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A principal tempestade financeira do século XX, o Crash da Bolsa de Nova York, em 1929, não provocou só a Grande Depressão nos Estados Unidos. Os efeitos da queda espetacular dos preços das ações americanas se estenderam ao Brasil, que era o grande produtor de café do planeta – a demanda externa do produto despencou e o país também acabou sendo tragado pela tormenta. No final do século, com uma economia cada vez mais globalizada, tornou-se cada vez mais comum ver o Brasil amargar o impacto negativo das crises nos mercados dos outros países. O que mudou foi o grau de vulnerabilidade do país frente aos abalos externos: a economia nacional ficou mais preparada para enfrentar os tempos ruins.
Nos anos 1990, os brasileiros sentiram os choques originados em mercados de várias partes do globo. Um grande susto destacado numa reportagem de capa de VEJA foi a quebradeira do México, que sacudiu todo o sistema financeiro internacional, afetando negócios que somavam trilhões de dólares. Depois veio a crise asiática, que teve repercussões graves no país. Tailândia e Hong Kong ruíram, e o Brasil mostrou-se perigosamente vulnerável. Com o susto nas bolsas, a perda de reservas com uma repentina fuga de dólares e um aumento de juros, o país teve de abandonar a ilusão do real como um super-herói do capitalismo globalizado. O Brasil foi o país que pior se saiu na crise, cujos efeitos foram sentidos até o ano seguinte.
O mundo ainda tentava se recuperar quando foi abatido por um golpe ainda mais duro: o calote da Rússia de Boris Ieltsin. Se a crise asiática de outubro produziu uma boa trepidação nos países emergentes, o presidente russo fez pior. O míssil russo caiu até em paraísos de tranqüilidade econômica, como os mais ricos países europeus. Em janeiro de 1999, o Brasil assumiu o centro de uma crise mundial. Para evitar a quebra do país, o governo abriu mão da moeda atrelada ao dólar e liberou o câmbio. Uma sensação de alívio foi o primeiro impacto da decisão. O mercado deu um inequívoco sinal positivo ao Brasil depois da desvalorização mas não deixou de lado a implacável cobrança de reformas capazes de tornar o país governável financeiramente. Dois anos depois, o Brasil voltou a ser ameaçado pela instabilidade financeira, dessa vez com origem num país vizinho. Com a economia mergulhada até o pescoço numa crise profunda, era a Argentina que puxava o Brasil para baixo. Antes, quando o Brasil espirrava, a Argentina, tão dependente que era da economia brasileira, caía de cama com pneumonia. A situação em 2001 era bem pior. O quadro ganhava tons mais cinzentos em decorrência do desânimo que atacava algumas nações ricas. O Japão enfrentava a estagnação, enquanto os Estados Unidos e a Europa caminhavam a passos lentos. Sem a força desses motores, fica difícil reerguer os países pobres. No começo dos anos 2000, o Brasil sofria com a fortíssima influência dos fatores externos sobre sua condição econômica. Felizmente, o país chegou ao fim da década muito mais preparado para aguentar os trancos. Os escudos para proteger o país incluem uma política econômica sólida e mais previsível, reservas internacionais reforçadas, o crescimento de seu mercado consumidor e a riqueza em recusos naturais e agronegócio. A maior vulnerabilidade é a gastança do próprio governo. No fim de setembro de 2008, a capacidade de defesa do país frente às crises externas foi testada mais uma vez com o agravamento da crise de crédito americana, iniciada no ano anterior. Na maior tempestade nas bolsas desde o Crash de 1929, bancos como Lehman Brothers e Merrill Lynch, astros de primeira grandeza do sistema financeiro, estavam no centro da tormenta. Depois de um esforço inicial desastroso, os Estados Unidos começaram a consertar a engrenagem de crédito de sua economia e, em conseqüência, a da economia mundial. Com a aprovação do pacote de ajuda, Tio Sam salvou o mundo do colapso e será possível, primeiro, medir o tamanho do estrago e, em seguida, empreender a caminhada de volta na reconstrução dos mecanismos americanos e globais de produção de riqueza. Nesse processo, alguns países sofrerão mais. Outros menos. Mas nenhum escapará ileso aos efeitos desse cataclismo. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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