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29 de julho de 1981
O enigma dos
alimentos

O Brasil tem tudo para produzir
comida farta e barata, mas os
consumidores estão pagando cada
vez mais caro para encher a mesa

Um dos mistérios de se viver no Brasil é entender por que está custando tão caro, e cada vez mais caro, trazer a comida para casa. O Brasil é um dos países do mundo que dispõem de mais terras em potencial para a agricultura - só o superam os Estados Unidos e a União Soviética. O clima e a qualidade do solo não são os melhores mas estão longe de ser os piores. A área plantada, este ano, é de 45 milhões de hectares, mais que a de qualquer país europeu. A produção de alimentos é a grande prioridade econômica do atual governo, que está jogando mais dinheiro que nunca no campo - 1,4 trilhão de cruzeiros em 1981, ou quase 30% de todo o orçamento deste exercício. Também em 1981, e pelo segundo ano consecutivo, o país colherá uma safra portentosa: 54 milhões de toneladas de arroz, feijão, milho, soja e trigo. É uma cifra respeitável, em termos mundiais. Com ela, o Brasil é o segundo maior produtor de soja do mundo, o terceiro de milho e de feijão, o oitavo de arroz e o nono de trigo. Jamais, em seus 481 anos de história, o Brasil produziu tanta comida. Jamais, porém, ela custou tão caro.

De fato, embora se tenham tornado nos últimos anos cidadãos de uma das grandes potências agrícolas do mundo, os brasileiros se vêem, hoje em dia, metidos na situação aparentemente incompreensível de pagar mais pelo que comem do que os moradores de virtualmente qualquer outro país que por alguma razão se lhe possa comparar. Tomando-se como base um salário médio de 17.000 cruzeiros mensais, o brasileiro gasta, por exemplo, três horas e 40 minutos para comprar 1 quilo de carne, 59 minutos para uma dúzia de ovos e 34 minutos para 1 quilo de arroz - contra 51, 7 e 10 minutos, respectivamente, gastos por um americano para comprar os mesmos produtos. Entre junho de 1980 e junho de 1981, de uma lista de 100 produtos pesquisados pela Fundação Getúlio Vargas, apenas um caiu de preço - a cebola. Dos outros 99, nada menos que 53 tiveram aumentos superiores à taxa de inflação no mesmo período e nenhum aumentou menos que 44%.

Não há, no horizonte próximo, sinais de alívio. As geadas que caíram sobre o sul e sudeste do país na semana passada já estão funcionando como um novo e poderoso disparador de preços: no Ceasa de São Paulo, o caixote de tomate saltou de 450 para 700 cruzeiros já na sgunda-feira (antes mesmo de a geada ter caído), cerca de 400.000 toneladas de trigo podem ter sido dizimadas e o feijão, pela quarta vez consecutiva, terá sua safra duramente prejudicada. Esta semana, nos Ceasas, feiras e supermercados, o consumidor estará encontrando tudo mais caro - mas, naturalmente, a culpa não é só da geada. Mesmo com o mais excelente clima, ele já perdeu há muito tempo as esperanças de encontrar os mesmos preços durante três, às vezes duas, semanas seguidas. Na verdade, os motivos dessa alta constante se estendem em várias direções, nenhuma delas, aparentemente, dando sinais de melhora a prazo curto. E possível, conforme calcula o governo, que a atual disparada perca parte de seu impulso até o final do ano. Mas o preço exorbitante da comida no Brasil é provocado por fatores permanentes, fundamente enraizados na vida econômica do país, e seria fantasioso esperar melhoras significativas antes de sua remoção. Eis os principais:

