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31 de março de 1976
Um esforço de guerra

Ao derrubarem o peronismo e assumirem o poder na Argentina, os militares têm pela frente a maior de suas operações

Pela segunda vez em sua história, a Casa Rosada deixou de ser, na semana passada, a sede do poder na Argentina. Pela segunda vez, igualmente, um governo peronista estava sendo deposto pelas Forças Armadas - e como na primeira, o palácio se transformou num mero edifício público à espera de que um general viesse assumir a presidência da República. Vinte e um anos atrás, o caudilho Juan Domingo Perón abandonava a Casa Rosada, enquanto perfazia, de 16 a 22 de setembro de 1955, o lento percurso entre a resistência inútil no Ministério da Guerra e a fuga para o Paraguai. Na madrugada da última quarta-feira, os tanques estavam de volta - agora, para afastar sua viúva, María Estela Martínez de Perón, de 45 anos, e devolver à sepultura o peronismo ressuscitado 34 meses antes.

Isabelita caiu com tumulto consideravelmente pior. Em 1955, o severo edifício de estilo colonial teve de aguardar vazio a chegada do general Eduardo Lonardi, que estava a 900 quilômetros de distância - em Córdoba, declarada por ele capital do país no momento do golpe. Em Buenos Aires houve tiros e mortes, e os peronistas não se entregaram ao primeiro ataque. Desta vez, a presidente foi simplesmente detida pelas Forças Armadas e despachada num helicóptero para as montanhas do sul do país. E, embora a Casa Rosada permanecesse desocupada até o final da semana, a chegada de seu novo ocupante oficial, o general Jorge Rafel Videla - 50 anos, comandante geral do Exército e agora 38º presidente da República Argentina - não estava sendo bloqueada por nenhuma dificuldade especial.

Videla esperava, apenas, o momento estrategicamente correto para atravessar os 200 metros que separam a Casa Rosada do seu QG - o edifício claro de dezesseis andares com teto de ardósia, na Calle Azopardo, que abriga o Ministério do Exército e o recém-formado Comando Operacional.

Enquanto a Junta Militar - composta, além de Videla, pelo Almirante Emílio Massera e pelo brigadeiro Orlando Agosti - prestava juramento em Buenos Aires na manhã da quarta-feira, Isabelita juntava-se a Perón no passado político do país. E nas quedas de um e de outro pareciam sintetizados os momentos cruciais da História da Argentina ao longo das últimas três décadas - que, em última análise, poderia ser resumida a uma luta pelo poder entre peronismo e Forças Armadas. Vencedores fáceis e inevitáveis da batalha encerrada na semana passada, os militares, porém, assumem o comando da nação com a certeza de que não têm outra alternativa senão acertar.

TEMPO DE GUERRA - Desde os primeiros momentos, os militares argentinos revelaram em suas mínimas decisões uma evidente consciência de que, desta vez, não tomaram apenas o poder político nem simplesmente substituíram um governo. Como se insinua o próprio título que se deu a Junta Militar, as Forças Armadas se consideram "em operações", como um conjunto armado que enfrenta provavelmente o maior desafio da história recente da Argentina. Sem dúvida, para solucionar os problemas acumulados desse país à deriva, imerso num aluvião de violência que fez 1.400 mortos nos últimos três anos, desordem social, desagregação política e angústia generalizada de seus quase 25 milhões de habitantes, as Forças Armadas necessitarão impor a si mesmas e aos demais argentinos uma verdadeira disciplina de tempo de guerra.

Até o final da semana, a ciclópica tarefa de "reorganizar o país" ainda permanecia confinada às medidas clássicas de ocupação do terreno. De qualquer forma, não se estava perdendo tempo. Logo no primeiro dia do golpe, a Junta Militar disparou 29 comunicados oficiais, transmitidos em cadeia nacional. E os argentinos souberam, assim, que estavam dissolvidos o Congresso e as câmaras provinciais, demitidos todos os magistrados, destituídos os governadores das 22 províncias, Terra do Fogo, Antártida e ilhas do Atlântico sul.

