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28 de setembro de 1994
Uma nova luz na
viagem do homem
A descoberta de um homem-macaco de
4,4 milhões de anos aproxima a ciência
do elo perdido entre as duas espécies
A partir de uma complicada interpretação da Bíblia, o bispo anglicano James Ussher concluiu no século XVII que Deus criou o mundo no ano 4004 antes de Cristo. Hoje, já se sabe que o universo surgiu há mais de 15 bilhões de anos e os primeiros ancestrais do homem andavam pela áfrica há mais de 4 milhões de anos, pelo menos. Os homens piedosos do século passado trabalhavam com os textos sagrados, pouca base científica e uma imaginação que não conhecia limites. Os cientistas de agora dispõem de coisas mais seguras para tirar suas conclusões. Na semana passada, a partir de uma coleção de ossos desencavados na Etiópia, a revista científica Nature, da Inglaterra, anunciou a maior descoberta paleontológica dos últimos vinte anos. Os fragmentos fósseis, encontrados pela equipe do americano Tim White, pesquisador da Universidade da Califórnia, em Berkeley, pertenceriam ao mais antigo ancestral do ser humano, um hominídeo parecido com o chimpanzé, com cerca de 1 metro de altura, peludo e totalmente primitivo. Talvez já ficasse de pé.
Esse avô distante do homem moderno, batizado de Australopithecus ramidus, ou homem de Aramis, viveu há 4,4 milhões de anos, 1,1 milhão a mais do que o ancestral mais antigo que se conhecia até hoje. Desde que a paleontologia começou a desenterrar testemunhos fósseis do passado humano, procura-se o último ancestral do homem, o elo entre a raça que usa talheres e os macacos. Esse hominídeo da Etiópia está perto daquele ponto em que o tronco evolucionário se dividiu em dois galhos - um deles na direção dos macacos e o outro na do homem. "Essa espécie é o elo mais antigo que se conhece na cadeia evolutiva que nos liga a um ancestral comum do homem e dos atuais macacos africanos", diz Tim White. É possível que apareçam hominídeos mais antigos ainda do que o Australopithecus ramidus. Mas até que isso aconteça ele é o melhor candidato para ocupar o posto de "elo perdido" - o tão procurado espécime que dividiria características de primatas e de humanos. "Abusa-se com freqüência da metáfora de um elo perdido, mas ela é um epíteto que se aplica a esse hominídeo de Aramis", comentou na revista Nature o professor Bernard Wood, da Universidade de Liverpool, na Inglaterra.
É claro que a idéia do elo perdido é uma licença poética. Não há um elo perdido. Há vários. Cada hominídeo que for descoberto com mais de 4,4 milhões de anos a partir de agora será um novo elo perdido. Sabe-se hoje, pelos estudos de biologia molecular, que o ancestral comum dos macacos e dos homens viveu entre 4,5 e 6 milhões de anos atrás. Chegou-se, portanto, à linha divisória. É possível que o homem-macaco original esteja ali, na próxima esquina. Ou pode estar um pouco mais distante. O objetivo final das escavações será chegar ao grande patriarca do zoológico e da bolsa de valores. É nesse sentido que se deve entender a expressão poética a respeito de cadeias da corrente evolutiva. Antes do homem de Aramis, o último elo desencavado chamou-se Australopithecus afarensis, cujo primeiro e mais famoso exemplar foi achado em 1974, também na Etiópia, pelo paleontologista Donald Johanson e pelo próprio Tim White. Apelidado de "Lucy" (uma homenagem à canção dos Beatles Lucy in the Sky with Diamonds, que tocava na hora da descoberta), o fóssil é um esqueleto parcialmente completo de um hominídeo que viveu há 3,2 milhões de anos. Como Lucy, o homem de Aramis foi achado um pouco por sorte.
