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31 de outubro de 1973
Depois do alerta,
a paz frágil

 



Com poucas horas de diferença, na última sexta-feira, dois discursos nas capitais mundiais da guerra ou da paz mostraram que as coisas, no fundo, nunca estiveram tão bem, para concórdia e felicidade gerais da humanidade. "As possibilidades para se estabelecer uma paz permanente no Oriente Médio são, agora, as maiores dos últimos vinte anos", disse em Washington o presidente Richard Nixon. "Desejamos que se garanta a segurança de todos os povos da região e o seu direito de construir em paz sua própria vida, tal como o desejarem", afirmou em Moscou o secretário geral do Partido Comunista soviético, Leonid Brezhnev. No mesmo dia, começavam a desembarcar nas frentes de combate os primeiros soldados do contingente internacional enviado pela ONU para vigiar o cessar-fogo dos dois grandes.

Vinte dias após o início da quarta e mais sangrenta guerra entre árabes e judeus, e depois de se ter substituído uma trégua fracassada por outra ainda nebulosa, era como se a região fosse um exemplo de paz para o resto do mundo. Apenas 24 horas antes, entretanto, viveu-se, tecnicamente, o dia mais tenso desde a crise de Cuba em 1962, quando russos e americanos ficaram face a face com seus arsenais atômicos. Os Estados Unidos haviam declarado um alerta geral de todas as suas forças, inclusive - e principalmente - nucleares, para uma possível intervenção no Oriente Médio. E um confronto com os russos, repentinamente, chegou a ganhar seus primeiros contornos.

Mas, como se os grandes estivessem brincando de inflar ao máximo o balão da crise, só para desinchá-lo no dia seguinte, acabou não acontecendo nada. Na sexta-feira o alerta-geral foi suspenso, depois de russos e americanos terem concordado que nenhum dos dois estaria enviando tropas ao Oriente Médio, apenas observadores. E as atenções, roubadas durante a semana por Washington e Moscou, voltavam afinal para os combatentes. Após terem suspendido a guerra pela primeira vez na segunda-feira, no 17º dia de combates, voltado a se chocar e tornado a cessar o fogo na quarta-feira, egípcios, sírios e israelenses estavam misturados num razoável emaranhado de posições, com suas linhas se intercalando e cruzando no terreno militar.

ÚNICA CONSTANTE - De qualquer forma, no final da semana não se atirava mais nas margens do canal de Suez, no deserto do Sinai e na Síria. E Henry Kissinger, o secretário de Estado americano, podia ter o seu primeiro momento de relativo alívio nos últimos dez dias. Numa semana inteiramente dominada pelos movimentos dos dois grandes, o negociador Kissinger, de certa forma, esteve centralizando praticamente todas as manobras vitais. Mais que tudo, ao atravessar seu primeiro alerta geral como secretário de Estado, e administrar sua primeira crise nuclear, ficou claro que o ex-assessor das missões secretas se movimenta com tanta segurança na linha de frente da diplomacia oficial quanto o fazia nas sombras da retaguarda.

"Os Estados Unidos e a União Soviética têm o dever especial de assegurar que suas divergências sejam mantidas em limites que não tragam a ameaça de um confronto nuclear", diria Kissinger na quinta-feira, sobressaindo-se como o interlocutor número um dos Estados Unidos. De fato, na ONU, os diplomatas suspenderam seu trabalho e correram para os aparelhos de TV, para ouvir a entrevista que o secretário de Estado dava em Washington. Além disso, com o presidente Nixon lutando duramente para salvar seu mandato, numa das semanas mais explosivas com as seqüências do caso Watergate, Kissinger naturalmente emergiu como o homem mais sólido do governo - mais, certamente, que o atribulado chefe da nação. Finalmente, ao longo de todo o processo de negociações, ele foi a única constante falando com os russos em Moscou, com os israelenses em Telavive, com os embaixadores árabes em Moscou.

