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29 de dezembro de 1993
Cara a cara
com o Brasil

Em 1993 Herbert de Souza soube
captar a imaginação de todo
um país carente de cidadania

Betinho não foi eleito por ninguém. Mas poderia ser o sujeito oculto da pesquisa "83% dos brasileiros acreditam que o Brasil é um país viável", divulgada no final de novembro pelo DataFolha. Sobrevivente teimoso de um formidável elenco de fatalidades pessoais, ele espelha, de certa forma, a tenacidade com que o brasileiro comum vai vivendo a vida, pancada após pancada. Quis a História que Betinho, com a leveza de quem pesa 47 quilos de frente e de perfil, partisse para despertar um Brasil solidário no mesmo ano em que os pesos pesados da rapinagem da cidadania começaram a ter expostas as suas práticas. Neste final de 1993 a indignação do Brasil que se indigna não tem mais o colorido descompromissado dos caras-pintadas de um ano atrás. É um país mais ferido que se encontra na Campanha contra a Miséria comandada por Betinho.

Cidadão Betinho
Manhã de sexta-feira no Rio de Janeiro, tráfego e calor se embolando na pista da direita do Aterro do Flamengo. Betinho está ao volante de seu Monza branco sem ar condicionado, portanto com vidro aberto, quando um Gol cinza placa ZH 1677 tripulado por duas senhoras desconhecidas emparelha saltitante. De seu interior saem braços em saudação e algumas frases que escapam das buzinadas: "Não desiste, Betinho!... Precisamos de você para presidente da República!..." Uns 20 quilômetros mais adiante, no prolongamento já quase rural da Avenida Brasil, uma caminhonete da polícia assusta Betinho, que para desviar comete tremenda barbeiragem contra uma Kombi. "Não se intimida, Herbert! Você não pode morrer, rapaz! Estamos com você!", grita o sujeito da Kombi. Betinho acha graça. Presidente, e eterno? Não precisa tanto - a garantia de alguns anos de vida já estaria de bom tamanho.

Brasil afora, Herbet (por erro do escrivão)/Herbert José de Souza (por intenção dos pais)/Betinho (por simplificação da vida) tem um grau de reconhecimento público de matar de inveja qualquer político, pré ou pós-CPIs. Não precisa sequer se lamuriar de ser idolatrado porém incompreendido, como manda o catecismo das celebridades. Quase ninguém lhe pede autógrafo. O que move o brasileiro a querer se aproximar de Betinho não é adulação à imagem. É respeito pelo homem mesmo. Não há espaço para pretendentes a vice, cover ou substituto - a começar pelo físico, Betinho é irreproduzível, seja em negativo ou positivo.

A sinopse de sua vida já desestimula qualquer emulação. Nasceu em Bocaiúva, norte de Minas Gerais, numa época em que todo mundo se conhecia: havia o mendigo, Raimundo - "espécie de mendigo pedagógico - nosso Ciep", brinca -, que as mães apontavam dizendo "meu filho, toma banho senão você fica igual ao Raimundo". Tinha o louco, tinha o cego arrogante e assim por diante. E tinha o menino hemofílico, Betinho, aquele que não podia correr, jogar bola, montar potro. Aquele que tinha de ganhar briga sem bater, só falando, argumentando. Há 58 anos vive disso: de falar, argumentar, seduzir e convencer. Está sempre subindo uma ladeira.

Entrementes, quase foi consumido por uma tuberculose, que lhe roubou três anos de adolescência, passou outros catorze fugindo da ditadura brasileira e carrega no sangue desde 1986 o vírus da Aids, que já levou seus dois irmãos também hemofílicos, o cartunista Henfil e o músico Francisco Mário. Como ele mesmo observa, sua vida tem sido uma experiência de risco. E se bruxas há, elas apontaram todas as vassouras contra ele no último dia 13 de agosto: contraiu uma infecção estomacal, seguiu-se uma hemorragia intestinal, sumiram-lhe 7 quilos. A morte rondou. Mas como seria muita esculhambação morrer de problemas gástricos, e não de doença relacionada à Aids, Betinho reapareceu na vida duas semanas depois, com ar maroto. Completou 58 anos em novembro. "O segundo pedido pode ser pessoal?", indagou à roda de amigos na festa de aniversário, quando alguém atou uma fitinha de Nosso Senhor do Bonfim em seu punho esquerdo. Gargalhada geral. A qual outro brasileiro ocorreria não fazer pedidos pessoais a Nosso Senhor do Bonfim? "Sempre digo, Betinho é o primeiro santo ímpio brasileiro", avisa o ex-seminarista e amigo de infância Humberto Pereira, inspirador do personagem Cumprido da série Fradinhos criada pelo cartunista Henfil.

Betinho e a História do Brasil são vasos comunicantes. Nascido no ano da intentona comunista, sua parentela política por parte de mãe vai do primo José Maria Alkmin a João e Guilherme Figueiredo. Muito antes de saber o que era uma ditadura, foi tratado da tuberculose pelo tisiologista Silvio Fleury, primo do notório delegado modelo da repressão dos anos 70, Sérgio Paranhos Fleury. Passam por Betinho, também e sobretudo, os principais veios da esquerda cristã brasileira dos últimos quarenta anos: descobriu a efervescência de repensar o social na Juventude Estudantil Católica, JEC, mineira, aprofundou sua militância na Juventude Universitária Católica, JUC, e aos 27 anos foi um dos fundadores da lendária Ação Popular, AP, que seria triturada pela máquina da ditadura. Dessa mesma fornalha ideológica saiu um leque sortido: José Serra, com quem compartilhou o exílio no Chile, tornou-se a figura de peso do PSDB; o mineiro Paulo Haddad, a quem Betinho confiaria sem pestanejar um talão de cheque assinado, ao portador, foi o segundo dos quatro ministros da Fazenda de Itamar Franco; José Paulo Sepúlveda Pertence chegou a ministro do Supremo Tribunal Federal e acaba de votar contra o recurso de Fernando Collor, mantendo-o inelegível até o ano 2000. A lista é longa. "Mas é Betinho a grande figura de nossa geração", observa Haddad.

