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Reportagens 30 de agosto de 1972Profissionais da exportação
A princípio vivia o europeu - isto é, o português colonizador - de caça, pesca e frutas, que eram a base de sua alimentação. Em 1511, porém, já iniciava alguma exportação; a nau "Bretoa", nesse ano, levava para Portugal 5.000 toros de pau-brasil, e os animais domésticos a que o índio chamava "mimbado", como 22 tuins, dezesseis sagüis, dezesseis gatos, quinze papagaios, três macacos - e quarenta peças de escravos. Talvez seja essa a primeira pauta de exportações brasileiras, tal como é descrita por Paulo Prado, o aristocrata paulista e um dos patronos ilustres da Semana de Arte Moderna, em seu clássico "Retrato do Brasil". Hoje, evidentemente, a pauta é muito mais densa e rica, embora ainda sobrevivam alguns itens exóticos, como "animais vivos" e, até, o pau-brasil. Nos últimos cinco anos, o Brasil começou a exportar peças de computador para o mundo inteiro - da Austrália a Zâmbia; tornos automáticos para os Estados Unidos; navios para o México e a Iugoslávia; carros, caminhões e ônibus para toda a América Latina; máquinas de escrever portáteis para os Estados Unidos; tratores para o México; máquinas agrícolas para a Grécia e de costura para a Inglaterra; fios de seda para o Japão e fios de lã para a União Soviética; e microscópios de precisão para os Estados Unidos. 3,2 BILHÕES EM 1977 - Este ano, o Brasil deverá bater mais um recorde: exportará 3,5 bilhões de dólares, sendo 1 bilhão só de produtos industrializados - "os "manufaturados", o capítulo mais lisonjeiro da pauta de um exportador de respeito. Para 1973, aguardam-se números ainda mais expressivos. Inclusive porque entre 5 e 14 deste mês se realizará no Parque Anhembi, em São Paulo, a "Brasil Export 72", uma feira milionária onde os produtos brasileiros de exportação serão exibidos para milhares de poderosos compradores estrangeiros. Espera-se que sejam feitos aí negócios de milhões de dólares para revigorar as estatísticas do próximo ano. Como se espera, com a mesma convicção, que no ano que vem o Brasil esteja exportando 1,250 bilhão de dólares em manufaturados, 2 bilhões em 1975 e 3,2 bilhões em 1977, segundo estimativas do Ministério da Fazenda. "Estamos passando da categoria de amador para profissional da exportação", disse na semana passada Antônio Delfim Netto, ministro da Fazenda, depois de passar três horas percorrendo, com eufórica agilidade, as obras de remodelação do porto de Santos - um dos itens do plano de "corredores de exportação" (é um investimento de 250 milhões de dólares que permitirá, a curto prazo, a exportação anual de 300, 400 milhões de dólares em exportações de soja, milho, mandioca, algodão). Há dez anos, quando o exportador brasileiro ainda não tinha sido promovido a "profissional", um industrial de Santa Catarina gastou duas semanas até abrir sua mala de amostras para o gerente de uma grande cadeia de magazines de Nova York. Finalmente, conseguiu acertar um pedido experimental de 3.000 vestidos. Se o produto fosse aprovado, a malharia receberia, então, uma encomenda de 30.000. E outros pedidos, certamente, se sucederiam. O industrial tomou fôlego e disse que voltaria no dia seguinte para fechar o negócio. Nunca mais voltou. Sua produção anual era de 5.000 vestidos, quase toda colocada no Brasil mesmo. QUEM É O RESPONSÁVEL? - Entre 1964 e 1966, o Brasil exportava uma média anual de 260 milhões de dólares de manufaturados. Seus empresários ainda não dispunham de lastro para honrar os volumosos pedidos feitos pelos importadores. Faltava-lhes tradição e até audácia para enfrentar a competição em mercados mais exigentes. Faltava, principalmente, a cobertura dos incentivos fiscais, que começavam a ser implantados. Desde essa época, a