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30 de abril de 1975
As eleições moderadas

A escolha portuguesa recaiu
sobre os partidos não radicais

Todos juntos, à meia-noite, cada um em casa, abrir as janelas e cantar "Grândola, Vila Morena - a nossa canção de liberdade". A sugestão, primeiro, partiu da Rádio Clube Português, de Lisboa, na noite de quinta-feira. Logo foi adotada também pela Rádio Televisão Portuguesa. Daí passou a ser espalhada de casa em casa, de boca em boca - e o povo atendeu. Muitos, realmente, abriram as janelas e cantaram. Outros, mais entusiasmados, saíram às ruas. E à meia-noite, em ponto, os portugueses entoaram, em coro, sua cantiga, a "Grândola, terra da fraternidade", onde "o povo é quem mais ordena", transformada em canção-símbolo do movimento de 25 de abril de 1974.

Por um momento Portugal parecia reganhar a unanimidade de um ano atrás. Dali a poucas horas, entre 8 da manhã e 5 da tarde de sexta-feira, o povo iria votar, depois de três semanas de febril, às vezes tensa, campanha eleitoral. Mas, naquele instante, dissensões ideológicas e partidárias à parte, a nova palavra de ordem de cantar substituía, subitamente, a esmagadora carga de slogans partidários, cartazes, comícios. Houve até champanha, compartilhado fraternalmente entre desconhecidos, para comemorar o primeiro aniversário da revolução que derrubou o regime salazarista. E quando amanheceu o dia, embora houvessem cessado as fanfarras e outras manifestações ruidosas, também não deixou de ser uma espécie de celebração o fato de, pela primeira vez em meio século, o povo português poder exercer o direito de participar de eleições livres.

Nas "assembléias eleitorais", como são chamados os postos onde se depositam os votos, tudo transcorreu em ordem. E, para um país de notória inexperiência eleitoral, os resultados, divulgados já no sábado, foram apurados com surpreendente rapidez - 38% dos votos para os socialistas, 26,5% para o Partido Popular Democrático (PPD), 12,5% para os comunistas, 7,5% para Centro Democrático e Social (CDS) e o restante dividido entre as oito agremiações menores.

Uma sombra - Talvez tenha sido uma decepção para os comunistas o magro terceiro lugar. Inversamente, talvez tenha sido encorajante para os socialistas a preferência de mais de um terço do eleitorado. No entanto, se houve barulho e festa nos momentos que antecederam as eleições, o silêncio recaiu sobre Lisboa, imediatamente depois de conhecidos os resultados. Mesmo os partidários de Mário Soares isentaram-se de qualquer comemoração de vitória - e justificava-se tal cautela. Em primeiro lugar, estas foram eleições para formar uma Assembléia Constituinte, não um governo. Além disso, havia a sombra dos militares, os verdadeiros detentores do poder, a esfriar qualquer possível excesso de euforia por parte dos líderes civis.

De qualquer forma, para um país onde nem mesmo o título de eleitor foi instituído (os eleitores apresentavam-se com simples cédulas de identidade), o povo português demonstrou notável apetite pela participação política. Dos 6,1 milhões de eleitores, nada menos de 91,8% votaram - sobrando uma irrisória margem de 8,2% de abstenção. E quanto aos votos brancos e nulos, não ultrapassaram os 7% - apesar da recomendação do Movimento das Forças Armadas para que votassem em branco as pessoas "não suficientemente esclarecidas sobre o programa dos partidos".

Por outro lado, o clima das eleições foi digno de qualquer outra democracia européia. Ao comparecerem a seus respectivos postos eleitorais, as duas principais estrelas da política portuguesa, Mário Soares, o líder socialista, e Álvaro Cunhal, comunista, foram forçados a permanecer estáticos por mais de 5 minutos, a pedido dos repórteres, posando no clássico gesto de depositar os voto nas urnas. E quando começou a apuração, na noite de sexta-feira, as amplas instalações da Fundação Gulbenkian transformadas num centro de computação de dados eleitorais e comunicações para os jornalistas, passaram a regurgitar de agitação, sacudidas pelo corre-corre de políticos, militares, cabos eleitorais e repórteres portugueses - além dos mais de 1000 correspondentes estrangeiros.

Cautela - No edifício, à disposição da imprensa, havia mais de oitenta aparelhos de telex, uma cabina de rádio, circuitos internos de televisão. Em toda as salas, televisores atualizavam constantemente os números apurados pelo computadores. E não era para menos que a imprensa do mundo inteiro acorrera a Portugal - os resultados eleitorais, esperava-se, diriam o que pensa o povo num país ocidental engatado numa revolução esquerdista.

E, de fato, pelo menos alguma coisa os resultados disseram. Em primeiro lugar, se não exibiu propriamente repúdio pelas teses esquerdistas, o eleitorado português, de modo geral, mostrou-se marcadamente propenso à cautela. E isso era demonstrado pela maciça votação atribuída aos partidos menos radicais do espectro político português, como o Socialista, o PPD e o CDS.

O Partido Socialista, por exemplo, durante toda a campanha eleitoral, apresentou-se claramente dissociado dos comunistas - acenando para o povo português com um programa classicamente moderado. Não raro, o seu líder, Mário Soares, exteriorizou apreço pelo pluralismo partidário. E, num claro apelo centrista, procurava caracterizar seu partido como o "defensor da convivência entre todos os portugueses".