INTERMEDIÁRIOS

Antes de chegar à mesa dos consumidores, os alimentos passam por muitas mãos - mais, provavelmente, que qualquer país com desenvolvimento mediano em sua estrutura de comercialização. Mesmo os supermercados não costumam efetuar compras diretamente junto ao produtor. Os canais de distribuição são ainda mais obstruídos quando se trata de legumes, verduras e frutas, pois essa área é composta de pequenos produtores, pulverizados e afastados dos grandes centros. Assim. cabe aos intermediários comprar o produto, fazer a seleção e, depois de acondicioná-lo em sacos ou caixotes, efetuar o transporte para o centro consumidor. Os intermediários não são, necessariamente, um mal - prestam um serviço real à comunidade, freqüentemente ganham pouco ou apenas o razoável e sem eles não haveria hoje, na prática, como alimentar as cidades brasileiras. O problema é que há intermediários demais: os alimentos, às vezes, passam por mais de cinco intermediários até chegar ao consumidor. Como cada um deles absorve um lucro nunca inferior a 10%, o preço final das mercadorias é quase sempre abusivo em relação aos custos de produção. Por exemplo, o repolho, que custa 7 cruzeiros junto a um produtor localizado a menos de 150 quilômetros do Rio de Janeiro, é vendido nas feiras cariocas por 35 cruzeiros, sofrendo no caminho um aumento de 400%. O mesmo se dá, virtualmente, com qualquer alimento que chega à mesa do consumidor. Fruto desse desastroso sistema de distribuição, os intermediários podem ser pequenos comerciantes, grandes empórios, feirantes e cooperativas. A Cooperativa Agrícola de Cotia, de São Paulo, é, segundo dirigentes de supermercados, o maior intermediário de todo o país.

ESPECULAÇÃO

Joga-se muito pesado, no Brasil, no mercado de alimentos - um jogo feito pelo especulador de preços, que compra forte quando o mercado está em baixa e é franco-vendedor quando o mercado está em alta. Diferente do intermediário que trabalha com margens mais ou menos fixas, o especulador entra no mercado apostando que os preços se movam a seu favor, ou seja, mantenham-se sempre em alta. Em países com produção homogênea, com amplo mercado e grande número de produtores e consumidores, o especulador corre riscos, banca posições e pode ganhar ou perder. Já em mercados subdesenvolvidos, como o brasileiro, o especulador dificilmente perde dinheiro. Na verdade, ele influi nos preços: tira proveito da debilidade financeira e da extrema pulverização dos pequenos produtores - sobretudo de verduras, legumes e frutas - e, por deter freqüentemente o monopólio da demanda, compra a preços aviltados, estoca o alimento e acaba provocando altas artificiais. Teoricamerte, as cooperativas, ao reunirem pequenos produtores, dariam vazão a sua produção sem necessidade do especulador. Nos grandes centros, contudo, as cooperativas também entram no jogo e acompanham os preços dos especuladores. Se os especuladores puxaram o preço do tomate de 450 para 900 cruzeiros a caixa de 25 quilos na semana passada (depois da geada), foram imediatamente acompanhados pelas cooperativas. Existe somente uma diferença entre os especuladores e as cooperativas: estas não espoliam os produtores, que participam de seus lucros. Por que os supermercados - que também concentram um robusto poder de demanda - não forçam os especuladores e intermediários a baixarem os preços? Os supermercados apenas passam ao largo dos intermediários em produtos - como a laranja - que exigem porte empresarial, casos nos quais o produtor atua também como fomecedor. De resto, recorrem aos Ceasas sem se impressionar com os preços porque é mais simples repassá-los para o consumidor: afinal, o consumo de alimentos é compulsório.

FRONTEIRA AGRÍCOLA

Com a progressiva valorização das terras, tem havido um crescente desestímulo à manutenção de lavouras alimentares perto, ou não muito longe, das grandes cidades. O cinturão verde de São Paulo, por exemplo, vai se transformando, aos poucos, num compacto cinturão de concreto. O resultado da alta de preços da terra é que as plantações vão sendo levadas cada vez mais para longe dos centros consumidores. Mais de 90% dos hortifrutigranjeiros consumidos pela população do Rio de Janeiro provêm atualmente do Estado de São Paulo. Por sua vez, a cidade de São Paulo, cujo arroz vinha do vale do Paraíba, a não mais de 150 quilômetros, agora se abastece no Rio Grande do Sul e Rondônia. Na verdade, um terço da produção brasileira de arroz é obtido hoje na região formada por Rondônia, norte de Mato Grosso, Goiás e Maranhão - e, com a criação desta nova fronteira agrícola a 2.000 ou 3.000 quilômetros de distância dos principais centros, os preços só fizeram subir, pois aumentaram muito os custos da produção.

