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31 de março de 1971
O poder chega à Casa
Rosada
Golpe por escrito na Argentina:
Lanusse, enfim, na presidência
Pela queda se conhece
o presidente. É na incerteza das madrugadas de golpe em Buenos
Aires que aparecem, às vezes pela primeira vez, as origens
secretas de seu poder ou as razões íntimas de sua
desgraça. Perón deixou matar 2 000 pessoas em frente
à Casa Rosada; Frondizi se perdeu num labirinto de manobras
ineficazes; Illia resistiu enquanto pôde em nome da legalidade.
Mesmo a queda de Juan Carlos Onganía, em meio a um delírio
de poder pessoal e misticismo religioso, teve uma certa grandeza.
Mas o golpe de Estado que derrubou na última terça-feira
o presidente Roberto Levingston foi marcado - como todo o seu governo
- pela hesitação, pela indiferença e pela obscuridade.
Na última hora, invocando uma autoridade
que nunca chegou a ter, ele destituiu o general Lanusse, comandante-chefe
do Exército; e, como um funcionário humilde que tenta
justificar suas atitudes com o apoio imaginário de altas
autoridades, afirmou num comunicado que a decisão havia sido
aprovada pelos dois outros membros da junta militar - o brigadeiro
Carlos Alberto Rey e o almirante Pedro Gnavi. Entre os civis, ninguém
acreditou nessa manobra; entre os militares, ninguém a levou
a sério. Nove meses atrás, a junta nomeava, por decreto,
o presidente Levingston; na semana passada, a mesma junta assinou
outro decreto, afastando-o do poder. Não foram necessários
tanques nem ultimatos. No fim das contas, foi um golpe de Estado
batido a máquina.
SEM INTERMEDIÁRIOS - Durante
alguns dias, o triunvirato dos comandantes-chefes, liderado por
Lanusse, pensou em exercer a presidência coletivamente. Mas,
na Argentina, onde parece ser impossível conservar um único
presidente por muito tempo, também parece inconcebível
a idéia de um governo a seis mãos. E havia problemas
práticos. Na última quarta-feira, o almirante Gnavi
confessava ainda não saber se os despachos seriam conjuntos
ou separados e quem se encarregaria dos contatos políticos.
Sugeriu-se a criação de um primeiro-ministro: já
que o título de presidente tem uma sonoridade especial que
parece despertar veleidades de independência nos homens mais
humildes, talvez um simples premier fosse mais conveniente. Mas,
desta vez, a junta decidiu não correr riscos. Às 7
horas da noite da sexta-feira, o general Alejandro Agustín
Lanusse, que fez e derrubou os dois últimos presidentes argentinos,
entrou por sua vez na Casa Rosada. Isso vem simplificar as coisas:
pelo menos, acabaram-se os intermediários.
A ascensão formal ao poder do homem
que realmente lidera as Forças Armadas argentinas é,
antes de tudo, uma esperança de firmeza e estabilidade. Eternamente
pressionado por duas correntes opostas, o presidente Levingston
fez um governo hesitante, que em menos de um ano misturou todas
as receitas econômicas, desde o monetarismo mais ortodoxo
e o livre câmbio liberal até técnicas inflacionárias
e princípios nacionalistas. Em política, o movimento
pendular foi ainda mais acentuado, incluindo tanto uma tentativa
de abertura com os peronistas como a nomeação de um
governador de extrema direita para a província de Córdoba.
Mas o caminho dos meandros não o
levou a parte alguma, a não ser à chácara de
Olivos - para onde se mudou ao deixar a Casa Rosada. De lá,
deve partir diretamente para o esquecimento que já acolheu
com a mesma indiferença os presidentes civis e militares
que o país improvisou desde a queda de Perón. Fora
da Argentina, quem se lembra com nitidez de José Maria Guido,
ou do general Lonardi, ou sabe com exatidão a diferença
entre azuis e colorados?
FORÇA E VONTADE - O general
Lanusse, entretanto, tem possibilidade de um destino melhor. Essa
perspectiva não nasce de suas palavras. O novo presidente
não se expressa com facilidade, e suas freqüentes referências
aos princípios da revolução de 1966 - quando
o general Juan Carlos Onganía substituiu o presidente Arturo
Illia - desorientam observadores, uma vez que aquele movimento militar
teve motivações extremamente vagas: preencher o vácuo
do poder, transformar a Argentina num Estado moderno, reorganizar
a vida pública e outras generalidades. A confiança
em Lanusse também não nasce de suas declarações
a favor de um renascimento da vida política com a volta das
eleições, de vez que ele fez essa profissão
de fé tanto na posse de Onganía como na de Levingston.
