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31
de março de 1976
Um esforço
de guerra
Ao derrubarem o peronismo e assumirem o poder
na Argentina, os militares têm pela frente a maior de suas operações
Pela segunda vez em sua história,
a Casa Rosada deixou de ser, na semana passada, a sede do poder
na Argentina. Pela segunda vez, igualmente, um governo peronista
estava sendo deposto pelas Forças Armadas - e como na primeira,
o palácio se transformou num mero edifício público
à espera de que um general viesse assumir a presidência
da República. Vinte e um anos atrás, o caudilho Juan
Domingo Perón abandonava a Casa Rosada, enquanto perfazia,
de 16 a 22 de setembro de 1955, o lento percurso entre a resistência
inútil no Ministério da Guerra e a fuga para o Paraguai.
Na madrugada da última quarta-feira, os tanques estavam de
volta - agora, para afastar sua viúva, María Estela
Martínez de Perón, de 45 anos, e devolver à
sepultura o peronismo ressuscitado 34 meses antes.
Isabelita caiu com tumulto consideravelmente
pior. Em 1955, o severo edifício de estilo colonial teve
de aguardar vazio a chegada do general Eduardo Lonardi, que estava
a 900 quilômetros de distância - em Córdoba,
declarada por ele capital do país no momento do golpe. Em
Buenos Aires houve tiros e mortes, e os peronistas não se
entregaram ao primeiro ataque. Desta vez, a presidente foi simplesmente
detida pelas Forças Armadas e despachada num helicóptero
para as montanhas do sul do país. E, embora a Casa Rosada
permanecesse desocupada até o final da semana, a chegada
de seu novo ocupante oficial, o general Jorge Rafel Videla - 50
anos, comandante geral do Exército e agora 38º presidente
da República Argentina - não estava sendo bloqueada
por nenhuma dificuldade especial.
Videla esperava, apenas, o momento estrategicamente
correto para atravessar os 200 metros que separam a Casa Rosada
do seu QG - o edifício claro de dezesseis andares com teto
de ardósia, na Calle Azopardo, que abriga o Ministério
do Exército e o recém-formado Comando Operacional.
Enquanto a Junta Militar - composta, além
de Videla, pelo Almirante Emílio Massera e pelo brigadeiro
Orlando Agosti - prestava juramento em Buenos Aires na manhã
da quarta-feira, Isabelita juntava-se a Perón no passado
político do país. E nas quedas de um e de outro pareciam
sintetizados os momentos cruciais da História da Argentina
ao longo das últimas três décadas - que, em
última análise, poderia ser resumida a uma luta pelo
poder entre peronismo e Forças Armadas. Vencedores fáceis
e inevitáveis da batalha encerrada na semana passada, os
militares, porém, assumem o comando da nação
com a certeza de que não têm outra alternativa senão
acertar.
TEMPO DE GUERRA - Desde os primeiros
momentos, os militares argentinos revelaram em suas mínimas
decisões uma evidente consciência de que, desta vez,
não tomaram apenas o poder político nem simplesmente
substituíram um governo. Como se insinua o próprio
título que se deu a Junta Militar, as Forças Armadas
se consideram "em operações", como um conjunto
armado que enfrenta provavelmente o maior desafio da história
recente da Argentina. Sem dúvida, para solucionar os problemas
acumulados desse país à deriva, imerso num aluvião
de violência que fez 1.400 mortos nos últimos três
anos, desordem social, desagregação política
e angústia generalizada de seus quase 25 milhões de
habitantes, as Forças Armadas necessitarão impor a
si mesmas e aos demais argentinos uma verdadeira disciplina de tempo
de guerra.
Até o final da semana, a ciclópica
tarefa de "reorganizar o país" ainda permanecia
confinada às medidas clássicas de ocupação
do terreno. De qualquer forma, não se estava perdendo tempo.
Logo no primeiro dia do golpe, a Junta Militar disparou 29 comunicados
oficiais, transmitidos em cadeia nacional. E os argentinos souberam,
assim, que estavam dissolvidos o Congresso e as câmaras provinciais,
demitidos todos os magistrados, destituídos os governadores
das 22 províncias, Terra do Fogo, Antártida e ilhas
do Atlântico sul.