Obviamente, foi ocupada a sede da Confederação Geral do Trabalho, com 6 milhões de membros e núcleo do esfacelado poder peronista. Suas atividades, bem como as dos sindicatos, foram suspensas. Os partidos políticos entraram em recesso. As universidades tiveram as suas portas cerradas e os principais líderes peronistas começaram a encher os cárceres - que, no final da semana, já tinham recebido entre 600 e 1.800 presos políticos. Na tarde da mesma quarta-feira, por outro lado, estava empossado o novo Ministério, constituído exclusivamente de militares da ativa. E, ao se encerrar o dia, os militares podiam se cumprimentar por terem executado toda a operação sem se envolver num único choque armado - a "guerra civil" prevista para o caso de golpe, nas fantasias do peronismo, simplesmente não ocorreu.

ETAPA DECISIVA - A ocupação completou-se na quinta-feira com a suspensão do direito de greve, a proscrição de cinco partidos políticos "de inspiração marxista" e uma ofensiva contra um óbvio fator de agitação: os serviços particulares de guarda-costas, cujo registro junto às Forças Armadas foi tornado obrigatório. Se for obedecida, a medida significará a identificação de aproximadamente 20.000 pessoas dedicadas a esse tipo de atividade na Argentina. Por fim, ante a convincente tranqüilidade observada na superfície do país, os militares puderam até mesmo relaxar algumas das medidas já então supérfluas.

A rígida censura à imprensa, por exemplo, em vigor no primeiro dia, foi substituída por um código de "princípios e procedimentos" enviado a todos os jornais argentinos. Segundo esse manual, a imprensa deve, entre outras coisas, "abster-se de incursionar em terrenos que não sejam de debate público, eliminar vocabulário ou imagens obscenas, eróticas ou de duplo sentido, usar corretamente o idioma nacional e evitar a propagação maciça da opinião direta de pessoas não qualificadas para opinar sobre questões de interesse público". Para desestimular os recalcitrantes, foram estabelecidas penas de até dez anos de prisão.

Também desapareceram das ruas os veículos militares que haviam ocupado literalmente todos os pontos estratégicos do país. Mais ainda, ao anunciar no final de semana que o general Jorge Videla tomaria posse como presidente da República nesta segunda-feira, a junta argentina queimava uma etapa decisiva: não mais se aguardaria o transcurso de dez dias, anteriormente considerados necessários no plano de operações, até que fosse completada primeira fase do processo. Antes que a semana se encerrasse, em suma, as Forças Armadas estavam solidamente entrincheiradas no poder - e por um período mínimo de 3 anos, segundo decreto-lei baixado nas últimas horas de sexta-feira.

UM INSULTO - Era um desfecho previsto, e tido como inevitável, para a delirante turbulência que imperava até então no país. Não apenas a violência política havia chegado a seu apogeu mais selvagem - duas mortes por dia ao longo 21 meses de reinado de Isabelita. O próprio peronismo, na prática, sobrevivia apenas como um sistema institucionalizado de corrupção, há muito desquitado da doutrina original ou da própria ideologia confusa, pregada por Perón - e que se resumia a vagas menções sobre "uma terceira posição entre o socialismo e o capitalismo".

Entre outros reveses, a irritação das bases peronistas com o aniquilamento dos salários ante a meteórica elevação do custo de vida (prevista para mais de 800% até o final deste ano) tornara-se incontrolável. Para elas, o "Plano de Emergência" elaborado pelo ministro da Economia, Emilio Mondelli, há quase um mês, estipulando a desvalorização do peso em 100% contra reajustes salariais de no máximo 20% soava como um insulto. E, na área política, o Partido Justicialista, dilacerado por brigas internas de senadores e deputados, já não mais reinava absoluto no Congresso e passara, nos derradeiros dias de Isabelita, a rebelar-se francamente contra o governo.

O atestado de óbito, em realidade, contaminara outros órgãos do já paralisado corpo peronista. A outrora soberana, imponente CGT, por exemplo, atingiu a morte clínica antes mesmo da deposição de Isabelita. No sábado anterior ao golpe, após uma reunião em que teria circulado uma lista de prováveis dirigentes sindicalistas a serem detidos quando os militares se levantassem, Casildo Herreras, o líder de seu braço político - as 62 Organizações Peronistas, suspensas na semana passada -, tratou de salvar a própria pele. E, cautelosamente, rumou para o Uruguai à frente de cinco outros líderes trabalhistas.