Quando Betinho fala e o Brasil ouve, a classe política fareja competição desleal. Qual o ministro de Brasília que arriscaria se medir em público com uma figura que metade do Brasil quer proteger e a outra metade por ele quer ser protegida? Fernando Henrique Cardoso fugiu ostensivamente da raia na sexta-feira passada: preferiu comparecer a uma tediosa homenagem ao empresário Roberto Marinho, dono das Organizações Globo, a investir dois minutos de seu tempo na festa cívica Viva Rio. No primeiro evento, para convidados seletos, sabia ser a estrela maior. No segundo, aberto a qualquer cidadão, só daria Betinho. Ciúmes de miss. As simplificações de Betinho, do tipo "se eu fosse presidente da República eliminaria todos os ministérios e governaria as coisas públicas através das agências do Banco do Brasil", causam arrepios e são citadas como prova de seu despreparo político. Besteira. É sabido que Betinho sabe falar sério.

Político de Brasília sabe articular, Betinho sabe motivar. Político sabe discursar, Betinho sabe se fazer ouvir. Político tem clientela fixa, Betinho é um atravessador. Herege assumido, só mesmo o deputado Delfim Netto, que do alto de seus 90 quilos classifica Betinho de "aquele sociólogo esquálido". Os outros, quando querem bater batem na Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida, popularmente conhecida como a Campanha do Betinho contra a Fome.

O mundo acadêmico também não sabe o que fazer com o espécime. Betinho, formado em Sociologia pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, tem doutorado pela Universidade de York, no Canadá, foi professor titular da Universidade Nacional do México até retornar do exílio, em 1979, mas não preenche propriamente o figurino do intelectual de carteirinha. Escreve mais para a mídia do que papéis de peso científico. Prefere montar barraca na rua para vender uma idéia - a da cidadania - a enclausurar-se na fenomenologia dos professores doutores. Junto com seu parceiro espiritual e político, o economista Carlos Alberto Afonso, inventou a mãe de todas as ONGs brasileiras, o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, Ibase (veja pág. 93). Vive às turras com os economistas afeitos a equações. "Os economistas não falam em gente, falam em índices, modelos, fórmulas. às vezes tenho a impressão de que a única pessoa existente na fala de um economista é ele mesmo. Pois bem, nesse cenário tão inovador, por que não substituirmos também o próprio ministro da Economia por um computador? Alimentaríamos o micro com uma montanha de programas econômicos e a máquina calcularia com precisão o que deve ser feito, sem erros", disparou recentemente no XXX Forum Nacional de Secretarias de Trabalho, realizado em São Paulo. Presente ao encontro estava o ex-presidente da Fiesp Mário Amato, que resolveu tomar as dores dos economistas.

- Emprego não se gera por decreto, se gera com trabalho. Na qualidade de economista, portanto detestado por Betinho, me parece utópico, conversa de intelectual imaginar o contrário.

- Prezado amigo economista Mário Amato, o considero muito mais um empresário liberal do que um economista - respondeu Betinho na lata.

Amato manifestou "o carinho e respeito que dedico a vossa senhoria" e preferiu sair antes de Betinho esclarecer o que acha dos empresários liberais.

O vossa senhoria soou particularmente barroco, mas Betinho já está habituado aos tortuosos caminhos da apresentação de sua pessoa em eventos mais formais. "Com a palavra, o sociólogo Herbert de Souza" sai fácil. O duro é prosseguir. Como chamá-lo de "doutor Herbert", "senhor Herbert" se todo mundo sabe que ali está sentado o Betinho? Inevitavelmente surgem variantes neutras - "meu caro", "ilustre colega", "nosso Betinho" ("nosso" quem, cara pálida?).

Humanidade. Solidariedade. Miséria. Fome. Pobre. Quando Betinho pronuncia essas palavras, elas adquirem vida, parecem novas, revolucionárias, quase compreensíveis, talvez transformáveis. O segredo de Betinho é bem mais transparente que a fórmula da Coca-Cola, mas talvez mais difícil de copiar: (1) ele realmente acredita no que fala e quem o ouve acredita que ele acredita; (2) ele escuta e ouve, o que para as classes mais humildes é total novidade; (3) ele circula com naturalidade entre os excluídos (por ser portador de Aids), as minorias (por hemofílico e ex-clandestino), os marginais ("seu lado liberado era o que mais me fascinava", lembra o deputado José Serra, que invejava as investidas noturnas do jovem militante Betinho), os humildes (por emitir sinais inconfundivelmente cristãos). Cristãos mas não messiânicos, como os de outra figura honrada do cenário público recente, o ex-ministro da Fazenda Dilson Funaro. Funaro lutou contra a morte, de câncer, com tenacidade. Betinho batalha pela vida com alegria. Um espanto. Liberto da culpa e da noção de pecado da infância mineira, adquiriu alma carioca - mesmo mal sabendo nadar. Costuma dizer que pessoas autoritárias não conseguem rir nem fazer rir - são verticais.

"É, a fome está na moda mesmo", constata a assessora de imprensa de uma agência de publicidade de São Paulo, que achou oportuno lançar um vídeo institucional sobre o tema. Betinho, andarilho de percursos longos, fica de sombrancelha arrepiada. Moda? Só na vida dele, é mais antiga que o primeiro Fusca. Tinha 23 anos de idade quando convenceu o IBGE de Belo Horizonte a fazer uma pesquisa sobre o estudante-trabalhador. "Saíamos à noite com braçadas de formulários de sociólogo amador, percorrendo os colégios da periferia", lembra o amigo Humberto Pereira. "Foi nosso primeiro corpo-a-corpo com a carência de cidadania." Betinho também conseguiu convencer o prefeito a cadastrar as favelas da cidade - na época Belo Horizonte já tinha quase 700.000 habitantes e uma crescente população marginalizada. "Ele teimou que o mapeamento fosse feito barraco por barraco, uma loucura. E lá fomos nós, estudantes militantes do catecismo dominicano, mapear esse povo."

