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Reportagens 31 de julho de 1996Jogos em pânico Uma bomba no Centennial Park
Uma explosão acabou com uma olimpíada de Atlanta. A explosão do Boeing da TWA na véspera da abertura dos Jogos pode ter lançado uma sombra de suspeita. Mas, como nada de conclusivo foi descoberto sobre a queda do avião, a sombra passou, e a Olimpíada resplandeceu durante uma semana. Havia os problemas tecnológicos, a bagunça e o calor pegajoso de Atlanta, mas as provas se sucediam, milhões de pessoas ao redor do planeta acompanhavam a disputa. À 1h15 da madrugada de sábado (2h15 no horário brasileiro), uma bomba explodiu na torre de som ao lado do palco da AT&T, no Centennial Olympic Park. Cerca de 2 000 pessoas estavam assistindo a um show da banda de rock pauleira Jack Mack and The Heart Attack. Ouviu-se um forte estrondo, fumaça negra e estilhaços se espalharam. Estava encerrada a Olimpíada. Encerrada no sentido que é certo que ainda haverá provas e recordes serão batidos. Até porque o comitê organizador confirmou a realização de todas as provas do dia seguinte. Mas o grande, o maior assunto passou a ser a explosão. Andrew Kastner, um integrante da Jack Mack disse que, pouco antes da explosão, um técnico de som encontrou um artefato dentro de um saco de papel. Como pensou que era uma bomba, alertou a polícia, que começou a afastar as pessoas da área. Pouco depois, o artefato explodia. No início da manhã, a prefeitura confirmava que pelo menos duas pessoas haviam morrido e cerca de 110 ficaram feridas em conseqüência da bomba. O presidente Bill Clinton, que um dia antes estivera em Atlanta, fora acordado e informado do incidente. Na madrugada de sábado, no entanto, o cenário do parque e dos seus arredores era de desespero e pânico. A enviada especial de VEJA Dorrit Harazim encontrou uma senhora em posição fetal, incapaz de dizer o próprio nome. A seu lado, procurando socorrê-la, um senhor informava que ela entrara em estado de choque depois de ver um homem arrebentado, com as vísceras à mostra. "Nessa hora, você só pensa nos filhos e não quer saber de mais nada", contou a Eurípedes Alcântara, de VEJA, o pastor protestante John Lamb. Ele estava no parque em companhia de seus três filhos, o mais novo com 5 anos de idade. Assim que ouviu a explosão, Lamb agarrou os meninos e saiu correndo. Mais tarde, ao recuperar a calma, descobriu que estava surdo - seu ouvido esquerdo havia sido estourado por causa da explosão. Outros turistas e testemunhas apresentavam o mesmo sintoma. Quando o tímpano não fora rompido, estava bastante machucado. Esse dado é um primeiro sinal de que a bomba era um explosivo caseiro, que provoca grandes deslocamentos de ar, mas não espalha grande quantidade de fragmentos. Muitas pessoas disseram ter sentido um cheiro forte de pólvora no momento da explosão, e a televisão mostrou fumaça - sinais que também apontam para um artefato improvisado, possivelmente uma "pipe bomb", a bomba feita com um cano de alumínio serrado, repleto de pólvora. Não é nada que se compare ao massacre das Olimpíadas de Munique, em 1972, quando terroristas da organização Setembro Negro assassinaram onze atletas israelenses. Os Jogos foram suspensos por 24 horas e depois retomados. Em Atlanta, as provas foram mantidas. Mas é uma Olimpíada diferente, a Olimpíada do medo, a que começou depois da bomba. NATAÇÃO "M*#%>*N" (palavrão). "Agora posso voltar ao Brasil com o Gustavo!", repetia Fernando Scherer, o Xuxa, ao embolsar o seu pedaço de metal precioso - o bronze olímpico - nos últimos, suados, 22.68 segundos que lhe restavam de participação nos Jogos Olímpicos de Atlanta. O dente sangrava, do esbarrão que deu numa floresta de microfones, mas ele nem notou, pois não conseguia fechar a boca, de alegria. Como também não notou o sujeito altão, rosado de tanto tomar sol no rosto, que saudava das arquibancadas os três medalhados da prova dos 50 metros. Era o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, que na noite de quinta-feira passada decidiu prestigiar a natação, esporte-rei da primeira semana olímpica, com séquito completo: a mulher, Hillary, a filha, Chelsea, e um pelotão de secretas cujas credenciais ostentavam um X preto no lugar reservado à profissão. "Ué, o Clinton também estava lá?", espantou-se Xuxa. O nadador catarinense de 21 anos só teve olhos, coração e acenos para "a galera", sentada mais acima - o solidário, enxuto, grande time da natação brasileira, que suou com ele até o último centésimo de segundo, a começar pelo técnico Carlos Camargo. O derradeiro afago para encarar o tudo-ou-nada, Xuxa recebeu de Gustavo Borges, no "túnel do lobo", que dá acesso, sem volta, aos blocos de partida para o embate na água. Àquela altura, Gustavo estava com os braços de 2,03 metros de envergadura liberados e leves para poder atuar como capitão da equipe e ancoradouro amigo. Como atleta, já os havia colocado à prova com resultado formidável: uma medalha de prata nos 200 metros, logo no dia