Obviamente, foi ocupada a sede da Confederação
Geral do Trabalho, com 6 milhões de membros e núcleo
do esfacelado poder peronista. Suas atividades, bem como as dos
sindicatos, foram suspensas. Os partidos políticos entraram
em recesso. As universidades tiveram as suas portas cerradas e os
principais líderes peronistas começaram a encher os
cárceres - que, no final da semana, já tinham recebido
entre 600 e 1.800 presos políticos. Na tarde da mesma quarta-feira,
por outro lado, estava empossado o novo Ministério, constituído
exclusivamente de militares da ativa. E, ao se encerrar o dia, os
militares podiam se cumprimentar por terem executado toda a operação
sem se envolver num único choque armado - a "guerra
civil" prevista para o caso de golpe, nas fantasias do peronismo,
simplesmente não ocorreu.
ETAPA DECISIVA - A ocupação
completou-se na quinta-feira com a suspensão do direito de
greve, a proscrição de cinco partidos políticos
"de inspiração marxista" e uma ofensiva
contra um óbvio fator de agitação: os serviços
particulares de guarda-costas, cujo registro junto às Forças
Armadas foi tornado obrigatório. Se for obedecida, a medida
significará a identificação de aproximadamente
20.000 pessoas dedicadas a esse tipo de atividade na Argentina.
Por fim, ante a convincente tranqüilidade observada na superfície
do país, os militares puderam até mesmo relaxar algumas
das medidas já então supérfluas.
A rígida censura à imprensa,
por exemplo, em vigor no primeiro dia, foi substituída por
um código de "princípios e procedimentos"
enviado a todos os jornais argentinos. Segundo esse manual, a imprensa
deve, entre outras coisas, "abster-se de incursionar em terrenos
que não sejam de debate público, eliminar vocabulário
ou imagens obscenas, eróticas ou de duplo sentido, usar corretamente
o idioma nacional e evitar a propagação maciça
da opinião direta de pessoas não qualificadas para
opinar sobre questões de interesse público".
Para desestimular os recalcitrantes, foram estabelecidas penas de
até dez anos de prisão.
Também desapareceram das ruas os
veículos militares que haviam ocupado literalmente todos
os pontos estratégicos do país. Mais ainda, ao anunciar
no final de semana que o general Jorge Videla tomaria posse como
presidente da República nesta segunda-feira, a junta argentina
queimava uma etapa decisiva: não mais se aguardaria o transcurso
de dez dias, anteriormente considerados necessários no plano
de operações, até que fosse completada primeira
fase do processo. Antes que a semana se encerrasse, em suma, as
Forças Armadas estavam solidamente entrincheiradas no poder
- e por um período mínimo de 3 anos, segundo decreto-lei
baixado nas últimas horas de sexta-feira.
UM INSULTO - Era um desfecho previsto,
e tido como inevitável, para a delirante turbulência
que imperava até então no país. Não
apenas a violência política havia chegado a seu apogeu
mais selvagem - duas mortes por dia ao longo 21 meses de reinado
de Isabelita. O próprio peronismo, na prática, sobrevivia
apenas como um sistema institucionalizado de corrupção,
há muito desquitado da doutrina original ou da própria
ideologia confusa, pregada por Perón - e que se resumia a
vagas menções sobre "uma terceira posição
entre o socialismo e o capitalismo".
Entre outros reveses, a irritação
das bases peronistas com o aniquilamento dos salários ante
a meteórica elevação do custo de vida (prevista
para mais de 800% até o final deste ano) tornara-se incontrolável.
Para elas, o "Plano de Emergência" elaborado pelo
ministro da Economia, Emilio Mondelli, há quase um mês,
estipulando a desvalorização do peso em 100% contra
reajustes salariais de no máximo 20% soava como um insulto.
E, na área política, o Partido Justicialista, dilacerado
por brigas internas de senadores e deputados, já não
mais reinava absoluto no Congresso e passara, nos derradeiros dias
de Isabelita, a rebelar-se francamente contra o governo.
O atestado de óbito, em realidade,
contaminara outros órgãos do já paralisado
corpo peronista. A outrora soberana, imponente CGT, por exemplo,
atingiu a morte clínica antes mesmo da deposição
de Isabelita. No sábado anterior ao golpe, após uma
reunião em que teria circulado uma lista de prováveis
dirigentes sindicalistas a serem detidos quando os militares se
levantassem, Casildo Herreras, o líder de seu braço
político - as 62 Organizações Peronistas, suspensas
na semana passada -, tratou de salvar a própria pele. E,
cautelosamente, rumou para o Uruguai à frente de cinco outros
líderes trabalhistas.