Mais de um quarto de século depois, Betinho continua convencendo as pessoas a fazer coisas. Poupa apenas o amigo Chico Buarque de Hollanda. "Desenvolvi a teoria de que você só chama o Chico em caso de catástrofe - guerra mundial, falência do Rio etc." Não há dia típico na agenda desse agitador de consciências nem visitante padrão. Exemplo de uma quarta-feira recente: o ministro do Trabalho, Walter Barelli, o procurara, o Comitê do Jardim Botânico tenta audiência para fazer o seu mapa astral (não consegue), reunião com o representante da Força Sindical, entrevista com o semanário alemão Die Zeit, encontro com cônsul dos Estados Unidos para Assuntos Políticos, com a primeira-dama de Nova Iguaçu, almoço com o empresário Luiz Fernando Levy, do grupo Gazeta Mercantil, cuja fundação contribui para a campanha com 10.000 dólares mensais. E convites, intermináveis convites: para paraninfo de normalistas de Manaus ou formandas da Escola Morro da Pedreira, no Rio, para receber um prêmio na Bélgica ou uma homenagem da Associação dos Moradores Unidos de Jacuba, todo mundo quer Betinho. Um raro sinal de que ele é mortal como todo mundo: ligou de uma oficina mecânica avisando que estava com problema e ia atrasar.

"Betinho muitas vezes fica sabendo de sua participação em eventos através de cartazes espalhados pela cidade ou telefonemas de organizadores aflitos dizendo 'o salão nobre já está lotado, o Betinho pode vir?' ", conta a jornalista carioca Carla Rodrigues, que desde maio chefia sua assessoria de imprensa. Uma saída é "TeleBetinho neles", ou seja, o envio de um vídeo sobre a campanha, narrado por ele. Mesmo conhecendo suas limitações físicas, ninguém aceita substituto para Betinho. Vez por outra se recorre à atriz televisiva Maitê Proença, a mais engajada e familiarizada com a campanha. Não adianta. "Betinho ainda está valendo duas Maitê", espanta-se o cartunista Ziraldo. Uma coisa é certa: quem vai ter com Betinho achando que vai ganhar notoriedade por tabela, dando só boas intenções, está ferrado. O homem costuma tirar o couro do interlocutor.

Há eventos que o exaurem mais, física e emocionalmente. Uma recente visita às detentas do presídio feminino Talavera Bruce, no Rio de Janeiro, foi um deles. Foi a terceira vez na vida que se meteu nessa seara. Era um toco de gente - tinha 3 anos e o pai assumira o almoxarifado da penitenciária de Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte - quando conheceu pela primeira vez uma prisão. Pareceu-lhe colossal aquela edificação com jeito de castelo, fincada em meio a laranjais. Ali os presos não causavam maiores temores na comunidade local. O afogamento de um menino no Córrego do Moisés apavorou Betinho muito mais do que a convivência de cinco anos com os detentos, que plantavam hortifrutis nos fundos de sua casa. Moravam na vila número 21, onde nasceu Henfil e onde dona Maria preparava almoços mineiros para a caciquia política da época. Seu Henrique, o pai, fora escolhido como guardião do único telefone público da cidade de então 3.000 habitantes e o instalara na sala da casa, com cabine e tudo. Era o Brasil antigo. "Gente! Quer dizer que o Betinho morou nessa casa?", espanta-se hoje a passadeira Dilza Camargo de Souza. "Neves tem cada gente famosa! Tem também aquele cantor, o Sílvio César!"

Seu segundo contato com a detenção foi para dela fugir. Era véspera de Natal de 1965, ano II do golpe de Estado militar, uma sexta-feira. Tinha 30 anos e ordem de prisão decretada. Prometeu reapresentar-se ao Dops na segunda-feira, mas amigos conseguiram enfiá-lo na Embaixada do México, sob proteção de Vicente Sánchez Gavito. Queria apenas abrigo, não pretendia ainda abandonar o país. Dez dias depois, escapulia da embaixada para a clandestinidade como em filme de pastelão: o futuro governador do Rio de Janeiro, Wellington Moreira Franco, então militante da AP e encarregado do plano de fuga, veio resgatá-lo a bordo de um carro que pifou. Tiveram de fugir de táxi. "Desde aquela época Wellington já fazia tudo errado", comenta Betinho-Fradim. Era o Brasil repressivo.

Da terceira vez, em novembro último, entrou no Brasil solidário encarcerado em Bangu. Ansiedade festiva, cochichos, risadinhas, cotoveladas de expectativa entre as 279 detentas do Talavera que haviam aderido à Campanha contra a Fome e fizeram chegar a Betinho o convite para ir vê-las - típico convite que ele faz entrar na marra em sua agenda doida. Típico também da mitologia carioca foi o boato de que o Comando Vermelho teria dado sinal verde à adesão à campanha. Maria Alice Alves, 24 anos, dois filhos pequenos, camisa regata, cabelo ralo, shortinho de moleca e sete anéis nos dez dedos, tem três anos já cumpridos de um total de dez. "Tráfico", esclarece. É a mais elétrica da galera. "Pelos boatos aqui dentro comecei a conhecer Betinho. Que pessoa! Estou arrepiada de pensar que ele está aqui com a gente! E quem não se emocionar é porque não tem sentimento. A gente aqui dentro não sabe o preço das coisas, mas sabe que pode ajudar. A gente tá presa, mas tá comendo - bem ou mal são três refeições por dia. O pessoal aí fora pensa que está solto, mas está é preso pela fome. Sábado a gente já não janta, pronto." Pulando uma refeição por semana, vão juntar 54 litros de óleo, 50 quilos de farinha, 150 de arroz e 50 de feijão. Cantam o Hino Nacional com a mão no peito, ovacionam a presidiária que teve a idéia toda e ouvem Betinho de mãos dadas. Como diz Maria Alice, "quem não se emocionar não tem sentimento. Betinho está um trapo de tanta emoção. Mas não sai dali sem deixar a semente de uma idéia nova, no caso uma carta assinada por todas as presas e endereçada aos empresários que começaria assim: "Nós já demos nossa parte, e vocês?". Quase foi sufocado de tantos beijos na testa, com batom vermelho e tudo. Vale acrescentar que cinco outros presídios masculinos do Rio, além do Carandiru, de São Paulo, aderiram ao movimento.