de estréia das Olimpíadas, arrematada por outra de bronze dois dias depois, na prova mais nobre da natação, os 100 metros. A primeira conquista de Gustavo foi tão fulminante e precoce que não houve tempo para os organizadores corrigirem um erro no desenho da bandeira brasileira, que se ergueu na piscina olímpica enquanto Gustavo subia ao pódio. Quarenta e oito horas depois, Gustavo voltava a arrancar do bloco de partida com o pé direito à frente. Estava soberbamente calmo para a prova dos 100 metros - a mais ambicionada pelos americanos, a mais dominada por Alexander Popov, o russo para quem parece ter sido inventada a expressão "charme eslavo". Saiu d’água com sua medalha de bronze, tornando-se o atleta brasileiro com maior número de medalhas da história olímpica do país (uma de prata em Barcelona e as duas de Atlanta). É o primeiro nadador do Brasil a ganhar medalhas em duas Olimpíadas consecutivas. O ouro coube a Sacha, como os amigos chamam Popov, que vence há cinco anos sem deixar brecha para mais ninguém. A amargura ficou para o darling rebelde e esperança maior da natação dos Estados Unidos, Gary Hall, destroçado por chegar em segundo lugar. Em quinto lugar, naquela prova de elite da elite da natação, chegava Fernando Scherer. Arrasado. Para ele, era pouco. Na véspera, após muita hesitação, havia tomado a decisão radical de raspar não apenas os pêlos do corpo, para diminuir o atrito com a água, mas também seus celebrados cabelos cor de Xuxa. A careca doeu duplamente, como farol de derrota, quando a medalha no revezamento 4 x 100 também lhe escapou - o Brasil conquistou o quarto lugar do mundo, a 2 segundos e 89 centésimos do pódio. Restava-lhe uma só chance, os 50 metros, e Xuxa desceu aos infernos da solidão dos sem-medalha. "Não posso voltar sem nada. Nem que tenha de roubar uma do Gustavo", dizia, a brincadeira escondendo seu desconcerto. "O marketing pessoal em cima do Xuxa foi muito intenso e forte", avaliou Gustavo. "Ele acabou cobrando muito dele mesmo." Com Clinton por testemunha e com sua Florianópolis natal grudada na tevê, Fernando Scherer mergulhou em sua derradeira chance. Na mesma raia 1 da qual Gustavo Borges arrancara a medalha de prata, ele foi garimpar o pódio. Respirou uma só vez na empreitada quase demente que é a prova dos 50 metros e saiu com a careca erguida, sorrisaço para todos os lados. Só faltou dançar no pódio. Assim como as 2 polegadas a mais nos quadris fizeram Martha Rocha, a baiana de olhos verdes dos anos 50, perder o título de Miss Universo, o loiro de olhos verdes da natação brasileira ficou a apenas três centésimos de segundo da medalha de prata de Gary Hall. O ouro, como sempre, foi para Popov. Foi o fecho suado de uma semana de arrepiar para o Brasil. No judô, cada dia de luta resultava numa possibilidade real de medalha. No futebol, a humilhante estréia contra o Japão continuará doendo por longo tempo, mesmo que o time de Zagallo arrebate o ouro. Em compensação, o arrastão do vôlei de praia feminino em Atlanta foi tão definitivo que parece faltar pódio para as duplas brasileiras, e, com elas, a história do Brasil olímpico começa a ser reescrita. Mas Olimpíada é vapt-vupt. Competiu, saiu. Quem ganha ou perde tem dois dias para desocupar o quarto para que uma segunda leva de atletas, com provas marcadas para o final dos Jogos, passe a se instalar na vila. Assim, já nesta segunda-feira desembarcam no Brasil, com honras presidenciais, os primeiros retornados da batalha de Atlanta - os nadadores. Gustavo Borges, que veste medalha com a naturalidade de quem está usando uma camiseta, mais uma vez não viu nada do que se propôs ver numa Olimpíada. Só houve tempo físico e espaço mental para competir, dormir, comer, pensar na prova seguinte, voltar a competir, dormir, comer. A diferença em relação à sua primeira Olimpíada? "Adquiri maior certeza. Em Barcelona, eu tinha apenas 19 anos, era tudo menos permanente. Lá, ganhei uma medalha. Em Atlanta, duas. Estou pronto para Sydney, no ano 2000..." Estará com 27 anos, Alexander Popov com 28, Gary Hall com 27 e Fernando Scherer com 25. Há muito Gustavo não cabe mais em Ituverava, cidade do interior paulista onde moram seus pais - nem juntando as águas das quatro piscinas da cidade. Cresceu demais - não só pelo pé 47 - para continuar cuidando das cebolinhas que plantou no quintal de sua casa, e que vigia a distância, dos Estados Unidos, mas que já foi invadida pelas mudas de gengibre de Mariana, a irmã caçula. Tampouco cabe só em São Paulo, ou só no Brasil. O lugar do brasileiro Gustavo Borges é no pódio, arrastando uma enxurrada de torcedores e possíves candidatos a futuros gustavinhos. Nos próximos seis meses, à espera de retomar seu último semestre em administração de empresas na Universidade de Michigan, Gustavo - o Grandalhão - vai percorrer o Brasil para matar saudade e falar com a garotada das piscinas nacionais. "Acho que tenho um montão de coisas para dar a eles", imagina. Na semana passada, de Atlanta, já deu duas medalhas.