ÀS MARGENS DO RIO - Na véspera
do golpe, é verdade, a CGT ainda tentou demonstrar alguma
reação na eventualidade de cair o governo - e ameaçou
uma greve geral com ocupação das fábricas.
Mas não houve, sequer, a tentativa de dar uma aparência
de realidade à decisão. A ordem de greve não
chegou nem mesmo a ser transmitida para os escalões imediatamente
inferiores ao plantel dos caciques. E, além disso, apenas
uma minoria de dirigentes participou da deliberação
a essa altura um número incerto mas supostamente significativo
de líderes já tinha embarcado para o Uruguai em lanchas
particulares, abandonado seus automóveis às margens
do rio da Prata.
No final da semana passada, em meio a rumores
de que o secretário geral da CGT, Lorenzo Miguel, estaria
detido, crescia a impressão de que também ele imitara
seus companheiros logo após o golpe. De qualquer forma, o
teatro do absurdo portenho manteve a cena aberta até o momento
em que os militares decidiram evacuar a platéia e atores.
Doze horas antes do golpe, por exemplo, representantes do peronismo
e de cinco partidos da oposição reuniram-se em assembléia
multipartidária" - para discutir as eleições
previstas para dezembro. "Em dois anos é possível
colocar o país de pé", prometia por sua vez o
senador Oscar Allende, em discurso transmitido pelo rádio
e televisão.
LINHAS CORTADAS - Nem todos os civis,
contudo, perderam o escasso tempo que lhes restava fazendo esse
tipo de divagações para auditórios inexistentes.
Não faltaram senadores e deputados engrossando a fila em
frente ao caixa do Congresso, para salvar o que ainda era possível:
o pagamento adiantado dos subsídios referentes ao mês
de março. Um dos mais atribulados era Ítalo Luder,
presidente do Senado e ex-presidente interino da República,
durante uma das ausências de Isabelita para tratamento de
saúde, no ano passado. Dele, tudo que se sabe é que
foi visto saindo em disparada do edifício do Senado, com
pacotes na mão, ao final da tarde de terça-feira.
Segundo o deputado José Zamanillo, Luder já havia
entrado em "estado de plena catalepsia".
Coube ao ministro Mondelli, entretanto,
a maior dose de alheamento. Ao comparecer ao Senado na terça-feira
para expor seu desastroso plano econômico, foi cercado por
jornalistas que lhe perguntaram sobre os rumores do golpe. "Y
yo qué sé?", perguntou ele de volta. "Yo
no soy militar, yo soy um civil. Preguntem eso a los militares."
Quatro horas mais tarde, Mondelli continuava, implacável,
informando a uns raros senadores situacionistas seu plano. No limite
da paciência, porém, o parlamentar Oraldo Norvel Britos
interrompeu-o: "Por que não faz uma coisa? Chame o governo
para ver se é verdade que as tropas estão na rua.
Digo isso para ganhar tempo e economizar palavras". Mondelli
ainda tentou telefonar, e viveu talvez seu último fracasso
- a essa altura, as linhas diretas com a Casa Rosada já haviam
sido cortadas.
INDIFERENÇA - A rigor, já
não havia então qualquer vínculo real entre
a Casa Rosada e o resto do país - subtraído inteiramente
ao poder de Isabelita. No interior do palácio presidencial,
como de praxe em tais ocasiões, concentrava-se na noite de
terça-feira apenas um reduzido núcleo de ministros
peronistas, constrangidos a fazer companhia a Isabelita nas suas
impossíveis fantasiosas negociações com os
militares. Presentes a esta derradeira reunião de gabinete
estavam também o dirigente sindical Lorenzo Miguel, o vice-presidente
do Movimento Justicialista, Deolindo Felipe Bittel, e o infeliz
Mondelli. Não havia nada mais que pudessem decidir. E o país
parecia largamente alheio a sua sorte.
De fato, num deslocamento veloz e silencioso,
soldados a pé ou montados em tanques convergiam sobre Buenos
Aires e, como se estivessem num mero exercício de rotina,
ocupavam sem resistência posições estratégicas
nas demais cidades do país. Sua movimentação
não atraiu nem mesmo muitos olhares. Um terceiro grupo de
argentinos, seguramente o mais numeroso e não menos apaixonado,
atropelava-se diante dos milhares de aparelhos de televisão
para acompanhar as proezas esportivas dos 22 jogadores do River
Plate, campeão da Primeira Divisão nacional, que,
naquela noite, enfrentava a Portuguesa da Venezuela, pela Taça
Libertadores da América.
