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28 de novembro de 1990
A guerreira
indomável
sai de cena
Na contramão da Europa, Thatcher renuncia e encerra uma era de revolução conservadora
Margaret Thatcher caiu da mesma forma como viveu os extraordinários onze anos em que mudou a Inglaterra e ofereceu a face mais ostensiva de uma revolução que se espalhou pelo mundo: como guerreira, como líder política detestada com intensidade similar tanto por inimigos quanto por aliados e, até, como mulher. "Tudo isso aconteceu muito depressa. Fiquem mais um pouco comigo", pediu ela a seus ministros no começo da manhã de quinta-feira, depois de desistir de lutar pela liderança do Partido Conservador, o que implica a renúncia à chefia do governo assim que for escolhido seu sucessor. Naquele momento, ela não escondia as lágrimas que sempre fez questão de dizer que derramou em muitas ocasiões de sua vida, embora freqüentemente dando a impressão de que segurava o lencinho em uma mão e uma bazuca na outra. "A crueldade disso tudo foi o que mais me magoou", confidenciou a um aliado, com o mesmo tom de espanto e dor de um Júlio César apunhalado pelas costas.
Mas a mágoa, provocada pela rebelião no partido que ela tirou da inanição para fincar no poder por mais de uma década, logo cedeu à velha Thatcher de sempre, uma mulher de cabelo nas ventas e fogo nas veias, briguenta, enérgica e tão senhora de si mesma que, em termos de personalidade, só encontra paralelos entre os líderes mundiais no presidente Mikhail Gorbachev – uma descoberta sua, por sinal. "Aconteça o que acontecer, haverá muita simpatia pela senhora", tentou consolar um ministro. "Não quero simpatia nenhuma", fuzilou Thatcher.
Com esse ânimo combativo, ela passou a mão na bolsa e foi ao Palácio de Buckigham comunicar o desfecho de seu drama shakesperiano à rainha Elizabeth II. "Cheguei à conclusão de que a unidade do partido e a perspectiva de vitória numa eleição geral seriam mais bem servidas se eu desistisse", dizia sua declaração oficial de renúncia, com a elegância dos grandes líderes forçados a reconhecer que está na hora de cair fora e abrir caminho para outro. Em seguida, dirigiu-se ao Parlamento para responder à oposição trabalhista, que, aproveitando a briga de foice entre os conservadores, havia pedido um voto de censura contra o governo. Poucas vezes se viu um debate tão divertido na Câmara dos Comuns, onde a informalidade da democracia mais antiga do mundo eventualmente dá vez a cenas de pastelão. Como uma maestrina que claramente adora se exibir na atividade em que é estrela, a Dama de Ferro retorquiu as críticas e provocações bem-humoradas dos parlamentares, arrancando palmas e gargalhadas. "A senhora Thatcher demonstrou a força de um primeiro-ministro que acaba de assumir o poder, não de perdê-lo", elogiou o Daily Mirror, um dos poucos jornais britânicos de circulação nacional que não se converteram ao rolo compressor do thatcherismo.
COMBATE FURIOSO – Por mais aplausos e simpatia que a grande guerreira tenha recebido em seus atos derradeiros, perdura a realidade crua: foi-se o poder que ela exercia com paixão declarada, idéias obstinadas e pulso de ferro. Acabou-se uma era na qual, guiada pela convicção absoluta de que a ingerência do Estado na economia e na sociedade é o mal e o mérito individual é o bem, Margaret Thatcher arrancou a Grã-Bretanha a fórceps da decadência econômica, empunhou a bandeira liberal, cujo apelo se espalhou pelo mundo inteiro, e liderou uma contra-revolução paradoxalmente revolucionária. A bordo de uma ilha européia que marcava passo havia décadas, Thatcher mudou a discussão política no planeta com as mudanças que implementou em seu governo. Junto com Ronald Reagan, ela deu o tom conservador dos anos 80. E, mais que o ex-presidente americano, radicalizou na postura neoliberal: enfrentou e quebrou os sindicatos, fio à guerra contra a Argentina para garantir a posse das ridículas Ilhas Malvinas, privatizou empresas e abalou os alicerces do Estado britânico provedor e perdulário.