GALILEU - Em dezembro de 1992, o arqueólogo japonês Gen Suwa andava pela região de Aramis, no deserto da Etiópia, num intervalo entre as escavações que realizava no local, quando um objeto brilhante despertou sua atenção. Estava no meio de algumas pedras. Ao recolhê-lo, Suwa teve uma surpresa. Era um dente molar de um hominídeo, um ancestral do homem moderno. Nos dois anos seguintes, a equipe a que Suwa pertence, chefiada pelo paleontólogo Tim White, continuou a escavar no mesmo sítio. Descobriu ali fósseis de outros dezesseis hominídeos semelhantes, entre dentes, maxilares, bases de crânio e ossos dos braços. Pelas características dos fósseis, os cientistas concluíram que estavam diante de uma espécie totalmente diferente das conhecidas pela paleontologia. "Esses fósseis significam um grande passo para entender melhor as origens do ser humano", comemorava na semana passada Tim White, cuja equipe, além de Gen Suwa, inclui o antropólogo etíope Berhane Asfaw. A comunidade científica internacional também se entusiasmou. "É uma das descobertas arqueológicas mais importantes dos últimos cinqüenta anos", aplaude o antropólogo Owen Lovejoy, da Universidade estadual de Kent, em Ohio, Estados Unidos.
Em meados do século passado, na mesma Inglaterra do bispo James Ussher, aquele segundo o qual o mundo fora criado há 5998 anos, vivia o naturalista Charles Darwin, homem neurastênico, mas de idéias muito interessantes. Darwin, numa provocação às crenças estabelecidas de sua época, acreditava que o homem e o macaco tinham um ancestral comum. Com essa teoria, banal nos dias de hoje, Darwin abriu uma das polêmicas mais ruidosas a que a humanidade já assistiu. Outra do mesmo calibre pode ser creditada a Galileu quando desafiou a crença de que o Sol girava em torno da Terra. Com base em estudos anteriores na mesma direção e a partir de suas próprias observações, Darwin sustentava que haveria uma mutação das espécies. Até então, a crença corrente era que o homem surgira em sua forma atual no primeiro dia da criação. O ser humano, imaginava-se, nasceu pronto para a Academia de Letras.
Só depois que a idéia da evolução foi digerida é que certas coisas estranhas passaram a fazer sentido. Alguns ossos antigos, por exemplo. Em escavações casuais, já haviam sido encontrados ossos fossilizados que não se encaixavam em nenhum ser conhecido. Não se deu tanta importância a achados desse tipo porque parecia faltar nexo a esses velhos ossos. Simplesmente eram deixados de lado, sem despertar grande curiosidade. A partir de Darwin e de alguns outros cientistas do século XIX, as conexões se estabeleceram. O mundo nunca mais seria o mesmo. Uma boa parte da ingenuidade humana desapareceu ali. E abriram-se novos campos de interesse para muita gente: procurar ossos antigos tornou-se uma profissão respeitável.
CHIMPANZÉ DE GRAVATA - A história da paleontologia é o reflexo mais agudo desse interesse. Mas os leigos também sentem uma curiosidade brutal pelo tema. Já se definiu o homem de várias formas sem fugir do mesmo lugar-comum. Ele seria um animal que ri ou que constrói ferramentas, um animal que sabe fazer fogo ou que consegue raciocinar. Mesmo com todas essas diferenças lisonjeiras para o homem, a atividade mental que o distingue dos animais não é tão expressiva quanto o parentesco biológico que os nivela. Pesquisas da biologia molecular mostram que do ponto de vista genético homem e chimpanzé são 88% idênticos. O homem, ironizaria alguém, é um chimpanzé que usa gravata. Mas talvez o traço mais interessante a reter seja outro: o homem é um animal que indaga obsessivamente sua própria origem. As perguntas são: quando, onde e como a raça humana surgiu. Os fósseis desencavados na Etiópia por Tim White e equipe permitem ir muito mais fundo nessas questões.
O ancestral comum a homens e macacos, como já se observou, teria vivido há uns 6 milhões de anos. Desde então, uma coisa misteriosa aconteceu. Alguns dos descendentes desse animal continuaram nas árvores. Estão lá até hoje, guinchando. Outros pularam para o chão, ficaram de pé, criaram orquestras sinfônicas e voaram até a Lua. Por que isso ocorreu, não se sabe com certeza. Suspeita-se. Em outras palavras, há teorias. Há muito se tenta explicar por que os ancestrais do homem trocaram seu modo de vida relativamente cômodo, nas árvores, comendo folhas e frutas ao alcance das mãos, pelo ambiente hostil das savanas, onde tinham de caçar para comer e eram caçados por animais selvagens.