Ponto central - Mas, talvez ainda mais importante, as eleições revelaram um povo capaz de manifestar suas opções - e nisso, certamente, os grandes perdedores foram os defensores do voto branco do MFA. "De fato, ficamos um pouco surpreendidos... Esperávamos um maior número de votos brancos", disse o próprio ministro da Comunicação Social, comandante Jorge Correia Jesuíno. Curiosamente, esse voto - normalmente um dado negativo numa eleição - acabou se transformando num dos pontos centrais das eleições portuguesas e não é surpreendente que isso tenha acontecido. Nascida quase por acaso, de uma sugestão solitária do primeiro-tenente Ramiro Correia, membro do Conselho da Revolução, durante um comício eleitoral, a campanha do voto branco acabou praticamente encampada pelos militares. Inicialmente, sua justificativa era a de que havia, no povo português, uma larga margem de eleitores não suficientemente educados politicamente para discernir entre os partidos. E, sendo assim, "para fugir à influência dos caciques políticos", como dizia Ramiro Correia, esses cidadãos deveriam votar em branco.

Decepção - Mas, com o tempo, o voto branco passou a ser chamado, inclusive, de "voto MFA". Na verdade, com sua anticampanha, os militares estavam fazendo uma campanha para si próprios. E, dessa forma, não pode deixar de soar como um amargo dissabor, para os membros do MFA, a reduzida quantidade de votos pelos quais propugnaram.

A decepção dos militares, depois das eleições, era evidente. E se traduzia em declarações como a do brigadeiro Otelo Saraiva, o influente comandante do Comando Operacional do Continente - para quem os resultados "não demonstraram a verdadeira vontade do povo". Por sua vez, o líder do partido mais intimamente ligado aos militares - o comunista Álvaro Cunhal - também manifestou dúvidas de que as eleições tivessem sido "totalmente conscientes". E chegou a formular algumas queixas específicas, afirmando ter havido falta de liberdade para os candidatos comunistas no norte do país, tradicionalmente conservador.

De qualquer forma, mesmo arranhados pelos resultados eleitorais, os militares continuarão mandando em Portugal. E havia uma evidente preocupação de todos os líderes políticos, em seguida às eleições, em não demonstrar divisões profundas nem provocar confrontações indesejáveis. Na tarde do sábado, nem bem conhecidos os resultados, apareceram na televisão, fraternalmente reunidos no mesmo programa, os líderes dos quatro principais partidos. Ao final do programa, todos se deram as mãos, cordialmente. Esta imagem de perfeita tolerância interpartidária, contudo, dificilmente resistirá por longo tempo. Basta relembrar as semanas que precederam as eleições.

Uma exceção - "No eterno devir da história, poucas horas caíram sobre o encerramento da primeira campanha eleitoral do Portugal novo, mais independente e mais livre. Entramos no período que a lei e o bom senso destinam à meditação dos eleitores na antecâmara de uma transcendente decisão", anunciou pomposamente o presidente de República, general Francísco da Costa Gomes, ao meio-dia de quinta-feira, iniciando a mensagem que dirigiu ao país pela televisão. A essa hora, Lisboa, Porto e todas as demais cidades do país já haviam reencontrado sua calma habitual. E suas paredes, soterradas por cartazes dos mais variados matizes, formas e tamanhos, forneciam apenas unia imagem muito pálida do que foi essa grande batalha eleitoral.

Vivida freneticamente durante três semanas, ao ritmo de mais de 500 comícios e cerca de 5 000 sessões de esclarecimento, a campanha atingiu as mais remotas aldeias do país e custou aos minguados cofres nacionais cerca de 7 milhões de cruzeiros - excluindo-se os gastos de cada partido. Virtualmente, nada - das placas de sinalização nas estradas até o asfalto das ruas centrais das cidades - foi poupado pelos pincéis dos milhares de militantes dos doze partidos políticos envolvidos na disputa de um eleitorado completamente desconhecido.

Ainda assim, até a manhã ensolarada de sexta-feira - e dada a proibição formal de divulgação de qualquer sondagem de opinião durante a campanha - sabia-se apenas que 54% do eleitorado português é constituído por mulheres e que 60% tem mais 50 anos. Sabia-se tudo, ironicamente, dos quase 2 000 cidadãos enquadrados na chamada lei de "incapacidade eleitoral": 1 200 são policiais e informantes da extinta PIDE, atualmente presos; os demais, apenas portugueses que, entre o dia 28 de maio de 1926 - data do golpe que encerrou a Primeira República - e o 25 de abril de 1974, ocuparam função-chave no Executivo, Legislativo, Judiciário ou nas Forças Armadas salazaristas. Foi aberta apenas uma exceção - para o presidente Costa Gomes, ex-chefe do Estado-Maior no governo de Marcello Caetano.

Zona elástica - Quanto aos 6,1 milhões de portugueses habilitados a se apresentarem nas 4 027 zonas eleitorais do país, eles se tornaram forçosamente, durante 21 dias consecutivos, a presa mais cobiçada da caça ao voto que mobilizou a nação de norte a sul. De todos os partidos envolvidos nessa batalha, entretanto, foi sem dúvida o de Mário Soares que executou os mais extravagantes malabarismos ideológico-semânticos.

Com efeito, o vasto apoio popular conseguido pelos socialistas nas urnas pode ser explicado, em grande parte, pela decisão da liderança de afastar-se de sua posição inicial de partido confessadamente marxista, para instalar-se numa zona elástica e maleável de centro-esquerda. "Ao povo português não interessa hoje saber o que pensavam Marx, Lênin, Engels ou Mao Tsé-tung", pregava o atual ministro da Justiça e número dois do PS, Francisco Salgado Zenha, durante um comício na cidade de Braga, "pois não nos consta que algum desses pensadores - e sem desprimor para eles - tenha abordado alguma vez os problemas portugueses".