máquina oficial começou a despejar uma legislação generosa que empurrava o industrial para o exterior. "Hoje, o exportador só paga o frete. O resto fica por conta do governo", diz, com algum exagero, um agenciador de exportações. Seria um exercício inútil tentar descobrir o responsável pelo impressionante boom das exportações brasileiras: a bateria de pródigos incentivos dados pelo governo ou a obstinada agressividade do empresário? Delfim Netto, o incontestável sumo pontífice da seita exportadora, prefere, habilmente, transferir a seus fiéis os méritos da cruzada: "Entre 1960 e 1963, exportávamos por ano uma média de 39 milhões de manufaturados. Agora, 1 bilhão. Esse salto seria impossível sem o empresário". Protegido pelo escudo dos incentivos, o cruzado brasileiro partiu com fúria para conquistar santos mercados. No Alexander's, um grande magazine da Lexington Avenue, em Nova York, conta Luiz Fernando Mercadante, correspondente de VEJA, há roupas de couro do Rio Grande do Sul, sapatos e botas para homem da Samello, de Franca, SP, artigos de malharia de Santa Catarina e a partir desta semana suéteres de caxemira e de lã de carneiro produzidos em São Paulo. NOS ESTADOS UNIDOS - "Os americanos não compram qualquer coisa. São muito exigentes. E o que aconteceu com as minhas suéteres vem acontecendo com centenas de produtos brasileiros", explica Wayne D. Cannon, o entusiasmado agente que colocou a primeira partida de suéteres no Alexander's. "Estão entrando no mercado americano com bastante aceitação, o que significa alguma coisa além de ter bons preços: é preciso oferecer bons produtos." Os bons produtos estão hoje espalhados pelas melhores vitrinas americanas. No Bloomingdale's, outro elegante magazine de Nova York, há sapatos brasileiros e toalhas da Artex, de Santa Catarina. No Sak's, uma das lojas mais requintadas da Quinta Avenida, há cuecas Zorba. A Caloi vendeu há poucas semanas 4.000 bicicletas para a Califórnia e a Metalúrgica Abramo Eberle, RS, vai fornecer os espadins da Academia Militar de West Point, onde se formaram Eisenhower e a maioria dos generais americanos. Em Londres, Bernardo Kucinsky, repórter de VEJA, entrevistou Hellena Cura, gerente da empresa importadora Kamden: "Os móveis da Italma são de qualidade superior, só comparáveis aos suecos. O design é avant-garde e ao mesmo tempo conservador, combinação ideal para o consumidor inglês. A margem de preço é competitiva. Eu diria que a diferença é de 7 a 8 libras (por volta de 100 cruzeiros)". John Wise, gerente das lojas Ravel, de Bond Street, é um tradicional importador de calçados italianos e espanhóis: "Mas, por causa dos preços excelentes, não posso me dar ao luxo de deixar de comprar sapatos brasileiros. Eles ainda não têm o requinte dos calçados italianos, porém é exatamente o estilo rústico que está na moda". PECADOS VENIAIS - No entanto, o exportador brasileiro, como qualquer estreante, ainda comete os deslizes de quem não decorou todas as regras do novo ofício. O próprio Wise faz algumas reclamações: "Os brasileiros estão cometendo os mesmos erros de espanhóis, italianos e portugueses quando começaram a exportar calçados para a Inglaterra. Os prazos de entrega não são cumpridos, os produtos que chegam são diferentes das amostras encomendadas e, normalmente, há erros nas medidas. Os latinos, como sabem, têm pés muito menores que nós". Apesar disso, Wise não desistiu do produto brasileiro: "Como o maior comprador de sapatos brasileiros são os Estados Unidos, passamos a comprar de um distribuidor americano. Ele fica com todas as amolações e nós com o produto". O centro comercial da Embaixada brasileira, subordinado à Secretaria Adjunta para Promoção Comercial do Itamaraty, enumerou os pecados veniais do exportador: n O brasileiro gosta de dar os preços FOB, ou