Betinho não tem mais como parar. Quarenta anos atrás, quando o Ministério da Guerra lhe forneceu o Certificado nº 2.764 de isenção do serviço militar, declarando-o "apto a exercer atividades civis", tinha 18 anos. Começava a caminhada. Desengajou-se da religião do medo, na qual "em cada esquina poderia haver um pecado, com o capeta correndo atrás da gente" e deixou-se catequizar pelo conceito de fé dos frades dominicanos. No lugar do pecado, vinha a justiça social. Segundo dizia Henfil, "eram caras normais, iam a festas e de vez em quando usavam o hábito". Foi moldando sua identidade política de esquerda não marxista. Ao lado do hoje físico Roberto Leal Lobo, ex-reitor da Universidade de São Paulo, USP, aceitou entusiasmado um convite da Juventude Comunista para visitar a URSS, em 1961. Acabaram sendo talvez os últimos brasileiros a ver o túmulo de Stalin ao lado do de Lenin antes de sua expulsão do Kremlin, mas de resto voltaram com o gosto da decepção. Das várias viagens que faria à Cuba socialista de Fidel Castro, nos anos seguintes, como membro da executiva da AP, também voltou não convencido: não aderiu à guerra de guerrilha nem à luta armada por motivos ideológicos, não apenas físicos. "Seu discurso era mais avançado do que a cabeça dos militantes da AP, recorda o ex-companheiro Décio Noronha, obstetra em São Paulo. "Argumentava que não era necessário matar, que o importante era a idéia." As lembranças de Noronha do Betinho clandestino: "Nunca vi pessoa tão retilínea e tão vertical, com tanta certeza e tanta convicção. Estávamos reformando o mundo e ele era a expressão política de nosso sonho. Era o único com capacidade de colocar as idéias no âmbito do sentimento, não do pensamento". Em suma, o mesmo Betinho de hoje.

Durante os cinco anos em que viveu clandestino em seu próprio país, Betinho foi "Francisco", "Alberto", "Wilson" e quantos codinomes mais precisasse. Usou peruca, barba e bigode postiços para aplainar o medo de ser preso. "Eu nunca sabia bem quando pôr e quando tirar a peruca. Num banheiro de restaurante? Mas como voltar à mesa depois? Antes de voltar para casa? Mas e se algum vizinho me reconhecesse de peruca? Já o bigode me dava enorme segurança - eu me sentia fortíssimo quando enfiava um bigode."

Com sua atual mulher, Maria, também militante da AP em São Paulo, vendeu muita bolsa de couro na rua para subsistir numa clandestinidade sem emprego. O conceituado analista Antonio Carlos Cesarino, cujo antigo consultório no bairro da Bela Vista tornara-se ponto de apoio para a esquerda à deriva, sabe não estar revelando nenhum segredo de Hipócrates quando lembra que a maioria de seus pacientes clandestinos era mais assustada do que Betinho. "Ele me surpreendia pela curiosidade, em meio aos riscos que corria. Queria compreender o mecanismo intelectual de elaboração das minhas perguntas, do tratamento. Certa vez, enveredou por investigar um método de suportar tortura através da hipnose! Aliás, em matéria de ortodoxia, meu trabalho com Betinho era todo torto: era eu quem pagava para o paciente vir... Nossas sessões se davam em mesas de restaurante, para maior segurança, e como ele nunca tinha dinheiro quem pagava a conta era eu." (Hoje é Betinho quem paga suas sessões de análise lacaniana no Rio, mas nem tudo ainda é perfeitamente ortodoxo: "às vezes é o analista quem liga para cá caçando o paciente", admite a secretária Carmem Stephen.)

A experimentação ideológica mais letal para a cabeça de Betinho foi com o maoísmo, do qual saiu intelectualmente humilhado, e de que tem raiva até hoje. Segundo a cartilha do timoneiro chinês Mao Tsé-Tung, abraçada com voracidade pela liderança da AP no Brasil, a ordem era "entrar na produção", fosse ela rural ou industrial. Betinho, que até então não havia pregado um único prego em barra de sabão para ganhar seu sustento, deveria ir trabalhar numa fábrica, como operário. "Considero esse período de minha vida insano. Acho que eu estava louco." Não tinha cidadania, não tinha papéis de identidade, não tinha experiência, não tinha saúde mas precisava se aproximar da classe trabalhadora, "meus heróis". Foi tomado de felicidade quando finalmente conseguiu um emprego de carregador de caixotes na fábrica Porcelana Real, no ABC paulista, o que lhe pareceu uma fantástica superação de sua condição de hemofílico. Durou três meses a aventura. Três meses de hemorragias no joelho. Com o cerco da ditadura se fechando sobre a AP, Betinho se viu sozinho com os farrapos de uma epopéia ideológica. Vários companheiros haviam morrido, muitos mais estavam presos sob tortura. Chegara a hora de Betinho seguir por outra estrada. A da política, nunca mais.