Terminado o jogo, os exultantes torcedores
portenhos que saíram às ruas de madrugada, para comemorar
a vitória de sua equipe, cruzavam casualmente com os batalhões
de soldados em uniforme de campanha e metralhadora, que controlavam
o trânsito da capital e impediam o acesso à Plaza de
Mayo. Na verdade, o golpe militar já estava em plena marcha
mas não chegava a emocionar Buenos Aires. "O fato de
a maior parte das pessoas parecerem mais interessadas na transmissão
de uma partida de futebol pela televisão do que na deposição
da presidente María Estela Martínez de Perón",
escreveu no dia seguinte em editorial o The New York Times,
"é típico da indiferença com que muitos
argentinos vêem a política do país.
"OPERAÇÃO BOLSA"
- Com a progressiva ocupação, sem percalços,
de todos os seus objetivos em território argentino, o único
episódio eventualmente mais desagradável da operação
seria o afastamento físico da presidente. Para os planejadores
mais meticulosos, não se poderia excluir a possibilidade
de surgirem problemas. Há muito se sabia, por exemplo, que
Isabelita andava armada - sempre levava em sua bolsa um revólver
Smith & Wesson calibre 38, com cinco balas. Uma guarda pretoriana
a rodeava em permanência. E seu guarda-costas particular "Luigi",
escolhido pessoalmente pelo tenebroso José López Rega,
ex-mentor da presidente, era conhecido não apenas por seus
fartos bigodes mas sobretudo por sua excelente pontaria.
Além de "Luigi" e seus
guardas, Isabelita também se fazia acompanhar, permanentemente
, de um ajudante munido de um radiotransmissor para comunicações
eventuais com sua residência de Olivos ou o gabinete de trabalho
na Casa Rosada. Enfim, ao elaborarem o plano de destituição
da presidente, os militares levaram igualmente em conta que, quando
Isabelita se deslocava em automóvel, seu serviço de
segurança incluía não menos de uma dezena de
carros da polícia, precedidos e seguidos de oito batedores
em motocicletas - o que formava algum poder de fogo, tudo somado.
Nada mais natural, assim, que o plano "Operação
Bolsa", para capturar Isabelita, se desdobrasse em várias
alternativas, longamente debatidas pelos militares nos dias que
antecederam o golpe.
Originalmente, os estados-maiores se fixaram
em três possibilidades: 1) captura da presidente na Casa Rosada;
2) captura durante o trajeto rodoviário entre a Casa Rosada
e o subúrbio de Olivos; 3) captura na própria residência
de Olivos. Além disso, estavam previstas várias subalternativas
- detenção durante um despacho presidencial com os
militares; no momento de entrar na limusine; durante um eventual
translado em helicóptero. Por fim, a "Operação
Bolsa" acabou se cristalizando na "subalternativa do helicóptero",
uma vez que Isabelita passara a utilizar um modelo Sikorsky da Força
Aérea nos dias anteriores, temendo um atentado terrestre
por parte dos Motoneros.
ÚLTIMA VIAGEM - No "Dia
D", os três chefes militares encarregados de sua detenção
- general José Rogelio Vilareal, contra-almirante Pedro Santamaría
e o brigadeiro Basilio Arturo Lami Dozo - aguardavam desde as 15h30,
no edifício do Estado-Maior conjunto, no n.º 280 do Paseo
Colón, a comunicação do lugar onde se procederia
a captura.
Sua missão efetiva começaria
na madrugada de quarta-feira - Isabelita deveria ser presa na Base
aérea Jorge Newberry, em Buenos Aires, após deixar
a Casa Rosada de helicóptero. Tudo acabaria correndo, praticamente,
como previsto.
Logo após o término de sua
reunião de gabinete, meia-noite passada, a presidente ainda
desceu a esplanada para cumprimentar algumas mulheres que se encontravam
junto à porta por onde ela costumava sair. Depois de beijá-las,
Isabelita voltou a subir pelo elevador presidencial até o
terraço onde aguardava o helicóptero.
Ao embarcar rumo a Olivos no Sikorsky branco
e laranja, acompanhada de seu secretário particular, Julio
González, do guarda costas "Luigi" e do radioperador,
Isabelita iniciava sua última viagem como presidente. Pouco
antes, os três oficiais superiores de prontidão no
Estado-Maior deixavam o Paseo Colón rumo ao aeroparque Jorge
Newberry. E o piloto do helicóptero presidencial, logo depois
da decolagem, punha em execução a parte que lhe estava
reservada no plano. Sem se perturbar, simulou a ocorrência
de diversas falhas técnicas no helicóptero, em pleno
vôo, e nenhum de seus atentos passageiros achou suspeita a
sugestão de pousar rapidamente na zona militar do aeroparque,
antes de seguir para Olivos.