ÀS MARGENS DO RIO - Na véspera do golpe, é verdade, a CGT ainda tentou demonstrar alguma reação na eventualidade de cair o governo - e ameaçou uma greve geral com ocupação das fábricas. Mas não houve, sequer, a tentativa de dar uma aparência de realidade à decisão. A ordem de greve não chegou nem mesmo a ser transmitida para os escalões imediatamente inferiores ao plantel dos caciques. E, além disso, apenas uma minoria de dirigentes participou da deliberação – a essa altura um número incerto mas supostamente significativo de líderes já tinha embarcado para o Uruguai em lanchas particulares, abandonado seus automóveis às margens do rio da Prata.

No final da semana passada, em meio a rumores de que o secretário geral da CGT, Lorenzo Miguel, estaria detido, crescia a impressão de que também ele imitara seus companheiros logo após o golpe. De qualquer forma, o teatro do absurdo portenho manteve a cena aberta até o momento em que os militares decidiram evacuar a platéia e atores. Doze horas antes do golpe, por exemplo, representantes do peronismo e de cinco partidos da oposição reuniram-se em assembléia multipartidária" - para discutir as eleições previstas para dezembro. "Em dois anos é possível colocar o país de pé", prometia por sua vez o senador Oscar Allende, em discurso transmitido pelo rádio e televisão.

LINHAS CORTADAS - Nem todos os civis, contudo, perderam o escasso tempo que lhes restava fazendo esse tipo de divagações para auditórios inexistentes. Não faltaram senadores e deputados engrossando a fila em frente ao caixa do Congresso, para salvar o que ainda era possível: o pagamento adiantado dos subsídios referentes ao mês de março. Um dos mais atribulados era Ítalo Luder, presidente do Senado e ex-presidente interino da República, durante uma das ausências de Isabelita para tratamento de saúde, no ano passado. Dele, tudo que se sabe é que foi visto saindo em disparada do edifício do Senado, com pacotes na mão, ao final da tarde de terça-feira. Segundo o deputado José Zamanillo, Luder já havia entrado em "estado de plena catalepsia".

Coube ao ministro Mondelli, entretanto, a maior dose de alheamento. Ao comparecer ao Senado na terça-feira para expor seu desastroso plano econômico, foi cercado por jornalistas que lhe perguntaram sobre os rumores do golpe. "Y yo qué sé?", perguntou ele de volta. "Yo no soy militar, yo soy um civil. Preguntem eso a los militares." Quatro horas mais tarde, Mondelli continuava, implacável, informando a uns raros senadores situacionistas seu plano. No limite da paciência, porém, o parlamentar Oraldo Norvel Britos interrompeu-o: "Por que não faz uma coisa? Chame o governo para ver se é verdade que as tropas estão na rua. Digo isso para ganhar tempo e economizar palavras". Mondelli ainda tentou telefonar, e viveu talvez seu último fracasso - a essa altura, as linhas diretas com a Casa Rosada já haviam sido cortadas.

INDIFERENÇA - A rigor, já não havia então qualquer vínculo real entre a Casa Rosada e o resto do país - subtraído inteiramente ao poder de Isabelita. No interior do palácio presidencial, como de praxe em tais ocasiões, concentrava-se na noite de terça-feira apenas um reduzido núcleo de ministros peronistas, constrangidos a fazer companhia a Isabelita nas suas impossíveis fantasiosas negociações com os militares. Presentes a esta derradeira reunião de gabinete estavam também o dirigente sindical Lorenzo Miguel, o vice-presidente do Movimento Justicialista, Deolindo Felipe Bittel, e o infeliz Mondelli. Não havia nada mais que pudessem decidir. E o país parecia largamente alheio a sua sorte.

De fato, num deslocamento veloz e silencioso, soldados a pé ou montados em tanques convergiam sobre Buenos Aires e, como se estivessem num mero exercício de rotina, ocupavam sem resistência posições estratégicas nas demais cidades do país. Sua movimentação não atraiu nem mesmo muitos olhares. Um terceiro grupo de argentinos, seguramente o mais numeroso e não menos apaixonado, atropelava-se diante dos milhares de aparelhos de televisão para acompanhar as proezas esportivas dos 22 jogadores do River Plate, campeão da Primeira Divisão nacional, que, naquela noite, enfrentava a Portuguesa da Venezuela, pela Taça Libertadores da América.

