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Reportagens 29 de outubro de 1975Franco chega ao final Os primeiros confrontos da sucessão
Os altos muros que protegem o barroco palácio residencial da monarquia espanhola, incrustado há 400 anos na margem esquerda do rio Manzanares, em Madrid, pareciam mais intransponíveis do que nunca na tarde do último sábado. Num de seus 164 aposentos decorados com sedas de Talavera, porcelanas de El Retiro e 377 tapetes, o generalíssimo Francisco Franco, aos 82 anos, estava entre a vida e a morte. E sua agonia, testemunhada apenas por uma secreta corte de fiéis, colocava a Espanha, enfim, diante do futuro. O drama que se desenvolvia no Palácio do Pardo, na verdade, tinha se precipitado bruscamente. O que no início da semana fora oficialmente diagnosticado como um "processo gripal" em Franco havia se transformado rapidamente em "insuficiência coronária aguda". Logo começariam a se suceder períodos de coma. Em seguida, com os intestinos paralisados, o generalíssimo sofreria, sucessivamente, uma distensão abdominal, um edema pulmonar e uma congestão cardíaca. E, na tarde de sábado, desenganado pelos médicos, receberia a extrema-unção. Inevitavelmente, contam Paulo Sotero e Pedro Cavalcanti, enviados especiais de VEJA a Madrid, as forças ativas da política espanhola logo se puseram em marcha para preencher o imprevisível vazio - tantas vezes previsto anteriormente e outras tantas adiado. Do Exército à Igreja, com suas alas conservadoras e contestatárias, dos velhos falangistas aos revolucionários maoístas e aos separatistas bascos, dos tecnocratas da Opus Dei ao Partido Comunista na clandestinidade todos pareciam ter chegado à conclusão de que o caudilho pertencia ao passado - e que a hora do pós-franquismo, afinal, havia chegado. NO BOLSO - Mas, enquanto o fatigado coração de Francisco Franco continuava a bater no silêncio do palácio e um resto de consciência lhe permitia pronunciar algumas palavras, não se encontrou na Espanha ninguém com ousadia suficiente para tomar qualquer iniciativa prática rumo à substituição. O "Plano Golondrina", como a classe política batizara uma teoria ofensiva de pressões para exigir a renúncia do caudilho, dissolveu-se em algumas iniciativas ilusórias e isoladas. Não se chegou, efetivamente, a tocar no assunto com Franco. E seu sucessor designado, o príncipe Juan Carlos de Borbón, de 37 anos, se conformava em esperar pelo desfecho biológico. O Plano Golondrina, de fato, era duramente golpeado desde a manhã terça-feira, quando o chefe do governo, Carlos Arias Navarro, se dirigiu ao Palácio do Pardo já esperando encontrar Franco nas últimas horas de vida. Mas o generalíssimo estava de pé, passeando de pijama em seu apartamento, aparentemente restabelecido da crise de insuficiência cardíaca que sofrera naquela madrugada. "Reduza a pauta do Conselho de Ministros da sexta-feira", começou por ordenar-lhe o suposto agonizante. Arias Navarro, que trazia consigo um decreto de renúncia já pronto a ser assinado, não chegou sequer a tirá-lo do bolso. A partir daí ficou claro que a troca de comando dependia exclusivamente da evolução clínica do caudilho. Raras vezes, no entanto, pôde-se sentir com tanta intensidade o segredo que cercou a franzina figura do chefe de Estado. Mesmo com sua morte tida como certa pelos médicos, o clima de sigilo não se desfez. Guardando a única porta de acesso ao Palácio do Pardo, dois cavaleiros da guarda pessoal de Franco em uniforme azul e vermelho, capacete prateado e lanças decorativas, viam passar apenas os raros automóveis negros do habitual punhado de personalidades imprescindíveis. TAPEÇARIA - Com exceção dos onze médicos que se revezavam à cabeceira do generalíssimo, a luta final de Franco contra a morte teve poucas testemunhas. Com acesso a seu quarto, havia a esposa, dona Cármen, a filha, Maria del Cármen, e o genro, o marquês de Vilaverde. Ainda no círculo íntimo, figuravam alguns parentes próximos, o premier Arias Navarro e o presidente das Cortes e do Conselho do Reino, Alejandro Rodríguez de Valcárcel. Enfim, o grupo era fechado por raros generais e o príncipe Juan Carlos. Quanto ao resto país, teve de se contentar com os escassos comunicados filtrados pela Casa Civil ou, então, com a leitura da imprensa estritamente controlada. Nessas condições, a reconstituição da agonia de Franco se transformou numa estranha tapeçaria tecida