"Quando rompi com a Ação Popular, já no exílio no Chile, fiquei com uma vacina profunda com relação a esse tipo de experiência. Não aceito mais centralismo democrático, não aceito mais ser dirigido por outra pessoa, nem mesmo se a população brasileira toda votar numa pessoa me sentirei obrigado a segui-la. A maioria não faz verdades. As idéias têm conteúdo próprio." Betinho, que fazia parte da executiva da AP, responsabilizou a organização pelo que aconteceu a vários militantes. "A polícia foi apenas o braço que operou, mas a responsabilidade política é nossa. Sabíamos que a repressão era o que era, sabíamos que a ditadura estava na nossa cola. Ainda assim colocamos militantes em situações impossíveis. Nossa luta era enlouquecida, pois era impossível. Era de um voluntarismo alarmante."

No exílio ainda teve alguma articulação com o PTB, atual PDT, de Leonel Brizola. E hoje o PDT o acusa de ser petista, enquanto o PT suspeita que seja brizolista. Nada disso tem mais relevância para Betinho. "Minha batalha, hoje, é pela cidadania. O fundamento da sociedade democrática reside nisso. Um cidadão pode exercer sua cidadania política sem ser convidado a nada, sem ser militante de nada, guiando-se pelos seus valores. Partido, na verdade, é proposta, e todo cidadão que tem uma proposta é um partido." Está formado o partido do Betinho, que no momento atende pelo nome de Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida. Já já ele muda de nome, de curso, de ênfase. Betinho mudou? Menos do que qualquer outro de sua geração. No máximo, observa sua irmã Maria Candida, "desceu da divindade para a humanidade". "Era o guru da JEC, agora é o guru do Brasil", acrescenta José Serra.

Sua vida familiar está ancorada em porto seguro, ao lado do filho Henrique, de 11 anos, e da mulher, Maria - nenhum dos dois contaminados. É o japonês da família: cozinha e come arroz todo dia. Não pilota a vida ao sabor da doença, mas há tempos tomou uma decisão crucial: "Montei meu esquema médico". Tradução: vai exercer o direito de desligar as máquinas se e quando achar necessário. "Tenho medo da dor, não da morte." Adquiriu casa própria aos 52 anos de idade - um apartamento de dois quartos em Botafogo - e dirige seu próprio Monza 1988, comprado graças à isenção de imposto para deficientes. O salário de 2.000 dólares do Ibase somado aos 800 dólares mensais que recebe Maria dão conta. "Mas é claro que me preocupa como eles vão ficar", deixa escapar.

Depois de ter emprestado alma aos dois minutos de silêncio pedidos pelo movimento Viva Rio, foi passar o Natal no Japão. Não o Japão lá do outro lado do mundo, mas a casa dos sogros na Grande São Paulo, que ele chama de Japão por considerá-la uma ilha de tranqüilidade no meio de uma cidade que lhe faz mal. "São Paulo, para mim, é muito mais um cemitério do que qualquer outra coisa. Ali quase fui enterrado quando era clandestino, enterrei amigos e quero enterrar da memória. Pensando bem, quantas situações já enterrei ao longo da vida! Enterrei a infância, a hemofilia, a Ação Popular. São modos, talvez, de conseguir olhar para a frente."

Dia desses o Japão de Betinho tomou um ônibus, arrancou na Via Dutra e foi fazer mutirão no chalé que ele e Maria Nakano estão construindo perto de Itatiaia. Entre 24 sobrinhos, tios e irmãos da nissei Maria, havia quatro engenheiros. Resultado: em apenas um fim de semana, toda a parte elétrica da casa nova estava instalada e tinindo. É lá que Betinho e Maria querem viver e viver e viver. Isso, é claro, depois que a Campanha contra a Miséria tiver coberto o Brasil de ponta a ponta, depois que a Campanha pelo Emprego, planejada para 1994, adquirir vida própria, depois que.... Aí vem Betinho, subindo a ladeira.

O Médico
O doutor Expedito Rolla Guerra é daquelas pessoas que mesmo quando estão sentadas no sofá mais confortável de sua casa não deixam o corpo perder o vinco. Aos 77 anos, mantém cada fio de cabelo no lugar - não por vaidade, mas por asseio. Sua maior excentricidade, a honradez.

Exatamente meio século atrás, abicou de supetão na vida de Betinho. Era interno residente na Santa Casa de Misericórdia, em Belo Horizonte, e estava de plantão numa madrugada de 1943 quando o chamaram para atender um menino que havia caído no banheiro e cortado o lábio. Sangrava muito. Cada vez que se introduzia a agulha para suturar o lábio, jorrava vagalhão maior de sangue. "Fiquei apavorado", relembra o médico. Naquela madrugada, o garoto Betinho, então com 8 anos, falou uma só vez, e bem baixinho, quando o formando começou a improvisar um torniquete com grampos de metal. "Não me deixe morrer." Não deixou. Internou-o na Santa Casa e passou a fazer parte da história e do afeto da família. Certo dia, recebeu a visita de seu Henrique, pai de Betinho, que viera convidá-lo para padrinho do caçula, Francisco Mário, com a seguinte tirada: "Pobre é assim: pede serviço, não paga e ainda dá afilhado".

"Naquela época, em Belo Horizonte, sabia-se pouco sobre hemofilia, além do fato de que o filho do czar da Rússia havia nascido com a doença. Não era meu ramo, mas fui estudar na biblioteca em livros alemães traduzidos para o espanhol. Aprendi que em hemofílicos as hemorragias se formam mais nas articulações. Ainda não se sabia por que, mas sabia-se que transfusões de sangue melhoravam o quadro do doente. Acabou virando meu ofício fazer transfusões em Betinho."

A Santa Casa de Misericórdia acabaria sendo a melhor escola de vida e de cidadania para Expedito Guerra. Ali, pobre (leia-se, possível eleitor do PSD, partido do cacique político José Maria Alkmin, seu mais ilustre e duradouro provedor) acabava aceito sempre, mesmo quando não era possível atendê-lo.