A terra começou a tremer sob os pés da dama dura na queda no dia 1º de novembro, quando sir Geoffrey Howe, vice-primeiro-ministro e último dos veteranos do primeiro governo de Thatcher que ainda não haviam sido chutados ou caído fora por conta própria, resolveu que estava na hora de saltar do barco. A economia em retração, a reforma fiscal mais detestada da História da Inglaterra, a derrocada dos índices de popularidade que apontavam para uma futura vitória do Partido Trabalhista, tudo conspirava contra Thatcher. Mas foi uma questão que não ocupa o primeiro plano das preocupações da opinião pública o elemento desencadeador da deserção de Howe: a unificação européia, alvo de furioso e infrutífero combate da primeira-ministra.
"A tragédia para mim, pessoalmente, para meu partido e para nosso povo, é que a atitude da primeira-ministra para com a Europa está criando riscos cada vez maiores para o futuro de nossa nação", disse Howe num devastador discurso de renúncia que Thatcher começou a ouvir sorrindo, como se fosse brincadeira, e terminou com uma expressão arrasada estampada no rosto. Numa análise mais cruel ainda, a revista The Economist, longamente habituada a dar um tom sofisticado e ferino à matéria bruta que saía da metralhadora do ídolo dos conservadores, revolveu a faca na ferida. "A senhora Thatcher, personalidade de estatura mundial, não impõe mais respeito no lugar que mais importa para a Grã-Bretanha: a Comunidade Européia. Para a Comunidade Européia, essa perda de influência é uma pena, para a Grã-Bretanha, é uma tragédia", disse em editorial. Thatcher, que esteve à frente da onda política dos anos 80, naufragou quando tentou ir contra uma vaga dominante – a unificação da Europa. O Velho Continente derrotou a Dama de Ferro.
DAMA DO CONTRA – A ascensão de Margaret Thatcher ao poder – onde ficou onze anos e meio, o mais longo governo deste século na Inglaterra – coincidiu com o renascimento da idéia de uma Europa unificada economicamente. Fiel guardiã da independência de sua ilha, Thatcher embarcou na onda da unificação, mas apenas até certo ponto e sempre de maneira relutante. A defesa das prerrogativas nacionais até que fez sucesso perante boa parte da opinião pública britânica, acostumada a olhar para o continente com desconfiança mal disfarçada ou desprezo ostensivo, mas as elites políticas e econômicas foram ficando cada vez mais apavoradas com a ranhetice da primeira-ministra, que ameaçava deixar a Grã-Bretanha fora da grande competição européia. "Sua concepção de Europa, que se resume ao velho conceito de Estado-nação e não permite nenhum arranhão na soberania, colocou-a na contramão dos principais líderes europeus. Ela ficou isolada", diz Martin Jacques, redator-chefe da revista Marxism Today e fã declarado de Thatcher, de quem escreveu uma biografia.
Nas reuniões dos doze países membros da Comunidade Econômica Européia, o placar passou a ser antecipado com certeza absoluta: 11 a 1, a Dama de Ferro contra todos. O racha se tornou incontornável no final de outubro, em Roma – e desencadeou o processo definitivo de fritura da primeira-ministra. Onze dos doze países, como sempre, anunciaram o calendário para a segunda fase da união monetária e definiram a criação de um Banco Central Europeu, em janeiro de 1994. "Os senhores estão querendo inventar uma utopia", fulminou Thatcher antes de voltar para casa pisando duro, mais convencida do que nunca de que a unificação da Comunidade Européia, como está encaminhada, "coloca em perigo a vida econômica e social de cada um de seus membros".
FIM DA LINHA – Em casa, porém, a rebelião dos conservadores já corria solta. Primeiro, veio a renúncia de Howe. Dois dias depois, o ex-ministro da Defesa Michael Heseltine, de olhos cobiçosos, havia muito tempo, no lugar de Thatcher na casa número 10 de Downing Street, anunciou que iria à luta pela liderança do partido. Com três vitórias eleitorais em seu currículo – em 1979, 1983 e 1987 –, a primeira-ministra achava que ainda tinha gás para continuar na liderança "por muito, muito tempo". Na primeira rodada da eleição interna, ela recebeu 204 votos, e Heseltine, 152. Faltaram quatro para a maioria absoluta, que lhe garantiria a vitória.
