder sindical que fundou seu próprio partido. VEJA observou que a conquista de Lula representava não apenas o triunfo de uma férrea vontade pessoal, mas o certificado de qualidade da democracia brasileira dado pela alternância de poder. Lula e o PT, que durante vinte anos se prepararam para a construção do socialismo, chegaram ao poder e contrariaram quase todas as expectativas. Mantiveram a receita do governo FHC na economia, levando o país a experimentar um crescimento aguardado pela população havia muito tempo.

Em 2005, porém, a estrela se partiu. O partido que chegou ao poder em parte devido à reputação ética se viu envolvido em denúncias de corrupção generalizada - a mais grave, a do mensalão, esquema também liderado por Dirceu. A imagem de correção do PT foi destruída por negócios obscuros, compra de políticos, troca de favores, recebimentos de subornos e descaminhos milionários do dinheiro público. O aparelho estatal se tornou alvo de achaques, tráfico de influência e desvios de verba para formar um grande fundo partidário - e, assim, custear a permanência eterna do PT no poder.

Em 2006, ano em que a legenda desceu mais alguns degraus na degeneração ética, Lula virou um homem-partido e foi reeleito com folga: 58 milhões de votos, a segunda maior votação de um governante numa democracia ocidental. Na mesma eleição, porém, a legenda ficou marcada por outro escândalo que deixou os adversários estarrecidos: o caso do dossiê fajuto para tentar prejudicar os adversários. Depois da segunda posse, embalado pelo bom desempenho econômico, sua popularidade se manteve alta. A boa avaliação, no entanto, é restrita ao presidente. O PT dificilmente gozará de mesma boa reputação perante os brasileiros outra vez.


 
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