Há pouco mais de uma semana, o presidente
Levingston, começando a sentir terreno se escapar sob seus
pés, declarou, num discurso na cidade de Mendoza, que a ocasião
parecia propícia para anunciar que as diretrizes político-institucionais
necessárias para uma abertura democrática "seriam
oferecidas proximamente à consideração da opinião
pública". A verdade, no entanto, é que nem ele
nem seu antecessor chegaram a ter força suficiente para determinar
uma abertura política a curto prazo. Lanusse, no momento,
pelo menos, tem a força. Resta saber se igualmente tem a
vontade.
AS MUITAS IMAGENS - Em geral, os
argentinos acreditam que sim; mas não faltam os incrédulos:
toda figura política é uma superposição
de imagens contraditórias. Há a imagem peronista,
histórica, que ainda hoje vê o Lanusse do ano de 1951,
quando, sob as ordens do general Benjamin Menendez, tomou parte
na primeira tentativa de golpe contra o caudilho e passou quatro
anos na prisão. É uma imagem um tanto gasta. Naturalmente,
mesmo hoje, Lanusse não permitiria a volta de Perón:
recentemente, afirmou que: "Eu não me oponho a que coloquem
o busto desse homem no salão branco da Casa Rosada. Mas,
se esse homem, representante do passado, voltar a pôr o pé
neste país, um dos dois - ele ou eu - acabará morto.
Não deixarei que meus filhos repitam a experiência
que vivi". O retorno Perón, no entanto, é uma
hipótese remota; a maioria dos seus seguidores já
perdeu todas as esperanças, e o próprio Perón,
embora manifeste sempre seu desejo de abandonar o exílio
na Espanha, jamais tomou qualquer iniciativa. Atualmente, o que
interessa aos peronistas é a própria possibilidade
de participar da vida pública, e a isso Lanusse não
levanta objeções expressas.
O problema com as esquerdas já é
mais complicado. Talvez movidos por uma série de coincidências
favoráveis a ataques, talvez por perceberem a importância
fundamental do general Lanusse na política argentina, os
jornais marxistas do continente - especialmente os uruguaios - procuram
apresentá-lo como uma espécie de caixeiro-viajante
do pensamento mais conservador na América Latina. A 12 de
maio do ano passado, Lanusse foi recebido pelo general boliviano
Rogelio Miranda, que o condecorou com a grã-cruz da Ordem
Condor dos Andes. No dia seguinte, visitaram juntos as guarnições
situadas em Cochabamba e Santa Cruz de la Sierra.
Cinco meses mais tarde, quando o general
Miranda liderou um golpe fracassado contra o presidente Juan José
Torre e se asilou na embaixada argentina, esquerdistas imediatamente
viram a sombra de Lanusse no fundo dos acontecimentos. E passaram
a interpretar suas visitas a outros países andinos como empreitadas
conspiratórias. Sua ida ao Chile, antes da eleição
do presidente Salvador Allende, teria o objetivo secreto de prometer
apoio aos militares de Santiago na hipótese de um golpe de
Estado. Quando esteve no Peru, em setembro, teria tentado persuadir
seu amigo Ernesto Montaigne - ministro da Defesa - da necessidade
de desviar para a direita o processo político peruano, mesmo
que essa guinada custasse a cabeça do presidente Juan Velasco
Alvarado. No entanto, essa imagem do conspirador continental parece
forçada demais para oficialmente inquietar os países
vizinhos, e dentro da Argentina ela não tem maior importância,
por estarem os comunistas, em grande parte, absorvidos pelo peronismo.
ÀS CINCO DA TARDE - Menos
impacto ainda causa a figura de um Lanusse oligarca. A revista "Marcha",
de Montevidéu, teve a pachorra de examinar as finanças
de irmãos, tios, primos e parentes afastados do novo presidente,
para provar que a família domina o país. Como, aos
53 anos, ele tem nove filhos e sete irmãos, a lista de propriedades
é impressionante. Mas o levantamento era desnecessário:
sempre se soube na Argentina que a família Lanusse é
rica, como atesta o prédio da Rua San Martín, em Buenos
Aires, a cuja porta, todas as semanas, os empregados da firma Pedro
e Antonio Lanusse atualizam nos mostradores de mármore as
cotações atacadistas dos principais produtos tradicionais
da Argentina - da lã às plumas de avestruz.