Intervenções como essa e a insistência com que centenas de dirigentes e militantes do PS lembravam que o seu partido "não quer substituir o capitalismo monopolista pelo capitalismo de Estado, nem a classe capitalista por uma nova classe dominante", não deixavam dúvidas sobre a meta visada: despontar como única alternativa ao Partido Comunista e fiel da balança no acelerado processo político português.

Grande sensação - Para tanto, o QG eleitoral socialista montado num conjunto de salas do primeiro andar da rua Dom João V, em Lisboa, desdobrou-se em eficácia e engenhosidade. Nos 300 000 cartazes despachados através do país, o apelo era sempre o mesmo: "Vota pela Liberdade". E nos mais de 1 000 comícios e sessões de esclarecimento promovidos nas três semanas regulamentares, os candidatos socialistas contaram com o reforço de vinte peruas equipadas cada uma com dois televisores vídeo-cassete que exibiam, em praça pública, filmes sobre o Partido, seus dirigentes atuais, a história do socialismo em Portugal.

Contando gastar menos de 1 milhão de cruzeiros durante a campanha, o PS, segundo seu tesoureiro, Carlos Carvalho, recolheu fundos essencialmente nas cotizações de seus 70 000 filiados, nos subsídios paralelos recebidos de simpatizantes e de pelo menos um de seus associados europeus da Segunda Internacional - o partido no poder na Holanda. Sem falar na parafernália de bugigangas vendidas durante os comícios ou em bancas armadas nas principais cidades do país e que compreendiam desde os tradicionais distintivos de lapela até suportes de caixa de fósforos, passando por agendas, lapiseiras, boinas vermelhas e cinzeiros. Mas a grande sensação socialista foi sem dúvida o apelo "Vota OS", sussurrado no rádio pela voz macia de Naida, secretária do coordenador da campanha e homem de confiança de Mário Soares, Victor Cunha Rego, durante os 10 minutos diários de horário eleitoral.

Mesmo esquema - Já os comunistas, quer no rádio, televisão ou nos comícios, utilizaram como principal arma eleitoral o passado clandestino de seu partido, os 308 anos de cadeia que somam os membros do Comitê Central e os 440 anos que somam os 247 candidatos apresentados. "Nós, comunistas, fomos os moradores habituais das prisões fascistas", era uma frase repetida por quase todos os seus pretendentes à Assembléia Constituinte. Coordenada por uma Comissão Técnica Eleitoral, operando em Lisboa no centro de Trabalho da célula do bairro de Arroios, em estreita ligação com o Comitê Central, a campanha do PC obedeceu ao mesmo esquema de propaganda básico que o partido vem utilizando desde que passou à legalidade. Larga mobilização de militantes - calculados hoje em cerca de 100 000 nas mais de 300 células existentes no país - para as tarefas mais pesadas de colagem de cartazes, distribuição de volantes e panfletos pelas ruas, pichação de paredes e atividades congêneres. Na verdade, muitos dos militantes que trabalharam na campanha comunista tiraram férias de seu trabalho normal para se dedicar ao partido. E todos, ao que parece, além de pagar uma contribuição mensal, contribuíram com o equivalente a um dia de trabalho para a campanha de fundos.

Sem compromisso - O semanário Avante, por sua vez, órgão oficial do PC, foi transformado em tablóide diário durante os dias de campanha eleitoral, funcionando como uma espécie de guia para os militantes e simpatizantes comunistas. Espalhados em suas oito páginas, havia indicações sobre os próximos comícios do partido, coberturas completas sobre os já realizados, com transcrição dos discursos mais importantes, artigos de fundo sobre temas como "Católicos e comunistas", informando serem católicos alguns candidatos do PCP, e ataques violentos, em estilo direto, ao PPD, PS e partidos de direita.

Nem mesmo o casal Jean-Paul Sartre-Simone de Beauvoir, que realizou uma viagem de estudos a Portugal no mês passado, foi esquecido pelo órgão comunista. "Eles tinham uma missão a cumprir", dizia com ironia o autor de um editorial intitulado "Os adivinhos do passado", "deslocaram-se a Portugal para estudar a revolução portuguesa. Esse objetivo ambicioso é um tanto preocupante para nós. De acordo com outros precedentes, o casal, ao regressar à França, escreverá livros para explicar ao povo português e ao MFA o 25 de Abril e seus desdobramentos."

A linha política adotada pelo PC durante a campanha foi resumida com firmeza por Álvaro Cunhal, numa de suas duas intervenções na televisão. "Os comunistas nada têm a prometer aos trabalhadores", afirmou ele, "dizemos apenas que o PCP está com eles, como esteve e provou estar no tempo do fascismo. São os próprios trabalhadores os responsáveis pela construção do socialismo em Portugal. O PCP bate-se pela construção de uma sociedade socialista e o socialismo é incompatível com a sobrevivência dos monopólios e latifúndios. Com eles, o PCP não aceita compromisso."

Soluções práticas - Em franca oposição às teses comunistas, o PPD, por sua vez, concentrou sabiamente suas maiores atenções eleitorais no norte do país, baluarte de uma clientela mais provável, embora tivesse apresentado candidatos em todas as circunscrições eleitorais. Desfalcado da figura de seu secretário geral Francisco de Sá Carneiro, em tratamento médico na Inglaterra, a campanha foi entregue à direção do ministro sem pasta Joaquim Magalhães Mota, que se fixara uma meta eleitoral próxima dos 30%, e para tanto percorreu as principais cidades do país situadas ao norte do rio Tejo, ostentando um boné com a flecha branca do partido.