"Lembro-me de uma mãe que viajou 150 quilômetros para trazer seu filho tuberculoso. O menino estava condenado, seu tom de pele já era opaco. Na sala de radiografia, chocou-me a brutalidade do médico que deu o diagnóstico para aquela mãe: 'Pode voltar, seu filho está morrendo'. Não me conformei. Fui pegar a trouxa que ela havia deixado numa pensão e me deixaram deitar o menino num terraço da Santa Casa. Tomaria sol e lhe dariam comida até que morresse. Muitos e muitos anos depois, um jovem de terno de casimira azul-marinho bateu no meu ombro na Praça Sete. 'Doutor, lembra de mim? Eu sou aquele que ia morrer. Muito obrigado'."

São histórias e mais histórias, seguidas de longas pausas. No caso do doutor Expedito, chora o médico, não o paciente. Mesmo quando não está de jaleco, ele sente o pulso do Brasil de Betinho.

"A Santa Casa me colocou em contato com o Brasil humilde. Só me beneficiei com isso. Eu poderia ter-me aposentado pelo INPS, mas não achei certo receber, pois continuei a trabalhar em meu consultório particular. Como minha clínica de classe média atende pobres, os ricos não costumam vir. É interessante observar como o pobre afasta o rico muito rico. Sofro quando não acerto o diagnóstico. Por isso, para paciente novo, cobro só uma consulta ao longo do primeiro mês, ou até acertar o diagnóstico." Criou seis filhos com honradez - nenhum deles optou pela profissão do pai.

"Por que, com esse perfil social, Expedito Rolla Guerra não enveredou pela militância política de esquerda como Betinho, a quem tanto admira? "Porque naquela época eu era mais temente a Deus. Não conseguia comungar com o socialismo radical dele. Ainda tenho fé, só que, com cinqüenta anos de prática médica nas costas, tem horas que a gente escorrega... Admiro quem toma uma bandeira nas mãos e vai em frente, como Betinho. Ele deve entrar para a História do Brasil."


Um Filho
Covinha no queixo, cabeleira romântica, olhar que encara, como o do pai. Aos 28 anos, um sobrevivente. Daniel Carvalho de Souza nasceu em São Paulo um ano após o golpe militar de 1964, que jogou seu pai, Herbert de Souza, na clandestinidade. Para sua proteção, o menino aprendeu a camuflar sua filiação - chamava os pais de tios. Ia de ninho em ninho, de bairro em bairro, interrompendo amizades e arrancando raízes. "Mamãe sempre cuidou para que eu tivesse pelo menos um cachorro", lembra. Assim foi até os 5 anos de idade, quando os pais se separaram. Aprendeu a usar o nome falso do novo registro de nascimento que a mãe, a socióloga Irles Coutinho de Carvalho - hoje editora de livros infantis -, obteve para fugirem do país. "O pulso mais forte em minha vida foi minha mãe. Ela enfrenta qualquer coisa." Nos dez anos seguintes, a vida de Daniel foi adquirindo as tinturas clássicas do exílio. Tem cidadania sueca, um meio-irmão de dupla cidadania brasileiro-inglesa e uma insaciável fome de um Brasil que lhe faltou quando criança. Formado em desenho industrial pela Esdi do Rio, deu uma guinada na vida e juntou-se à Companhia Aérea de Dança, que funde samba com dança moderna. Mora em Copacabana, em sintonia com o mar.

"É terrível constatar isso, mas a relação com meu pai só se aprofundou devido à Aids. Até então tínhamos um contato mais institucional, do tipo mesadas e conversas amenas. Soube que ele era soropositivo por telefone. Até então ele vinha me dizendo o que eu não entendia: que Henfil havia tomado muitas transfusões de sangue e por isso havia contraído o vírus. Jamais se referia a ele próprio, mas estava preparando o terreno."

"Quando eu era menino, tinha pesadelos, uma insegurança terrível por não ter um superpai e, ao mesmo tempo, por não poder protegê-lo. Tinha pânico de ser preso com ele. Meu equilíbrio, hoje, é a dança. Mas ainda aos 26 anos, quando me apresentei no palco pela primeira vez tocando piano e dançando para 400 pessoas, a insegurança bateu forte. Meu pai estava lá, na platéia. Aplaudiu, só que até hoje não sei o que ele realmente sentiu ao me ver no palco. Papai, como eu, é Escorpião. Não explode nunca - se quer ferir, fere com a palavra. Mas vamos chegar lá, precisamos chegar lá, um precisa saber o que o outro sente. A Aids está em confronto com o que meu pai tem de mais forte: a cabeça. O vírus vai perder, pois ele é uma cabeça extraordinária. Seu corpo frágil lhe serve de mero transporte. Tenho certeza de que vai sair dessa. Ele não tem tempo de morrer agora - tem essa fantástica campanha para tocar. E, depois, há essa urgência em mergulharmos fundo na nossa relação."

Cinco anos atrás, pouco tempo após a morte dos irmãos Henfil e Chico Mário, quando todos, inclusive Betinho, achavam que a Aids o levaria em breve, Daniel escreveu um texto sobre seu pai publicado no livro Sem Vergonha da Utopia, Conversas com Betinho, de Ricardo Gontijo. Alguns trechos valem até hoje:

"Era engraçado discutir com ele, aos 8 anos. Ele dizia que o Tarzan, a Jane, todos não eram de nada, que o bacana lá era a Chita, e eu achava estranho... A toda hora o vejo no jornal e na TV, a toda hora sinto orgulho e tristeza, a toda hora ele está mais presente e mais ausente... O que basta é saber que ele, apesar da idade, é tão jovem quanto eu."