TUDO PREVISTO - Era, assim, um Kissinger exausto, envelhecido, que os jornalistas puderam ver afundado numa das elegantes poltronas da sala VIP do aeroporto de Heathrow, em Londres, na noite da última segunda-feira. Ele voltava para Washington depois de mais de uma meia-volta ao mundo, que o havia levado a Moscou e Telavive nos três últimos dias e, na sua escala de uma hora em Londres, para reabastecer o avião, os sinais do cansaço eram evidentes. Várias vezes, na conversa com o ministro do Exterior inglês, que o recebera no aeroporto, Kissinger passou as mãos pelo rosto. Os sorrisos foram raros. Corno sugeriu um jornal de Londres, ele estaria sofrendo de "jet-lag" - o mal causado por mudanças muito bruscas e freqüentes de fuso horário.

A semana, entretanto, mal começara e, com a deterioração das negociações tão penosamente realizadas até então, sucedidas pelo alerta nuclear, ela traria uma soma inédita de tensões. Os grandes, aparentemente, haviam previsto tudo: árabes e judeus, concordavam americanos e russos, deveriam aceitar um cessar-fogo na Síria e no Sinai, e iniciar, enfim, negociações sobre territórios e fronteiras. Mas, como a Síria parecia tergiversar ante a aceitação do acordo, e Israel decidira reiniciar a ação no Sinai, EUA e URSS se lançaram numa prova de força que os levaria à beira da confrontação.

Com Henry Kissinger no centro dos episódios, a grande corrida diplomática começara no fim da semana anterior. Ao anoitecer da sexta-feira, dia 19, Washington recebera um telefonema visivelmente urgente de Moscou: "Mandem Kissinger. Não daqui a alguns dias, mas algumas horas". Para ele, era um dia carregado. À noite, havia um jantar com os diplomatas chineses em Washington que não podia ser cancelado. E, como secretário de Estado, é às vezes impossível para Kissinger fugir de compromissos nos quais, como assessor, jamais lhe ocorreria investir seu tempo.

SEM SANDUÍCHES - Em momentos de crise mundial, como agora, essa prisão protocolar pode ser particularmente enervante. Pouco antes do jantar com os chineses, por exemplo, ele teve de receber no 7º andar do Departamento de Estado, durante 1h e 15min, o embaixador Sevilla Sacasa, da Nicarágua - deão do corpo diplomático e possivelmente o diplomata mais maçante de Washington. Nos dias anteriores, sua agenda foi investida várias vezes pelo temível embaixador de Portugal, eternamente preocupado com as províncias ultramarinas e, agora, com a utilização da base dos Açores na ponte aérea de armas americanas para Israel. Líderes e embaixadores de remotos países africanos igualmente assediavam com perseverança seu gabinete.

De qualquer forma, com a possibilidade permanente de mergulhar de um momento para outro em negociações como as dos últimos dez dias, Kissinger vem montando um sistema de defesas contra as misérias burocráticas do cargo. É assim que boa parte dos golpes são absorvidos por Kenneth Rush, subsecretário de Estado, ou pelos secretários adjuntos, especializados em assuntos ou regiões. E, como sinal mais visível de independência, Kissinger costuma passar metade do dia na Casa Branca, indo só à tarde para o "Foggy Bottom", como é conhecida a baixada às vezes nevoenta onde fica o Departamento de Estado, dando para um imenso parque ao fundo do qual corre o Potomac.

Kissinger também conserva a limusine e o serviço secreto da Casa Branca para seus deslocamentos, apesar da consternação que isso causa entre o pessoal de segurança do Departamento de Estado. Na sua ojeriza por sanduíches, continua freqüentando seus restaurantes de sempre - "Sans Souci", "Vic", "Rive Gauche" - e sua residência é a mesma, uma casa colonial simples na área Northwest de Washington, onde os únicos sinais de poder são a presença de uma empregada doméstica e a tradicional mini-central telefônica operada pelo serviço secreto.