com os poucos comunicados oficiais e uma infinidade de confidências, impressões pessoais e simples rumores. Desde a sexta-feira, dia 17, o caudilho se mostrara fortemente gripado. Seis dias mais tarde, a chegada ao Pardo de um completo equipamento para tratamento de doenças cardíacas fez multiplicar as dúvidas. Mas foi só na tarde da última terça-feira que a real gravidade do estado de saúde de Franco transpôs o espesso silêncio oficial de Madrid - ironicamente, através de uma notícia falsa. Com efeito, a cadeia de televisão americana ABC interrompia naquela tarde sua programação normal para anunciar a morte do caudilho, citando fontes da Casa Branca. "Nosso erro se parece com o cometido pela UPI pouco mais de trinta anos atrás, quando a notícia do fim da II Guerra Mundial foi dada com 48 horas de antecedência", explicaria mais tarde um bem-humorado porta-voz da ABC. "Se a notícia não era certa, pelo menos a previsão era razoável." Seja como for, a BBC de Londres logo reproduzia a notícia da morte. Em Paris, já se sabia que Franco sucumbira a uma traqueotomia. E em Lisboa alguns boatos embalsamavam com óleos orientais o corpo do caudilho. CAÇADA EM TOLEDO - Obrigada a desmentir a morte fictícia, a Casa Civil de Franco teve de reconhecer a doença real. E o coração de Franco, além de cativar as súbitas atenções do mundo inteiro, passou a ser entregue aos cuidados de cinco renomados cardiologistas, entre os quais seu inevitável genro, o marquês de Villaverde, e ninguém menos que o dr. Christiaan Barnard em pessoa - que, oficialmente, se encontrava em Espanha a convite do mesmo Villaverde para uma caçada na província de Toledo, ao sul de Madrid. Franco, é bem verdade, desnorteava os próprios especialistas. Entre comas e recaídas, ele despachou durante 45 minutos com Arias Navarro. Também assistiu com a família a "Aventura em Dois Mundos", baseado num romance de A. J. Cronin. E, como de hábito, mandou vir dos arquivos da TV espanhola dois outros filmes: "Pânico na Cidade", com Jean-Paul Belmondo, e "Luzes da Ribalta", de Chaplin. Durante um dia e meio, enfim, o problema do Saara Espanhol e da marcha bíblica convocada pelo rei Hassan do Marrocos para percorrer o território voltou a ter prioridade nas manchetes de jornais. No fim da tarde de quinta-feira, porém, quando o Palácio das Cortes, o decorativo parlamento espanhol, recebeu a alarmante visita do marquês de Villaverde - em geral, ele não vê necessidade de freqüentar o local -, a Espanha inteira voltou a sofrer de taquicardia política. O marquês entrou sem alarde no palácio por uma porta lateral, na Calle Florida Blanca, e se dirigiu em rápidas passadas para a sala do presidente das Cortes e do Conselho do Reino, don Alejandro Rodríguez de Valcárcel - justamente, uma figura-chave no processo de sucessão. LUTA SURDA - Ao mesmo tempo, o gabinete de Arias Navarro informava que a reunião do Conselho de Ministros marcada para sexta-feira no Palácio do Pardo fora transferida para o palácio do governo na Calle Castellana, no centro de Madrid, e seria presidida por Arias Navarro "em virtude da enfermidade do chefe de Estado". Os governadores civis recebiam ordens para não deixar seus postos. E, na noite de quinta-feira, quando o príncipe Juan Carlos se retirou da cabeceira de Franco para sua residência, no palácio de La Zarzuela, seguido sintomaticamente de Arias, Navarro e Valcárcel, ninguém mais duvidava de uma surda luta pelo poder espanhol. De fato, confrontavam-se finalmente, e às claras, as duas correntes sucessórias. De um lado, a família de Franco, representada pelo marquês de Villaverde, que se recusava a revelar oficialmente o estado sem esperanças do caudilho. De outro, Arias Navarro e Juan Carlos, que já teriam tomado as providências para decretar a incapacidade do chefe de Estado. Esse confronto só foi possível graças à própria complexidade do processo sucessório. Pois a solução mais fácil seria utilizar o texto legal, que prevê a substituição de Franco por Juan Carlos nos períodos de ausência do território nacional - ou de doença do caudilho. Foi o que ocorreu de 20 de julho a 2 de setembro de 1974, por exemplo, quando uma tromboflebite impediu o generalíssimo de governar. Mas, para que a medida fosse aplicada novamente, seria necessário que a iniciativa partisse uma vez mais do próprio Franco, o que não ocorreu. E, caso ocorrese, Juan Carlos faria o possível para