CÉREBRO QUENTE - Até hoje, a melhor explicação para esse mistério era que à época do surgimento do homem teria havido uma mudança de clima na Terra, causada por grandes inundações ou explosões vulcânicas. Essas mudanças teriam devastado grandes áreas de floresta, surgindo em seu lugar regiões de topografia mais plana e de vegetação rasteira. Esse novo cenário favoreceria a adaptação dos macacos que conseguiam andar em apenas duas pernas, os bípedes, que teriam evoluído para os ancestrais dos seres humanos. Nesse cenário, cabe uma teoria recente segundo a qual o hominídeo teria procurado erguer-se para uma posição vertical para se defender do Sol. No corpo dos outros animais, um sistema biológico de refrigeração alivia o calor do cérebro de tal forma que ele não é prejudicado em situação de exposição direta. Os hominídeos não teriam essa proteção natural. Nesse caso, teriam aprendido a andar quando expostos ao calor das savanas. Nessa posição, o cérebro absorve muito menos calor dos raios do Sol.
Os estudos geológicos da região em que os novos fósseis foram encontrados, no entanto, provam que ela era coberta por florestas na mesma época em que o Australopithecus ramidus por lá andava. Com isso, os cientistas poderão ser obrigados a rever toda a teoria da influência do clima e do meio ambiente na evolução humana. "A savana não teve influência no processo evolutivo do homem", adianta-se Tim White. Ainda assim, por enquanto há apenas evidências indiretas de que o homem de Aramis fosse capaz de andar em duas pernas. Um dos principais objetivos da segunda fase de escavações da equipe de White, que começará no mês que vem, é encontrar fósseis da região pélvica, dos joelhos e dos pés - ossos que podem indicar se o hominídeo daquela época era realmente bípede.
É possível, no entanto, que a postura bípede se tenha desenvolvido por outro motivo. Segundo uma teoria recente, em algum momento de sua evolução os hominídeos teriam ampliado sua alimentação, antes restrita a folhas e frutos. Passaram a comer insetos, minhocas, larvas, pequenos peixes, répteis e frutas de arbustos, deixando as folhas do alto para outros competidores. Nesse ponto, a espécie passou a ocupar o chão da floresta e ergueu-se nas pernas para catar bichos e frutos rasteiras.
O que conta, para o posterior desenvolvimento do homem, é a vantagem da postura ereta. Na posição vertical, o animal fica com as mãos livres para recolher alimentos - e também para pegar uma pedra ou um galho capazes de funcionar como arma contra o adversário. A postura bípede permitiria mais agilidade nos deslocamentos, em comparação com outros hominídeos que ainda apoiassem as mãos no chão a cada passo. Isso faz diferença. Ajuda a caçar. Conforme uma crença disseminada entre cientistas, as caçadas ensinaram aos ancestrais do homem a importância da cooperação social. Há suspeitas fortes de que o homem de Aramis já não arrastava as mãos no chão ao andar. Mas isso ainda depende de confirmação através das pesquisas de Tim White.
ESMALTE DOS DENTES - Segundo Berhane Asfaw, da equipe de White, algumas das características dos fósseis que encontraram são suficientes para demonstrar que a espécie de Aramis já pertence à linha evolutiva do homem, e não é apenas um chimpanzé primitivo. "A base do crânio pequena, o formato dos dentes caninos e o cotovelo provam que ela já começara a desenvolver traços humanos", diz Asfaw. Em contrapartida, os cientistas ficaram espantados com uma característica do Australopithecus ramidus que o liga diretamente aos macacos: a camada muito fina do esmalte dos dentes prova que ele se alimentava apenas de frutos e folhas. Se tivesse mudado, ainda estaria no estágio inicial da nova dieta. Já na fase da evolução humana representada pela espécie de Lucy, o esmalte dos dentes era espesso como no homem moderno.