Num evento raro na história olímpica, um país pode comemorar na véspera a medalha de ouro que vai disputar no dia seguinte. Esse país é o Brasil - que poderá comemorar também a conquista inédita de uma medalha por uma mulher. Desde que a paulista Maria Lenk saltou na piscina de Los Angeles, em 1932, as mulheres brasileiras vêm perseguindo um lugar no pódio. Chegou a hora. Na última sexta-feira, as duas fabulosas duplas femininas brasileiras do vôlei de praia venceram suas adversárias e garantiram o direito de dividir entre si o ouro e a prata olímpica da especialidade na decisão de sábado. Sandra e Jacqueline contra Mônica e Adriana foi uma partida que deu à torcida brasileira o raro privilégio de saborear 24 horas antes uma vitória olímpica. Para elas foi a glória, uma celebração brasileira de alta intensidade. "Não sei se estou mais feliz por disputar uma medalha ou por ter uma final toda brasileira", disse Jacqueline, que já disputou duas Olimpíadas com o vôlei de quadra. As duas duplas brasileiras, vizinhas de quarto num mesmo apartamento da vila olímpica, percorreram caminhos muito diferentes antes de chegar aos degraus mais altos do pódio olímpico. Jacqueline e Sandra, líderes do ranking mundial nos últimos dois anos, chegaram a Atlanta na condição de francas favoritas. "Quer dizer que estamos aqui na Olimpíada, somos as favoritas e podemos ganhar uma medalha de ouro?", perguntou Sandra a Jacqueline, excitada mas desconfiada ao desembarcar em Atlanta. Elas confirmaram na arena de Atlanta Beach, um estádio permanente de vôlei de praia com capacidade para 9 000 espectadores a 400 quilômetros da praia mais próxima, sua fama de dupla quase perfeita, não dando a menor chance a suas adversárias. Exuberantes e geniosas, as duas se completam. Sandra Tavares Pires, 23 anos, carioca da Ilha do Governador, é exigente consigo e com a parceira e tem um jogo forte no ataque e na defesa. Jacqueline Louise Cruz Silva, 34, carioca de Ipanema, é o cérebro que dá refinamento ao jogo do time. Depois de passar cinco anos jogando - e vencendo - nos Estados Unidos, é conhecida e admirada pelos americanos tanto quanto as próprias jogadoras da casa. E temida. Mônica e Adriana, que terminaram a temporada passada em quarto lugar no ranking mundial, eram mais conhecidas até a última sexta-feira por seus laços familiares. Mônica é casada com Jorge de Freitas, ex-técnico da seleção de vôlei de quadra, e Adriana é irmã do atacante Tande, da seleção masculina. "Tivemos uma fase ruim e muita gente chegou a dizer que não merecíamos representar o Brasil nas Olimpíadas", desabafou Adriana. "Mas trabalhamos muito para provar o contrário." Conseguiram, mesmo tendo percorrido um caminho mais árduo e mais longo em Atlanta antes de chegar ao pódio. Depois de estrear na competição com uma suada vitória sobre as italianas, por 17 a 15, elas sofreram sua única derrota diante da outra dupla de brasileiras e passaram para a repescagem, onde tiveram de disputar um jogo a mais do que suas companheiras. Mas chegaram à final em plena forma. As mulheres brasileiras acabaram compensando o fraco desempenho dos homens nos esportes coletivos. Até a noite de sexta-feira, além do vôlei de praia - em que as duas duplas masculinas ficaram pelo meio do caminho sem deixar saudade -, também no vôlei de quadra e no basquete eram as mulheres que ofereciam as maiores esperanças de colocar o Brasil de novo no pódio. Até no futebol as brasileiras fizeram bonito. Partiram do Brasil sem ser notadas, mas conseguiram nos Estados Unidos a façanha de classificar a seleção para a segunda fase, depois de empatar com as norueguesas, as atuais campeãs mundiais. Na quinta-feira, passaram à semifinal derrotando a Alemanha. Foi uma cena emocionante: enquanto as brasileiras se abraçavam e gritavam de alegria, as alemãs, até então cotadas para a medalha de ouro, deixavam o campo aos prantos. Uma proeza comparável à dos japoneses, que na estréia ganharam dos tetracampeões mundiais. Até chegar a Atlanta o futebol feminino do Brasil estava mais para japonês. Nenhum outro esporte, porém, nos deliciou tanto na semana passada quanto o vôlei de praia. Imagine numa única cerimônia de entrega de medalha ver duas bandeiras brasileiras tremulando ao mesmo tempo.