DISPOSTOS A AJUDAR - Quando sua rotina foi subitamente interrompida pelo nervoso telefonema de Moscou, Kissinger teve tempo apenas para jantar com seus amigos de Pequim (sua viagem à China, marcada para o dia 10 próximo, foi adiada) e, pouco depois da 1 hora da manhã do dia 20, embarcou num dos quatro Boeing 707 indistintamente chamados "Air Force One" e usados por Richard Nixon. O percurso de doze horas até Moscou foi usado por Kissinger, basicamente, para dormir, após uma rápida conferência com seus assessores. E, uma vez hospedado nas colinas de Lênin, o bairro diplomático de Moscou, entregou-se a densas conversações com os líderes soviéticos.

Os russos, segundo se revelou no círculo de Kissinger, estavam bem-humorados e "dispostos a ajudar". E de fato, ao meio-dia do domingo, dia 21, o embaixador dos EUA na ONU, John Scali, tomava conhecimento de que deveria, junto com seu colega soviético Jacob Malik, pedir a convocação imediata do Conselho de Segurança. Objetivo: votar com urgência o texto que acabava de ser acertado em Moscou por Kissinger e Brezhnev. Fundamentalmente, o acordo só estabelecia uma coisa: israelenses e árabes deveriam cessar a luta. Quanto aos detalhes, os russos deram a entender aos árabes que o texto previa a retirada de Israel dos territórios ocupados. Os americanos, por sua vez, disseram aos israelenses que o mesmo texto levaria a negociações diretas com seus vizinhos sírios e egípcios.

Em Nova York, sete horas depois, o Conselho de Segurança era finalmente reunido (havia sido preciso caçar por toda parte o presidente, o australiano Laurence MacIntyre, que tivera a idéia de passar o fim de semana fora) e o ambíguo texto do cessar-fogo, afinal, recebia uma aprovação apressada. Para os soviéticos - e, originalmente, para os egípcios - a pressa se justificava. Na margem ocidental do canal de Suez os blindados de Israel, alargando sua cabeça-de-ponte, progrediam perigosamente para o sul. E, se conseguissem completar seus movimentos, poderiam cercar o III Corpo de Exército egípcio - do outro lado do canal, na margem oriental para onde haviam ido no início da guerra, 20.000 soldados e 200 tanques ficariam cortados da retaguarda, sem logística, água, comida e combustível.

TRÊS DIAS - Era para montar essa armadilha estratégica que a primeira-ministra Golda Meir, no sábado 20, havia pedido três dias de "prazo" para Nixon antes de aceitar um cessar-fogo. Mas Kissinger, então, já estava adiantado nas negociações em Moscou, e Israel teria de encerrar tudo o que tinha a fazer até o cair da noite da segunda-feira, quando entraria em vigor o cessar-fogo votado na noite de domingo. Na realidade, as coisas acabariam não se passando bem assim. A resolução da ONU não foi seguida na frente de Suez e, a cada hora, os israelenses pareciam melhorar sua posição.

No Egito, a agitação foi se agravando. Indignado, o general Chazly, chefe do Estado-Maior egípcio, telefonou ao presidente Anuar Sadat, para dizer que Israel estava "conquistando territórios sob a proteção da trégua". Sadat, a partir daí, resolveu jogar URSS e EUA no conflito - única forma, aparentemente, de interromper o progresso israelense. Na terça-feira à noite, depois de o Conselho de Segurança votar uma segunda trégua para entrar em vigor no dia seguinte - desta vez, com o princípio de enviar uma força de segurança para a linha de combate -, os egípcios passavam a exigir que tropas americanas e russas viessem para o canal, como garantia mais sólida de que o III Corpo não fosse cercado.