Nessa área, o PPD tinha boas chances iniciais de arrecadar votos para dar mais alento ao projeto social-democrata que apresenta como solução de todos os males do país. Com habilidade, seus militantes expunham "soluções práticas para os problemas mais urgentes dos portugueses, já intoxicados de política", na forma de textos e comunicados.

Como todos os demais partidos, o PPD, segundo seus dirigentes, teve de depender das cotizações de militantes e da venda do habitual arsenal de objetos para sustentar sua campanha. Dois dias antes das eleições, entretanto, uma denúncia pública feita pelo sindicato dos bancários veio obscurecer as contas dos social-democratas: após a nacionalização dos bancos ordenada pelo MFA, teriam sido descobertas duas transações irregulares feitas antes de 11 de março pelo Banco Totta e Açores (grupo CUF) para transferir 3,9 milhões de cruzeiros ao PPD e 1,8 milhão ao CDS.

Única oposição - Se assim for, resta saber onde foi parar essa doação , uma vez que o Centro Democrático e Social sequer conseguiu enviar a tempo seus poucos cartazes com a frase "Queremos responder" para o norte do país, por falta de dinheiro. Mas a verdadeira razão da tímida campanha do CDS foi sem dúvida a falta de segurança. Duas vezes, a sede do partido, instalada num velho e sóbrio casarão do largo de Caldas, foi saqueada por militantes de extrema esquerda.

Os homens do CDS tinham outras queixas. "Somos constantemente vigiados", desabafou um deles, "e todas as pessoas que vêm à nossa sede têm as chapas de seus carros anotadas pela extrema esquerda. Chegaram mesmo a ameaçar de rapto o nosso presidente, doutor Freitas do Amaral, que foi conselheiro de Estado até o 11 de março."

Acusado pelos ultra-radicais de ser uma organização nazista e único partido a se apresentar de fato como oposição ao atual governo português, o CDS concorreu com 235 candidatos e obteve inegável satisfação política. "Com o acesso à televisão e aos jornais desimpedido durante a campanha", declarou a VEJA João Diogo Weinstein, dirigente do partido, "tivemos grande adesão popular. O que mostra que, se tivéssemos tido as mesmas oportunidades antes, seríamos hoje um dos maiores partidos de Portugal."

Também para seus arquiinimigos, os partidos de extrema esquerda - todos insignificantes em termos de militantes -, a democratização dos meios de comunicação foi o grande atrativo oferecido pela campanha eleitoral. Antes de se inscreverem para as eleições, todos eles ainda dedicaram exaustivas horas em reuniões visando encontrar uma tese aceitável para participar do "voto burguês". Uma vez encontrada, puderam propagar durante 21 dias, e de graça, suas idéias revolucionárias.

Qualquer aldeia - Folclore à parte, inevitavelmente a maratona dos partidos acabaria sendo dominada pelas figuras dos dois condestáveis da esquerda portuguesa, Soares e Cunhal, exigindo, de cada um deles, doses prodigiosas de empenho físico e político. A tarefa parece ter sido particularmente dura para o líder socialista. A fortuna do partido dependia em boa parte de seu prestígio pessoal junto a vários setores do eleitorado, sobretudo a classe média - e isso tornou sua presença em comícios uma necessidade virtualmente indispensável.

Para um país que passou meio século sem o exercício aberto da política, Soares é um notável espécime de tribuno - fluente, claro, sarcástico e capaz de falar horas seguidas de improviso. Aos 50 anos, sua disposição física parecia intacta: no início da campanha no AIgarve, conseguiu fazer vinte comícios em 48 horas, num trecho de 150 quilômetros entre Vila Real e Faro. Ali, mandava sua filha Isabel, uma estudante de medicina de 23 anos e chofer do pai durante a campanha, parar o carro em qualquer aldeia - onde, de cima de um banco de jardim ou de uma janela emprestada, disparava sua bateria oratória.

Embora não abrisse mão de seu costume de almoçar bem - tanto sardinhas assadas nos botequins no bairro de AIcântara, em Lisboa, como refeições mais alentadas no elegante Pabe - o líder do PS teve raros momentos de sossego, dormindo nunca mais de quatro horas por noite.

Ocupado em palmilhar todos os círculos eleitorais de Portugal, Soares, nas últimas semanas, fez apenas fugazes aparições no QG socialista e em seu próprio apartamento lisboeta, que ocupa o andar inteiro de um prédio da antiga rua Malpique - hoje rua João Soares, pai de Mário e educador de reputação na capital. Igualmente, o tempo dedicado à família - além de Isabel, a mulher, Maria de Jesus - ela própria candidata a deputada -, e o filho João, de 25 anos e diversas amizades entre grupos maoístas radicais - foi o mínimo possível.

Engraxar as botas - Em nenhum momento, porém, essa frenética correria pelo país fez Soares perder sua cáustica, agressiva retórica. "Não queremos que a OTAN saia do Minho e o Pacto de Varsóvia entre pelo Algarve", fulminou ele num comício, deixando claro o tom anti-PC que teria a campanha socialista. Não poupou patrióticos recados aos comunistas, mesmo que envolvessem um tema-tabu - as Forças Armadas. "Para sermos aliados do MFA", resumiu ele numa concentração em Lisboa, "não precisamos andar, diariamente, a engraxar as botas de nossos soldados."