Terminado o jogo, os exultantes torcedores portenhos que saíram às ruas de madrugada, para comemorar a vitória de sua equipe, cruzavam casualmente com os batalhões de soldados em uniforme de campanha e metralhadora, que controlavam o trânsito da capital e impediam o acesso à Plaza de Mayo. Na verdade, o golpe militar já estava em plena marcha mas não chegava a emocionar Buenos Aires. "O fato de a maior parte das pessoas parecerem mais interessadas na transmissão de uma partida de futebol pela televisão do que na deposição da presidente María Estela Martínez de Perón", escreveu no dia seguinte em editorial o The New York Times, "é típico da indiferença com que muitos argentinos vêem a política do país.

"OPERAÇÃO BOLSA" - Com a progressiva ocupação, sem percalços, de todos os seus objetivos em território argentino, o único episódio eventualmente mais desagradável da operação seria o afastamento físico da presidente. Para os planejadores mais meticulosos, não se poderia excluir a possibilidade de surgirem problemas. Há muito se sabia, por exemplo, que Isabelita andava armada - sempre levava em sua bolsa um revólver Smith & Wesson calibre 38, com cinco balas. Uma guarda pretoriana a rodeava em permanência. E seu guarda-costas particular "Luigi", escolhido pessoalmente pelo tenebroso José López Rega, ex-mentor da presidente, era conhecido não apenas por seus fartos bigodes mas sobretudo por sua excelente pontaria.

Além de "Luigi" e seus guardas, Isabelita também se fazia acompanhar, permanentemente , de um ajudante munido de um radiotransmissor para comunicações eventuais com sua residência de Olivos ou o gabinete de trabalho na Casa Rosada. Enfim, ao elaborarem o plano de destituição da presidente, os militares levaram igualmente em conta que, quando Isabelita se deslocava em automóvel, seu serviço de segurança incluía não menos de uma dezena de carros da polícia, precedidos e seguidos de oito batedores em motocicletas - o que formava algum poder de fogo, tudo somado. Nada mais natural, assim, que o plano "Operação Bolsa", para capturar Isabelita, se desdobrasse em várias alternativas, longamente debatidas pelos militares nos dias que antecederam o golpe.

Originalmente, os estados-maiores se fixaram em três possibilidades: 1) captura da presidente na Casa Rosada; 2) captura durante o trajeto rodoviário entre a Casa Rosada e o subúrbio de Olivos; 3) captura na própria residência de Olivos. Além disso, estavam previstas várias subalternativas - detenção durante um despacho presidencial com os militares; no momento de entrar na limusine; durante um eventual translado em helicóptero. Por fim, a "Operação Bolsa" acabou se cristalizando na "subalternativa do helicóptero", uma vez que Isabelita passara a utilizar um modelo Sikorsky da Força Aérea nos dias anteriores, temendo um atentado terrestre por parte dos Motoneros.

ÚLTIMA VIAGEM - No "Dia D", os três chefes militares encarregados de sua detenção - general José Rogelio Vilareal, contra-almirante Pedro Santamaría e o brigadeiro Basilio Arturo Lami Dozo - aguardavam desde as 15h30, no edifício do Estado-Maior conjunto, no n.º 280 do Paseo Colón, a comunicação do lugar onde se procederia a captura.

Sua missão efetiva começaria na madrugada de quarta-feira - Isabelita deveria ser presa na Base aérea Jorge Newberry, em Buenos Aires, após deixar a Casa Rosada de helicóptero. Tudo acabaria correndo, praticamente, como previsto.

Logo após o término de sua reunião de gabinete, meia-noite passada, a presidente ainda desceu a esplanada para cumprimentar algumas mulheres que se encontravam junto à porta por onde ela costumava sair. Depois de beijá-las, Isabelita voltou a subir pelo elevador presidencial até o terraço onde aguardava o helicóptero.

Ao embarcar rumo a Olivos no Sikorsky branco e laranja, acompanhada de seu secretário particular, Julio González, do guarda costas "Luigi" e do radioperador, Isabelita iniciava sua última viagem como presidente. Pouco antes, os três oficiais superiores de prontidão no Estado-Maior deixavam o Paseo Colón rumo ao aeroparque Jorge Newberry. E o piloto do helicóptero presidencial, logo depois da decolagem, punha em execução a parte que lhe estava reservada no plano. Sem se perturbar, simulou a ocorrência de diversas falhas técnicas no helicóptero, em pleno vôo, e nenhum de seus atentos passageiros achou suspeita a sugestão de pousar rapidamente na zona militar do aeroparque, antes de seguir para Olivos.