Com todas as providências tomadas,
Isabelita, a princípio, não notou que os garçons
a seu serviço na sala de espera VIP da base aérea
eram oficiais da Força Aérea disfarçados. Apenas
quando quis prosseguir a viagem até Olivos de automóvel,
a encenação teve de ser bruscamente interrompida.
Sem esperar a chegada ao aeroparque dos três altos oficiais
das Forças Armadas, que por alguma razão se atrasaram
no caminho, um tenente de plantão decidiu entrar em ação:
"Senhora, tenho ordens de informá-la que a senhora se
encontra a partir deste momento sob custódia das Forças
Armadas, que assumem a responsabilidade por sua integridade física.
Uma Junta Militar assumiu o governo".
DUAS MALAS - Isabelita, com sua
palidez aumentada pela camisa de gola olímpica branca, indagou
apenas: "Serei fuzilada?" "Senhora", respondeu
o tenente, antes de retirar a pistola da bolsa da já ex-presidente,
"ninguém será fuzilado sem julgamento prévio."
Segundo depoimento prestado a VEJA por uma das testemunhas, Isabelita,
apesar de aterrorizada, fez o possível para se controlar
na presença dos oficiais. Pediu uma xícara de chá
e recebeu sem comentários a notícia de que seria transladada
para a esplêndida residência oficial El Messidor, pertencente
ao governo da província Neuquén e situada nos confins
andinos do sul, a poucos quilômetros da fronteira com o Chile.
Com seu destino geográfico estabelecido,
Isabelita solicitou apenas que lhe fossem trazidos alguns objetos
de uso pessoal. Meia hora depois da tardia chegada dos oficiais
superiores, desembarcava no aeroparque, trazendo duas grandes malas
para a patroa, a assustada Rosario, acompanhante e criada de Isabelita
desde os tempos de seu exílio em Madrid junto a Juan Domingo
Perón. Pouco depois, um avião Fokker T-02 da Força
Aérea levantava vôo para Neuquén - ironicamente,
tratava-se do mesmo aparelho que em julho do ano passado trouxe
José López Rega ao Brasil, na primeira escala de sua
viagem de exílio à Espanha. A "Operação
Bolsa" estava encerrada.
LISTAS PREPARADAS - Começava,
então, o regime militar e se encerrava a segunda aventura
peronista - iniciada com a subida de Héctor Cámpora
à presidência, em maio de 1973, prosseguida com sua
renúncia e ascensão de Perón, e liquidada com
Isabelita. Às 3 e meia da madrugada límpida da quarta-feira,
as emissoras de rádio argentinas entraram em cadeia e iniciaram
a transmissão de marchas militares, rapidamente interrompidas
para a emissão do lacônico comunicado número
1, assinado por Videla, Massera e Agosti: "Comunica-se à
população que a partir desta data o país se
encontra sob controle operacional da Junta de Comandantes-Generais
das Forças Armadas".
Minutos depois, uma coluna de tanques e
caminhões militares, todos com um adesivo branco em forma
de triângulo, irromperam velozmente na Plaza de Mayo, enquanto
um fuzileiro naval ingressava na Casa Rosada sem encontrar a menor
resistência. Quase ao mesmo tempo, agentes das três
Armas desencadearam as primeiras prisões de funcionários
governamentais e dirigentes sindicais e políticos, segundo
listas previamente preparadas. Não houve, certamente, prisões
indiscriminadas. Mas uma vasta operação de buscas,
empreendida em todo o território argentino, não parecia
ter se esgotado até o final da semana.
Somente na capital, centenas de pessoas
estariam recolhidas aos navios "Bahia Aguirre" e "Buenos
Aires", ancorados na base naval. Entre elas, o ex-presidente
da Câmara e ex-presidente provisório, Raúl Lastiri,
60 anos, e sua mulher Norma, filha de José López Rega,
detidos no apartamento do cabeleireiro de Isabelita. Também
foram presos, além de um número incerto de ex-governadores
de províncias e intendentes municipais, o ministro do Trabalho
e o governador da província de Buenos Aires, Victorio Calabró
- este confinado a prisão domiciliar.