não aceitar a indicação. Nas raríssimas confidências que fez nos últimos meses, ele deixara claro que não desejava mais governar de maneira humilhantemente transitória. Com a atual crise no Saara Espanhol, suas intenções apenas teriam se reforçado ainda mais. EM COQUETÉIS - Outra solução possível, dentro da relativa legalidade espanhola, seria que o poder fosse declarado "vacante" à revelia de Franco - o que ocorreria em caso de morte ou incapacidade. No primeiro caso, não haveria dificuldades maiores. Constatada a "vacância", reunir-se-ia um Conselho de Regência, formado pelo presidente das Cortes, o arcebispo de Saragoça e o decano das Forças Armadas. Num prazo de oito dias, eles deveriam convocar uma sessão conjunta das Cortes e do Conselho do Reino. E, nesse momento, Juan Carlos receberia o juramento de fidelidade e seria proclamado rei. Como até a tarde de sábado Franco continuava vivo, a solução mais plausível, tecnicamente, ainda era a de declarar sua incapacidade. Mas para isso é necessário que a iniciativa seja tomada por dois terços do Ministério. E, como os ministros espanhóis, obviamente, não estão acostumados a resolver assuntos importantes sem a presença de Franco, nenhuma decisão foi tomada na reunião do gabinete de quinta-feira passada sobretudo porque a declaração de incapacidade não exige laudos médicos nem pareceres técnicos de qualquer espécie, ficando toda a responsabilidade a cargo dos ministros. Naturalmente, todos eles se encontrariam numa posição altamente desfavorável caso Franco fosse declarado incapaz e se recuperasse mais tarde - terror que jamais abandona os políticos espanhóis. Por mais impossível que fosse a recuperação do caudilho, lembrava-se, em certos círculos, o caso de Nicolas Franco, irmão do generalíssimo, embaixador em Lisboa, poucos anos atrás. Nicolas sofreu crise semelhante de insuficiência cardíaca e foi dado como clinicamente perdido. Mas conseguiu se recuperar em algumas semanas e hoje pode ser visto nos coquetéis das embaixadas, perfeitamente lúcido -e bastante saudável para seus 85 anos. "GANGSTER" - O pano de fundo de todo esse drama, portanto, era a intensa luta travada em cima do caudilho agonizante. Embora solidamente protegido por sua áurea monárquica, o príncipe Juan Carlos não deixa de enfrentar adversários imponentes. Contra ele se alinham, além da família Franco, sua Casa Civil e o presidente das Cortes e do Conselho do Reino. Também pertencem ao grupo pessoas como os ultradireitistas José Antonio Gírón, presidente dos Veteranos de Guerra, e Blas Piñar, um ideólogo da Falange, que tem como programa político o combate à "liberdade infame". Finalmente, há os generais mais conservadores, todos eles defendendo o que se convencionou chamar de "política do Bunker". À frente desse decidido grupo parece se destacar o marquês de Villaverde, médico de escasso sucesso que não hesitaria em abraçar a carreira política esperançoso de ser reconhecido "único representante masculino da linhagem de Franco". As forças fiéis a Juan Carlos, por sua vez, compostas pela maioria do governo, incluindo os ministros militares, não escondiam sua impaciência - e pareciam dispostas à luta. Durante sua ligeira refeição habitual no restaurante Zalacain, na última sexta-feira, o primeiro-ministro Arias Navarro referia-se a quem quisesse ouvi-lo ao "gangster Villaverde". MONARQUISTAS - Com a morte Franco, é verdade, Juan Carlos deverá ganhar o trono. Diversas incertezas, porém, continuam a pairar sobre o futuro de Juan Carlos. Em primeiro lugar, nem mesmo os escassos monarquistas convictos existentes na Espanha podem ser considerados um apoio seguro - e isso porque nenhum monarquista verdadeiro chegou jamais a diregir a solução encontrada por Franco para a sucessão. Com efeito, o caudilho, ao anunciar oficialmente a escolha do sucessor, dia 22 de julho de 1969, passou solemente por cima do legítimo herdeiro coroa espanhola - o exilado don Juan, conde de Barcelona, pai de Juan Carlos. De fato, a maioria dos monarquistas espanhóis de hoje se encontra reunida em torno desse don Juan - um homem de idéias liberais e por isso mesmo velho adversário do regime franquista, de quem se afastou para viver numa quinta do Estoril em Portugal. Outros se apegam a defuntas rixas dinásticas, que os fazem pender para os dois pretendentes carlistas do trono, Carlos e Alfonso. E existem ainda outras incertezas - uma das