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31 de agosto de 1994 ENTREVISTA:
Maria de Lourdes Pintassilgo O
que é progresso? Não é
o embate Igreja-natalidade a real questão da Conferência Internacional
do Cairo, sustenta a combativa líder portuguesa. É o
reordenamento social do mundo Por
Dorrit HarazimEla é vulcânica.
Quando ouve outros palestrantes falar, encolhe os ombros de sua estatura socada,
absorve cada palavra com voracidade quase física e espera a hora de entrar
em erupção com suas idéias. Que não são poucas.
Quando fala, está entendido que é para ser ouvida. às vésperas
da Conferência Internacional de População e Desenvolvimento,
que reunirá delegações de 180 países no Cairo a partir
do próximo dia 5 de setembro e na qual discursará na condição
de presidente da Comissão Internacional de População e Qualidade
de Vida, a portuguesa Maria de Lourdes Pintassilgo, 64 anos, afia suas ferramentas
de argumentação. Propõe nada menos que uma completa revisão
das Nações Unidas, um reordenamento do mercado livre, uma reavaliação
do conceito de progresso e de modernidade científica. Isso e muito mais
compõem sua análise do que são as verdadeiras questões
em jogo na reunião do Cairo. "Natalidade, aborto e o embate com o
Vaticano são apenas sintomas de superfície", diz. Participante
ativa de um pesado leque de entidades e organizações internacionais,
Pintassilgo analisa o ser humano e suas encruzilhadas atuais sob três prismas
que conhece bem: o científico (é engenheira química de formação,
como Margaret Thatcher), o espiritual (é pensadora católica), o
político (foi ministra, secretária de Estado, primeira-ministra
e candidata à Presidência de Portugal nos anos 70 e 80). Serviu como
embaixadora de seu país junto à Unesco, testou a carreira legislativa
como membro do Parlamento Europeu e vive enfronhada em debates que visam redimensionar
os chamados grandes temas globais à sua essência primeira: a busca
de uma melhor qualidade de vida para o ser humano. "A lógica do espírito
tecnocrático transforma a população em metas e números",
adverte. De passagem pelo Brasil para participar de um seminário, deu a
seguinte entrevista a VEJA: VEJA - O
que será discutido na Conferência do Cairo sobre população
e desenvolvimento? PINTASSILGO - No Cairo se encontrarão dois
mundos. Um de profissionais que lidam com a questão da população
em termos apenas demográficos, sob a ótica exclusiva do crescimento.
Estes priorizam o aspecto do crescimento por ser um fator sobre o qual o homem
pode ter controle. O outro mundo sustentará que população,
desenvolvimento e meio ambiente estão interligados e, se quisermos atuar
sobre um desses fatores, temos de encarar, primeiro, as questões econômicas
e sociais. São duas perspectivas que coexistem. VEJA - Qual é a mais forte? PINTASSILGO - Não me parece
que os representantes dos países estejam preparados para equacionar desenvolvimento
como um modo de garantir à população mundial a qualidade
de vida à qual um ser humano pode aspirar. VEJA - Como a senhora define qualidade de vida no mundo de hoje? PINTASSILGO - Numa reunião recente de nossa comissão fiz a mesma pergunta
a todos os participantes. Obtive um leque de definições altamente
variado. Para os colegas de países mais pobres, qualidade de vida era segurança
no dia-a-dia: segurança de pão, de teto, de trabalho, de não
ser objeto de ato de violência. No outro extremo, a noção
de qualidade de vida adquiria aspectos quase contemplativos. Mas chegou-se a um
denominador comum em torno da noção de harmonia. Harmonia da pessoa
consigo mesma, com os outros de sua sociedade. Deve prevalecer um sentido de dignidade,
mesmo que as condições econômica e social sejam adversas.
O tratamento digno da pessoa, como pessoa, é o fundamental. VEJA - Isso já foi alcançado em algum lugar? PINTASSILGO - Vou contar
um episódio que aparentemente não tem nada a ver, mas tem. Quando
o líder sul-africano Nelson Mandela tomou posse em maio último,
convidou seus dois carcereiros para o almoço formal. O gesto revelou a
sua grandeza. Mas demonstrou, também, e sobretudo, que os dois carcereiros
tiveram de olhar para Mandela como homem, como pessoa. O caminho é esse. VEJA - Desde a última Conferência sobre População e Desenvolvimento,
dez anos atrás, o que mudou? PINTASSILGO - Houve avanços importantes,
a começar pela desmistificação do desenvolvimento em termos
quantitativos - isso, apesar do milagre dos chamados "tigres asiáticos",
como Coréia do Sul, Cingapura e Taiwan. Na medida em que, a partir dos
anos 80, muitas economias se tornaram cada vez mais marginais, começa a
ser aceito que a palavra desenvolvimento encobre o crescimento do subdesenvolvimento.