GUERRA FRIA - Para Henry Kissinger, entretanto, o envio de tropas americanas ao exterior estava fora de questão. Em vão, durante a quarta-feira, o embaixador soviético Anatoly Dobrynin tentaria convencê-lo da necessidade de se intervir no Sina com uma força conjunta russo-americana. A medida, proposta pelos árabes, seria desvantajosa para Israel. E além disso, explicou Kissinger, os EUA haviam saído há muito pouco tempo do Vietnã para se animar a um envolvimento no Sinai. Foi então que Dobrynin, normalmente tão cortês, retomou bruscamente o tom da guerra fria. Com ou sem os americanos, disse ele a Kissinger, as tropas soviéticas iriam para o Oriente Médio vigiar o cessar-fogo.

A ameaça soviética foi seguida com uma ameaça americana. Na madrugada de quinta-feira, as forças armadas entravam em alerta, para serem acionadas, teoricamente, se a intervenção russa se concretizasse. A notícia viria apanhar Brezhnev na sessão de abertura de um Congresso Mundial da Paz: repentinamente, os 3.000 delegados viram o líder do PC se eclipsar no seu camarote, voltar pouco depois com um telegrama na mão e desaparecer de novo, depois de mostrá-lo ao presidente Nikolai Podgorny. EUA e URSS estavam frente a frente.

Pela terceira vez, então, a crise foi para o Conselho de Segurança. Após um dia de tensão nuclear, a fórmula foi encontrada à noite: uma força internacional, sem soldados russos ou americanos (e nem da China, Inglaterra e França), seria enviada imediatamente para o Oriente Médio; russos e americanos enviariam observadores civis; a tropa ficaria sob o controle do Conselho de Segurança (e não do secretário geral Kurt Waldheim), e todos os beligerantes deveriam voltar às posições que ocupavam na segunda-feira. A crise de 24 horas estava encerrada.

O JOGO A DOIS - De fato, já na noite de sexta-feira desembarcavam no aeroporto do Cairo trinta militares finlandeses, e para o início desta semana já deveriam estar em suas posições os primeiros novecentos homens do contingente total de 7.000, entre oficiais e soldados, que formarão a força internacional da ONU - a um custo de 30 milhões de dólares nos primeiros seis meses, e sem que ainda esteja acertado quem vai pagar quanto. Ao mesmo tempo, também chegavam ao Cairo setenta dos observadores civis soviéticos.

Com o quadro provisoriamente apaziguado, EUA e URSS tratavam de reforçar suas posições. Para os americanos, entretanto, há o problema suplementar de se recompor com seus aliados europeus - que, ao longo de toda a crise, estiveram distantes ou até mesmo hostis em relação ao procedimento dos EUA. Com exceção de Portugal, nenhum dos aliados quis cooperar na ponte aérea de armas para Israel - e dois deles, Grécia e Turquia, deixaram passar armas russas para os árabes em seus territórios. Receosos de perder suas fontes de petróleo, os países da NATO, de certa forma, mostraram que num momento de crise estão mais dispostos a cuidar de seus interesses particulares do que dos objetivos globais.

A própria mobilização de contingentes da NATO no alerta geral irritou os europeus: eles alegam que uma intervenção no Oriente Médio desvirtua as funções da aliança. Somando-se a isso o silêncio imperial que os EUA mantiveram quanto ao alerta - apenas o primeiro-ministro inglês foi avisado com alguma antecedência, no meio da noite -, os europeus parecem sair da crise mais desgostosos do que nunca com o jogo a dois russo-americano - a ponto, no fim da semana, de críticas mútuas começarem a ser trocadas entre EUA e Alemanha.

AMBIGÜIDADE - A paz dos grandes, envolta em felicitações mútuas, veio apenas encobrir as inquietudes e frustrações de árabes e israelenses, exauridos por uma guerra sem vencedores. A batalha diplomática que se anuncia promete ser tão repleta de armadilhas, minas e linhas de fogo quanto o foram as frentes de combate. De fato, a resolução número 338 do Conselho de Segurança da ONU, que na noite de domingo, 21, estabeleceu as bases do cessar-fogo, apenas reafirma a frágil ambigüidade da tão citada, mas eternamente inoperante, resolução 242 votada cinco meses após a Guerra dos Seis Dias.