maiores, sempre alentada pelo próprio comportamento de Juan Carlos. Ao longo de todos estes seis anos e três meses em que se manteve na pouco confortável posição de sucessor designado do caudilho, o príncipe conseguiu a proeza de jamais dizer uma única frase que pudesse expor com clareza suas reais idéias políticas. Houve ocasiões, é certo, em que demonstrou fidelidade pública ao franquismo - como no último dia 1º, quando compareceu, ao lado de Franco, à maciça concentração em apoio ao fuzilamento de cinco extremistas espanhóis. Ao mesmo tempo, porém, nunca deixou de alentar certas expectativas liberalizantes - como ao estimular, freqüentemente, rumores de que seria favorável a uma transição pacífica para um regime liberal, com a permissão dos partidos políticos e a restauração das liberdades fundamentais na Espanha. DESENVOLVIMENTO - Seja como for, não há dúvida de que o sucessor de Franco, mesmo se quisesse, encontraria enormes dificuldades, para seguir à risca o modelo de seu antecessor, governando com a mesma mão de ferro e o mesmo descaso pelas forças Políticas do país - e isso porque, para começar, a Espanha de hoje parece a milênios de distância daquele país que, nos trágicos anos 30, permitiu a afirmação do franquismo. Há quarenta anos, efetivamente, a Espanha era uma das áreas mais deprimidas da Europa. Seus recursos resumiam-se às vendas de vinho, azeite e laranjas. E a classe média não passava de 2 milhões de habitantes entre a população total de 26 milhões - dos quais a maior parte analfabetos. Hoje, porém, 70% dos artigos da pauta de exportações espanhola correspondem a produtos manufaturados. A classe média do país está calculada em, pelo menos, um terço dos atuais 33 milhões de habitantes. Atualmente, de cada dez espanhóis, um possui automóvel - enquanto essa proporção, há apenas quinze anos, era de 1 para 100. A renda per capita do país atingiu 2000 dólares anuais. E um dos efeitos do desenvolvimento econômico foi arrastar os espanhóis à crescente convicção de que o país, inescapavelmente, deverá também sofrer mudanças políticas fundamentais. Os empresários, por exemplo, acham que o caminho natural da Espanha é a associação com o Mercado Comum Europeu - algo impossível de ser realizado enquanto o país continuar revestido com sua atual estrutura ditatorial. E, quanto à população em geral, uma pesquisa publicada há alguns meses pelo jornal Informaciones indica que 74% das pessoas interrogadas nas grandes cidades Madrid, Barcelona, Valência, Sevilha, Bilbao, Saragoça e Granada - eram a favor de uma democracia de tipo ocidental. Outras 89% reclamaram eleições livres e 60% manifestaram-se favoráveis a reformas profundas na Leyes Fundamentales - a Constituição do país. NOVO GOVERNO - Seja como for, na semana passada já se começava inclusive a especular em torno do novo governo a ser nomeado pelo príncipe e de suas possíveis opções. Segundo a maioria dos observadores de Madrid, Juan Carlos encontrará pelo menos um terreno em que poderá se mover com margem de manobra consideravelmente maior do que seu antecessor - a política externa. Seus interlocutores imediatos - as Nações Unidas, no caso do Saara, os países europeus, nas negociações para o ingresso no MCE, e os Estados Unidos, na renovação das bases em território espanhol - estariam dispostos a concessões que nunca fariam a Franco. O príncipe poderia encontrar, assim, condições propícias para arrancar o país de seu atual imobilismo no plano das relações exteriores - motivado, em grande parte, pela própria figura do caudilho, cujo autoritarismo e origens históricas espúrias sempre estiveram longe de alcançar boa cotação entre a comunidade internacional. Mas, no plano interno, acredita-se que pelo menos no início de seu reinado o príncipe será obrigado a seguir as linhas gerais do antigo regime e se apoiar em algum dos diversos grupos que se revesaram no poder nos últimos anos. Ele poderia, por exemplo, optar por uma linha de apenas ligeiras aberturas com relação a seu antecessor. E, nesse caso, no que se refere ao cargo de primeiro-ministro, uma decisão previsível seria a manutenção do próprio Arias Navarro, um franquista histórico mas distante das alas mais exaltadas da Falange. Arias, além disso, construiu uma reputação de liberal - dentro dos limites permitidos pelo franquismo desde que, em fevereiro do ano passado, anunciou um programa de governo aperturista, isto