O continente africano, por exemplo, está à deriva. Paralelamente,
logo após a queda do comunismo, em 1989, houve uma euforia com a idéia
da universalização do mercado livre. Mercado livre tornou-se um
dogma. Mas verifica-se que o mercado livre, pondo a circular mundialmente todos
os bens, independentemente das tradições de cada nação,
do processo de produção ser de capital ou de mão-de-obra
intensiva, acabou contribuindo para a marginalização dos mais pobres.
Disso nasce uma nova reflexão sobre o que pode ser uma economia de mercado
livre. Finalmente, desde a realização da Eco 92 no Rio, torna-se
claro que o modelo de desenvolvimento seguido pelos países do Norte tem
como conseqüência o esgotamento dos recursos naturais. A escala em
que a produção se faz no Hemisfério Norte, as conseqüências
do processo industrial e urbano não podem ser sustentadas por todos os
habitantes do planeta. VEJA - Parte da solução
não está em aproximar as duas perspectivas que se encontrarão
na Conferência do Cairo? PINTASSILGO - É a grande questão.
Ela passa por uma reorganização total das Nações Unidas
e uma mudança de sua Carta fundamental. A ONU se construiu, cinqüenta
anos atrás, tomando por base as nações, os Estados. Mas hoje
não é mais possível menosprezar o peso das sociedades civis,
em que se exprimem tanto os trabalhadores que atuam na base das organizações
sociais, quanto os que refletem cientificamente sobre a evolução
das sociedades. VEJA - Como seria essa nova
ONU? PINTASSILGO - Ela poderia talvez ter uma estrutura tripartite em que representantes
das nações, representantes do que poderíamos chamar de "o
saber" - economistas, cientistas - e a comunidade das organizações
múltiplas da sociedade civil debateriam as grandes questões do plano
mundial. VEJA - Isso seria viável? PINTASSILGO - Já temos um precedente dentro da própria ONU - a Organização
Internacional do Trabalho, que é muito bem estruturada para a época
em que foi criada em 1919. Ali, o trabalho é visto como um processo entre
o empregador e o empregado, e das discussões participam representantes
do capital, do trabalho e das nações, que atuam como elemento moderador
e regulador dos processos sociais. O desafio é encontrar os parceiros certos,
os verdadeiros agentes de transformação de cada questão.
Quando se estudasse a educação, por exemplo, que representação
de escola deveria ser feita? A comunidade dos alunos, professores e técnicos
da área? Mas educação também é uma responsabilidade
da sociedade civil: da família, dos municípios. Todos deveriam participar
- os que são capazes de equacionar o problema e os que são capazes
de aplicar as soluções. VEJA - Caso se chegue a resoluções produtivas na Conferência do
Cairo, como aplicá-las? PINTASSILGO - Esse é um dos problemas
básicos das Nações Unidas. Existem declarações,
resoluções a que os Estados aderem, que eles mesmos votam por unanimidade,
mas não há aplicação da letra. VEJA - Não cabe a cada país adequar as resoluções a sua
especificidade nacional? PINTASSILGO - Não há dúvida de
que legislações nacionais devem ser levadas em conta. Mas isso pressupõe
que os Estados também reconheçam uma lei internacional, o que não
é evidente. Existe um único exemplo de lei internacional que entrou
nas práticas nacionais: o Direito Internacional do Mar. Mesmo gerando conflitos
pontuais - no momento pescadores espanhóis e franceses estão às
turras no Mar de Biscaia -, os termos do Direito do Mar são reconhecidos
por todos. No campo econômico e social, as Nações Unidas não
tiveram a visão de criar um órgão de aplicação
mandatória das decisões tomadas, como é o seu Conselho de
Segurança para questões militares. Os órgãos existentes
são meramente burocráticos. VEJA - Períodos de transição costumam ser mais propícios
a busca de soluções? PINTASSILGO - Sim. No momento estamos vivendo
a transição de um mundo bipolar (comunismo versus capitalismo) para
um mundo multipolar, no qual todo um leque de países da América
Latina, África, pobres, da Europa do Leste, considerados atrasados, possa
desempenhar um papel ativo nos equilíbrios internacionais. Essa é
uma transição primária, vital, pano de fundo de tudo o que
se discute. Por enquanto, ainda estamos na fase unipolar, na qual o capitalismo
tem hegemonia absoluta. Uma outra transição é a de uma economia
de mercado muito rígida em suas exigências, que não leva em
conta que sua maior rival - a economia de planejamento central - sumiu do mapa.