O alvo final desses ataques, Álvaro Cunhal, também subiu em várias oitavas o seu tom - passando das cautelosas congratulações pela chegada da democracia, um ano atrás, a tiradas cada vez mais furibundas contra mais ou menos todos aqueles que não portam a carteirinha rosa-escuro do PC português. Nem por isso, entretanto, Cunhal perdeu sua fria compostura. Ao contrário, durante toda a campanha deixou ainda mais marcada para os portugueses sua severa, digna e seca imagem de lente em direito, imutavelmente enfiado num terno cinza chumbo e, em contraste com Soares, preferindo ler seus discursos de laudas previamente datilografadas.

Como arquétipo do militante comunista clássico, Cunhal, aos 62 anos, continua dispensando um superior desprezo à divulgação de informações sobre sua vida pessoal. Com efeito, fora um fechado círculo de segurança, poucos sabem sequer onde mora o líder do PC em Lisboa - o mais provável, segundo se comenta, é que tenha vários endereços. Casado em segundas núpcias com uma checoslovaca, fruto de seu longo exílio em Praga durante o salazarismo, Cunhal tem uma filha jovem - e isso é tudo o que se sabe sobre sua família.

Um só golpe - Qualquer informação a mais sobre o líder comunista, se fornecida durante a campanha, teria suscitado interesse instantâneo junto à população de Lisboa, pois parecia não haver nada de mais significativo na capital do que a acirrada curiosidade eleitoral.

Mas houve. Paralela à campanha eleitoral, Portugal deu passos ousados em sua decidida trajetória para o socialismo. E esses passos não parecem trazer, pelo menos a curto prazo, um alívio para as crescentes dificuldades econômicas do país. Muito menos para a classe empresarial. "Não há sangue nas paredes", declarou a Sérgio de Oliveira, enviado especial de VEJA a Lisboa, o doutor Morais Cabral, diretor executivo da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP). "Mas viver em Portugal, hoje, é viver em tensão permanente."

De um só golpe, o governo provisório decretou, no último dia 16, a nacionalização de 24 empresas de base dos setores de eletricidade, petróleo e transportes - e assim, segundo os círculos empresariais, assumiu o controle de mais de 60% da economia nacional, tal como na Polônia. Além disso, o Conselho Superior da Revolução inaugurou a reforma agrária reduzindo drasticamente o tamanho das propriedades do sul (o atual limite é de 500 hectares), congelou os preços dos alimentos básicos e prometeu anunciar para breve um severo programa de austeridade. Mais do que nunca, o MFA revelou sua decisão de comandar sozinho a revolução portuguesa, adotando medidas que já não são consideradas de transição ao socialismo, mas em si mesmas socialistas.

Mesma visão - Nos círculos financeiros, a indagação comum consiste em saber como o MFA irá gerir a fantástica engrenagem econômica que, um pouco mais de um mês, assumiu em suas mãos. A começar pelos bancos, nacionalizados sem a elaboração de um documento definindo claramente os novos critérios. O próprio Álvaro Cunhal, em recente entrevista à agência de notícias ANI, reconheceu os problemas colocados pela administração das empresas nacionalizadas. "Esse processo é muito complicado", disse ele, "e travamos uma batalha diária para convencer os trabalhadores da necessidade de uma gestão eficaz para a redução dos déficits." Segundo Cunhal, o setor público encontra-se todo deficitário - desde o orçamento do Estado e balança comercial, até o balanço de pagamentos e empresas públicas.

Esses déficits se exprimem, nas empresas, com números inquietantes: Caminhos Portugueses, a companhia nacional de navegação, 3 milhões de escudos (cerca de 900 mil cruzeiros); TAP, 500 000 escudos; Companhia de Transportes Marítimos, 500 000 escudos. O déficit do balanço de pagamentos do país - o primeiro em muitos anos - foi de 16 milhões de escudos e o da balança comercial ultrapassou os 60 milhões. Embora o Banco de Portugal ainda tenha reservas da ordem de 50 milhões, elas não são inesgotáveis.

Na verdade, os acontecimentos se desenrolaram com vertiginosa rapidez em Portugal desde que os tanques entraram em Lisboa, um ano atrás, dando início a uma das menos sangrentas revoluções européias - o fascismo substituiu o comunismo como xingamento, o capitalismo foi posto de lado para dar lugar ao socialismo, as prisões estão repletas de direitistas ao invés de esquerdistas. Ironicamente, porém, as eleições da semana passada mostraram que, por razões certamente opostas e com intenções declaradamente adversas, o MFA e alguns porta-vozes da esquerda portuguesa assumiram a tão combatida visão salazarista sobre a incapacidade do povo comum de determinar o que é melhor para seus interesses.

Os planos do MFA não mudam com as eleíções

Para muitos, ele é a estrela em ascensão dentro do MFA. E, de fato, desde o 25 de abril, o almirante Antônio Rosa Coutinho, 49 anos, nunca deixou de ocupar postos importantes. De início, foi logo convidado a ser uma das sete cabeças da Junta de Salvação Nacional. Hoje, preside a importante Comissão Executiva de Extinção da Ex-PIDE, além de ser um dos membros mais destacados e influentes do Conselho Superior da Revolução, recentemente criado. Em entrevista exclusiva a Paulo Sotero, de VEJA, Rosa Coutinho, de camisa de gola olímpica - "É muito pomposo ficar vestido de almirante o tempo todo", diz ele -, fala do significado das eleições da semana passada.

VEJA - Que significado e importância o senhor atribui às eleições portuguesas?