é, favorável às aberturas. "DIREITA CIVILIZADA" - Arias conseguiu, também, ao longo das últimas semanas restabelecer em grande parte seu prestígio pessoal - depois de um período de crise em que, apesar de seu cargo, nem sequer era recebido por Franco. Mas o primeiro-ministro não era o único nome que surgia nas especulações da semana passada. Para o mesmo cargo ocupado por ele falava-se igualmente no atual presidente das Cortes, Rodríguez de Valcárcel - e, nesse caso, a decisão de Juan Carlos significaria um compromisso com as forças mais conservadoras do regime, compreensivelmente as mais assustadas com os eventuais efeitos da transição e por isso mesmo as mais necessitadas de apaziguamento. Não estava afastada, por outro lado, a volta ao poder de Gregorio López Bravo ou Laureano López Rodó, dois expoentes da Opus Dei, organização católico-tecnocrata que teve seus dias de fausto na década de 60. E outro nome citado - este o mais liberal, entre todos os relacionados - era o do ex-ministro da Informação e atual embaixador em Londres, Manuel Fraga Iribarne. Ele é tido como principal estrela daquilo que na Espanha se chama de "direita civilizada" - um grupo favorável ao funcionamento dos partidos políticos e a outros elementos do Estado de direito, mesmo sem ser entusiasta das reformas econômicas ou sociais muito profundas. OPOSIÇÃO - De qualquer forma, se Juan Carlos terá inevitáveis dificuldades para acomodar as diversas correntes do franquismo, não há dúvida de que problemas ainda maiores lhe estarão reservados da parte da oposição - crescentemente aguerrida e organizada. Com efeito, os oposicionistas espanhóis, antes dispersos e divididos, encaminharam-se, na expectativa do desaparecimento de Franco, para o entendimento e a soma de forças. E hoje registra-se a existência de duas grandes coligações oposicionistas - a Junta Democrática e a Convergência Democrática. A primeira é liderada pelo Partido Comunista Espanhol, que ainda conserva como "presidente de honra" a histórica Dolores Ibárruri - La Pasionaria dos tempos da Guerra Civil, hoje vivendo em Moscou. O partido, entretanto, é dirigido efetivamente por seu ativo secretário geral, Santiago Carrillo, sediado em Paris. Fazem ainda parte da Junta diversos grupos socialistas menores - como a Aliança Socialista e o Partido Socialista Popular - inclusive um grupo de monarquistas liberais, partidários de don Juan. Quanto à Convergência Democrática, tem como seu principal expoente o velho Partido Socialista Obrero Español - outra relíquia da Guerra Civil, hoje revigorada pela liderança de um jovem advogado, Felipe González. Figuram ainda na coligação, com papéis secundários, diversos outros grupos de centro-esquerda ou democrata-cristãos. Na verdade, o programa respectivo das duas coligações não difere muito- ambas são favoráveis, essencialmente, a eleições livres, liberdade de expressão e associação, anistia para os prisioneiros políticos. E se o ponto básico que as dividiu, desde o início, foi a rivalidade entre o PC e o PSOE, não está afastada a possibilidade de se unirem por motivos táticos, nos próximos meses - ainda mais se a transição do poder em Madrid revelar brechas favoráveis à penetração das forças de esquerda. ULTRAS NO COMANDO - Seja como for, parece ponto pacífico que o árbitro final da transição do poder, assim como das possíveis aberturas democráticas da Espanha sob Juan Carlos, serão os militares - e, pelo menos a nível de mando, não há dúvida de que as Forças Armadas do país, hoje, encontram-se firmemente fechadas em torno da mais pura ortodoxia franquista. Com efeito, ainda no início deste mês, em seguida à inquietação causada no país pela execução dos cinco extremistas, Franco procedeu a um amplo remanejamento dos comandantes militares. O resultado, para maior radicalização do regime, foi a colocação dos oficiais mais direitistas nas posições-chave. Para o comando da estratégica da Civil, por exemplo, foi designado o general Angel Campano, que entre outros títulos, em seu currículo notoriamente "ultra", ostenta o de veterano da División Azul - formação espanhola enviada à frente oriental, durante a II Guerra Mundial, para combater os russos ao lado das forças nazistas. Por outro lado, para substituir Campano no comando da Região Militar de Madrid foi designado o general Alvarez Arenas Pacheco, aparentemente premiado pela iniciativa de alguns dias antes, sem