Numa daquelas ironias que enfeitam a História, Thatcher recebeu a péssima notícia através de um telefonema do marido, Denis, para a Embaixada da Inglaterra em Paris. Eram 18h30 da última segunda-feira, e a primeira-ministra aguardava apenas o resultado da eleição para seguir até o Palácio de Versalhes, onde o presidente François Miterrand oferecia um jantar aos outros 33 chefes de Estado presentes à Conferência para a Segurança e Cooperação na Europa. Ali, no luxo suntuoso nascido dos caprichos da posteriormente decapitada monarquia francesa, celebrava-se o ato formal de rendição dos inimigos do capitalismo que Thatcher, filha de um quitandeiro do interior, combateu com tanta eficiência a ponto de se transformar de adversária em modelo a ser imitado. "Ela chegou ao fim da linha", resumiu o parlamentar conservador Robert Rhodes James, dizendo em voz alta o que Thatcher iria ouvir baixinho de seus principais colaboradores: ela poderia insistir no segundo turno, como tentou, e até ganhar de Heseltine, mas o partido estava irremediavelmente rachado.
MORTE AO SOCIALISMO' – Segundo uma máxima corrente no sistema parlamentarista inglês, o primeiro-ministro costuma ter seus adversários (a oposição) pela frente e os inimigos (seu partido) pelas costas. Os inimigos só se sentiram com força suficiente para sair da retaguarda para apunhalar Thatcher depois que ela aniquilou, possivelmente para todo o sempre, a ideologia de seus adversários trabalhistas – ou, numa expressão que com certeza ela detestaria, uma vez cumprido seu "papel histórico". E Maggie jamais deixou dúvidas sobre qual era esse papel, a partir do momento em que assumiu o poder anunciando que iria "matar o socialismo" – em sua versão britânica, uma mistura de Estado de bem-estar social sem recursos suficientes para pagar a conta com poder sindical levado ao paroxismo.
Para cumprir seu objetivo, a Dama de Ferro combateu os adversários trabalhistas e converteu os inimigos conservadores. As reformas que implantaram o sistema de bem-estar social na Inglaterra foram introduzidas pelo governo de Clement Attlee, primeiro-ministro entre 1945 e 1951, com plena participação do Partido Conservador. Seguiram, até os limites do possível, a linha geral do pós-guerra: nacionalização das indústrias de base e extensão dos benefícios sociais a todos os setores da sociedade, tornando o Estado responsável direto pelas necessidades básicas de todos os cidadãos. Acontece, porém, que os dirigentes britânicos colocaram o carro na frente dos bois, procedendo à redistribuição de riqueza antes da reconstrução econômica, ao contrário do que havia acontecido em outros países europeus e no Japão.
O resultado foi que a Inglaterra, o país onde o capitalismo foi inventado, chegou à década de 70 às portas da falência, na condição, segundo uma piada da época, de única nação do mundo "em via de subdesenvolvimento". A política de pleno emprego era inflacionária e promovia a ineficiência. O governo onipresente distorcia as prioridades econômicas com subsídios que obedeciam a razões políticas. Os lucros sobre o capital eram punidos com impostos de até 98%, enquanto o imposto de renda normal podia atingir 83%. Os gastos públicos aumentavam. e as taxas de rendimento diminuíam. Entre os países industrializados, o antigo império onde o sol nunca se punha passou a ter a inflação mais alta, a balança de pagamentos mais desequilibrada e a taxa de crescimento mais baixa. Enquanto isso, os sucessivos governos se limitavam a administrar a crise.