O Músico
Rua Garibaldi, bairro da Tijuca, Rio de Janeiro. O letrista e poeta Aldir Blanc, cabelo, barba e cabeça de profeta, tenta reescrever pela quarta vez a letra de Boas Festas, de Assis Valente, escolhida para servir de hino de Natal da Campanha contra a Fome. Dezesseis anos atrás, no amanhecer da abertura política, pôs o Brasil a cantar a anistia. Sem conhecer Betinho, seduziu-o a retornar para o Meu Brasil/ que sonha com a volta do irmão do Henfil,/com tanta gente que partiu/num rabo de foguete... Imortalizada por Elis Regina, a música O Bêbado e a Equilibrista embalou Betinho como uma bandeira do Brasil. Hoje, Aldir ainda escreve a mão num apartamento em que tudo respira vida e uso. Os berços dos netos gêmeos recém-nascidos convivem com jornais velhos e discos de 33 rotações. Tem exemplar da Casseta & Planeta com fotomontagem de Itamar Franco de baby-doll, tem cachorro, tem violões, a mesa de pingue-pongue da sala se transmuta em tábua de passar fraldas, não tem nada decorativamente correto. Nem a campainha, que não funciona há meses.

"A importância de Betinho é a loucura dele, uma loucura santa. O perigo está na burocratização dessa força. Eu o conheci antes de conhecê-lo, de tanto que Henfil e Francisco Mário, os irmãos, o tornavam presente. Eles amavam profundamente aquele irmão no exílio. A diferença entre Betinho e Henfil? Digamos que houvesse uma marcha até o Nordeste para acabar com a fome. Betinho entra, precisa entrar, acredita que a marcha vá chegar até o Nordeste e que ela pode acabar com a fome. Henfil entra na marcha, não acredita que ela acabe com a fome nem que vamos chegar lá

Numa noite de sábado fui chamado à casa do João Bosco, que tinha uma música pronta para eu letrar em cima. Eu estava tomado de tristeza pela morte de Charles Chaplin e a letra foi saindo inteira. O bêbado, do título, foi uma espécie de auto-referência: naquela época eu bebia muito. Como a música do João tinha estrutura de samba-enredo, achei que a gente deveria fazer a anistia ser cantada sem tom de lágrima de desespero. O incrível é que Betinho se torna mesmo um pouco chapliniano: vagabundo, doido, genial, está tudo ali. Betinho tem a capacidade de lidar rindo com o que o perturba. Caras assim podem tudo. Ele é totalmente desvairado pela música brasileira, por isso me relacionei com ele desde o início. Tomávamos porres homéricos. Lembro uma noitada dramática em que ele se entusiasmou tanto com a batida de uma roda de samba que se meteu a acompanhar o batuque com o copo. O copo foi quebrando até Betinho ficar só com a base na mão. Era caco pra tudo que é lado e ele, de sandália, batucando. Sabemos todos que qualquer corte, no caso dele, é emergência. Mas não aconteceu nada. Ele é mesmo um mistério. Trata a morte a pontapés."

Em 1989, Betinho encarou o Sambódromo desfilando na comissão de frente da Escola Padre Miguel, ao lado de Aldir. Enredo: Elis Regina. Nota: 9. Saiu feliz, com hematoma no braço de tanto saudar com a cartola pesada para o punho frágil. "Ele estava preocupado com a extensão do percurso. Não queria pifar feito carro alegórico que escangalha - a escola perderia ponto. Quando chegamos à Praça da Apoteose, paramos junto a um carro transbordando de mulatas. Betinho ficou um bom tempo calado, só olhando. 'Nunca mais vou ser o mesmo', concluiu."

A Cura
Terça-feira canicular, no Rio. De manhã, Betinho havia colocado seus acessórios de gala - paletó, gravata, meias - para participar do XIV Congresso Brasileiro dos Fundos de Pensão, no Hotel Glória. Dos conferencistas listados para falar naquela sessão, era o único sem maior qualificação no assunto. Não tinha sequer uma queixa pessoal de aposentado: graças ao advogado Marcelo Cerqueira, recebe do Ministério da Educação o suficiente para pagar sua gasolina e contas de restaurante (com o golpe militar de 1964, perdera o emprego de consultor de Paulo Freire, assessor de João Goulart). Estava ali para vender uma equação ética: ação + cidadania = combate à miséria + emprego = aposentadoria. Como o aposentado, sobretudo no feminino, representa uma das espinhas dorsais da Campanha contra a Fome, Betinho não deixaria passar a chance de falar para esse público potencial de 12,5 milhões de brasileiros. Quando voltou para a sua sala, no bairro de Botafogo, estava cansado. Cabeça enfiada no Jornal do Brasil daquele dia, 26 de outubro, parou na página 15, animou-se e desembestou a fazer a leitura em voz alta para os que trabalhavam nas salas contíguas: "Descoberta pode levar à cura da Aids"...

"Caramba, minha ficção está aí no jornal! Que grande dia! A palavra cura entra pela primeira vez no noticiário! Tinha que vir da França... se der certo provavelmente vai se chamar cura Charles de Gaulle, algo bem pomposo. E agora o que é que eu vou fazer? Eu estava todo programado para durar pouco tempo..."

A palavra cura, para Betinho, tem estofo. Quase meio século atrás, quando já tinha vivido quinze anos de hemofilia, foi diagnosticado tuberculoso. Era a Belo Horizonte de 1950, Rua Ceará, e nenhuma cura à vista.

"O médico reuniu a família. Contou tudo. A família chorou a minha morte e decidiu que eu não iria para um sanatório, mas para o fundo do quintal, para o quarto da Maria Leal, transformado em meu sanatório particular - o único de Belo Horizonte... A primeira providência política foi chamar o padre alemão da Santa Casa para me dar extrema-unção. Depois instalaram uma campainha me conectando à casa principal. Também foi construída uma cancela de madeira que me isolava mas me permitia olhar para fora e ser visto de fora. Dali Henriquinho - depois Henfil - me observava. Dali havia que se viver."