A empresa data de 1872, mas, desde o tempo
dos fundadores, a fortuna se repartiu desigualmente entre os herdeiros.
O general Lanusse se desvinculou inteiramente dos negócios
da família e tem uma fortuna apenas modesta. Quem o conhece
pessoalmente, e tem condições de falar com objetividade,
garante a sua honestidade.
Resta, no entanto, uma última imagem
do presidente Lanusse, difundida pelos militares da linha mais dura.
Ele seria um homem excessivamente otimista e condescendente, disposto
a aberturas políticas desastrosas que conduziriam a Argentina
a novo caos peronista. Nenhuma dessas imagens pode coexistir pacificamente
com as demais; provavelmente, todas são falsas, ou exageradas
até a distorção. E, excetuadas as visões
de peronistas ortodoxos, esquerdistas e militares "duros",
sobra para o resto da opinião pública um Lanusse satisfatório.
Homem honesto, que participou de vários golpes, como todos
os militares de sua geração, liberal em teoria econômica
e disposto a recolocar o país no caminho eleitoral. Ainda
mais importante que isso talvez sejam a sua sensibilidade política
e a sua capacidade de lidar com os companheiros de armas nas horas
de crise.
Várias vezes teve condições
para tomar o poder, e o recusou. Na última segunda-feira,
às 5 horas da tarde, no entanto, chegou o instante de uma
decisão inadiável.
PLANO MAZARUCA - Naquele momento,
acompanhado por seus colegas de junta, ele entrava na Casa Rosada,
atendendo a um convite presidencial. Levingston o atraíra
ao palácio para uma armadilha. Era o começo do chamado
plano Mazaruca. Três semanas antes, um grupo de generais da
reserva leais ao presidente havia traçado um plano para evitar
o iminente golpe de Estado.
A base desse esquema era a prisão
simultânea dos três integrantes da junta, que seriam
levados para a base aérea de Mazaruca, nas ilhas Lechiguanas,
ao norte do delta do Paraná, em zona considerada inexpugnável.
Na hora da ação, entretanto, Levingston se decidiu
por uma variante: destituiu e prendeu apenas Lanusse, liberando
os comandantes da Marinha e Aeronáutica para que fossem consultar
seus subordinados. Mas não esperou qualquer resposta: às
20h15, uma nota da Rede Nacional de Comunicações anunciava
a remoção do comandante-chefe do Exército e
acrescentava que a medida tinha sido referendada pelo brigadeiro
Rey e o almirante Gnavi.
Com essa inverdade, o presidente esperava
talvez receber um número considerável de telegramas
que pusesse o peso das Forças Armadas do seu lado, antes
que se estabelecesse novamente a verdade dos fatos. Se isso era
realmente o que esperava, deve ter ficado bastante decepcionado.
Em Córdoba, a mensagem anunciando
a destituição de Lanusse nem sequer chegou a ser lida
pela rádio. Em vez disso, o general Lopez Aufranc, chefe
do III Exército, fez ler um comunicado afirmando que, diante
das versões de um eventual afastamento, ele reafirmava sua
obediência às ordens emanadas do comandante-chefe do
Exército. Essa decisão rápida foi logo depois
acompanhada pelos comandantes do IV, II e I Exércitos.
Minutos mais tarde, por sua vez, a Marinha
divulgou um comunicado enérgico desmentindo a informação
presidencial sobre o apoio de Pedro Gnavi ao afastamento de Lanusse.
Um comunicado semelhante foi publicado pela Aeronáutica.
Nessa altura dos acontecimentos, o general Jorge Esteban Caceres
Monie desferiu o golpe de graça na resistência de Levingston,
declarando que aceitaria transitoriamente o comando do Exército
apenas para devolvê-lo às mãos do general Lanusse.
Às 10h40, pouco mais de quatro horas
depois de ter entrado na Casa Rosada, dando início ao golpe,
o general Lanusse, novamente livre, foi jantar no quartel do Campo
de Maio com um grupo de oficiais amigos. Às 3h20 da madrugada
de terça-feira, o ex-presidente Levingston abandonava por
sua vez, e para sempre, a Casa Rosada.
APELIDOS - Durante nove meses, esses
dois homens encontraram-se várias vezes por semana, trabalharam
juntos ao redor da mesma mesa, discutiram os mesmos assuntos. É
quase inevitável que tenham tido momentos de amizade. No
entanto, um deles traiu o outro. Ao tentar o afastamento de Lanusse,
Levingston lançou sobre ele a culpa dos distúrbios
de Córdoba, núcleo da indústria automobilística,
com uma população majoritariamente de operários.