Foi contra essa situação que Margaret Thatcher se insurgiu, e não porque tivesse algum especial prazer em humilhar trabalhadores que apenas defendiam seus empregos ou reivindicavam aumentos salariais, cortar aposentadorias de velhinhos e afanar o leite das crianças – o apelido de "Milk Snatcher", a gatuna de leite, foi-lhe pespegado quando, na qualidade de ministra da Educação, tirou o produto da merenda escolar, obedecendo a ordens de enxugar gastos. A Alemanha, por exemplo, com benefícios sociais muito mais abrangentes do que os britânicos – e uma e uma economia pujante –, nunca precisou de uma revolução thatcherista. A base do Estado de bem-estar social também jamais foi demolida e, depois de onze anos de thatcherismo. a Inglaterra continua a ser um país onde ninguém morre de fome por falta de emprego ou de assistência médica.
TRATAMENTO DE CHOQUE – Quando a primeira-ministra assumiu, no entanto, o país acabava de sair do chamado "inverno do descontentamento", época em que a eletricidade teve de ser racionada e só se trabalhava três dias por semana. O tratamento – hoje um lugar-comum desde a Polônia até o Peru – foi de choque. Combate sem trégua à inflação, crescimento econômico, demolição do setor público, tudo o que consta dos manuais contemporâneos dos países em crise saiu da cabeça e do senso comum da mulher de origem humilde que lutou duro para subir na vida. "Minha política não se baseia em nenhuma teoria econômica, mas nas coisas que eu e milhões de pessoas iguais a mim aprendemos: pagamento honesto para uma jornada honesta de trabalho, viver de acordo com os próprios recursos, economizar para as épocas das vacas magras, pagar as contas em dia", explicou ela certa vez.
Com as mesmas palavras simples, a Dama de Ferro mexeu mais fundo. "A economia é o método, o objetivo é mudar a alma", disse ela, para indicar a revolução espiritual que tinha em mente, usando, não por acaso, palavras que seriam retomadas por Mikhail Gorbachev - o obscuro burocrata comunista no qual ela identificou com olho de águia um brilho diferente - para sua própria revolução no império soviético. "Ela sempre levantou as questões fundamentais. O que é a sociedade? Qual é a pertinência do papel do Estado? Qual é o papel do indivíduo? Qual a função do mercado? Era fantástico", encanta-se Martin Jacques, da Marxism Today. "Para alguém de esquerda, era impossível não ter uma certa afinidade com a senhora Thatcher. Esse tipo de projeto de reforma de toda a sociedade normalmente pertence à esquerda."
SOM E CABEÇA DURA – Além de tudo, como exigia Napoleão de seus generais, a dama costumava ter sorte. Em 1984, escapou por um triz do violento atentado a bomba cometido por terroristas irlandeses no hotel onde se realizava um congresso do Partido Conservador. Não fosse pelo desastrado general Leopoldo Galtieri e pela invasão das Malvinas, o thatcherismo possivelmente teria sido destronado muito antes. "Não foi sorte, eu mereci", poderia responder ela, com a mesma segurança que usou ao pronunciar a frase aos 9 anos de idade, quando ganhou um prêmio escolar, o primeiro de sua carreira de estudante esforçada que a levaria a se formar em Química, em Oxford. Sorte, mérito e obstinação – uma palavra que pode ser usada corno sinônimo de príncipios, como quando resistiu durante onze meses à greve dos mineiros até baixar o topete do movimento sindical, ou de cabeça dura, como no caso do poll tax, a taxa única cobrada por cabeça que substituiu o imposto territorial, devorou-lhe o prestígio popular e ressuscitou a imagem de Thatcher como a bruxa maligna que tira dos pobres para dar aos ricos.
Com a Dama de Ferro fora do primeiro plano da cena política, no entanto, a imagem que tende a ficar é a luminosa. "Houve uma época em que ela teve um valor inestimável para a Grã-Bretanha", decretou a Economist em seu obituário político. "Só ela poderia ter posto os argentinos para correr e, dois anos depois, os mineiros. Enquanto cinco gerações de líderes políticos assistiram ao declínio econômico da Grã-Bretanha, ela se dispôs a dizer não, chega. Foram conquistas colossais que lhe dão uma estatura que não será corroída pelo tempo." Confrontada com estes feitos e indagada se, com eles, passaria à História, Thatcher respondeu um dia depois de sua renúncia de maneira inconfundivelmente thatcheriana: "Vou ser lembrada por muito mais do que isso. Mas ainda não é tempo de falar em memórias." |
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