DUAS INTENDÊNCIAS - Horas
após o anúncio do golpe, o novo governo parecia ter
dado pelo menos os passos iniciais para conseguir um de seus principais
objetivos - estabelecer a ordem no país. Simultaneamente,
circulavam já as primeiras teorias sobre a existência
de duas tendências preponderantes dentro do Exército
argentino. Basicamente, de um lado, se situariam os generais Videla
e Roberto Viola, chefe do Estado-Maior do Exército, partidários
da reordenação do país e do saneamento de suas
instituições, para o posterior encaminhamento rumo
às eleições. De outro, estariam os generais
Luciano Benjamim Menéndez, comandante do III Exército,
com sede em Córdoba, e Ramón Díaz Bessone,
comandante do segundo Corpo, em Rosario, que preconizam uma linha
bem mais dura.
Seja como for, dificilmente se encontrará,
nos anais do golpismo latino-americano, demonstração
de tão longo período de paciência por parte
dos militares, ante um governo cuja atuação, em última
análise, abria as portas para a intervenção
das Forças Armadas. Essa relutância em tomar a decisão
do assalto final ao poder , na verdade, não deve ser atribuída
apenas a um recato inusitado no continente. Afinal, havia a experiência
do malogro recente, selada com humilhante devolução
do poder ao peronismo. Por outro lado, diante da posição
atual do país, é difícil imaginar que os argentinos
se interessem brevemente por novos governos civis.
Para começar, parece ter desaparecido
do horizonte próximo qualquer corrente política significativa.
Resta, portanto, na hipótese de um malogro do novo governo,
um único caminho aparente para os insatisfeitos - aderir
ao terrorismo. A guerrilha, afinal, parece ter jogado exatamente
com a esperança de atrair os insatisfeitos. Mas é
este fator - talvez o de maior peso - que deve ter entrado nas considerações
dos estrategistas das Forças Armadas ao assumirem o poder
na semana passada.
Jorge Videla, "El Flaco",
um profissional
Certa vez, em março de 1942, apenas
poucos dias depois de ter ingressado no Colégio Militar da
Argentina, o cadete Jorge Rafael Videla, um jovem introspectivo
e sisudo, ouviu de um colega: "Che, que é isso? Para
ser militar não é preciso passar o dia todo tão
sério". Já naquela época, o futuro presidente
da Argentina tinha o apelido de El Flaco, "O Magro". Mais
tarde, na vida, ganharia outros, como "Pantera Cor-de-Rosa",
calcado na suposta semelhança física com a famosa
personagem de desenho animado. Ao longo de todos esses anos, no
entanto, Videla não perderia aquela qualidade básica
de ser "sério", um homem de poucas palavras, menos
risos e nenhuma brincadeira - quase exclusivamente voltado para
a profissão e o sentido militar do dever.
"Videla não é um homem
brilhante, e tampouco teria de sê-lo", dizia na semana
passada a Antonio Rodríguez Vilar, correspondente da VEJA
em Buenos Aires, um antigo companheiro de armas, colega já
desde os tempos de estudos militares do atual chefe da Junta argentina.
"Ele se formou em quarto lugar em nossa turma, não por
seu brilhantismo, mas por seu vigor, vontade e capacidade de análise.
Se eu tivesse de definir quais os aspectos predominantes em Jorge,
eu diria que são a honradez, a modéstia, a equanimidade,
a paciência e, sobretudo, o profissionalismo.
GUITARRA - Nascido a 2 de agosto
de 1925, em Mercedes - uma comunidade de 20.000 pessoas, na província
de Buenos Aires -, Jorge Rafael Videla é, visceralmente,
um militar. Seu pai já era um homem da carreira - o coronel
Rafael Videla, que chegou a chefe do VI Regimento de Infantaria,
sediado em Mercedes. E, dos seis filhos do atual comandante, os
varões também vão se inclinando, um a um, para
a profissão de militar: um deles é tenente-médico,
outro é cadete do Colégio Militar e um terceiro cursa
o Liceo Militar, equivalente ao curso secundário. Ficam de
fora, apenas, as duas mulheres da família e, por enquanto,
o caçula do novo homem forte da Argentina - Pedro Ignacio,
de 10 anos.