que ninguém lhe pedisse, ter encenado espalhafatosas manobras anti-subversão e antiguerrilha na região onde servia, Sevilha. MFA ESPANHOL - Mas, se entre os comandantes a dedicação ao franquismo é total, não se pode dizer o mesmo dos escalões médios e inferiores da hierarquia militar espanhola - abaladas, apenas de julho para cá, pelas prisões de doze oficiais (dois majores e dez capitães), todos acusados de atividades políticas ilegais. Mais que tudo, a detenção dos oficiais revelou a existência, dentro das Forças Armadas espanholas, de um movimento semelhante ao MFA português - a Unión Democrática Militar, que já começa a se mostrar ativa na Espanha e no exterior. É verdade que o número de membros dessa organização pode ser considerado pequeno com relação à totalidade da oficialidade espanhola - calculam-se em 300 os integrantes efetivos da UDM, com talvez mais 1000 simpatizantes, para um total de 24 000 oficiais. Nem por isso, entretanto, os rebeldes deixam de aparentar combatividade e determinação. "Os altos escalões do Exército estão quase todos, para não dizer todos, comprometidos com a corrupção reinante", dizia, na semana passada, em Paris, a Napoleão Sabóia, de VEJA, o ex-capitão José Ignacio Domínguez, recentemente instalado no cargo de porta-voz da UDM no exílio. "Juan Carlos será a continuação do sistema franquista", acrescentava Domínguez. "Somos contra a sua ascensão ao poder. Só apoiaremos quem for livremente eleito, dentro de um regime a ser também escolhido." Não se pode dizer, no entanto, que este seja o pensamento predominante junto à ofícialidade espanhola. Ao contrário, Juan Carlos contaria, pelo menos por enquanto, com a fidelidade dos militares. E para sem dúvida contribui a educação militar do príncipe, formado pelas academias do Exército, Marinha e Aeronáutica - e, de resto, um prudente cultor de numerosas amizades nas Forças Armadas. TÚMULO - Com tudo isso o clima na Espanha, no final da semana passada, era de visível fim de uma era. O Palácio do Pardo, até o fim da tarde do sábado, continuava disparando comunicados cada vez mais fatalistas sobre o estado de Franco. Mas dava-se como certo, em Madrid, que o generalíssimo não mais reuniria condições para reassumir seu posto. E a atenção de muitos, na capital espanhola, já era desviada para detalhes como especular sobre o local em que será enterrado o caudilho - embora, até há pouco, house quase certeza em torno do Valle de los Caidos, o monumental mausoléu erguido pelo próprio generalíssimo para as vítimas nacionalistas da Guerra Civil. Recentemente, no entanto, soube-se que em segredo Franco tomou a iniciativa de reservar para si um túmulo no próprio cemitério da aldeia do Pardo, nas proximidades do palácio onde reside. Esse cemitério, originalmente humilde e desconhecido, abriga atualmente alguns nomes famosos. No mais rico túmulo ali existente, um monumento de mármore preto, repousam restos do ex-ditador dominicano Rafael Leónidas Trujillo. Num outro, está sepultado o ex-primeiro-ministro espanhol Carrero Blanco. E também Arias Navarro já reservou um terreno ali. Quanto ao túmulo de Franco, em si, encontra-se no interior de uma capela construída em 1970, e aberta apenas raramente, para missas esporádicas. Na estrada, há uma inscrição bíblica - "E separará uns dos outros". E, no interior, uma pequena escada leva a uma cripta de 6 metros por 6, jamais visitada por pessoa alguma, a não ser os operários que a construíram e o casal de empregados encarregados de sua conservação - onde repousarão, enfim, os restos do caudilho. Com "Juanito", começa uma dinastia Quando, em julho de 1968, o generalíssimo Francisco Franco comunicou a Juan Carlos de Borbón que o escolhera como seu sucessor, na qualidade de futuro rei da Espanha, o príncipe escreveu uma carta de duas páginas, em tom constrangido, a seu pai, don Juan de Borbón, conde de Barcelona, exilado em sua quinta portuguesa de La Giralda. Depois de desculpar-se por causar dor ao pai, que jamais abriu mão de seu direito ao trono, vago desde que o rei Alfonso XIII deixou o país em 1931, o monarca designado afirmava: "Eu sempre lhe disse que isso aconteceria". Embora a escolha tenha criado um problema familiar entre os Borbón, não chegou a assumir as dimensões de uma catástrofe, pelo menos para Juan Carlos, ou "Juanito". Com efeito, ao designá-lo Franco não só o fez saltar na linha dinástica por cima do