Aurélio Miguel, nosso maior judoca, chegou à vila olímpica ainda suado no domingo 21. O rosto avermelhado trazia as marcas da refrega do dia no tatame do Georgia World Congress Center. Parecia um pai cansado voltando do trabalho com a sensação de mais um dia cumprido numa longa rotina de vida. Nada de especial naquela figura. A não ser por dois detalhes, um buquê de flores na mão direita e uma medalha olímpica de bronze na esquerda. Os tapinhas de congratulações nas costas produziam apenas um sorriso amarelo no rosto do lutador. Aurélio fugiu logo para o elevador e dali para o pequeno apartamento que divide com sete outros judocas no 4º andar do prédio reservado à delegação brasileira. Os colegas se excitaram com sua chegada. "E aí, Aurélio, chega mais", gritou Edelmar Zanol, o "Branco", que descansava para a luta no dia seguinte. Aurélio vai até o quarto e, da porta mesmo, joga a medalha com força no colo do amigo. "Toma aí, meu irmão. Pra te dar sorte", grita. Nenhum atleta despreza uma medalha desse jeito, a não ser que o significado dela não tenha sido propriamente o de uma vitória. "Sabe o que é sentir a Sharon Stone bem perto do peito e de repente ela não está mais lá?", explicava Aurélio aos amigos. "Bronze foi pouco. Quando você já ouviu uma vez o hino brasileiro ser executado e viu a bandeira brasileira subindo, fica viciado. Quer o ouro sempre." Medalha de ouro em Seul, aos 24 anos, Aurélio foi derrotado rapidamente em Barcelona. Chegou a Atlanta disposto a reviver as glórias da Coréia. Não deu. Ele perdeu uma luta estranha para o polonês Pawel Nastula, campeão europeu e mundial da categoria dos meio-pesados. Aurélio vencia a dezenove segundos do final, mas o polonês, um catimbeiro que caiu três vezes durante a luta fingindo uma contusão e pedindo assistência médica, deu-lhe um contragolpe e inverteu o resultado. Aurélio já havia derrotado Nastula duas vezes e perdido outras tantas em competições passadas. A derrota em Atlanta o tirou da final. Na luta pelo bronze, ele quase nocauteou o holandês Bernardus Sonnemans, um armário de 1,90 metro de altura. "Essa ganhei na raiva", diz Aurélio. Que diferença o bronze, o doce bronze conquistado por Carlos Henrique Serra Azul Guimarães, o único outro judoca brasileiro vitorioso em Atlanta. Aos 23 anos, Henrique disputara alguns poucos torneios internacionais com bons resultados, mas sem que eles puxassem seu nome muito para cima no ranking mundial. Ele pegou uma chave considerada barra-pesada em Atlanta. De cara lhe caiu o francês Larbi Benboudaoud, um dos favoritos ao ouro. Henrique toureou o francês e arrancou uma vitória por koka, a menor pontuação do judô. Depois veio o coreano Lee Sung-Hoon, que já o derrotara na final da Copa da Coréia no ano passado. A luta foi muito amarrada. Henrique sempre no ataque, uma característica sua. Ninguém marcou ponto. Ganhou na decisão unânime dos juízes. A derrota contra o húngaro Jozsef Csak foi cedida duramente. O húngaro conseguiu neutralizar os ataques do brasileiro. Henrique ficou sem ação, foi penalizado por falta de combatividade e perdeu por koka. Na repescagem, bateu o sul-africano Duncan Mackinnon. Despachou facilmente o búlgaro Ivan Netov e chegou à disputa do bronze com o belga Philip Laats. Henrique ganhou por ippon, o equivalente do nocaute no judô, faltando 47 segundos para terminar a luta. Ao contrário de Aurélio, Henrique era emoção pura depois da luta. Atleta do Palmeiras, em São Paulo, chegou a Atlanta depois de derrotar, na seletiva nacional, o próprio treinador, Sérgio Pessoa, que representou o Brasil na categoria dos ligeiros nas Olimpíadas de Seul. "Posso comemorar hoje a medalha que não ganhei em Seul", dizia Pessoa, emocionado, à beira do tatame em Atlanta. Do ginásio mesmo, Henrique ligou para os pais em São Paulo, usando um telefone celular, e se desmanchou em lágrimas. De casamento marcado para o dia 7 de dezembro, Henrique gosta de lembrar que, sem a imposição da mãe, teria largado o judô muito cedo. "Ela me chantageava. Dava presentes quando eu participava de torneios e me deixava de castigo quando faltava aos treinos", lembra ele. O judô foi o último recurso da mãe para tentar controlar Henrique quando ele ainda tinha 5 anos. "Era um rebelde", lembra ele. O judô brasileiro deu em Atlanta seu maior salto coletivo de qualidade. Os judocas brasileiros ganharam duas medalhas de bronze e emplacaram três deles entre os oito melhores do mundo. Em Seul, em 1988, Aurélio Miguel ganhou nosso único ouro olímpico e ninguém mais beliscou nada. Em Barcelona, Rogério Sampaio também ganhou medalha de ouro, mas nenhum outro judoca conseguiu nem ao menos pegar a repescagem. "Já somos reconhecidos como criadores de uma escola nova, muito influenciada pelos japoneses, mas com definitivo tempero brasileiro", diz Geraldo Bernardes, treinador da equipe olímpica brasileira de judô. Os judocas brasileiros lutam, em geral, de pé, são agressivos, estilistas e muito bem preparados fisicamente. "É bonito ver esses brasileiros lutar. Eles são imponentes e detestam o combate no chão", dizia em Atlanta o consagrado campeão olímpico belga Robert Van de Walle, já afastado do esporte, mas que em Seul se tornou o único a lutar em cinco Olimpíadas. Com 2 milhões de praticantes no país e um programa de contínua exposição dos lutadores de alto nível ao ambiente esportivo internacional, o judô brasileiro pode ainda reservar muitas alegrias para o futuro.