TRANSPORTE

Se a produção vai ficando cada vez mais distante dos grandes centros, tanto pior para o consumidor - quanto mais longe, mais caro, sobretudo quando se carrega comida em caminhão. Enquanto nos Estados Unidos apenas 20% dos produtos agrícolas são transportados por rodovias, os caminhões no Brasil são responsáveis pelo transporte de 80% de toda a produção. O óleo diesel custa hoje 42 cruzeiros o litro contra 5,80 em julho de 1979. Resultado: há dois anos, o custo do transporte de uma saca de arroz de Mato Grosso do Sul até São Paulo representava 10% do valor da saca, na época valendo 700 cruzeiros. Atualmente, já representa 45%. Como nada indica que o sistema de transporte reduzirá sua dependência em relação aos caminhões e, também, que a agricultura cessará a expansão de sua fronteira, não há motivo para ter esperança numa redução do peso do transporte no custo final da alimentação.

CUSTO DOS INSUMOS

Os preços dos alimentos também são gravados pelo alto custo de fertilizantes e defensivos agrícolas. De acordo com a revista Agroanalisys, da Fundação Getúlio Vargas, os herbicidas e inseticidas usados pelos produtores do Paraná no ano passado eram de 34,8% a 166,8% mais caros que os mesmos defensivos utilizados nos Estados Unidos. Outros avanços da tecnologia, porém, são simplesmente mal administrados. Segundo o economista Bruno Peçanha, do Grupo de Informação Agrícola da FGV, "há poucos anos, dos 70.000 tratores existentes no Paraná, apenas 10% eram operados por tratoristas preparados para isso".

PRODUTIVIDADE

As lavouras de arroz do Rio Grande do Sul conseguem uma produtividade de 4.150 quilos por hectare - 350 quilos acima da média mundial. Mas a conquista gaúcha é uma exceção no Brasil, onde a produtividade ainda é bastante baixa. Apesar da intensificação no uso de defensivos e fertilizantes, a produtividade das lavouras não sofreu evolução correspondente. Entre 1969 e 1978, o consumo de fertilizantes em São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul voou de 600.000 toneladas para mais de 3 milhões - um aumento de 400%. Mas a resposta em aumento da produtividade foi reduzida: 10% de aumento no milho, menos de 5% no trigo, pouco mais de 2% no arroz.

CLIMA

Além de não ajudar no cultivo de certos alimentos - o trigo é o exemplo clássico -, a natureza reserva para o Brasil, com enchentes, secas e geadas, o quinhão de misérias climáticas que cada país tem de pagar. "O Brasil não é dotado de terras magníficas para o cultivo agrícola", diz Olacyr Francisco de Moraes, o maior produtor individual de soja do mundo. "Nossas terras são fracas, em sua grande maioria de campo ou cerrado, o que exige muita adubação e aplicação de corretivos. Para ele, "o trabalho do agricultor brasileiro é quase como um jogo. Ele planta com um olho no chão e outro no céu". Os registros meteorológicos indicam que o Brasil, historicamente, não consegue passar três anos seguidos sem alguma convulsão climática de monta.

CONFLITO DE INTERESSES

Nos últimos anos, a agricultura foi chamada a cumprir três objetivos estratégicos: expandir a oferta interna de alimentos, aumentar as exportações e permitir a substituição de petróleo por álcool de cana. No conflito de interesses, quem levou a pior foi a agricultura voltada para o consumo interno. Entre 1967 e 1979, a taxa média de crescimento das áreas cultivadas com produtos exportáveis - entre eles, a soja - foi de 5,3% enquanto as lavouras voltadas para o consumo interno se expandiram apenas 2,7%. No mesmo período, enquanto a produção de soja cresceu à média anual de 27,4%, a de feijão caiu em média 1,3% ao ano. Os 10 milhões de hectares somados à área cultivada com lavouras (que passou de 3 milhões de hectares para 44,4 milhões) foram e continuam a ser ocupados, em grande parte, por produtos exportàveis. Até os aperfeiçoamentos tecnológicos contemplam mais as lavouras de exportação e de energia que as de alimentos. Em 1979, a utilização de sementes melhoradas alcançou 90% da cultura de soja, mas apenas 39% das lavouras de arroz e 6,5% do total plantado de feijão.