seja, sem incluir o custo de frete, e o importador, é lógico, precisa saber o custo total da transação. O brasileiro, porém, exagera. Às vezes nem sabe informar o preço do transporte de sua fábrica ao porto. Um deles chegou a fornecer a um comprador inglês a cotação de seu produto colocado em Moji das Cruzes, SP. n O exportador brasileiro exige uma carta de crédito para fechar o negócio. Ou seja, as condições de preço e a forma de pagamento ficam estipuladas no momento em que o importador faz o pedido. Se a encomenda chegar com imperfeições, o negócio não pode ser desfeito. Nesta fase inicial, quando os compradores pedem muitas remessas experimentais, as cartas de crédito são contraproducentes. n O brasileiro não responde às cartas dos importadores, não os mantém atualizados e, quando chega a Londres, quer encontrá-los no dia seguinte. "Mesmo nos negócios, é indispensável obedecer ao formalismo inglês", explica um funcionário do centro. AS MANOBRAS - Longe, porém, de se imaginar uma incurável inaptidão brasileira para os truques do comércio internacional. A Têxtil Gabriel Calfat, SP, passou a produzir toalhas permanent-press, que dispensam o ferro de engomar após a lavagem, para conquistar o consumidor americano. E, para driblar as tarifas que incidem sobre o algodão que entra na Alfândega dos Estados Unidos, dosou suas toalhas com 70% de poliéster e 30% de algodão. Um outro industrial brasileiro comprou a patente dos relógios Westclox de uma firma inglesa com fábricas em Hong Kong. No contrato, estava previsto que ela se responsabilizaria por 40% das exportações feitas pela indústria nacional. Como, porém, os negócios em Hong Kong começaram a naufragar, os ingleses se descuidaram das vendas do produto brasileiro. Protegido pelo mais absoluto sigilo, o industrial brasileiro recorreu ao centro comercial da Embaixada em Londres. Conseguiu uma pequena distribuidora que colocou 50.000 relógios no mercado. Isso chamou a atenção de um grande distribuidor, que fechou um negócio de 200.000 relógios por ano, no mínimo. Depois disso, a Westclox descobriu a manobra e veio ao Brasil cobrar o cumprimento do contrato. Resultado: o industrial brasileiro exigiu que a firma inglesa vendesse toda a sua produção destinada à exportação, inclusive para Hong Kong, onde seu produto sai mais barato que o fabricado pela subsidiária inglesa. GAY POWER - Vlastimir Arambasic, diretor da Arcoflex, dá um outro exemplo de sábia artimanha mercadológica: está exportando para os Estados Unidos sapatos coloridos, com enfeites e saltos de 7 centímetros: "Desconfio que seremos bem recebidos no mercado do gay power", diz ele. Exatamente no setor de calçados é possível perceber como a exportação de manufaturados deu saltos apreciáveis. Em 1969, o Brasil exportou 1,2 milhão de dólares em calçados. No ano seguinte, 8 milhões e, em 1971, 29 milhões. Este ano espera-se um resultado de 60 milhões de dólares. Trata-se, sem dúvida, de um crescimento bastante expressivo. Ainda não vale a pena fazer comparações com as estatísticas dos concorrentes (a Itália exporta 1,5 bilhão de dólares por ano em calçados e a Espanha, 400 milhões). Mas espera-se que em 1980 o Brasil já esteja no mesmo nível da Espanha. "Vai ser difícil continuar crescendo com essa mesma rapidez por algum tempo", explica Arambasic. "Só depois do reequipamento das fábricas existentes e da criacão de outras unidades voltaremos a dar novos saltos." Na verdade, os pulos da exportação de sapatos foram provocados até agora pela utilização da capacidade ociosa das fábricas - fenômeno que, de maneira geral, ocorreu em todo o parque fabril do país. Com a propagação das notícias dando conta de negócios encorajadores feitos no exterior, muitas indústrias prepararam planos de expansão e a partir deste ano começam a