Uma Olimpíada só começa para valer quando produz o seu momento ícone, aquele repetido à exaustão em câmara lenta e que acaba gravado na memória de todo mundo. Trata-se de matéria-prima rara - em Barcelona, por exemplo, ela não se produziu - e vale ouro nos documentários da história dos Jogos. Em Atlanta, esse momento surgiu já no quarto dia das Olimpíadas, no imenso e desajeitado ginásio que serve de palco para as competições de ginástica. Na noite da terça-feira passada, a americana Kerri Strug, de 18 anos, aparência de 14, olhar frágil de passarinho doente, voz de desenho animado e tenacidade de gente grande, deu o seu dolorido salto para a fama. Logo ela que era a peça menos nobre da equipe de ginástica dos Estados Unidos, treinada pelo controvertido Bela Karolyi, o romeno que inventou Nadia Comaneci nas Olimpíadas de Montreal em 1976 - e com ela a lenda da ginástica olímpica como fazedora de imponderáveis fadas voadoras. Até sua noite de dor e glória, Kerri vivera ofuscada pelas companheiras olímpicas mais estelares, como Kim Zmeskal, Dominique Moceanu e Shannon Miller, sua parceira de treinos e de quarto. Num tropeçar de tornozelo, Kerri, de apenas 38 quilos e 1,44 metro, entrou para a galeria dos grandes. O seu vôo para a posteridade se deu quando já tinha duas torções de terceiro grau acumuladas no tornozelo esquerdo, produzidas por uma aterrissagem desastrada no primeiro salto. Capengando, procurou com olhar assustado as ordens de seu técnico. O diálogo da ginasta com Karolyi, travado em menos de trinta segundos - intervalo máximo permitido entre os dois saltos regulamentares -, dá a exata dimensão do drama. Como o regulamento também impede que ginastas recorram a um médico nesse intervalo, a decisão de saltar novamente, mesmo arriscando espatifar de vez o tornozelo da atleta, beirou a insanidade. - Não posso sentir minha perna - disse Kerri. O mundo familiarizado com o controle absoluto, quase psicótico, que os técnicos de ginástica exercem sobre suas atletas sabe que o diálogo acima não é uma troca justa de argumentos. É uma ordem. Kerri foi em frente. Lágrimas nos olhos avermelhados, ela disparou rumo ao cavalo para realizar sua dificílima especialidade, um salto em que a aterrissagem é precedida de 1,5 rotação sobre o próprio eixo. Kerri voou, manobrou em pleno ar e caiu como se espera de um salto quase perfeito, com ambos os pés fincados no colchão amortecedor. A perfeição durou frações de segundo. Logo Kerri recolheu o tornozelo num gesto lento, mas inequívoco de dor. Em seguida, desabou lentamente, desmanchando-se no chão com o rosto crispado. Bela Karolyi e a mulher, Martha, correram até ela. Karolyi saiu com seu troféu nos braços. Pai de uma vitória, ele teria sido padrasto de uma tragédia caso a contusão de Kerri fosse mais séria. Mais tarde, confessou que vira o tornozelo de Kerri Strug se torcer no primeiro salto. A platéia, tensa a princípio, desatou em aplausos continuados. A primeira heroína das Olimpíadas de Atlanta tinha-se materializado diante dos olhos dos 32 000 espectadores do Georgia Dome. Fora uma noite estranha para a equipe americana. A estrela da companhia, Dominique Moceanu, embora consistente nos outros exercícios, caíra de traseiro no chão, não uma, mas duas vezes ao saltar o cavalo. Fosse num estádio de futebol, o desastre teria gerado gargalhadas selvagens. "Querem me transformar em heroína, mas me senti obrigada a saltar", explicou Kerri no dia seguinte, o pezinho estropiado envolto numa bota de gelo. "Vi que o ouro estava escorregando de nossas mãos." Por insondáveis truques do destino, somados os pontos, o salto fatídico de Kerri Strug acabou sendo inútil. Quando ela saía carregada no colo do treinador Bela Karolyi, a russa Rozalia Galiyeva recebia uma nota boa, mas nada espetacular, de 9,681 no cavalo. Isso significava que o sacrifício de Kerri Strug e a nota 9,712 que ele rendeu foram desnecessários. Mas isso só se soube mais tarde. Kerri saltou para que sua equipe ganhasse a medalha de ouro. Ganhou. Para a ginástica feminina dos Estados Unidos, foi um título inédito. O ouro da noite de terça-feira destruiu uma hegemonia russa que durava havia dez Olimpíadas. Assim, o patinho feio da equipe americana teve seu dia de primeira-bailarina. Na manhã de quarta-feira, ela já falava com o presidente Bill Clinton pelo telefone. Foi citada como exemplo do espírito arrojado dos americanos, num discurso de campanha do candidato republicano Bob Dole. À tarde soube que seu tornozelo só