Com todas as providências tomadas, Isabelita, a princípio, não notou que os garçons a seu serviço na sala de espera VIP da base aérea eram oficiais da Força Aérea disfarçados. Apenas quando quis prosseguir a viagem até Olivos de automóvel, a encenação teve de ser bruscamente interrompida. Sem esperar a chegada ao aeroparque dos três altos oficiais das Forças Armadas, que por alguma razão se atrasaram no caminho, um tenente de plantão decidiu entrar em ação: "Senhora, tenho ordens de informá-la que a senhora se encontra a partir deste momento sob custódia das Forças Armadas, que assumem a responsabilidade por sua integridade física. Uma Junta Militar assumiu o governo".

DUAS MALAS - Isabelita, com sua palidez aumentada pela camisa de gola olímpica branca, indagou apenas: "Serei fuzilada?" "Senhora", respondeu o tenente, antes de retirar a pistola da bolsa da já ex-presidente, "ninguém será fuzilado sem julgamento prévio." Segundo depoimento prestado a VEJA por uma das testemunhas, Isabelita, apesar de aterrorizada, fez o possível para se controlar na presença dos oficiais. Pediu uma xícara de chá e recebeu sem comentários a notícia de que seria transladada para a esplêndida residência oficial El Messidor, pertencente ao governo da província Neuquén e situada nos confins andinos do sul, a poucos quilômetros da fronteira com o Chile.

Com seu destino geográfico estabelecido, Isabelita solicitou apenas que lhe fossem trazidos alguns objetos de uso pessoal. Meia hora depois da tardia chegada dos oficiais superiores, desembarcava no aeroparque, trazendo duas grandes malas para a patroa, a assustada Rosario, acompanhante e criada de Isabelita desde os tempos de seu exílio em Madrid junto a Juan Domingo Perón. Pouco depois, um avião Fokker T-02 da Força Aérea levantava vôo para Neuquén - ironicamente, tratava-se do mesmo aparelho que em julho do ano passado trouxe José López Rega ao Brasil, na primeira escala de sua viagem de exílio à Espanha. A "Operação Bolsa" estava encerrada.

LISTAS PREPARADAS - Começava, então, o regime militar e se encerrava a segunda aventura peronista - iniciada com a subida de Héctor Cámpora à presidência, em maio de 1973, prosseguida com sua renúncia e ascensão de Perón, e liquidada com Isabelita. Às 3 e meia da madrugada límpida da quarta-feira, as emissoras de rádio argentinas entraram em cadeia e iniciaram a transmissão de marchas militares, rapidamente interrompidas para a emissão do lacônico comunicado número 1, assinado por Videla, Massera e Agosti: "Comunica-se à população que a partir desta data o país se encontra sob controle operacional da Junta de Comandantes-Generais das Forças Armadas".

Minutos depois, uma coluna de tanques e caminhões militares, todos com um adesivo branco em forma de triângulo, irromperam velozmente na Plaza de Mayo, enquanto um fuzileiro naval ingressava na Casa Rosada sem encontrar a menor resistência. Quase ao mesmo tempo, agentes das três Armas desencadearam as primeiras prisões de funcionários governamentais e dirigentes sindicais e políticos, segundo listas previamente preparadas. Não houve, certamente, prisões indiscriminadas. Mas uma vasta operação de buscas, empreendida em todo o território argentino, não parecia ter se esgotado até o final da semana.

Somente na capital, centenas de pessoas estariam recolhidas aos navios "Bahia Aguirre" e "Buenos Aires", ancorados na base naval. Entre elas, o ex-presidente da Câmara e ex-presidente provisório, Raúl Lastiri, 60 anos, e sua mulher Norma, filha de José López Rega, detidos no apartamento do cabeleireiro de Isabelita. Também foram presos, além de um número incerto de ex-governadores de províncias e intendentes municipais, o ministro do Trabalho e o governador da província de Buenos Aires, Victorio Calabró - este confinado a prisão domiciliar.