pai - terceiro e único filho vivo de Alfonso XIII - como também criou uma nova dinastia que começa justamente com o próprio Juan Carlos. Pois, como explicou o caudilho, o coroamento do príncipe não significaria a "restauração" da monarquia na Espanha, e sim sua "instauração". Seja como for, um ano depois as Cortes, o parlamento espanhol, consagravam a decisão de Franco. Na ocasião, o príncipe fez um solene juramento de fidelidade ao caudilho e aos princípios do Movimento, o partido único da Espanha. Para duplo desgosto de seu pai, Juan Carlos transformava-se não só no futuro rei mas também num devedor de vassalagem. E, a partir daí, houve reações diversas. Com ele no trono, dizem os adversários do regime - entre os quais o próprio don Juan -, estará assegurada a continuidade da ditadura. Será o fim do franquismo, temem os mais fervorosos seguidores do caudilho, com base na lenda de que Los Borbones siempre traicionaron. E há, ainda, os que prevêem que Juan Carlos abdicará em favor do pai. CAUTELA - O certo é que o príncipe, aos 37 anos, tem um comportamento tão cauteloso que essas suposições contraditórias se justificam. Franco, é verdade, preparou-o exatamente para fazer dele o zelador de seu espólio. No entanto, Juan Carlos jamais expôs com um mínimo de luminosidade o que pretende fazer da Espanha. E, embora muitos o considerem um homem inexpressivo e despersonalizado politicamente, ele parece ser melhor informado e mais inteligente do que sua reputação sugere. Em suma, é bastante provável uma quarta teoria - a de que o príncipe tenha adotado a postura de "morto político", como o qualificam seus adversários, exatamente para sobreviver. A discrição no campo político, na verdade, parece ser uma simples decorrência da vida privada de Juan Carlos. Com quase 1,90 metro, cabelos louros ondulados, sobrancelhas espessas sobre olhos azuis, seu próprio rosto apresenta uma expressão incolor. Devotado à família, jamais esteve publicamente envolvido em histórias duvidosas. E, como único acontecimento sensacional de sua vida, houve uma tragédia em 1956 quando matou acidentalmente com um tiro o irmão mais novo, Alfonso, então com 15 anos. De resto, a biografia de Juan Carlos talvez jamais chamasse a atenção, não fora a circunstância de Franco tê-lo escolhido como seu sucessor. Os fatos marcantes, realmente, não são muitos. A terra natal de Juanito, como a da irmã, Margarita, e do falecido Alfonsito, não é a Espanha, mas a Itália - onde nasceu em plena Guerra Civil. Quando, após a vitória eleitoral dos republicanos, em 1931, o rei Alfonso XIII abandonou a Espanha, a família real instalou-se em Roma. Ali, don Juan casou com a princesa Maria de las Mercedes de Borbón y Orleans. Em 5 de janeiro de 1938, nasceu Juan Carlos, registrado no consulado da Espanha e batizado, com grande pompa, pelo então cardeal Eugenio Pacelli, mais tarde papa Pio XII. DOIS ERROS - A essa altura talvez já estivesse se esboçando o futuro de "Juanito" como monarca, passando sobre os direitos sucessórios do pai, o herdeiro legítimo. Com efeito, Franco jamais ocultou sua antipatia por don Juan. É verdade que, em 1936, ele tentou alistar-se nas forças nacionalistas, mas foi rejeitado. A família real teve de permanecer no exílio em Roma. E, com a morte de don Alfonso, em 1942, don Juan, então convertido em chefe da Casa Real, transferiu a família para o famoso balneário das realezas desempregadas - Estoril, em Portugal. Para arruinar definitivamente sua situação junto ao generalíssimo, don Juan cometeria dois erros capitais no exílio. Na II Guerra Mundial, decidiu apoiar os aliados. E, em 1945, conclamou os espanhóis a deporem Franco. Três anos depois, de qualquer forma, mesmo discordando do desejo do caudilho de transformar a monarquia numa continuação de seu regime, don Juan entrou em acordo com Franco para que Juan Carlos, então com 10 anos, pudesse regressar à Espanha, a fim de ser educado e treinado militarmente na pátria. Em 1948, assim, o príncipe chegou a Madrid, sendo imediatamente recebido por Franco, numa visita da qual afirma guardar até hoje "uma grata recordação". Na ocasião, o caudilho presenteou-o com uma espingarda que, nas palavras do próprio Juan Carlos, "era um encanto". O príncipe, no entanto, fora à Espanha para ser educado - e assim logo foi enviado para estudar em San Sebastián, no norte do país e em pleno País Basco, sob a orientação de tutores