progredir no mercado externo. É o caso da Samello, que não exportou em 1969 e 1970, mas em 1972 vai chegar a 4 milhões de dólares. A Arcoflex também marcou passo por dois anos; em 1973, entretanto, deverá vender 5 milhões de dólares. O MELHOR VEM DEPOIS - "Depois de seis ou sete anos de doutrinação do governo, os empresários estão agora começando a investir com o objetivo exclusivo de exportar", afirma Delfim Netto. Edemar Cid Ferreira, proprietário de um escritório especializado em transações com o exterior, afirma, então: "Podem ficar certos disto - o grande boom das exportações brasileiras ainda não ocorreu". Além da explicação de Delfim, Ferreira tem muitos outros motivos para sustentar seu otimismo. No momento, desenrola-se uma maratona silenciosa de investimentos estrangeiros que desembarcam no Brasil com intenções de produzir principalmente para o mercado externo. o exemplo mais representativo dessa corrida é o da Ford, que decidiu investir 700 milhões de dólares num prazo de sete anos para exportar motores de automóvel e aparelhos eletrônicos a serem produzidos por sua subsidiária Philco. A Rhodia está querendo abrir uma fábrica de remédios. A Remington vai exportar máquinas de escrever. A Kanebo, associada à C. Itoh, uma das maiores tradings japonesas, está instalando uma fábrica em São Paulo para exportar camisas para o Japão e Estados Unidos, e outra, diz-se, no nordeste, para exportar algodão. Em Minas Gerais foi criada a Intertex (Comércio e indústria Têxtil), associada também à C. Itoh, para exportar toda a sua produção de confecções femininas para os Estados Unidos. Está previsto um volume de vendas de 15 milhões de dólares no seu primeiro ano de atividades. A Yamaha, uma das três maiores empresas japonesas produtoras de motocicletas, vem vender no mercado interno e exportar para a América Latina. Na verdade, a Yamaha, neste episódio, anda a jato, pois está com medo que as rivais Honda e Suzuki cheguem na frente e explorem primeiro o mercado latino-americano. Além disso, comenta-se em certos círculos de exportadores que seria concedida a permissão para a importação de fábricas inteiras, - o Brasil pagaria até o frete -, desde que, depois de instaladas em território brasileiro, se dedicassem exclusivamente à exportação. A intenção poderia ser a de atrair os investimentos estrangeiros hoje localizados em Formosa. Ao que parece, foi para tratar desse projeto que José Maria Villar de Queiroz, assessor do ministro da Fazenda para assuntos internacionais, esteve em Formosa e Hong Kong em fins do ano passado. AS ISCAS - Na verdade, desde maio deste ano está em vigor um decreto que, de certa forma, deixa entrever aquela próxima providência: é permitida a transferência de fábricas ou de equipamentos usados para o Brasil, desde que separem 33% de sua produção para as vendas no mercado externo. Esta, porém, é apenas uma das iscas que o governo brasileiro lançou ao mar das ambições dos investidores estrangeiros. Há também os incentivos, que incluem, hoje, o financiamento de 40% das exportações a juros de 8% ao ano. E os créditos que o Banco do Brasil, através de suas agências no exterior, concede aos compradores de produtos brasileiros. O Brasil ainda possibilita a abertura de mercados próximos, até agora inexplorados: "Temos excelentes perspectivas nos mercados novos da América Latina e da África", explica Villar de Queiroz, "desde que se pratique uma política bastante hábil na América Latina e se chegue na África antes que se inicie um protecionismo típico da fase de substituição de importações". o Brasil também oferece ao exportador que aqui se instalar um guarda-chuva singular: protegido pelas preferências dadas aos produtos de países em desenvolvimento e dissimulado com um carimbo de "Made in Brazil", o exportador japonês, por