Sujeita à interpretação de cada um segundo suas necessidades, ela promete, em sua versão francesa, a devolução aos árabes de todos os territórios conquistados por Israel em junho de 1967. E, em sua versão inglesa, possibilita a Israel renunciar somente a uma parte não especificada de suas conquistas militares de seis anos atrás. Assim, a maior conquista dessa guerra de dezessete dias - que, segundo dados ainda incompletos do Pentágono, causou 19.120 baixas, entre mortos e feridos dos dois lados - talvez tenha sido a de obrigar árabes e israelenses a resolverem em torno de uma mesa de negociações as suas dificuldades herdadas do conflito anterior.

Na noite de sábado, os governos de Anuar Sadat e da sra. Golda Meir já concordavam em reunir, sob a bandeira da ONU, representantes militares de seus países para debater os delicados meandros do cessar-fogo. Era o primeiro passo oficial, em mais de 20 anos de confronto, do difícil acerto de contas negociado. Dois dias antes, porém, incrédulos telespectadores israelenses puderam assistir a um encontro mais improvisado e a um diálogo mais pungente entre dois guerreiros inimigos.

UMA PROPOSTA - Sentado à sombra de um blindado semidestruído, o coronel egípcio Yasser Hathen, 33 anos e especialista em foguetes SAM-2, olhava para o cadáver de um de seus soldados, já quase encoberto pelas areias do Sinai. Em seguida, a câmara focalizou o general de reserva Haim Bar-Lev, 49 anos, ex-comandante-em-chefe das tropas israelenses, que viera sentar-se junto a ele, com um mapa aberto nas mãos. "Coronel", disse Bar-Lev em inglês, com sua voz arrastada e segura, "o senhor é nosso prisioneiro. Vim fazer-lhe uma proposta. O senhor conhece a situação: com exceção do flanco norte, o III Corpo de Exército egípcio está cercado Passe para o outro lado do canal e diga a seus oficiais que estamos dispostos a deixá-los passar também - não como prisioneiros, mas para que se unam ao grosso das tropas egípcias."

Hathen, de cabelo escovinha e olhar subitamente atento, esboçou então um quase imperceptível sorriso. "Meu general", respondeu igualmente em inglês, "temos do outro lado do canal oficiais superiores perfeitamente conscientes do que devem fazer." "Não", retrucou Bar-Lev, "os generais sitiados conhecem apenas duas soluções: resistir até o último homem ou render-se. Estou lhe propondo uma terceira solução, que não fará vítimas." Militarmente, o "beau geste" no deserto foi inútil: Hathen rejeitou a oferta e Bar-Lev encaminhou-se para um helicóptero, onde o brigadeiro Mordekhai Hod, ex-comandante-em-chefe da aviação israelense, o aguardava impaciente. Contudo, conta Michel Salomon, correspondente de VEJA em Jerusalém, o aperto de mão com que os dois adversários se despediram marcou profundamente os telespectadores desnorteados.

"Kissinger nos colocou diante de um fato consumado", declarou a VEJA Benjamin Halevy, ex-juiz da Corte Suprema que condenou Adolf Eichmann onze anos atrás. "Nada sabíamos do que estava sendo negociado em Moscou." Atacados na guerra e forçados na paz, os israelenses parecem sentir, mais do que em qualquer época, o peso do isolamento. Apenas oito países africanos ainda mantêm relações diplomáticas com Jerusalém, e diversos aliados tradicionais europeus demonstraram nas duas últimas semanas preferir o acesso aos poços de petróleo árabes a uma aliança irrestrita com Israel.