ROSA COUTINHO - Em primeiro lugar, há que fazer sentir o papel didático que essas eleições têm como primeira lição de democracia para o povo português. O povo português tem que aprender o que é o voto, como se vota. Essas eleições permitiram-lhe adquirir essa consciência e praticar um ato do qual se viu impedido durante cerca de cinqüenta anos. Em segundo lugar, foram eleitos deputados a uma Assembléia Constituinte que vai ter o trabalho de elaborar uma Constituição. Dizer-se que a Constituição está praticamente feita é uma fantasia. Os deputados têm noventa dias para fazer uma Constituição e ao fim de noventa vão pedir mais noventa para continuar. Se estivesse realmente feita até se podia fazer em quinze.

VEJA - Três partidos políticos foram impedidos de participar das eleições. Outro, o CDS, reclama que não lhe deram garantias de se expressar livremente. Pode-se assim falar em campanha e eleições livres?

ROSA COUTINHO - Sim. O PDC foi eliminado por participação ativa de seu secretário geral no golpe contra-revolucionário de 11 de março. Não admitimos que um partido se acoberte com um nome e depois atue não como partido político mas como organização conspiratória. Da mesma maneira, o MRPP. Encontramos provas de envolvimento dessa organização no 11 de março. O outro partido, o AOC, foi eliminado por um ataque feito à Intersindical do norte. Quanto ao CDS, não tem razão nenhuma. A fim de que o eleitorado do CDS possa exercer o seu direito de voto, fizemos até uma lei especial para que o partido pudesse votar isolado e não ficasse eliminado pela coligação que já tinha feito com o PDC.

VEJA - Que conclusões o senhor tiraria da campanha eleitoral?

ROSA COUTINHO - Eu poderia dizer que foi mal feita. Os partidos não mostraram calma, habilidade, para fazer uma campanha interessante. Houve mesmo partidos que fizeram o que eu chamo duma campanha negativa, isto é, conseguiram mais votos para seus adversários do que para eles próprios. Isso também vem com o hábito. Não são só os portugueses que estão a aprender coma democracia: também os partidos têm que aprender como agir.

VEJA - Os resultados das eleições poderão provocar mudanças na linha programática do MFA?

ROSA COUTINHO - Não, de maneira nenhuma. As eleições foram feitas apenas e unicamente - como já dissemos não sei quantas vezes - para escolher os deputados que vão elaborar e aprovar a Constituição deste país. Assim, os deputados da Assembléia Constituinte não têm outra missão além de elaborar a Constituição, e não terão outra influência fora do campo em que estão definidos.

VEJA - À luz dos resultados, não é de se prever um reajustamento na composição do governo?

ROSA COUTINHO - Já esclarecemos que não vai haver necessariamente nenhuma adaptação para esse efeito. Essas alterações serão feitas as se realizarem eleições para a Assembléia Legislativa.

VEJA - O senhor propôs recentemente a formação de um novo partido, que seria, conforme explicou, um MFA civil. Seria um partido único?

ROSA COUTINHO - É claro que não seria um partido único, visto que isso nunca esteve no nosso pensamento. Nem sequer necessariamente um partido, mas sim uma coligação de partidos que adotem um caminho socialista adaptável ao programa já traçado. Atualmente, da grande gama de partidos portugueses - são cerca de quinze -, uns cinco poderão integrar-se perfeitamente dentro dessa proposta que eu apresentei. Sentimos realmente necessidade de encontrar uma coligação de partidos dentro da via socialista que corresponda às ideologias do MFA e que seja realmente o seu suporte civil. Será difícil governar este país se não encontrarmos uma coligação coerente que permita as ações executivas do governo e lhe dê apoio na Assembléia Legislativa.

VEJA - Quais são os cinco partidos que o senhor diz caberem nessa coligação?

ROSA COUTINHO - Começando, digamos talvez, da direita englobaria o OS, o FSP, o MDP, o PC e o MÊS. Pelo menos estes cinco têm pleno lugar nessa aliança socialista, na qual o MFA poderia se apoiar.

VEJA - Importantes jornais europeus vêm afirmando que o atual processo político português é o resultado de uma vasta conspiração comunista, que controla politicamente o MFA. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

ROSA COUTINHO - Trata-se de uma campanha tremendamente tendenciosa que o povo português e sua Revolução têm sofrido. Não sei por quê, mas parece que na Europa há subitamente medo deste irmão pobre de quem nunca ligaram. Agora, os países europeus parecem hipocritamente preocupar-se com a nossa democracia interna, quando durante cinqüenta anos não tiveram qualquer preocupação a esse respeito. Isso mostra a má fé com que estamos sendo tratados e mostra que a Europa gostaria de continuar a ter aqui um irmão pobre mas bem comportado. Pois bem, Portugal resolveu libertar-se desse jugo e, embora continue pobre, deixou de ser ridículo. Passou a afirmar a sua personalidade. A prova é que, com má fé ou má vontade, nosso país está agora a aparecer nas primeiras páginas de todos os jornais do mundo. Aqui em Portugal criamos aquilo que se pode chamar de a heresia portuguesa, isto é, consideramos os comunistas homens iguais aos outros, que têm seu direito de voz, que a sua maneira de pensar tem de ser considerada com uma das maneiras de pensar da civilização mundial, não necessariamente para ser seguida, mas para ser discutida e aceita como qualquer outra.

VEJA - Há poucas semanas os jornais de Lisboa divulgaram depoimento de dois militantes de esquerda que anunciavam ter o Partido Comunista assumido o controle dos arquivos da ex-PIDE, com a intenção de criar uma nova polícia política em Portugal. Como presidente da Comissão Executiva de Extinção da ex-PIDE, o senhor poderia esclarecer isso?