Casado com Alici Raquel Hartudge, Videla
mora num apartamento como milhares de outros em Buenos Aires - três
quartos e um living-sala de jantar, no bairro de Belgrano. Todos
os amigos o descrevem como "um homem profundamente religioso",
um católico não apenas de ir à missa, todos
os domingos, como de participar intensamente das atividades de sua
paróquia, e de manter longas conversações com
o capelão do Exército, monsenhor Adolfo Tortolo. Quanto
aos livros, Videla prefere os de história, particularmente
os referentes à antigüidade grega e romana. E também
se orgulha de possuir uma boa discoteca (na juventude, chegou a
tocar razoavelmente guitarra), onde se destacam os clássicos
- Bach, principalmente - e a música folclórica argentina.
DISCURSO ESQUECIDO "Estou
seguro de que o governo de Videla será principalmente de
ordem e honestidade", disse à VEJA dr. Juan Alberto
Ramírez del Ser, conterrâneo e amigo de infância
do general. Dr. Ramírez del Ser, atualmente um conhecido
cirurgião de Buenos Aires, recorda que Videla, menino, já
era o que é hoje - uma personalidade, de poucas emoções
e um meticuloso cumpridor dos deveres. No Exército, também
seria assim. Muitos companheiros consideram Videla como uma espécie
de "eterno cadete" - principalmente pela dedicação
franciscana com que, durante dezessete anos, foi instrutor do Colégio
Militar. Ao longo de sua carreira, ele chegou a ser preso, uma vez,
em 1945, quando ainda era tenente, por ter se envolvido num movimento
contra Juan Domingo Perón.
A outra punição de sua vida
viria apenas em 1972, num incidente cômico: durante uma cerimônia,
ele esqueceu o texto do discurso que deveria fazer e por isso foi
colocado sob prisão domiciliar, como manda o regulamento
militar, pelo então presidente, general Alejandro Lanusse.
Mais importante que tudo isso, no entanto, é que Videla,
desde o momento em que assumiu o comando do Exército, em
agosto do ano passado, passou a encarnar em sua pessoa todas as
aflições, dúvidas e indecisões das Forças
Armadas argentinas. Por formação e convicção,
ele seria um "profissionalista" - isto é, um firme
partidário da manutenção dos militares fora
da política.
Ao mesmo tempo, no entanto, as circunstâncias,
mais a pressão dos companheiros de armas, o empurravam para
desempenhar um papel cada vez mais político. Antes, o estrito
profissionalista dizia frases como esta: "O Exército
deve ser como um leão, sempre pronto para lutar, mas confinado
na jaula dourada da disciplina, da lei e dos regulamentos."
Aos poucos, porém, os temas políticos passariam a
freqüentar cada vez mais assiduamente seus pronunciamentos.
Ao passar o Natal do ano passado em Tucumán, junto às
tropas que ali combatem focos guerrilheiros, Videla fez uma denúncia
da "imoralidade e da corrupção" no país,
pedindo ao governo as "sanções adequadas".
ESCRÚPULOS - Não foi
fácil, no entanto, para esse general de ascética aparência,
tomar a decisão de dar o empurrão final no governo
de Isabelita Perón. Em dezembro do ano passado, quando o
brigadeiro Orlando Capellini se rebelou e exigiu a entrega da presidência
a Videla, um assessor disse ao então comandante do Exército:
"Este é o momento ideal. Ninguém pode dizer que
o senhor quis ser presidente. Este governo cai sozinho, não
é necessário que eu o derrube", respondeu. "Ainda
não é o momento."
Justificavam-se os seus escrúpulos,
tanto pelo profissionalismo quanto pelo temor de uma repetição
do fracasso dos governos militares anteriores. Mas também
pesou na balança, sem dúvida, o temperamento prudente
e meticuloso do novo chefe de Estado argentino. "Às
vezes ele me punha nervoso", diz um seu antigo ajudante-de-ordens.
"Antes de tomar uma decisão, Videla pensa e analisa
todos os aspectos do problema durante horas e horas". É
sabido que seus companheiros na Junta Militar, almirante Emilio
Massera e brigadeiro Orlando Agosti, assim como numerosos outros
oficiais-generais, desejavam ter dado o golpe antes. O compenetrado
Videla, no entanto, esperou até o momento que julgava o último.
O dia-a-dia no festival da inflação
Os jornais já não englobavam
o noticiário econômico sob a tradicional rubrica "Economia"
- simplesmente, o nome da seção se fixara "La
Crisis Económica". Faltavam produtos no mercado. Os
preços subiam de maneira absolutamente incontrolável.
A especulação com moeda estrangeira era feita de maneira
descarada e frenética. Em suma, nos últimos dias do
governo de María Estela de Perón, por falta de autoridade,
coerência e competência do governo, assim como por outras
circunstâncias adversas ao país, a Argentina entrara
num estonteante descalabro econômico - digno de nota mesmo
dentro dos padrões da América Latina.