O comunicado presidencial dá a entender que Lanusse recusou-se
a intervir nas greves dessa cidade - um total de seis, nos últimos
48 dias, e duas na semana imediatamente anterior ao golpe -. seja
por incapacidade, seja por desejo de precipitar voluntariamente
uma crise dentro do Exército.
A verdade, no entanto, é que a crise
de Córdoba nasceu exclusivamente por culpa do presidente,
que, vinte dias atrás, nomeara para o governo dessa província
um amigo pessoal - José Camilo Uriburu - considerado inteiramente
desqualificado para o cargo.
A cada dia que passa descobrem-se novos
detalhes que tornam sua nomeação menos compreensível.
O que se critica agora já não é apenas o seu
passado de extrema direita, que inevitavelmente serviu para despertar
a cólera sindical, e que lhe valeu os apelidos de Nero (iria
incendiar a cidade) e de Carnaval (duraria apenas três dias).
Já não se critica também sua maneira espalhafatosa
e agressiva de discursar, que lhe valeu o apelido de Spiro Agnew
argentino. Soube-se mais tarde, por outro lado, que, no exato dia
de sua posse, sofreu duas condenações penais: uma
relativa a uma dívida de 7 milhões de pesos que deve
há mais de dez anos ao Banco de Córdoba; a outra,
num processo por difamação e calúnia que lhe
é movido pelo advogado do banco encarregado de cobrar a dívida.
ÁGUA NO BARCO - A nomeação
de um tal personagem para o governo da província mais explosiva
da Argentina - os violentos distúrbios de fins de 1969, conhecidos
como o "Cordobazo", já haviam iniciado o processo
da queda de Juan Carlos Onganía - pode parecer um erro grande
demais para ser involuntário. Como Levingston foi durante
muitos anos oficial do serviço secreto, há sempre
pessoas dispostas a acreditar que suas atitudes são baseadas
em complicados raciocínios estratégicos. Ele teria,
assim, nomeado Uriburu para governador, já prevendo a crise
e esperando tirar o melhor partido para afastar Lanusse.
Veteranos observadores da política
de Buenos Aires, no entanto, têm uma explicação
mais simples: um presidente argentino começa a cair quando
começa a ficar isolado. Os políticos peronistas ou
radicais, acostumados a fazer acordos com quaisquer governos fortes,
recuam à medida que percebem, às vezes com meses de
antecedência, que o barco está fazendo água.
Levingston, assim, teria recorrido a Uriburu como amigo pessoal
numa hora em que todos os aliados políticos se afastavam.
Por circunstâncias anteriores, o
problema de isolamento era especialmente difícil para o ex-presidente.
Logo após a queda de Onganía, antes mesmo que surgisse
o nome de Levingston, a junta de comandantes-chefes designou para
ministro do Bem-Estar Social Francisco Manrique, um homem inteiramente
desconhecido fora da Argentina, mas considerado peça essencial
por Lanusse e vários outros chefes militares. O fato em si
não teria maior importância: é natural que um
presidente imposto tenha que aceitar alguns nomes sem ser consultado.
Ocorre, no entanto, que Levingston e Manrique eram inimigos de longa
data. Cerca de oito anos atrás, Manrique, que renunciara
a seu posto na Marinha para se dedicar à política,
publicou num jornal de sua propriedade uma série de críticas
a Levingston; este, por sua vez, respondeu de maneira violenta,
qualificando o autor do artigo de mentiroso. As coisas não
foram adiante nessa ocasião. Levingston foi nomeado para
um cargo em Washington e Manrique continuou ocupado com jornal de
vida financeira bastante instável.
FAZER DEMAGOGIA - A inimizade entre
os dois homens devia renascer necessariamente quando a queda de
Onganía os reuniu no mesmo governo, um como presidente, o
outro como ministro de Estado. A causa maior da hostilidade entre
ambos já não era a briga do passado por uma questão
entrementes esquecida. O principal fator de irritação
era uma diferença de formação e de estilo político,
que não poderia ser evitada. O ex-presidente era um honrem
sério e austero, a ponto de ser desagradável. Manrique,
pelo contrário, é o gênero de político
que Vinicius de Moraes - muito apreciado em Buenos Aires - classificaria
certa vez como o de fala fácil; tem olhar brilhante e segurança
de gestos.