Lucy é um personagem muito especial. Não enquanto viveu, a exatamente 90 quilômetros do sítio do colega mais antigo, o homem de Aramis. Ela se tornou famosa depois da descoberta de seus ossos fossilizados, em 1974. Talvez o grande charme de Lucy, o detalhe que a tornou relativamente popular, esteja no nome. Nenhum fóssil arrancado do passado foi batizado com um nome moderno, muito menos tirado de um rock de sucesso. São em geral designados por expressões científicas e até mesmo por siglas, como os aviões de carreira. Lucy, no jargão paleontológico, é um Australopithecus afarensis. Há outras peculiaridades favoráveis, além do nome. O homem que a encontrou, Donald Johanson, conseguiu juntar tantas peças que remontou 40% do esqueleto. Isso, para fósseis tão antigos, é raríssimo. No sítio do homem de Aramis, coletaram-se apenas pedaços de mandíbula, de braço ou de cotovelo. E eram restos de pelo menos dezessete indivíduos.
Lucy tinha cerca de 1,20 metro de altura. Era muito baixinha, mesmo para um hominídeo do seu período. Seu cérebro era semelhante ao de um símio, mas ela possuía uma característica que elimina a possibilidade de o fóssil pertencer a um macaco - era bípede, com certeza. A evidência disso está na articulação dos ossos do joelho, que permitia a Lucy manter as pernas totalmente eretas. Isso não acontece com os chimpanzés e gorilas, incapazes de andar sobre os dois pés por períodos prolongados. Lucy seria capaz, assim, de carregar os filhos nos braços e transportar comida, um progresso enorme na trajetória dos ancestrais humanos.
A confirmação de que ela andava ereta veio quando a equipe da famosa arqueóloga Mary Leakey descobriu várias pegadas de Australopithecus afarensis, hominídeos da mesma espécie, conservadas em cinza vulcânica, na Tanzânia. Mary Leakey conta essa passagem com emoção. As pegadas mostravam um grupo em movimento. Em certo ponto, um dos afarensis parou, como se olhasse para trás, assustado com alguma coisa ameaçadora, nas palavras da paleontóloga. "Era como se fosse um homem dos nossos dias", comentou a cientista.
Entre os homens-chimpanzés da alvorada da humanidade e as pessoas que hoje trabalham em escritórios com ar condicionado, uma série de linhagens se entrecruzou pelos caminhos da evolução. A espécie de Lucy, o afarensis, se extinguiu. Ramos inteiros que se produziram durante 1 milhão de anos, como o do Australopithecus africanus ou o do Paranthropus boisei, também desapareceram, deixando, porém, ramais diferenciados que sustentaram a cadeia evolutiva até o surgimento dos primeiros seres mais parecidos com os homens de hoje. O homem, em sua forma atual, imagina um futuro inextinguível para a espécie. A verdade, pelo ponto de vista dos paleontólogos, é que dentro de 1 milhão de anos o homem poderá não existir mais.
O primeiro dos Homo, o Homo habilis, diferenciava-se de seus parentes desaparecidos pelo volume maior de cérebro, pelo aumento da estatura, pela melhoria da postura ereta e pela capacidade de fabricar instrumentos simples, como facas grosseiras de pedra lascada. Como sempre, em se tratando de homens, as características físicas entrecruzam-se com aptidões intelectuais. O Homo habilis, que viveu entre 2 milhões e 1,5 milhão de anos atrás nas mesmas áreas ocupadas pelos Australopithecus, já construía habitações e, embora se mantivesse primordialmente vegetariano, foi o primeiro a aprender o sabor da carne. Corria atrás de carcaças de animais deixadas por tigres-dentes-de-sabre, leões ou leopardos. Baixinho, tinha apenas 1,30 metro de altura. Mas seu cérebro já era duas vezes maior que o de um chimpanzé e um terço superior aos de hominídeos mais antigos. É curioso verificar como o crescimento físico do cérebro equivale ao aumento automático de sua capacidade funcional (veja tabela à pág. 88).