exemplo, pode entrar no Mercado Comum ou nos Estados Unidos sem provocar as fúrias que desperta. Além disso, há o atrativo mais importante, segundo Delfim Netto: a taxa flexível de câmbio que garante a remuneração do exportador e permite que ele mantenha seus preços em níveis estáveis por bastante tempo. UM JAPÃO ESPAÇOSO - Tantos incentivos e tanta prodigalidade só se justificam porque o governo amarrou o destino de sua estratégia econômica no mastro dos cargueiros que transportam os produtos brasileiros. "Temos dez anos para atingir um volume de comércio exterior semelhante ao do Japão de hoje", explica Delfim Netto. "Depois de dez anos, começam a surgir os problemas. Temos de aproveitar enquanto há mão-de-obra barata e terra abundante. Mas, se tudo der certo, o país entrará numa nova órbita. Podemos até vir a ser um Japão - com terra e matéria-prima." Delfim está convencido de que apenas três fatores poderiam impedir que a economia brasileira entrasse numa órbita de maior prosperidade. A escassez de mão-de-obra, porque murcharia a capacidade competitiva dos produtos brasileiros no exterior. "Mas, felizmente, há um excedente de mão-de-obra não qualificada que, no entanto, se qualifica rapidamente e durante o próprio serviço", explica Delfim. O segundo fator seria a escassez de poupança para financiar o investimento. "O Brasil, porém, é capaz de poupar entre 21% e 22% do produto nacional bruto e pode chegar a 25% sem provocar grandes problemas." Finalmente surge a ameaça mais grave: o deficit no balanço de pagamentos, ou seja, a hipótese de saírem mais divisas - principalmente através das importações - do que possam arrecadar as exportações. "O surto de desenvolvimento da década de 50 se evaporou porque as exportações não cresceram", diz Delfim. A ALAVANCA - Segundo o raciocínio do ministro, o Brasil precisa exportar para pagar as importações indispensáveis ao desenvolvimento. (Em 1972, o Brasil deverá importar 1,5 bilhão de dólares em máquinas e equipamentos - mais, portanto, que as exportações de manufaturados.) Enquanto a economia vem se expandindo a taxas de 9% ao ano, em média, as importações crescem a taxas em torno de 15%. "É preciso exportar para que se possa pagar essas compras." Além disso, Delfim enfatiza sua tese de que a atividade exportadora não representa uma condenação impiedosa do mercado interno. "A exportação é de fato uma alavanca para expansão do mercado interno", diz. E dá um exemplo bastante revelador. Em 1972, o Brasil deverá produzir 3 milhões de toneladas de soja, quantidade impossível de ser consumida internamente. Mas, como foi aberta a janela do mercado externo, o exportador, ao invés de inutilizar a soja não comercializada, realiza lucros e tem condições de, por exemplo, comprar um trator. O operário da fábrica de tratores pode vir a comprar um sapato. O empregado da indústria de calçados compra uma geladeira. E o operário da fábrica de geladeiras compra uma parte da soja produzida. "Junto com a exportação criou-se um mercado interno", explica Delfim, "maior que o mercado criado para a exportação. Ou seja, todas as compras feitas no mercado interno movimentam muito mais recursos do que a exportação de soja do exemplo." AS REAÇÕES - O governo, portanto, está munido de ponderáveis argumentos para jogar todas as fichas que forem necessárias à pacífica expansão das exportações brasileiras. Agora, por exemplo, quando se atinge a marca do bilhão de dólares de manufaturados, começam a surgir as primeiras reações expressivas à penetração de produtos brasileiros. Ou, como diz Delfim, "se estamos vendendo 1 bilhão, alguém está sendo empurrado para fora do palco, e só vai sair depois de espernear muito". A França é uma tradicional discriminadora de produtos brasileiros, principalmente os alimentícios que