O resultado inevitável não
se fez esperar. À medida que Levingston acumulava rancores
e críticas, Manrique se transformava rapidamente no único
elemento popular do gabinete. Não é difícil
imaginar a amargura do chefe de Estado recebendo insultos dos trabalhadores
por ter tomado medidas econômicas que julgava indispensáveis,
enquanto o seu ministro recebia aplausos generalizados por ter defendido
um menino que roubara uma galinha.
Uma revista de Buenos Aires reproduz como
verídico um diálogo que teria se desenvolvido dois
meses atrás: "Como vai seu governo, Manrique?",
teria perguntado Levingston. "Não há dois governos,
presidente. O que acontece é que eu me movo enquanto outros
ficam sentados. Agora, com sua licença, retiro-me. Vou fazer
demagogia." É possível que essa troca de palavras
nunca tenha ocorrido, mas ela exprime com fidelidade a diferença
de estilo entre os dois homens, permitindo compreender porque Levingston
acabou por demitir Manrique, embora soubesse que isso atiçaria
a cólera de Lanusse.
FANTASMAS - O que era previsível
aconteceu, em pouco menos de um mês: Levingston foi afastado
e Manrique voltou ao Ministério do Bem-Estar Social. Para
o general Lanusse, como para todos os militares que pretendem reabrir
o processo eleitoral, elementos como Manrique são indispensáveis
por serem as únicas figuras de dentro do processo político
capazes de ligar o governo às massas. Não importa
muito o que digam, desde que o façam de uma maneira popular
e agradável.
Há pouco tempo, por exemplo, Manrique
resolveu atacar a onda nacionalista desencadeada pelo presidente
Levingston como uma última esperança de se manter
no poder. Declarou então que havia apenas um único
imperialismo, o da estupidez.
Na semana passada, entretanto, conversando
na antiga redação de seu jornal com o enviado especial
de VEJA a Buenos Aires, Pedro Cavalcanti, Manrique observou que,
realmente, como afirmara antes, os monopólios eram fantasmas,
mas que ele, pessoalmente, acreditava em fantasmas. E que o país
pensava combatê-los com armas concretas.
Uma pessoa capaz de fazer tal tipo de raciocínio
parece convincente e naturalmente preciosa para um governo que enfrenta
a difícil tarefa de renovar a conversa interrompida com os
partidos políticos. Esse diálogo, no entanto não
é impossível, na Argentina. Existem atualmente apenas
duas grandes correntes partidárias: os Radicais do Povo,
do ex-presidente Arturo Illia, e os Peronistas (cada facção
conta com aproximadamente 3 milhões de votos hipotéticos).
De ambos os lados, as primeiras pontes com o governo já começam
a ser lançadas. Na última quinta-feira, a junta nomeou
o político radical Arturo Mor Roig como ministro do Interior.
Sabe-se que Mor Roig condicionou sua aceitação ao
recebimento de garantias substanciais de uma abertura política.
ENTENDIMENTO - No setor peronista,
por outro lado, a aproximação com o governo se revelou
na crise que se abriu na CGT, terça-feira passada. Às
7 horas da noite, o prédio da Confederação
Geral dos Trabalhadores estava protegido, como nos dias em que se
espera uma decisão importante, por dois caminhões
de soldados. O programa oficial constava de uma entrevista coletiva
em que o secretário-geral, o peronista ortodoxo Jose Rucci,
deveria explicar uma alteração na política
sindical. Uma hora e meia mais tarde, entretanto, o assessor de
imprensa da CGT sentou-se entre vinte jornalistas na imensa mesa
da sala de reuniões e negou definitivamente que o companheiro
José Rucci tivesse sido afastado. O anúncio oficial
de sua queda veio somente dois dias mais tarde. Em seu lugar, será
certamente escolhido um elemento mais conciliador. Peronista sem
dúvida alguma - já porque na Argentina não
há líderes sindicais que não sejam peronistas
-, mas capaz de conviver em boa paz com o governo.
Tudo isso é apenas o começo
de um entendimento que pode se frustrar em poucas horas. O novo
governo tomou uma primeira medida apaziguadora, liberando o teto
de 19% que havia sido estabelecido para os aumentos salariais, mas
ainda não estabeleceu sua política econômica.
Até o dia das eleições, ainda será preciso
enfrentar a crise das exportações, a rebeldia dos
estudantes e a ameaça sempre presente de Córdoba.
Lanusse é uma terceira tentativa, depois de Onganía
e Levingston. O caminho é longo. Outro, no entanto, ainda
não foi encontrado.
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