melhoraria no final dos Jogos - ainda em tempo de talvez poder competir na fase individual por aparelhos. Assim, o destino de Kerri também se torceu para sempre. Com a opinião pública americana tomada de assalto por sua história, a atleta pode ganhar milhões de dólares em publicidade. "De 3 a 5 milhões é uma aposta razoável", diz o americano Nova Lanktree, especialista em marketing de celebridades esportivas. Seria um razoável reforço para o futuro. Estilosa fora da ginástica, ela dirige um BMW, veste-se com apuro, mas nunca cogitou o estrelato. Agora, ela tem a opção dos contratos publicitários ou a vida que planejara antes da noite de terça-feira passada: estudar medicina na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, por cujas cores ela competiria em troca de uma bolsa de estudo. Para Kerri Strug, a fama só veio na segunda Olimpíada de sua carreira. Para a nadadora irlandesa Michelle Smith, uma troncuda ruiva de sardas, a glorificação chegou aos 26 anos, em sua terceira participação olímpica. Michelle dominou completamente as águas de Atlanta, ganhando três medalhas de ouro, nos 400 metros livre, 400 e 200 medley e uma de bronze, nos 200 metros nado borboleta. Foi um salto qualitativo sem precedentes na história olímpica - sua melhor colocação fora um 17º lugar nos Jogos de Barcelona -, igualando, em número de medalhas, os recordes de quatro vitórias individuais numa mesma Olimpíada do americano Mark Spitz, em 1972, e da alemã Kristin Otto, em 1988. Mas, quanto mais avançava com suas braçadas vigorosas, mais marolas provocava. De início, as insinuações de jogo sujo circulavam aos cochichos. No final das competições, as acusações de que seu desempenho fenomenal só poderia ter componentes químicos já corriam a céu aberto entre competidoras e jornalistas. "Nas piscinas fala-se abertamente em doping", confirmou Janet Evans, a grande diva da natação americana, dona de quatro recordes mundiais e olímpicos, que se despediu sem vitórias em Atlanta. Além dos pálidos resultados em Olimpíadas anteriores, as marcas de Michelle Smith, até seis meses atrás, eram pífias. O que se busca entender agora é como foi possível a uma nadadora melhorar, em apenas quinze meses, dezoito segundos de sua própria marca nos 400 metros. Para muitos especialistas, essa equação não se fecha sem um catalisador químico. A própria atleta foi brutalmente confrontada com essa supeita nas inúmeras entrevistas que concedeu no complexo aquático Georgia Tech. "Para cada nadador americano testado uma vez, eu fui testada cinco", respondeu. "Janet Evans nadou os 400 metros em 1988 em apenas 4m03s. Oito anos mais tarde eu nado a mesma distância em 4m07s. Não há nada de extraordinário nisso." Casada com um arremessador de pesos holandês, Erik de Bruin, suspenso por uso de doping, Michelle retorna à Irlanda como a heroína que, individualmente, ganhou o maior número de medalhas de ouro da História do país. Mas não conseguiu afastar as suspeitas que, uma vez coladas aos ombros de um atleta, dificilmente conseguem ser lavadas. Desde o choque mundial provocado pelo anúncio de doping do velocista canadense Ben Johnson, nas Olimpíadas de Seul, mesmo feitos genuínos acabam passando pelo crivo dos desempenhos suspeitos. Assim, imprensa e público trataram de fazer um julgamento próprio da irlandesa, bem mais simplificado do que o dos testes de laboratório que a inocentaram: salto meteórico de desempenho + idade avançada + feito individual, nenhuma tradição do país no esporte = vitórias sob suspeita. Sozinha, a irlandesa atraiu para si as suspeitas que, até a abertura dos Jogos, recaíam, em bloco, sobre a natação feminina da China. Ao que parece, a China decidiu trocar o ouro por um maior respeito na comunidade olímpica: em nenhuma de suas nadadoras foram acusadas substâncias proibidas, mas também apenas uma ganhou medalha de ouro. Essas foram questões menores no reinado de outro cinematográfico fenômeno olímpico, o turco Naim Suleymanoglu, chamado de "Hércules de bolso". Imperador de um esporte bizarro mas extremamente popular em seu país, Suleymanoglu conquistou em Atlanta sua terceira medalha de ouro consecutiva no levantamento de peso, um feito inédito. Foi saudado pelos especialistas nesse esporte como o halterofilista do século. No dia em que ganhou a medalha, o turco levantou um total de 335 quilos, um recorde mundial. Na platéia, o catalão Juan Antonio Samaranch, presidente do Comitê Olímpico Internacional, viu a lenda se materializar diante de seus olhos.