Três anos de adolescência durou esse primeiro exílio de Betinho. Dos 15 aos 18. Três anos virtualmente de pijama - vestia sapato apenas para a visita mensal ao pneumologista. à falta de uma instrução formal, acumulou com voracidade cursos por correspondência, fossem quais fossem. Formou-se assim em radiotécnica. Foram, também, os anos de maior convulsão religiosa, em que fé, pecado, culpa e sexualidade se guerreavam o tempo todo. Até lhe cair em mãos, um dia, um exemplar da revista O Cruzeiro. Trazia reportagem ilustrada sobre a hidrazida, a maravilha farmacêutica que viria acabar com a tuberculose no mundo. A cura.

Se ela cruzou sua vida uma vez, por que negar a sua possibilidade agora? Tempos atrás, Betinho escreveu um artigo que virou roteiro que virou vídeo de vinte minutos intitulado O Dia da Cura.

É um convite a admitir que a medicina pode tornar a Aids uma doença crônica, não mais letal, algo como a diabetes. O tom do texto é intenso, mas, como tudo em Betinho, regado à alegria. Ele próprio faz uma hilária ponta como o farmacêutico que vende remédio contra Aids junto com preservativo.

"Eu já tenho quatro anos e meio de AZT e há coisa de três meses meu médico optou também pelo DDI. Meço minha contagem de células de combate ao vírus a cada três ou quatro meses e vejo que o índice está baixando. Em ziguezague, mas está baixando. Planejar coisas para daqui a um ano é realista. Para daqui a 2, 3, 4, bom... é ver a cada período. A ver, porque eu posso continuar por vários anos, contra as evidências. A ver, porque pode haver o controle da doença, ou a cura." A cura.

A Escola
Ninguém resiste a romancear um pouco a sua própria biografia, sobretudo quando ela é pálida. Betinho não precisa de arabescos. Basta-lhe o humor. É com enorme apetite que recorda os tempos em que, dos 9 aos 15 anos, freqüentou quase diariamente a funerária de Belo Horizonte administrada pelo pai.

1945 "A funerária foi uma escola de vida porque a morte, ali, era só um meio de viver. Era uma funerária muito especial. Foi organizada por José Maria Alkmin, nascido em Bocaiúva, irmão gêmeo de Duca, de quem dizem que roubou o cérebro ainda na barriga da mãe, vendedor de doces de leite quando criança, telegrafista colega de Juscelino Kubitschek, deputado com votos de Bocaiúva, colaborador do Estado Novo e de Benedito Valadares, diretor da penitenciária e provedor da Santa Casa da Misericórdia. Um homem de estatura pequena e voz grossa, de larga visão administrativa e grande tirocínio político. Enfim, um homem capacitado a dirigir uma penitenciária, organizar uma funerária e seguir um grande destino político. Chegou a vice-presidente da República do general Humberto Castello Branco, primeiro presidente do golpe militar de 1964. José Maria montou a funerária com base na penitenciária. Tinha tudo a ver. Meu pai, que era almoxarife de uma, passou a ser gerente da outra. 'Maninho', que fora condenado a não sei quantos anos de prisão, agora era carpinteiro da funerária - cortava, serrava e pregava cerca de 32 caixões por dia. Os 'choferes' que levavam os mortos para o cemitério eram antigos detentos da penitenciária que haviam feito mortos por conta própria. Enfim, o pessoal todo era do ramo e por isso ninguém estranhava nada, e a funerária mais parecia uma grande família cuidando dos afazeres domésticos. Belas lembranças tenho desse lugar. Com o seu Antonio aprendi fotografia, carpintaria, calma e filosofia. Participei com ele da construção da primeira urna funerária de Belo Horizonte. Seu Antonio, com seus 60 anos, e eu, com 10, gastamos quase um ano de trabalho para fazer o primeiro protótipo de urna mineira, que teve até acolchoado para maior conforto do morto. Seu Antonio era um gênio. Com ele aprendi escultura em cera de vela de defunto, além do uso do enxó, plaina e aplicação de verniz."

1993 "A funerária da Santa Casa continua na mesma esquina da Rua Bernardo Monteiro, 367. O toldo marrom lavado parece de armazém à antiga. Na sala de atendimento, um único enfeite - o retrato solene de José Maria Alkmin, sempre ele. Como na época de Betinho, que brincava à vontade entre caixões e carros funerários, a molecada de férias também adora brincar de esconde-esconde entre as fileiras de urnas. Lúcia de Paula Diniz, de 33 anos, tinha 18 quando foi bater ali. Seria seu primeiro emprego. Começou forrando caixões mas como tinha 2º grau completo, passou para o atendimento em apenas três meses.

"Vim da roça e no começo eu tinha pesadelo direto: sonhava que eu tomava conta das urnas e elas começavam a voar com os corpos dentro. As pessoas confundem funerária com necrotério, pensam que a gente lava cadáver, essas coisas. Nos primeiros anos eu mesma não tinha coragem de contar que trabalhava numa funerária. Quando pegava carona com um dos motoristas dos carros funerários, nem deixava ele parar o carro perto de casa: andava vários quarteirões para ninguém me ver. Não iam entender. Hoje dou risada. Temos seis balcões e um caixa para atendimento. Pelo menos hoje não tem mais o sujeito que entra e diz 'eu queria um sepultamento de primeira'. Ora, todo mundo quer um sepultamento de primeira! Não existem mais cinco classes, como antigamente. Hoje o que muda é o modelo. O mais caro é o Extra-Horizonte (284.000 cruzeiros reais a preços de dezembro, jacarandá, alças douradíssimas), caindo para o Embaixador, o Esplanada, o Baronesa e ladeira abaixo. Puxa vida, Betinho viveu por aqui?!!! Eu não sabia não. Eu também penso no pobre. Aqui a gente não é comerciante, tem de usar mais o coração. Por que vou empurrar orquídeas se posso vender palmas e rosas e fica bonito igual? Uso mais o coração. Acho que o Betinho faria igual."


 
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