Está tentando se adaptar às novas condições. VEJA - Que condições são essas? PINTASSILGO - Os mercados regionais
e nacionais. Há produtos que circulam em nível local, entre países
limítrofes, quase como trocas entre vizinhos. Na sociedade africana, por
exemplo, esses mercados deveriam ser estimulados, em contraposição
à economia competitiva do mercado internacional, em que numerosas condições
são necessárias: frigoríficos, toda uma rede de transporte
etc. Não vejo nenhum sentido ou necessidade em comer batatas vindas da
Austrália, em Portugal, ou comer queijo importado da França no Brasil.
Por fim, temos a transição de regimes totalitários e oligárquicos
para regimes democráticos. Esse é um processo em evolução. VEJA - E a transição demográfica? PINTASSILGO - Como ela diz
respeito às pessoas, e às pessoas nos seus atos mais íntimos,
ela tem caráter especial. A transição demográfica,
que é a passagem de uma sociedade em crescimento exponencial para uma sociedade
de nível estável, na qual gerações se sucedem em ritmo
quase equilibrado, pode ser considerada simultaneamente causa e efeito das outras
transições. Sem dúvida alguma, a transição
rumo à democracia tem nivelado as políticas populacionais. VEJA - No sentido de haver menos países aplicando políticas de aumento
ou diminuição forçada da natalidade? PINTASSILGO - Sim.
A Malásia, hoje, é o único país que promove abertamente
uma política de crescimento da população - e, mesmo assim,
por motivos de equilíbrio de grupos étnicos. Não creio que
perdure. No outro extremo, temos a China, de ação coercitiva. O
caso da China é fascinante. Ela enveredou pela transformação
econômica antes da transformação democrática e sabe
no que deu? Sua política controlacionista está fazendo água.
Quando uma família chinesa desobedece a lei do filho único e tem
um segundo filho é obrigada a devolver ao Estado tudo o que recebeu sob
forma de benefícios e incentivos sociais familiares. Até recentemente,
dados os baixos rendimentos no país, isso constituía uma pressão
financeira enorme contra a natalidade. Hoje, devido ao acesso da população
chinesa a novas formas de mercado, com possibilidades de rendimentos paralelos
ao seu salário base, a coerção controlacionista está
deixando de ter o mesmo impacto. O que nos leva a refletir sobre o entrosamento
dos vários mecanismos sociais. VEJA - O welfare state, o Estado previdenciário que cuida de todos, ainda tem
utilidade, como conceito? PINTASSILGO - Será apenas um apêndice,
um asterisco da História. Tendo sido eu própria uma das pessoas
que implementaram aspectos do welfare state em Portugal, verifico que apenas em
alguns poucos países altamente organizados, como Holanda e Suécia,
o sistema ainda funciona - e mesmo assim verifica-se um desgaste em termos de
recursos e de tempo na burocracia interna do Estado. à medida que diminui
a taxa de fertilidade e cresce o número de pessoas idosas, cai o número
de pessoas ativas que podem contribuir para o bolo comum do Estado. VEJA - Como aumentar o bolo? PINTASSILGO - Uns dizem que é preciso cortar
os benefícios. Outros argumentam que devemos criar novas formas de traduzir
a organização da sociedade civil, com intervenção
normativa do Estado. VEJA - Na formulação
da questão demográfica Vaticano e ONU estão em confronto
aberto. Será este o verdadeiro embate no Cairo? PINTASSILGO - Não,
este é apenas o conflito aberto, sobre os sintomas e não sobre as
causas das questões em discussão. O verdadeiro conflito reside entre
os que buscam o progresso sem modificar o modelo econômico mundial e os
que analisam o crescimento populacional à luz de alternativas econômicas
possíveis e viáveis. Nessa luta desempenha papel de destaque a noção
de modernidade. O que é progresso humano? Segundo a ideologia predominante,
que costuma reger as grandes conferências internacionais, o ser humano controla
todas as coisas, o progresso é infinito e a ciência tem em si a capacidade
de autocorreção. Portanto, se não conhecemos hoje a solução
dos problemas, saberemos amanhã. Trata-se de uma linha ascensionária
do progresso. VEJA - A senhora, pelo visto,
não concorda com essa linha. PINTASSILGO - Isso é cientificamente
inaceitável. Temos um mundo finito, um mundo limitado, ao qual se aplicam
as leis da física. Todas as etapas da sociedade dos homens são etapas
que representam, a curto prazo, um avanço ou progresso em relação
ao capítulo anterior. Mas isso não é garantia de um progresso
infinito. Essa noção de limite é extremamente importante.