Episódios como o presenciado na
tarde da última terça-feira, na avenida Corrientes,
pelo enviado especial de VEJA, Wilson Palhares, tinham se tornado
cotidianos. Ao entrar numa farmácia, para comprar uma caixa
de comprimidos Cefalex, contra dor de cabeça, um cliente
encontrou o produto com o preço fixado em 300 pesos na etiqueta.
Antes de entregar-lhe a caixa, no entanto, o dono da farmácia
sacou sua caneta esferográfica, riscou o preço antigo
e elevou-o para 680 pesos. "Que quer que eu faça, senhor?"
As coisas são assim, mesmo", justificou-se o vendedor.
Simplesmente, cada comerciante fazia seu próprio preço,
os produtos apareciam e desapareciam das lojas e armazéns
com alucinante velocidade, enquanto o consumidor assistia a tudo
isso impotente.
DEFEITO DE IMPRESSÂO - O governo,
é verdade, ainda tentou algumas medidas desesperadas, durante
sua agonia final. Na semana anterior ao golpe, Isabelita ameaçou,
com a pena de prisão aos comerciantes que vendessem seus
artigos acima dos preços de tabela. Obviamente, ninguém
lhe deu a menor atenção: as tabelas governamentais
permaneciam invariavelmente escondidas atrás dos balcões.
E em caso de alguma rara, esporádica carga de fiscalização
sobre algum artigo, sempre havia outro recurso: sumariamente, retirar
do mercado o produto em questão.
A inflação, calculada pelo
governo em 335%, na verdade já havia alcançado 600%,
nos últimos doze meses. Notava-se um número cada vez
menor de fregueses nos normalmente transbordantes restaurantes,
cafeterias ou cinemas de Buenos Aires - o argentino comum já
não podia mais enfrentar esses luxos. E as máquinas
impressoras trabalhavam a tal velocidade, na Casa da Moeda, que
chegou a ser registrado o inquietante fenômeno de algumas
cédulas saírem sem número de série,
ou mesmo impressas apenas de um lado, com o verso em branco. O governo,
quando saiu a denúncia dos jornais, apressou-se a esclarecer
que tais notas haviam sido retiradas à boca das máquinas
- portanto, não estavam em circulação. Mesmo
assim, os argentinos, desconfiados, passaram a prestar atenção
nas cédulas que recebiam, para ver se não apresentavam
defeito.
OVOS DE VOLTA - De resto, havia
outros motivos para não acreditar na moeda nacional. Qualquer
argentino estava plenamente consciente de que o dinheiro com que
fosse dormir, num dia, na manhã seguinte valeria menos. O
resultado era uma frenética corrida para trocar o peso por
qualquer outra coisa - mercadoria, moeda estrangeira. Os ricos safavam-se
da situação desafogando o seu capital o mais possível
na aquisição de imóveis, carros ou compra de
dólares, freqüentemente transferidos para contas bancárias
no exterior - o Uruguai, por exemplo. A classe média e os
pobres, por sua vez, invadiam avidamente os armazéns, para
trocar seus desmoralizados pesos pelo maior estoque possível
de mantimentos.
A situação argentina evocava
casos patéticos do passado, como os dias imediatamente anteriores
à queda de Salvador Allende, no Chile, ou mesmo o exemplar
épico no gênero dos festivais inflacionários
- a Alemanha na fase pré-nazista da República de Weimar.
O "câmbio livre" estabelecido pelo governo, na última
terça-feira, negociava o dólar a 245 ou 250 pesos
- contra 36 pesos por dólar, ainda há um ano atrás.
Mas, no câmbio negro, a moeda americana já atingia
350 ou 400 pesos. Nas ruas, os turistas eram abordados freqüentemente
pele mais variado tipo de pessoa, recebendo as mais tentadoras ofertas
por suas moedas.
Ocorrido o golpe, entretanto, estancaram-se
as desvairadas transações de moedas. Os argentinos,
na quarta-feira, amanheciam para a realidade de que havia alguma
forma de autoridade ou governo constituído no país
- um fato a que não estavam mais habituados. Nos armazéns,
os estoques antes escondidos de açúcar, carne, massas
ou ovos, reapareceram como por milagre. Como observava quinta-feira
uma senhora, num armazém da Calle Reconquista: "As galinhas
agora resolveram pôr ovos".
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