GIGANTE INTELECTUAL - Até a época dos habilis, os hominídeos viviam numa espécie de confinamento aberto. Não era a natureza que os aprisionava, mas sim a capacidade intelectual, ainda insuficiente para enfrentar a natureza hostil. Com o surgimento do Homo erectus e seu cérebro ainda maior, pela primeira vez o homem pôde construir instrumentos mais complexos, dominou o fogo e caçou com eficiência. Vivendo numa época recuada, há 1 milhão de anos, o erectus ainda era um primitivo em matéria de costumes e de capacidade intelectual, a julgar pelos padrões atuais. Mas, caso reaparecesse hoje em dia, a diferença mal seria notada na penumbra de um cinema, sem um exame mais atento. Terminada a sessão, o susto dos vizinhos seria enorme. O erectus tinha apenas 1,50 metro de altura e traços de filme de terror: testa achatada, sobrancelhas projetadas para fora e queixo afundado. Perto de nulidades mentais como Lucy ou o homem de Aramis, no entanto, esse era um gigante intelectual. Reproduziu-se mais e partiu para novos ambientes. Fósseis dessa espécie foram encontrados na China, na índia e na Indonésia. Foi o primeiro movimento migratório da humanidade. A transição do Homo erectus para o Homo sapiens aconteceria entre 500.000 e 350.000 anos atrás.
A curiosidade a respeito de sua origem e destinação, uma das paixões mais fortes no ser humano, está no alicerce das religiões, de boa parte da ciência e da aflição dos bilhões de sucessores do Australopithecus. A predisposição das pessoas para se ocupar com esse assunto é tamanha que a história da paleontologia registra até mesmo um grotesco episódio de burla da boa-fé pública, impossível caso o interesse por ossos velhos fosse menor. Em 1912, anunciou-se na cidade inglesa de Piltdown a descoberta fantástica de um crânio humano que seria "o elo perdido" na evolução do macaco para o homem. O achado paleontológico dava aos ingleses a chance de se orgulhar, dali em diante, de ser o berço da humanidade. Quarenta anos depois, descobriu-se que era uma fraude, na qual se juntou um crânio moderno com uma mandíbula de orangotango. Ainda assim, outro mistério sobre o homem de Piltdown persistiu por mais trinta anos: quem teria montado a fraude? Em 1983, John Hathaway Winslow, antropólogo da Universidade da Califórnia, anunciou finalmente o brincalhão. Seria sir Arthur Conan Doyle, o autor de romances policiais que escreveu a célebre série de histórias do detetive amador Sherlock Holmes.
GIGANTES NO SÉCULO - A descoberta do hominídeo na Etiópia acrescenta um novo tijolo no edifício erguido pelo naturalista inglês Charles Darwin. Ao lado de Karl Marx e Sigmund Freud, ele é um dos três pensadores que moldaram o século XX - e o único cuja reputação resiste intata à aproximação do século XXI. Quanto mais a ciência avança, mais suas idéias se confirmam. Marx e Freud, intelectos poderosos e ousados, interessam mais pela vastidão de seus sistemas e pela capacidade de criar paradigmas para o pensamento moderno. Chega-se ao fim do século XX com as idéias desses dois homens ainda entranhadas no pensamento da humanidade. Na prática, Marx e Freud apresentam rachaduras, invisíveis no edifício de Darwin. Correm o risco da datação, uma ironia da qual os ossos de Darwin parecem livres até agora.
A teoria central de Darwin, exposta no livro A Origem das Espécies, baseava-se na ascendência comum dos seres vivos. Nas suas viagens ao redor do mundo, o cientista inglês notou que uma única espécie de pássaro da América do Sul dera origem a três outras diferentes nas Ilhas Galápagos. Com base nessa observação, Darwin chegou à conclusão de que, em tempos remotos, houve um mesmo ancestral para todos os seres hoje existentes. A história das espécies, segundo ele, poderia ser contada na forma de uma árvore, com um tronco biológico e uma infinidade de galhos. Em um desses galhos, o dos primatas, estariam os ramos da raça humana e seus parentes mais próximos, chimpanzés, gorilas, orangotangos e outros símios.
As descrições de Darwin a respeito da evolução das espécies passaram a dominar a biologia a partir de então. Hoje, sabe-se que nem todas as suas idéias eram verdadeiras. Descobriu-se, por exemplo, que as espécies podem adquirir certas características, dependendo do ambiente em que vivem. Essas características não são hereditárias, como Darwin pensava. Mas a substância da teoria da evolução permanece intata e serve de programa de pesquisa para os biólogos. Ao mesmo tempo, Darwin promoveu a biologia de simples hobby, como a filatelia, à condição de ciência de verdade.