Paula é da raça das heroínas invisíveis. Uma das melhores jogadoras de basquete de todos os tempos, viu a carreira esportiva passar servindo com seu rigor e constância ao brilho de Hortência, a indiscutível e explosiva número 1 das quadras. Em Atlanta, aos 34 anos, em sua segunda Olimpíada, Maria Paula Gonçalves Silva está vencendo a vocação do anonimato e firmando-se como a mais poderosa jogadora de basquete da seleção brasileira. São poucas as mulheres no mundo capazes de fazer o que ela faz com uma bola de basquete e uma cesta. Paula sabe driblar, fintar, arremessar, passar, armar e marcar as adversárias. Por isso mesmo, quando falam de basquete feminino, as melhores publicações esportivas do mundo se referem com admiração a Paula Silva. Dois anos atrás ela comandou o Brasil na conquista de um inédito campeonato mundial e despediu-se formalmente da seleção. Não resistiu. Está de volta à camiseta amarela número 8. Em Atlanta, Paula disputa o ouro olímpico, o único título que falta em sua coleção de vitórias. Dona de uma beleza brasileira plácida, quase comum, Paula é a encarnação da lenda olímpica de que não existem pessoas extraordinárias. Existem pessoas comuns que, algumas vezes, fazem coisas extraordinárias. Ela as faz quase sempre. "Dei minha vida ao basquete e não me arrependo. Em troca ganhei tudo o que tenho", diz. Ela juntou um patrimônio razoável. Poderia parar de jogar basquete quando quisesse. Viaja todos os anos para a Europa. Leva o pai e a mãe, às vezes a irmã. No Brasil vive aquele dilema típico de quem cultua a privacidade mas adora a fama. Na Europa pode extravasar. Paula já teve um namorado firme no passado, mas não tão firme a ponto de marcar uma cesta no coração dela ou na lembrança da torcida. Essa é sua sina. As coisas públicas de Paula são feitas de maneira tão contida que depois de anos e anos de exposição como ídolo esportivo ela não tem uma cara muito nítida projetada no imaginário brasileiro. Ninguém sabe o que ela pensa, quais são suas paixões e medos. Como será a vida de Paula depois do basquete? Em Atlanta, ainda confusa com a contusão grave de Hortência no jogo contra o Japão, quinta-feira passada, Paula considerava a chegada do dia em que ela própria abandonará o esporte. Eis aqui um raro susto da moça sem surpresas. Quer ser política. A meta é ser prefeita de Piracicaba. Ou de Campinas. Ou então deputada. A política está definitivamente em seus planos. Antes de viajar para os Estados Unidos ela recebeu convite para ser candidata nas eleições municipais de outubro pelo Partido Popular Socialista, o PPS, antigo Partido Comunista Brasileiro. "O duro na política é conviver com os políticos", diz ela. "Mas não podemos ficar de fora, reclamando. Se queremos mudar este país, temos de entrar na política e tomar o lugar dessa gente." Paula só começou a ganhar bom dinheiro com basquete nos últimos cinco anos, depois que aceitou jogar uma temporada na Espanha. Seu patrimônio inclui um apartamento e uma casa em Campinas, um sítio em Piracicaba, onde moram seus pais e onde passa os momentos de folga. Os negócios se expandiram para uma distribuidora de balas e uma griffe de roupas esportivas. Tudo o que o basquete brasileiro ganhou nos últimos dez anos se deve em grande parte a Paula. Exige muita coragem arriscar um patrimônio desse tamanho na transição da cesta para as urnas.