concorrem com as vendas de suas ex-colônias, como óleos vegetais, aspargos e palmito. A Inglaterra impõe cotas às exportações de téxteis. Os Estados Unidos, como os ingleses, restringem as vendas de têxteis e, como os franceses, são excessivamente vigilantes quando se trata de importar produtos alimentícios. A Polenghi brasileira fez volumoso investimento para lançar no mercado americano um queijo do tipo mozzarella, mas seus embarques iniciais ainda dormem nos portos, à espera de kafkianas providências burocráticas. A Argentina também é especialista em embargar exportações brasileiras, mesmo depois de aprovadas por suas autoridades fazendárias. Tratores Hatsuta ficaram presos na Alfândega de Buenos Aires porque, alegaram os argentinos, não se enquadravam nos índices de nacionalização previstos nos acordos da ALALC. "A esta altura da guerra, vamos bater, apanhar e bater de novo. O importante é que a média algébrica seja positiva", diz Delfim, num lance de humor matemático. José Mindlin, diretor da Metal Leve, uma indústria de autopeças que este ano deve exportar 2 milhões de dólares, chama a atenção para um fato que pode atenuar as reações à expansão brasileira: "Por causa de questões sociais e trabalhistas, indústrias de países desenvolvidos estão vindo instalar pólos de fabricação no Brasil. Elas próprias serão as primeiras a reclamarem do protecionismo dos mercados consumidores". A NOVA ERA - Além disso, a reunião do Fundo Monetário Internacional marcada para Washington, no fim deste mês, deverá promover sérias alterações nas relações comerciais. Por proposta americana, serão discutidas questões relativas ao fluxo de capitais entre países e um abrandamento dos rígidos controles tarifários dos europeus e japoneses. Como o Brasil está apostando no surgimento de uma nova era de liberalismo comercial, prepara armas mais potentes para invadir os sete mares. Dentro de algumas semanas sairá o decreto criando as tradings companies, empresas especializadas em comercializar no exterior. "O Brasil não tem trabalhado como vendedor de seus produtos; apenas consentiu que os outros comprassem", diz Cid Ferreira. Delfim, de certa forma, concorda: "Agora precisamos aprender a comerciar, precisamos de maior agilidade nas operações de marketing no exterior". As tradings farão exatamente isso, financiando a produção a ser exportada e montando redes de comercialização externa. Horácio Coimbra, presidente da Cacique de Café Solúvel e da Cacique Alimentos que distribui 75 tipos de produtos no mercado interno, inclusive vários importados, está rondando grupos bancários - dizem que anda negociando com o Bradesco - para formar uma sociedade: "Entro com 25 milhões de dólares em exportação e escritórios próprios em Nova York, Hamburgo, Londres e Hong Kong". Mindlin também pensa em formar uma trading, assim como praticamente toda a rede bancária brasileira. (Diz-se que um dos três maiores bancos comerciais privados está negociando uma associação com a Petrobrás.) Ainda se passará muito tempo até que as tradings brasileiras montem uma máquina de pessoal especializado e se transformem numa irresistível gazua comercial. Mas é bem possível que por seu intermédio o Brasil chegue ao fim da década como um exportador definitivamente profissionalizado.