INSTABILIDADE

A produção de alimentos no Brasil não prima pela prudência. Os produtores, com frequência. alternam culturas, movidos por oscilações ocasionais de preços, balançando perenemente entre a escassez e a superoferta. "O produtor mal informado comporta-se como um investidor amador em Bolsa de Valores", afirma o diretor de comercialização do Grupo Pão de Açúcar, Sílvio Bresser Pereira. "Planta na alta e vende na baixa." Assim, quando viram o preço do quilo de cebola chegar a 8O cruzeiros em junho de 1980, muitos plantaram cebolas. Hoje, há superprodução de cebola e o quilo chegou a 31 cruzeiros na semana passada. As avaliações apressadas não afetam apenas os produtos agrícolas. No ano passado, houve uma previsão irreal dos produtores de frangos quanto ao consumo. Frustraram-se e o resultado foi a superprodução. O preço do frango subiu 70% entre junho de 1980 e junho deste ano, bem abaixo da inflação. Agora, o preço começa a recuperar-se mas só sobreviveram os grandes produtores.

TABELAMENTO

A interferência do governo na formação de preços quase sempre é nociva e no Brasil adota-se o tabelamento de preços, tanto no poder quanto na oposição. "Toda vez que o governo entra tabelando preços é um desastre", diz o presidente das Casas Sendas, Artur Sendas. "O tabelamento a curto prazo resolve o problema do consumidor mas, a longo prazo, é terrível para o próprio consumidor." O exemplo predileto dos críticos do tabelamento é o feijão. Ao tabelar o quilo do feijão-preto em 25 cruzeiros no início de 1979, o govemo desestimulou os produtores e estimulou o comércio paralelo. Quando o preço foi liberado, o feijão chegou rapidamente a 200 cruzeiros o quilo. Um tabelamento mais prolongado tem efeitos ainda mais perversos. Além de não resultar em queda de preço real pago pelo consumidor - apenas os faz parar onde estão -, desestimula o plantio. O produtor, não querendo receber preço certo por algo cujo custo lhe é incerto, deixa de plantar e a escassez, no futuro, torna-se líquida e certa - provocando inevitavelmente a liberação dos preços e seu aumento, num perene ciclo altista.

SEM FANTASMAS - A lista das imperfeições poderia ser mais extensa. De qualquer forma, são chocantes os gargalos por que passa a comercialização de alimentos no Brasil. "Não existe nenhum fantasma. O que existe é um sistema de comercialização arcaico que precisa ser modernizado", diz Carlos Viacava, secretário geral do Ministério da Fazenda. "Só agora estamos saindo de uma fase de comercialização da Idade Média para entrar na economia de mercado", preve o ministro da Agricultura, Amaury Stabile. "A ineficiência da comercialização precisa ser reduzida porque o consumidor não aguenta mais pagar esse ônus".

O ministro do Planejamento, Delfim Netto, apóstolo maior da prioridade agrícola, também acha que o Brasil comercializa pessimamente sua produção - além de não produzir direito. "Crescemos em extensão", diz Delfim. "Mas não em produtividade." Para enfrentar tudo isso, a ação do governo parece limitada. Ele pretende, primeiro, influir na venda direta dos produtos por meio dos postos da Cobal. Segundo, eliminar a margem de ação do intermediário, pelos programas de compras avançadas da Comissão de Financiamento da Produção (CFP). "Isso eleva a eficiência da comercialização e ajuda a comprimir o preço final do produto", aposta Stabile. Delfim, por seu lado, acredita nos benefícios futuros da criação de estoques reguladores, algo que o Brasil praticamente não tem. "Até o final do governo Figueiredo", acredita Delfim, "deveremos ter estoques de alimentos básicos. Se isso não levar o governo à tentação de querer ditar preços, será uma situação positiva."