No outro extremo do isolamento, e com temores mais profundos e justificados, estavam os palestinos na semana passada. "Não era difícil sentir", conta Pedro Cavalcanti, enviado de VEJA à frente árabe, "a profunda decepção predominante do escritório central da Organização de Libertação da Palestina de Beirute, modestamente decorado com posters revolucionários, com esse conflito desencadeado e encerrado à revelia dos fedayins." Não apenas a lenda de heroísmo quase suicida, que os comandos palestinos haviam forjado logo após a Guerra dos Seis Dias, empalideceu diante do número brutal dos outros combatentes árabes que enfrentaram agora as forças israelenses. Mas, sobretudo, a própria causa palestina, ponto de ignição de guerras anteriores, parece ter sido perdida nos combates pelo Sinai e pelo planalto de Golan. A invasão do apartamento do físico dissidente Andrei Sakharov, em Moscou, por dois árabes que se diziam membros da organização terrorista Setembro Negro, apenas ilustra o quanto os palestinos estiveram longe da guerra que deveria devolver-lhes as terras perdidas em 1948.

Com os palestinos claramente no papel de únicos perdedores até agora, as vantagens para árabes e israelenses continuavam, indefinidas após três semanas de choque. Nessas condições de incerteza, a batalha final começara, mais do que em qualquer outra ocasião, a ser travada na mesa de negociações. E, nela, Henry Kissinger mais uma vez poderá estar na primeira linha e ação - mesmo indireta.

HUMOR SOMBRIO - O país inteiro, na verdade, buscava explicações e respostas para a avalancha de situações novas que a guerra-surpresa lhe impôs. Ao anoitecer da quinta-feira, quando o segundo cessar-fogo parecia finalmente estar implantado em todas as frentes e o "blackout" foi levantado pela primeira vez desde 6 de outubro, não houve gritos de alegria nem excitação de vitória em Israel. Simplesmente, as luzes se acenderam e os sinais de trânsito voltaram a funcionar, enquanto a população de Telavive se reunia, com a cabeça fria e o coração pesado, na alameda Ben Yuda, na rua Dizengoff, em volta de vendedores de melancia e de pirâmides de laranjas.

Assim como Israel não estava preparado para a guerra de 6 de outubro, a suspensão dos combates sem uma solução final também pegou o país desprevenido. Um jovem kibutzim, membro do Movimento da Juventude Socialista, confessou seu desencanto a VEJA: "Golda está muito velha e cansada, ela deveria ir para casa, juntamente com todos os velhotes do atual governo". Um jovem oficial, ainda aquartelado no norte do Sinai, pronunciou heresias semelhantes, todas inconcebíveis há menos de um mês: "Dayan só serve para presidir paradas militares no dia da Independência".

O humor sombrio do cidadão israelense refletia-se com plenos poderes nos círculos políticos da nação. Nos corredores do Knesset (Parlamento) e nas ante-salas dos ministérios, o clima de tempestade lembrava os dias das grandes crises políticas israelenses. Apesar dos sucessivos apelos à unidade nacional, o cerrar de fileiras ocorrido ao longo da guerra não sobreviveu ao cessar-fogo. E a fórmula "Ein Breira" ("não temos outra escolha"), que durante um quarto de século sempre justificou qualquer decisão do governo em nome da nação, pareceu subitamente vazia.

RENÚNCIAS - A tempestade maior veio das próprias fileiras do governo. Na noite do cessar-fogo, em tumultuada reunião de gabinete, o sexagenário ministro da Justiça Yaacov Shimson Shapiro - durante anos a eminência parda de Golda Meir - responsabilizou com violência seu colega trabalhista Moshe Dayan pelo "despreparo militar" israelense ao ser atacado no dia 6 de outubro. Por um momento, conta o correspondente de VEJA, o governo pareceu desfazer-se: Dayan apresentou sua renúncia, Golda Meir a rejeitou, veio a vez de Shapiro apresentar e renunciar à sua renúncia, e, antes que o tumulto ferisse politicamente mais algum ministro, a reunião encerrou-se às pressas.


 
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