"Confesso que se o convite tivesse sido feito há alguns anos eu não aceitaria", diz o francês Jacques Gourbaud, um dos mil importadores estrangeiros convidados pelo governo brasileiro para visitar a Feira Brasileira de Exportação, a "Brasil Export 72", de 5 a 14 de setembro, em São Paulo. Como diretor de compras do magazine parisiense Printemps e representante das cadeias de supermercados Prisunic e Escale - um grupo que negocia 7 bilhões de francos (7 bilhões de cruzeiros) por ano -, Gourbaud vai chegar com uma lista de produtos que lhe interessam: artigos de couro, confecções de malha, roupas de cama, tapetes de pele, bijuteria de fantasia e, certamente, qualquer artigo que um europeu acharia "exotique". Contudo, ao final dos dez dias de feira, depois de percorrer os estandes de 860 empresas expositoras é provável que o comprador francês tenha deixado de pensar no Brasil exclusivamente como "o país do exótico". YES, NÓS TEMOS - É exatamente isso que o governo deseja com a feira: mostrar aos compradores estrangeiros tradicionais ou não, que a indústria brasileira tem capacidade de competir no mercado internacional com produtos que há alguns anos o Brasil ainda comprava no exterior. Por isso, foi feita uma campanha de propaganda nos principais jornais e revistas dos maiores mercados consumidores. Um dos anúncios atinge os preconceitos dos importadores com precisa ironia. "Sim, nós temos bananas", diz o título, enquanto as ilustrações mostram veículos, sapatos, máquinas diversas e nenhuma banana. Além de reunir, pela primeira vez, uma expressiva parcela da indústria nacional e de trazer para o Brasil, também pela primeira vez, uma massa imponente de importadores (além dos mil convidados do governo, espera-se a vinda de mais 2.000, por conta própria), a "Brasil Export" assumiu outra grave respónsabilidade: iniciar uma parcela dos empresários, calouros ainda, nos truques do comércio internacional. Por isso, não é decisivamente importante que a feira se encerre com um grande volume de negócios fechados, mas que os produtores brasileiros e os seus interlocutores estrangeiros fiquem sabendo, com profundidade, o que um pode esperar do outro. RETARDATÁRIOS - Para montar uma feira dessa envergadura, habitualmente são necessários dois anos de trabalho. A decisão de realizar a "Brasil Export", no entanto, só foi tomada em fins do ano passado, numa reunião presidida pelo ministro da Indústria e do Comércio, Marcus Vinicius Pratini de Moraes, em Brasília. A empreitada foi entregue a Caio de Alcântara Machado, experiente promotor de feiras, responsável, entre outras, pela Feira Nacional da Indústria Têxtil (Fenit) e pelo Salão do Automóvel. Na semana passada, enquanto oitocentos operários continuavam trabalhando dia e noite na montagem dos estandes, algumas empresas retardatárias que haviam desprezado convites no início mostravam-se satisfeitas com a conquista de um pequeno estande, no canto do pavilhão, mesmo ficando de fora do catálogo oficial da feira. E nem todas participam com o objetivo de vender. "Nós devíamos ter acreditado antes", diz, um pouco desesperançado, Nelson Sampaio Bastos, diretor da Gradiente, responsável pela instalação do sistema de som do Palácio das Convenções do Anhembi e última empresa a se inscrever na feira. "A Gradiente tem uma divisão de representações de marcas estrangeiras e nós verificamos que mais da metade das empresas que representamos vão mandar alguém para cá." TRATAMENTO REAL - A realização da feira trouxe alguma dificuldade para Caio de Alcântara Machado porque foi preciso selecionar visitantes de todas as partes do mundo. A ajuda das embaixadas brasileiras no exterior garantiu a vinda de representantes de 79 países - principalmente da Europa, América do Norte e América Latina, principais consumidores dos produtos brasileiros. Fora a verba de propaganda no exterior (3,3 milhões de cruzeiros), o governo gastará 15 milhões de cruzeiros para prover o transporte, a hospedagem e os serviços de recepção de seus mil convidados. Para trazê-los ao país, foi fechado um contrato de 1,5 milhão de cruzeiros com a Varig. No setor da hospedagem, além de trezentos apartamentos reservados no Guarujá, todos os principais hotéis de São Paulo foram obrigados a suspender a oferta de suítes (cada suíte se transforma em três apartamentos). Os cuidados chegam ao requinte de proporcionar aos visitantes britânicos, entre os quais há lordes e sires, o tratamento que o cerimonial britânico exige. Cada um deles terá à disposição um carro com motorista dignamente enluvado.