O governo conta, também, com a reformulação da política de preços mínimos, aprovada na semana passada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Agora, no lugar do preço mínimo, que incluía projeções de todos os custos de produção, criou-se o "preço básico", reajustado automaticamente pelo INPC, que será aplicado à época da colheita. Para o governo, será um incentivo ao aumento de produção. "Assim, o preço continuará estimulante na colheita. Preços baixos poderiam levar o produtor a reduzir a área plantada ou sua produtividade", preocupa-se Jayme Ramos de Almeida, chefe do departamento de análise econômica da CFP.

ESCASSEZ FUTURA - O preço básico reajustado pelo INPC, sem dúvida, foi uma excelente notícia para os produtores. Já, para os consumidores, a semana passada trouxe a geada e, com ela, a alta de preços do tomate, da batata e das hortaliças como o repolho. A par da especulação dos intermediários, houve, de fato, pesadas perdas em São Paulo e no Paraná. Silvano Amstalden, produtor de Indaiatuba, perto de Campinas, esperava colher, este ano, cerca de 1.500 sacas de batatas e 6.500 caixas de tomate. Depois da geada, ele crê que houve uma queda de mais de 70% de sua produção.

Já os intermediários dificilmente serão atingidos - anteciparam-se à futura escassez e reajustaram os preços, já visíveis nas todo-poderosas centrais de abastecimento. Só o Ceagesp recebe diariamente 8.000 toneladas de legumes, verduras, flores, raízes e pescado. Nesse trabalho, movimentam-se 20.000 veículos e 50.000 pessoas por dia. O presidente do Ceagesp, Higino Batiston, garante que, na central, não há a ação de especuladores. "Aqui, só permitimos que o produto mude de mão uma vez. Não temos lugar para atravessadores, que compram para fazer estoque ou revender a um preço maior mais à frente."

Se não há lugar para atravessadores, como se explica que as donas-de-casa, nas feiras, paguem quase o dobro dos preços cobrados nas centrais de abastecimento? Por exemplo, uma caixa de tomate, de 22 quilos, é vendida no Ceasa do Rio por 500 cruzeiros. Na feira, contudo, esse mesmo tomate custa 40 o quilo - ou seja, a caixa de 500 cruzeiros sobe para 880. No Ceagesp de São Paulo, Armando Augusto Quitério, feirante português de 52 anos, desautoriza esse tipo de cálculo: "Afinal, estou há 27 anos no negocio e não fiquei rico". "As pessoas se esquecem de que os preços na feira vão caindo com o passar das horas e a margem de lucro é no máximo de 40%", explica ele.

'VÃO SUBIR MAIS' - Os feirantes têm sólidos defensores - e, na verdade, não há casos de feirantes milionários. Segundo Antonio Varela, o chefe da divisão de mercado atacadista do Ceasa, no Rio, "o feirante realmente dobra o preço do produto entre o Ceasa e a feira, mas ele não opera em escala e tem de tirar seu lucro do pouco que vende". Há tambem muita compreensão quanto ao papel desempenhado pelos intermediários. Na semana passada, por exemplo, Artur Sendas lamentou que "muita gente põe a culpa no chamado atravessador". E tratou de explicar por que o arroz vendido a 60 cruzeiros o quilo no Rio custa 16 junto ao produtor gaúcho. "Acontece que o arroz é comprado com casca. De cada 10 quilos, 3 equivalem a cascas. Dos 7 que sobram ainda tem de se separar o arroz quebrado. Acrescente-se a isso o frete, que corresponde a 15% do preço final. Só tem mesmo que subir."

Quanto ao consumidor, perdido em todo este ciclo, só tem mesmo de pagar. Se o produto está escasso, os preços disparam. Se a oferta supera a demanda, matam-se porcos ou jogam-se cebolas e leite nos rios. Mesmo assim, o governo acha que as coisas tendem a se tornar menos feias daqui até o final do ano. "Depois de dois anos de recuperação das safras, começa a notar-se arrefecimento nos preços", diz o ministro Amaury Stabile, que tem a seu favor os dados da FGV - no primeiro semestre, enquanto a inflação foi de 47%, a alimentação subiu 45%. Há um abismo, no entanto, entre o moderado otimismo de Stabile e o vaticínio do superagricultor Olacyr Francisco de Moraes: "Se estão achando que os alimentos estão caros, podem preparar-se porque seus preços vão subir", diz ele. "É uma ilusão achar que estão altos."


 
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