Com 5 anos de idade ele já se equilibrava numa sela sobre o lombo de um cavalo de raça. Aos 12, participava de concursos hípicos montando pôneis. Aos 17, era profissional. Aos 23, leva a Atlanta a maior esperança do hipismo brasileiro. A sina de conviver com cavalos e viver deles lhe veio registrada no nome. Rodrigo Pessoa é filho de Nelson Pessoa Filho, o maior ginete da história do hipismo brasileiro e um dos melhores do mundo. Nelson, considerado o melhor de sua época, esteve em cinco Olimpíadas, mas nunca venceu em nenhuma. "Quero ganhar uma medalha para ele", diz Rodrigo, em um português sem sotaque, apesar de ter nascido em Paris, viver em Bruxelas e só visitar o Brasil duas vezes por ano. Décimo primeiro colocado no ranking da Federação Internacional de Hipismo, Rodrigo venceu em 1994 o Grand Prix de Aachen, na Alemanha, o mais badalado concurso hípico do mundo. Foi o quarto colocado na última Copa do Mundo, disputada no início deste ano. Desde os 17 anos, quando assinou seu primeiro contrato profissional, negócios e esporte se fundiram em um projeto único na vida de Rodrigo. Do pai, ganhou uma sociedade na Escuderia Pessoa, com sede em Bruxelas, uma empresa especializada em administrar a carreira de cavalos de gente rica na Europa. Os patrocinadores entregam seus cavalos para os Pessoa cuidarem e montarem. Cada vez que um cavalo vence uma prova seu preço sobe no mercado. Essa possibilidade aumenta quando o cavaleiro que o monta leva o sobrenome Pessoa. "Tom Boy", o animal irlandês que Rodrigo vai pilotar em Atlanta, é um exemplo. Propriedade da suíça Heidi Hauri, está avaliado em 500 000 dólares. Os Pessoa vivem num relativo conforto financeiro. A Escuderia Pessoa tem quinze cavalos sob sua guarda. A AMG, revendedora de carros da Alemanha, entrega um Mercedes-Benz novinho todo ano à família como patrocínio. Os Pessoa ganham comissão nos prêmios conquistados e têm participação nos negócios de compra e venda dos cavalos de seus clientes. Uma fábrica de selas que produz 5 000 unidades por ano, vendidas na Europa e nos Estados Unidos a 1 500 dólares cada uma, completa os ganhos da empresa familiar. Por dedicação aos cavalos, Rodrigo abandonou os estudos ainda no 1º grau. Lamenta que tenha sido obrigado a optar, mas os resultados o convenceram de que fez a coisa certa. É um obcecado. Disputa aproximadamente quarenta provas por ano e passa quase todos os fins de semana fora de casa. Já competiu em Roma e em Frankfurt no mesmo dia. Não sobra tempo nem para namorar. Leituras, só da Bíblia. Todo esse preparo será usado em Atlanta para conquistar as glórias olímpicas que o destino negou ao pai.
Para Vanderlei Cordeiro de Lima, estar nas Olimpíadas de Atlanta já é um assombro. Filho de uma família de bóias-frias, ele nasceu e cresceu no meio das plantações de café e soja do oeste paranaense. Cedo, o caçula de oito irmãos constatou que sua vida transcorreria como a do pai, preso a um cabo de enxada numa lavoura alheia. "Passamos fome", diz apenas, resumindo como era viver antes de vestir sapatilha. Foi tentar o esporte como escada social, e, seguindo o figurino dos deserdados sociais, começou como ponta-direita do time de Itapira. "Ainda bem que percebi logo que, no futebol como na lavoura, a oferta de mão-de-obra acabava reduzindo minhas oportunidades." Por sorte, além de driblar e chutar, ele era bom também de correr. Resolveu então ser um atleta de corridas. "Quando comecei a correr, realmente só pensava em uma coisa: quero ser alguém na vida", relembra. Hoje, nove anos depois de se ter inscrito no time de corredores da prefeitura de Itapira, onde também exercia o ofício de zelador do estádio, Vanderlei pode considerar-se alguém na vida. Integra a seleção brasileira, recebe convites de todas as partes do mundo para participar de corridas, tem seu nome no livro de recordes do atletismo com a melhor marca sul-americana da maratona. As corridas lhe deram ainda o sustento próprio e da família. O patrimônio de Vanderlei, hoje atleta da Funilense de Campinas, inclui a casa em que mora na cidade e um sítio no Paraná, como ambicionava nos tempos de bóia-fria. Ali, circula numa caminhonete de cabine dupla, como convém a um fazendeiro. Na semana passada, Vanderlei Cordeiro de Lima chegou à vila olímpica de Atlanta, dosando a impaciência de correr logo a prova que encerrará os Jogos. Não veio antes, nem participou da festa de abertura, para prolongar ao máximo o tempo de treinamento em altitude, em Campos do Jordão, a quase 2 000 metros do nível do mar, como fazem os corredores-gazela do Quênia. Se os 100 metros rasos são a prova mais nobre das Olimpíadas, a maratona é a mais heróica. A corrida de 42 195 metros, que começa e termina no estádio olímpico mas se desenvolve pelas ruas da cidade, é um teste e tanto de resistência física e mental. O esforço contínuo do corredor dura mais de duas horas, consumindo as últimas migalhas de energia de seu corpo. É uma prova tão dura e tão longa que pouco se aposta em favoritos, ainda menos em vencedores. Em 23 maratonas olímpicas, apenas dois atletas conseguiram vencer por duas vezes: o etíope Abebe Bikila, em 1960 e 1964, e o alemão Waldemar Cierpinski, em 1976 e 1980. O Brasil, que ganhou mais medalhas em atletismo do que em qualquer outra modalidade, chega com gana para competir na maratona. Dos 41 brasileiros que integram a equipe de atletismo, a maior já enviada pelo país a Olimpíadas, seis são maratonistas, e nela se inclui o fluminense Luis Antônio dos Santos, medalha de bronze no Mundial de Atletismo do ano passado. Vanderlei, de 26 anos, venceu a Maratona de Tóquio deste ano com o quarto melhor tempo do mundo - 2h8min38s. Ele se programou para correr apenas duas maratonas em 1996. A primeira, em Tóquio, ele venceu. A segunda é a do próximo domingo, em Atlanta. |
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