DUAS INTENDÊNCIAS - Horas após o anúncio do golpe, o novo governo parecia ter dado pelo menos os passos iniciais para conseguir um de seus principais objetivos - estabelecer a ordem no país. Simultaneamente, circulavam já as primeiras teorias sobre a existência de duas tendências preponderantes dentro do Exército argentino. Basicamente, de um lado, se situariam os generais Videla e Roberto Viola, chefe do Estado-Maior do Exército, partidários da reordenação do país e do saneamento de suas instituições, para o posterior encaminhamento rumo às eleições. De outro, estariam os generais Luciano Benjamim Menéndez, comandante do III Exército, com sede em Córdoba, e Ramón Díaz Bessone, comandante do segundo Corpo, em Rosario, que preconizam uma linha bem mais dura.

Seja como for, dificilmente se encontrará, nos anais do golpismo latino-americano, demonstração de tão longo período de paciência por parte dos militares, ante um governo cuja atuação, em última análise, abria as portas para a intervenção das Forças Armadas. Essa relutância em tomar a decisão do assalto final ao poder , na verdade, não deve ser atribuída apenas a um recato inusitado no continente. Afinal, havia a experiência do malogro recente, selada com humilhante devolução do poder ao peronismo. Por outro lado, diante da posição atual do país, é difícil imaginar que os argentinos se interessem brevemente por novos governos civis.

Para começar, parece ter desaparecido do horizonte próximo qualquer corrente política significativa. Resta, portanto, na hipótese de um malogro do novo governo, um único caminho aparente para os insatisfeitos - aderir ao terrorismo. A guerrilha, afinal, parece ter jogado exatamente com a esperança de atrair os insatisfeitos. Mas é este fator - talvez o de maior peso - que deve ter entrado nas considerações dos estrategistas das Forças Armadas ao assumirem o poder na semana passada.

 

Jorge Videla, "El Flaco", um profissional

Certa vez, em março de 1942, apenas poucos dias depois de ter ingressado no Colégio Militar da Argentina, o cadete Jorge Rafael Videla, um jovem introspectivo e sisudo, ouviu de um colega: "Che, que é isso? Para ser militar não é preciso passar o dia todo tão sério". Já naquela época, o futuro presidente da Argentina tinha o apelido de El Flaco, "O Magro". Mais tarde, na vida, ganharia outros, como "Pantera Cor-de-Rosa", calcado na suposta semelhança física com a famosa personagem de desenho animado. Ao longo de todos esses anos, no entanto, Videla não perderia aquela qualidade básica de ser "sério", um homem de poucas palavras, menos risos e nenhuma brincadeira - quase exclusivamente voltado para a profissão e o sentido militar do dever.

"Videla não é um homem brilhante, e tampouco teria de sê-lo", dizia na semana passada a Antonio Rodríguez Vilar, correspondente da VEJA em Buenos Aires, um antigo companheiro de armas, colega já desde os tempos de estudos militares do atual chefe da Junta argentina. "Ele se formou em quarto lugar em nossa turma, não por seu brilhantismo, mas por seu vigor, vontade e capacidade de análise. Se eu tivesse de definir quais os aspectos predominantes em Jorge, eu diria que são a honradez, a modéstia, a equanimidade, a paciência e, sobretudo, o profissionalismo.

GUITARRA - Nascido a 2 de agosto de 1925, em Mercedes - uma comunidade de 20.000 pessoas, na província de Buenos Aires -, Jorge Rafael Videla é, visceralmente, um militar. Seu pai já era um homem da carreira - o coronel Rafael Videla, que chegou a chefe do VI Regimento de Infantaria, sediado em Mercedes. E, dos seis filhos do atual comandante, os varões também vão se inclinando, um a um, para a profissão de militar: um deles é tenente-médico, outro é cadete do Colégio Militar e um terceiro cursa o Liceo Militar, equivalente ao curso secundário. Ficam de fora, apenas, as duas mulheres da família e, por enquanto, o caçula do novo homem forte da Argentina - Pedro Ignacio, de 10 anos.