ROSA COUTINHO - Há aí uma completa fantasia. Essas afirmações não representam mais do que aquilo que eu classifico de lutas partidárias estéreis. Os arquivos da ex-PIDE estão plenamente sob controle militar. Eu sei que eles têm despertado a cobiça de muitos partidos políticos. Há uma coisa que eu aprendi durante toda a minha vida: os partidos e os grupos que mais reclamam são aqueles que mais desejam fazer batotas.

VEJA - Encerrado esse primeiro período eleitoral, quais os principais problemas que Portugal irá enfrentar agora?

ROSA COUTINHO - Considero que Portugal tem que se conscientizar para a batalha da economia, da produção. Situamo-nos atualmente dentro dos níveis de consumo mais baixos da Europa. Seria absurdo baixar o nível ainda mais. Há necessidade absoluta de aumentar a produção a um ritmo superior ao aumento de consumo. É uma batalha econômica que evidentemente tem que ser feita com base política para que os trabalhadores portugueses se conscientizem de que a partir de agora não estão a trabalhar para usufruto de uma classe privilegiada, mas para eles mesmos.

VEJA - O MFA ainda teme possíveis tentativas de golpes internos?

ROSA COUTINHO - Internamente não tememos nada. Externamente, porém, estamos preocupados com a campanha que tem sido feita contra Portugal, principalmente através de órgãos de informação mal informados ou de má fé, e talvez esteja se procurando fazer aqui um processo de desestabilização semelhante ao que foi feito no Chile.

VEJA - O socialismo português respeitará a iniciativa e a propriedade privada?

ROSA COUTINHO - A iniciativa privada tem que ser respeitada desde que contribua para o bem geral. Nas fábricas, pensamos que a gestão terá que ser coletivizada sob varias formas: cooperativista, de co-gestão, de autogestão, etc. Quem vai definir essas formas de gestão será o próprio povo. A propriedade privada continuará a existir. Ela não é nociva, desde que não permita a escravização do homem pelo limitem.

 

O Portugal silencioso

Nas aldeias, a luta do padre contra a foice e o martelo

À margem dos refinados duelos ideológicos dos gabinetes de Lisboa, um Portugal silencioso, carregado de frustrações e, freqüentemente, de extrema pobreza, se viu lançado nos últimos meses no turbilhão esquerdista que envolveu o país - e tornou-o, pela primeira vez em oito séculos de história, um centro vital de operação política. Na semana passada, ao irem enfim às urnas, centenas de comunidades do interior quase sempre minúsculas, fizeram ouvir sua voz - e, até o último momento, muito do que tinham a dizer ainda permanecia como uma interrogação. Pouco antes das eleições, o correspondente de VEJA em Lisboa, Paulo Sotero, percorreu as aldeias de Baçal, no norte, e Baleizão, no sul, retratos clássicos desse vasto e estagnado Portugal. Seu relato:

O lugar, inevitavelmente, evoca um refúgio de fantasmas. Em suas esburacadas e tortuosas vielas, apenas uma ou outra galinha, eventualmente um burro de carga, dá algum ritmo à vida. De vez em quando, desponta na janela de uma das arruinadas casas construídas com blocos de granito cinzento, e cobertas de pedra-lousa, um perfil fugaz de mulher, destacado pelo negro do vestido e do chale. O tempo é lerdo em Baçal, uma das muitas vilas esquecidas na topografia árida e ondulada de Trás-os-Montes - região de ventos gelados e tida corno a mais atrasada de toda a Europa. Além disso, é tida como um fértil celeiro de agentes da extinta PIDE e berço de uma das figuras mais sinistras do salazarismo - o ex-ministro do Interior Gonçalves Rapazote, hoje asilado ria Espanha.

Fincada nas vizinhanças da barroca cidade de Bragança, a capital da região, a pouco mais de 550 quilômetros de Lisboa e a 20 da fronteira espanhola, a aldeia não conhece ainda a luz elétrica e "vive nos tempos medievais", como reconhecem alguns de seus 500 habitantes. Da mesma forma que em tantas outras comunidades semelhantes, o pouco de vida coletiva de Baçal se concentra, nas manhãs de domingo, sob o vacilante teto da Igreja de São Romão, o padroeiro do lugar. E ali o padre Manuel Martins, de 70 anos e há 28 pároco da aldeia, exerce o papel não só de chefe espiritual como de constante conselheiro político.

Num de seus recentes sermões, padre Martins, um velho robusto de faces rosadas, alertava contra "a escalada que o demônio vem fazendo nos últimos tempos, perseguindo os padres e os católicos". Aparentemente, a esquerda pouco teria a esperar de Baçal. Pois, mesmo tendo diminuído o tom de suas críticas, por recomendação do bispo de Bragança ("e por medo de ser preso", acrescenta ele), o pároco não está disposto a transigir com "os materialistas que querem dividir tudo por igual para ficar com as terras" - e, fora dos sermões, recomendava aos amigos e aos empregados dos 300 hectares que herdou da família a votar no PPD ou no CDS, "Já que proibiram o Partido Democracia Cristã".

Escavadeira - Para os poucos militantes do PC ou do PS que até a semana passada se aventuravam por essa região, a Igreja não é o único adversário. "A própria estrutura econômica, baseada em pequenas propriedades de regime quase feudal", sugere o candidato esquerdista Manuel Garcia, de Bragança, que viveu onze anos como asilado no Brasil, "gera um conservadorismo visceral."

Não chegaram a surpreender, portanto, fatos como o ocorrido na vizinha Moncorvo, onde dois meses atrás um grupo de oficiais do MFA foi escorraçado da aldeia, onde pretendia promover uma "sessão de dinamização cultural". Na verdade, além da Igreja e da mentalidade transmontana, há ainda a imigração, que carregou para a França, Alemanha e Suíça a maior parte dos jovens e trouxe de volta homens que, após anos de privações no estrangeiro, querem fazer frutificar as economias sofridamente amealhadas e entendem mal as teses distributivislas da esquerda.