escolhidos pessoalmente pelo generalíssimo. Mais tarde, quando ingressou no colégio San Isidro de Madrid, somente comparecia em dias de exame - época em que ficou clara sua carência de dotes intelectuais excepcionais. Ainda assim, Juan Carlos licenciou-se satisfatoriamente em direito, filosofia e letras, além de ter cursado as academias militares das três armas na Espanha. Como convém a um pretendente a qualquer trono, ele é oficial do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, obtendo nesta última o brevê de piloto de helicóptero, aparelho que faz questão de conduzir freqüentemente. E sempre encontrou tempo para dedicar-se aos automóveis velozes, aos esportes - iatismo, natação, pesca submarina, equitação -, às festas e às jovens. "A SOGRA DA ESPANHA" - Uma delas atraía sua atenção em particular - a princesa Maria Gabriella, filha do ex-rei Umberto, da Itália, exilado em Estoril, onde Juan Carlos costumava passar as férias. Mas então interveio no incipiente romance a voluntariosa rainha Frederika, da Grécia, mãe da graciosa princesa Sofia. Depois de arranjar um encontro entre os dois, durante um cruzeiro marítimo, em 1954, a "Sogra da Espanha", como os espanhóis se referem a Frederika, convidou o príncipe a visitar Atenas. O pretexto era "ensinar espanhol" à filha, na época com 15 anos. Em 1962, Juan Carlos e Sofia casavam, na capital grega. Hoje, o casal vive harmoniosamente em companhia dos três filhos - Felipe, de 7 anos, Cristina, de 10, e Elena, de 11 - no palácio de vinte quartos de La Zarzuela, em Madrid. O orçamento do palácio corre por conta do Estado espanhol. E dos cofres oficiais saem ambém as modestas despesas de manutenção da família, calculadas no equivalente a 330 000 cruzeiros anuais. Em La Zarzuela, Juan Carlos tem sempre vivido silenciosamente. Levanta-se todos os dias às 7 horas, e até as 9 dedica à ginástica e ao caratê, esporte no detém o grau de faixa preta - embora não se considere tão bom nos golpes quanto seu cunhado, o ex-rei Constantino, da Grécia. Depois disso, contam seus amigos, o príncipe empenha-se no estudo dos problemas do país e na leitura, que leva até tarde da noite. Os adversários de Juan Carlos, contudo, olham com certo ceticismo para esses serões. Basta um exame em sua biblioteca, dizem eles, para se ter uma sugestiva idéia da bagagem cultural que o príncipe levará para o trono. E lembram que as prateleiras de sua solene biblioteca estão basicamente tomadas por livros sobre equitação, navegação, carros esporte, caça e ficção científica, além da revista Readers Digest. O PROBLEMA - Na verdade, as atividades até hoje reservadas por Franco ao futuro rei não permitiram que ele pudesse revelar qualquer qualidade de estadista. Essencialmente, o príncipe tem sido um inaugurador de obras públicas e exposições, rotina entremeada de eventuais recepções a visitantes estrangeiros e de visitas a outros países. De qualquer forma, sua situação é ambicionada também por dois primos. Um deles é don Alfonso, duque de Cádiz, casado com a neta favorita de Franco, María del Cármen, e filho do falecido don Jaime, o Surdo, que embora primogênito de Alfonso XIII renunciara a seu direito ao trono. O outro, distante e de fracas credenciais, é don Carlos Hugo de Borbón de Parma. Sobretudo, Juanito revelou ser mais hábil que o pai - pelo menos ao chegar até onde chegou. Pois, opondo-se abertamente às idéias liberais de don Juan - segundo o qual a única esperança de uma restauração da realeza na Espanha é a instituição de uma monarquia constitucional nos moldes ingleses-, Juan Carlos sempre defendeu a tese de que "a coroa deve vir das mãos de Franco" - como veio. Isso levou um dia don Juan a desabafar com um amigo: "Eu amo meu filho. Choro quando o vejo na televisão. O problema é que ele pensa como um fascista". No entanto, ninguém sabe exatamente o quanto das idéias políticas do pai - com o qual Juan Carlos conversa constantemente pelo telefone internacional - o filho absorveu. Há pessoas chegadas ao rei designado que afirmam ser ele favorável a uma abertura política - mas lentamente. A questão é saber se terá tempo para esse eventual projeto de govemo. Pois, segundo uma profecia jocosa, seu reinado seria inevitavelmente, curto - razão por que, imediata após sua designação, o príncipe ganhou entre os espanhóis o apelido de "Juan Carlos, o Breve". |
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