Casado com Alici Raquel Hartudge, Videla mora num apartamento como milhares de outros em Buenos Aires - três quartos e um living-sala de jantar, no bairro de Belgrano. Todos os amigos o descrevem como "um homem profundamente religioso", um católico não apenas de ir à missa, todos os domingos, como de participar intensamente das atividades de sua paróquia, e de manter longas conversações com o capelão do Exército, monsenhor Adolfo Tortolo. Quanto aos livros, Videla prefere os de história, particularmente os referentes à antigüidade grega e romana. E também se orgulha de possuir uma boa discoteca (na juventude, chegou a tocar razoavelmente guitarra), onde se destacam os clássicos - Bach, principalmente - e a música folclórica argentina.

DISCURSO ESQUECIDO – "Estou seguro de que o governo de Videla será principalmente de ordem e honestidade", disse à VEJA dr. Juan Alberto Ramírez del Ser, conterrâneo e amigo de infância do general. Dr. Ramírez del Ser, atualmente um conhecido cirurgião de Buenos Aires, recorda que Videla, menino, já era o que é hoje - uma personalidade, de poucas emoções e um meticuloso cumpridor dos deveres. No Exército, também seria assim. Muitos companheiros consideram Videla como uma espécie de "eterno cadete" - principalmente pela dedicação franciscana com que, durante dezessete anos, foi instrutor do Colégio Militar. Ao longo de sua carreira, ele chegou a ser preso, uma vez, em 1945, quando ainda era tenente, por ter se envolvido num movimento contra Juan Domingo Perón.

A outra punição de sua vida viria apenas em 1972, num incidente cômico: durante uma cerimônia, ele esqueceu o texto do discurso que deveria fazer e por isso foi colocado sob prisão domiciliar, como manda o regulamento militar, pelo então presidente, general Alejandro Lanusse. Mais importante que tudo isso, no entanto, é que Videla, desde o momento em que assumiu o comando do Exército, em agosto do ano passado, passou a encarnar em sua pessoa todas as aflições, dúvidas e indecisões das Forças Armadas argentinas. Por formação e convicção, ele seria um "profissionalista" - isto é, um firme partidário da manutenção dos militares fora da política.

Ao mesmo tempo, no entanto, as circunstâncias, mais a pressão dos companheiros de armas, o empurravam para desempenhar um papel cada vez mais político. Antes, o estrito profissionalista dizia frases como esta: "O Exército deve ser como um leão, sempre pronto para lutar, mas confinado na jaula dourada da disciplina, da lei e dos regulamentos." Aos poucos, porém, os temas políticos passariam a freqüentar cada vez mais assiduamente seus pronunciamentos. Ao passar o Natal do ano passado em Tucumán, junto às tropas que ali combatem focos guerrilheiros, Videla fez uma denúncia da "imoralidade e da corrupção" no país, pedindo ao governo as "sanções adequadas".

ESCRÚPULOS - Não foi fácil, no entanto, para esse general de ascética aparência, tomar a decisão de dar o empurrão final no governo de Isabelita Perón. Em dezembro do ano passado, quando o brigadeiro Orlando Capellini se rebelou e exigiu a entrega da presidência a Videla, um assessor disse ao então comandante do Exército: "Este é o momento ideal. Ninguém pode dizer que o senhor quis ser presidente. Este governo cai sozinho, não é necessário que eu o derrube", respondeu. "Ainda não é o momento."

Justificavam-se os seus escrúpulos, tanto pelo profissionalismo quanto pelo temor de uma repetição do fracasso dos governos militares anteriores. Mas também pesou na balança, sem dúvida, o temperamento prudente e meticuloso do novo chefe de Estado argentino. "Às vezes ele me punha nervoso", diz um seu antigo ajudante-de-ordens. "Antes de tomar uma decisão, Videla pensa e analisa todos os aspectos do problema durante horas e horas". É sabido que seus companheiros na Junta Militar, almirante Emilio Massera e brigadeiro Orlando Agosti, assim como numerosos outros oficiais-generais, desejavam ter dado o golpe antes. O compenetrado Videla, no entanto, esperou até o momento que julgava o último.

 

O dia-a-dia no festival da inflação

Os jornais já não englobavam o noticiário econômico sob a tradicional rubrica "Economia" - simplesmente, o nome da seção se fixara "La Crisis Económica". Faltavam produtos no mercado. Os preços subiam de maneira absolutamente incontrolável. A especulação com moeda estrangeira era feita de maneira descarada e frenética. Em suma, nos últimos dias do governo de María Estela de Perón, por falta de autoridade, coerência e competência do governo, assim como por outras circunstâncias adversas ao país, a Argentina entrara num estonteante descalabro econômico - digno de nota mesmo dentro dos padrões da América Latina.