A emigração chegou mesmo a deixar marcas dramáticas em Trás-os-Montes - é comum, por exemplo, atravessarem-se em seguida duas ou três aldeias semi-abandonadas com seu cenário sombrio de casas há muito fechadas e ameaçando desabar. E Baçal, embora não muito atingida em comparação aos níveis da região, não escapou ao esvaziamento: de suas 120 habitações, quase trinta estão abandonadas. Poucos voltarão logo à aldeia - e operários, como Adolfo Mariz, de 37 anos, que regressou a Baçal alguns meses atrás, após três anos corno pedreiro na França e sete numa mina de ferro em Perth, na Austrália, nada querem com o PC ou com o PS.

Com parte de suas economias, equivalentes a 250 000 cruzeiros e muito de seu trabalho como operador de máquinas pesadas em Perth, Mariz comprou uma escavadeira italiana com a qual presta serviços na região a 80 cruzeiros a hora. "Se isso virar para o comunismo, largo tudo e volto para a Austrália", diz ele. "Uma coisa que não me serve é trabalharem todos para o mesmo monte -pois ganha igual quem trabalhou e quem não trabalhou." Igualmente, nenhuma esperança para a esquerda havia do lado dos poucos proprietários de Baçal - como Barnabeu Spinelo, dono de 400 hectares e considerado rico na região. "Se o comunismo fosse bom", sentencia ele, "nossos imigrantes não iriam para a Alemanha Ocidental, e sim para a outra, não é mesmo?"

Feudo - Nenhuma outra aldeia poderia ser tão oposta a Baçal como Baleizão, uma típica comunidade do Alentejo, com suas casas brancas e de telhados baixos a pouco mais de 200 quilômetros de Lisboa. Ali, ao contrário do resto de Portugal, muros e paredes foram poupados da avalancha de cartazes eleitorais. "É que o povo, aqui, vota todo no Partido Comunista", explica Francisco Bugio, 64 anos e dono de um botequim. "Os outros partidos não vão desperdiçar tinta em Baleizão - nem nós."

Feudo intocável do PC, conquistado milimetricamente e na clandestinidade ao longo dos últimos quarenta anos, Baleizão faz parte, ao lado de outras vilas da região do Couço, no Alto Alentejo, do curioso aglomerado conhecido como "aldeias vermelhas". Mais ainda, é uma espécie de relicário rural do PC: metade de seus moradores com idade superior a 40 anos já esteve pelo menos uma vez nas cadeias do regime deposto, muitos quadros do partido saíram dali durante o salazarismo e existe até mesmo uma mártir comunista local, a jovem Catarina Eufêmia, morta a tiros pela PIDE durante uma greve em 1954.

Catarina repousa num túmulo hoje enfeitado com a foice e o martelo, em Baleizão. e seu rosto, dividindo com o de Lênin os distintivos de lapela, tornou-se um símbolo da cidadezinha - tanto quanto "Chico Sapateiro", ou "Chico Miguel", que após fundar a primeira célula do PC local passou 21 anos em diversas prisões, outros vinte na clandestinidade e é hoje um membro considerado influente na comissão central do partido. Mas por que essa aldeia modesta, que perdeu com a emigração metade dos 3 000 habitantes que tinha há quinze anos, juntou-se ao conglomerado vermelho? O fator primordial, acreditam todos, está na sua localização.

Revoltas - De fato. além de ostentar um vago e histórico anticlericalismo, o Alentejo é uma das poucas regiões de Portugal onde há algo parecido com o latifúndio - e onde existem, em conseqüência, assalariados rurais. Em Baleizão, por exemplo, não há muitas maneiras de se ganhar a vida senão empregando-se nas grandes fazendas de trigo da planície alentejana e o regime de semi-escravidão que sempre norteou as tabelas de locais foi gerando, ao longo dos anos, surdas revoltas que o PC, único partido organizado na clandestinidade durante o salazarismo, vem pacientemente capitalizando desde a década de 30.

"O salário de um dia não dava para comprar um pão", lembra João Refouto, um aposentado de 63 anos. "Foi então que começamos a nos reunir por esses ermos, à noite, depois do trabalho. Isso já faz quarenta anos." Outro pioneiro, Antônio de Assunção de 54 anos, lembra-se da presença constante da PIDE na aldeia. "Eles sempre prendiam os mais conhecidos, mas isso só aumentava nossa raiva e fazia crescer o partido", diz ele, exibindo sua carteirinha de filiado com doze divisões no verso, cada um correspondendo à contribuição mínima mensal de 10 escudos (cerca de 3,50 cruzeiros) devida pelos camponeses. "Um tipo aqui é muito conservador e sereno, mas no fundo é mais teimoso que uma mula.

Mesmo com a crescente inflação que tem punido a desordem econômica do novo regime, os lavradores de Baleizão ainda festejam seus recentes e vertiginosos aumentos de salários - que fazem um trabalhador no trigo ganhar, hoje, o equivalente a 1 300 cruzeiros por 25 dias de trabalho, contra 800 para as trabalhadoras. Eles preferem falar mais, no entanto, de sua obstinação política, e citam o exemplo da camponesa e costureira Mariana Janeiro. Presa durante nove anos por sua militância comunista, ela voltou a Baleizão cega e paralítica após as torturas da PIDE - para assumir a direção da célula local do partido.

 

 


 
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