Inclusive como realidade dentro de nós, não apenas no âmbito
social. Me parece fundamental reconhecermos que cada ação não
tem necessariamente as conseqüências que antecipamos. Há aqueles
que pretendem que tudo continua como 200 anos atrás, no princípio
da industrialização, ou mesmo 100 anos atrás, com as grandes
conquistas do positivismo, segundo o qual a ciência pode tudo e transforma
tudo. Não é bem assim. VEJA - No âmbito das intervenções públicas, qual a desilusão
maior? PINTASSILGO - O otimismo de 1989, decorrente da queda do Muro de Berlim,
e a situação de quase vergonha em relação a esse momento.
As pessoas nem sequer querem falar sobre o assunto - como não tem solução,
não sabem o que dizer. Mas começamos a aceitar melhor a idéia
de que processos são complexos, têm sua própria lógica
e se cruzam constantemente. É do cruzamento desses elementos autônomos
que nasce um dinamismo de vida. VEJA - Por
que essa complexidade é tão difícil de ser aceita? PINTASSILGO - Porque vivemos muito de ideologias e ideologia é a aceitação
do simplismo redutor. Complexidade não é compatível com ideologias
- é compatível com ideais, com valores. VEJA - O recurso à esterilização como método contraceptivo
pode ser visto sob esse ângulo? PINTASSILGO - Precisamente. Como é
que se pode reduzir a enorme complexidade da vida de uma pessoa, de suas decisões,
do que a mulher sente, seu equilíbrio hormonal ao longo de uma vida fértil,
a um simples sim ou não à esterilização? De todos
os processos complexos, o mais complexo é o de cada um de nós. VEJA - Como a senhora analisa a posição comum do Vaticano, dos fundamentalistas
islâmicos e de Israel contra a agenda de planejamento familiar que será
discutida no Cairo? PINTASSILGO - É interessante que haja uma posição
concordante justamente das três religiões monoteístas. As
três têm características messiânicas. Mostra que dentro
do pensamento teológico das religiões monoteístas ainda está
muito embrionário o processo de reconhecimento dos limites humanos. Deus
é infinito e o mundo é finito. VEJA - Como católica, qual a sua maneira de ver a questão? PINTASSILGO - Posso compreender as posições tomadas por essas religiões,
na medida em que religiões defendem valores, e defendem valores de vida.
É interessante notar que as questões iniciais levantadas pelo Vaticano
não estavam relacionadas à natalidade e ao aborto. A Igreja fazia
uma crítica - que considero justa - ao documento de preparação
da conferência por não tratar suficientemente das enormes transformações
no plano econômico e social vinculadas aos temas população
e desenvolvimento. O documento preparatório é muito mais um documento
dentro da lógica do espírito tecnocrático de "com planejamento
familiar vamos resolver a questão". VEJA - Como não transformar o pobre apenas em objeto de políticas sociais
bem-intencionadas? PINTASSILGO - Aprendendo que o pobre tem uma vitalidade,
uma capacidade de sobreviver, de se organizar, de atender a coisas aparentemente
desimportantes que nós não temos. Tudo isso tem de ser levado em
conta numa sociedade que quer se reorganizar. Nossa luta mais urgente e clara
é contra a pobreza. Ora, isso só será possível se
potencializarmos ao máximo a capacidade de organização do
pobre. É sempre ele quem paga a dívida no prazo certo, em 95% dos
casos. Se pudéssemos dizer isso dos milionários todos... | |