Episódios como o presenciado na tarde da última terça-feira, na avenida Corrientes, pelo enviado especial de VEJA, Wilson Palhares, tinham se tornado cotidianos. Ao entrar numa farmácia, para comprar uma caixa de comprimidos Cefalex, contra dor de cabeça, um cliente encontrou o produto com o preço fixado em 300 pesos na etiqueta. Antes de entregar-lhe a caixa, no entanto, o dono da farmácia sacou sua caneta esferográfica, riscou o preço antigo e elevou-o para 680 pesos. "Que quer que eu faça, senhor?" As coisas são assim, mesmo", justificou-se o vendedor. Simplesmente, cada comerciante fazia seu próprio preço, os produtos apareciam e desapareciam das lojas e armazéns com alucinante velocidade, enquanto o consumidor assistia a tudo isso impotente.

DEFEITO DE IMPRESSÂO - O governo, é verdade, ainda tentou algumas medidas desesperadas, durante sua agonia final. Na semana anterior ao golpe, Isabelita ameaçou, com a pena de prisão aos comerciantes que vendessem seus artigos acima dos preços de tabela. Obviamente, ninguém lhe deu a menor atenção: as tabelas governamentais permaneciam invariavelmente escondidas atrás dos balcões. E em caso de alguma rara, esporádica carga de fiscalização sobre algum artigo, sempre havia outro recurso: sumariamente, retirar do mercado o produto em questão.

A inflação, calculada pelo governo em 335%, na verdade já havia alcançado 600%, nos últimos doze meses. Notava-se um número cada vez menor de fregueses nos normalmente transbordantes restaurantes, cafeterias ou cinemas de Buenos Aires - o argentino comum já não podia mais enfrentar esses luxos. E as máquinas impressoras trabalhavam a tal velocidade, na Casa da Moeda, que chegou a ser registrado o inquietante fenômeno de algumas cédulas saírem sem número de série, ou mesmo impressas apenas de um lado, com o verso em branco. O governo, quando saiu a denúncia dos jornais, apressou-se a esclarecer que tais notas haviam sido retiradas à boca das máquinas - portanto, não estavam em circulação. Mesmo assim, os argentinos, desconfiados, passaram a prestar atenção nas cédulas que recebiam, para ver se não apresentavam defeito.

OVOS DE VOLTA - De resto, havia outros motivos para não acreditar na moeda nacional. Qualquer argentino estava plenamente consciente de que o dinheiro com que fosse dormir, num dia, na manhã seguinte valeria menos. O resultado era uma frenética corrida para trocar o peso por qualquer outra coisa - mercadoria, moeda estrangeira. Os ricos safavam-se da situação desafogando o seu capital o mais possível na aquisição de imóveis, carros ou compra de dólares, freqüentemente transferidos para contas bancárias no exterior - o Uruguai, por exemplo. A classe média e os pobres, por sua vez, invadiam avidamente os armazéns, para trocar seus desmoralizados pesos pelo maior estoque possível de mantimentos.

A situação argentina evocava casos patéticos do passado, como os dias imediatamente anteriores à queda de Salvador Allende, no Chile, ou mesmo o exemplar épico no gênero dos festivais inflacionários - a Alemanha na fase pré-nazista da República de Weimar. O "câmbio livre" estabelecido pelo governo, na última terça-feira, negociava o dólar a 245 ou 250 pesos - contra 36 pesos por dólar, ainda há um ano atrás. Mas, no câmbio negro, a moeda americana já atingia 350 ou 400 pesos. Nas ruas, os turistas eram abordados freqüentemente pele mais variado tipo de pessoa, recebendo as mais tentadoras ofertas por suas moedas.

Ocorrido o golpe, entretanto, estancaram-se as desvairadas transações de moedas. Os argentinos, na quarta-feira, amanheciam para a realidade de que havia alguma forma de autoridade ou governo constituído no país - um fato a que não estavam mais habituados. Nos armazéns, os estoques antes escondidos de açúcar, carne, massas ou ovos, reapareceram como por milagre. Como observava quinta-feira uma senhora, num armazém da Calle Reconquista: "As galinhas agora resolveram pôr ovos".

 
     
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