A linguagem cabalística das pautas de exportação encobre as vendas de alguns produtos singulares. A voracidade brasileira por divisas e a febre exportadora contaminaram os fabricantes de produtos exóticos com ou sem aspas. Já em 1967, por exemplo, o Brasil vendia 148 toneladas de papel higiênico para o exterior. Lamentavelmente, no ano seguinte as remessas caíram para a metade, uma vez que o maior comprador, a Bolívia, preferiu recorrer a outros fornecedores. (Louve-se, no caso, a fidelidade dos importadores paraguaios à qualidade do produto brasileiro: mantiveram em 1968 o mesmo volume de compras do ano anterior.) O Brasil também vende, mesmo que sem muita regularidade, cabelo de orelha de boi para ser utilizado na produção de pincéis de maquilagem; 1 milhão e meio de dólares, em 1970, para o Japão, em rãs abatidas, pele de sapo para carteiras de dinheiro, cintos e bolsas para os Estados Unidos, Europa e Japão e até tutano de boi, que entra na fabricação de bombas de napalm. Em 1970, depois de séculos de ausência, voltou a figurar na pauta brasileira um produto de ilustre passado: 46 toneladas de pau-brasil. Recentemente, a Cacex - Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil - divulgou uma divertida relação das "novidades surgidas na pauta de exportações", entre 1970 e 1971. Eis aqui uma seleção. n 12.000 macacos vivos para o Mercado Comum Europeu e Estados Unidos. n 381 serpentes vivas para os Estados Unidos. n 266 quilos de cálculos biliares para o Japão, no valor de 244.000 dólares. Os exportadores desconfiam que o produto seja utilizado na fabricação de remédios especialíssimos. Mas há informações também de que, devidamente preparado, seja injetado em ostras para provocar o nascimento de pérolas. Como se trata de uma venda altamente lucrativa, os exportadores, na verdade, jamais quiseram comprometer-se com o destino de seu produto. n 13.000 quilos de tamancos para os Estados Unidos e Canadá. n 4.000 quilos de estômagos e bexigas secas de animais, no valor de 530 000 dólares. n Uma cooperativa nordestina de artesanato vendeu 1500 cruzeiros em bonecas de pano para os EUA. n Barbatanas de baleia e tubarão renderam 10.000 cruzeiros em remessas para Hong Kong e França. n O Curtume Carioca faturou 50.000 cruzeiros com dog-toys - pequenos rolos para cachorro morder vendidos aos EUA. n Uma exportadora carioca conseguiu 360 cruzeiros por uma remessa de camundongos vivos e brancos para o Paraguai. n A Brinquedos Estrela vendeu 100.000 cruzeiros para Porto Rico em bonecos Topo Gigio - 5.000 dúzias. n A Livraria Allan Kardec, de São Paulo, recebeu 5.000 cruzeiros com a exportação de "livros de filosofia intitulados 'The Spirits' Book'", vendidos para a Inglaterra. n Uma empresa paulista conseguiu 108.000 cruzeiros com a venda de 3.000 moedas de ouro para a Suíça, comemorativas do tricampeonato mundial de futebol. n A Bela Vista - Produtos Alimentícios, de São Paulo, vendeu 288.000 pés-de-moleque (doce de amendoim, esclarece sabiamente a Cacex) para os EUA, faturando 9.000 cruzeiros. n A Exportadora Cerro Corá vendeu urnas mortuárias de madeira para o Paraguai no valor de 750 cruzeiros. n A empresa Gottems conseguiu a proeza de vender bandoneons, o instrumento para se tocar tango, para a Argentina, no valor de 3.000 cruzeiros. n A indústria Genaro Ferrante, de São Paulo, exportou cadeiras de barbeiro para a União Soviética. Desapontados, os vendedores confessaram que os compradores "escolheram, infelizmente, nossos modelos mais feios e antigos". |
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