Antes de Darwin, a tarefa dos biólogos consistia em classificar a natureza pela sua diversidade, catalogando todas as espécies num ranking que começava pelas plantas mais simples e ia até os vertebrados mais complexos. Depois dele, essa diversidade adquiriu um sentido completamente novo, na medida em que poderia ser desenhada para trás, em busca de um ancestral comum. A prova final veio em 1960, quando se descobriu que mesmo as mais simples bactérias dividem o mesmo código genético com os animais, seus parentes mais desenvolvidos.
A outra revolução de Darwin foi tirar da espécie humana sua pretensão de raça eleita. O homem é mais parecido do que diferente dos outros animais e a ciência está repleta de evidências segundo as quais a vida na Terra pode ter surgido e evoluído por seus próprios meios. Do ponto de vista biológico, o papel desempenhado pela espécie humana é tão fortuito quanto o dos bem-te-vis, das baleias ou dos jacarés. A sorte de todos eles dependeu, em igualdade de condições, do ambiente em que viveram nesses milhões de anos - do clima, da disponibilidade de alimentos, da habilidade em se reproduzir e se defender dos predadores.
Se há ou não um papel para Deus nesse crochê biológico, isso depende da fé de cada um. Fé e ciência atuam em esferas diferentes. Na esfera da ciência, cada descoberta no campo da biologia exigia que livros inteiros fossem reescritos. A beleza do achado da semana passada é que ele se encaixa com perfeição entre os elos da corrente da vida, sem nenhum ajuste numa seqüência que Darwin haveria de reconhecer e aprovar. •
A floresta perigosa de Aramis
O berço da raça humana, 4,5 milhões de anos atrás, era uma luxuriante floresta tropical, situada numa planície úmida repleta de vida selvagem, numa forma mais primitiva que a atual. Os grandes mamíferos, como hipopótamos, girafas e rinocerontes, ainda eram raros e havia muitas espécies de pássaros, morcegos e roedores. Os lagos e rios eram habitados por peixes, tartarugas e crocodilos. Apesar disso tudo, o cenário estava longe de se parecer com o Jardim do Éden descrito no livro do Gênesis. Antes de ser fossilizados, os esqueletos encontrados na Etiópia pelos cientistas foram triturados por animais carnívoros.
HIENAS E FELINOS - Isso faz crer que a evolução da espécie se deu num ambiente perigoso e violento, em que a luta pela vida dependia da habilidade de se defender dos predadores. Há uma vasta coleção de fósseis de plantas e de animais que conviveram com o Australopithecus ramidus na região da Etiópia onde hoje existe o povoado de Aramis. Ela permite imaginar um quadro muito próximo do que seria o ambiente naquele tempo. A paisagem era diferente da da áfrica atual. Os ancestrais do homem não eram a forma de vida mais abundante e muito menos a mais poderosa entre os animais existentes na região.
A espécie mais numerosa era formada por um macaco de tamanho médio conhecido como colobino. Trinta por cento de todos os fósseis vertebrados encontrados na região são desse macaco. Também era muito comum uma espécie de boi conhecida pelos cientistas como kudu. Todos esses animais dividiam o habitat com vários tipos de carnívoros, incluindo hienas e grandes felinos, parentes dos atuais tigres e leões. As descobertas dos paleontólogos incluem até mesmo uma espécie de urso que não se imaginava ter habitado a região leste da áfrica.
Qualquer um desses carnívoros pode ter sido o responsável pelas marcas de mordidas nos ossos do Australopithecus ramidus encontrado na Etiópia. A distribuição dos fósseis levou os pesquisadores a acreditar que o hominídeo preferia viver nas florestas e evitava as áreas abertas para fugir dos predadores. Era uma espécie completamente indefesa diante dos animais muito mais fortes e agressivos. Ainda não sabia usar nem mesmo a pedra lascada para caçar e se proteger dos ataques. Só 1 milhão de anos mais tarde um outro ancestral dos humanos, o Australopithecus afarensis, começou a se aventurar longe da floresta.
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