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Reportagens 28 de agosto de 1991 A revolução começou Como em 1917, o povo está na
Retornando de trem do exílio, Lênin desembarcou em 3 de abril de 1917 na Estação Finlândia, em Petrogrado. O czar Nicolau II estava preso, a agitação tomava conta das ruas e a Rússia estava num impasse: continuava em guerra contra uma potência estrangeira (Alemanha), os liberais estavam no poder e a insatisfação popular crescia. No seu primeiro discurso, Lênin defendeu uma estratégia que surpreendeu até seus camaradas do partido bolchevique, a de que era preciso botar abaixo o governo provisório para que os trabalhadores tomassem o poder e implantassem o comunismo. Nos discurso, Lênin falou do alto de um blindado. Depois, os bolcheviques tomaram o poder, implantaram o comunismo, rebatizaram Petrogrado de Leningrado e instauraram a mais longa ditadura do século XX. Hoje, o blindado sobre o qual Lênin discursou é uma relíquia exposta no Palácio Orlov, em São Petesburgo, a ex-Leningrado, e a Estação Finlândia não existe mais. Na segunda-feira passada, o presidente russo, Boris Ieltsin, subiu num outro blindado, em Moscou. A União Soviética estava num impasse. O presidente soviético Mikhail Gorbachev estava preso, golpistas tinham 50 000 tanques para ocupar as ruas e os liberais não sabiam ao certo o que fazer. Ieltsin proclamou do alto do tanque que os articuladores do Grande Golpe Socialista de Agosto não passariam, pediu apoio às potências estrangeiras, convocou manifestações em todo o território e conclamou os soviéticos à greve geral. No dia seguinte, ocorria uma manifestação de mais de 100 000 pessoas em frente ao Palácio de Inverno, um dos cenários decisivos da Revolução de 1917, a greve se alastrava pelo país e, em Moscou, barricadas improvisadas conseguiam deter o avanço dos tanques. Qualquer manual bolchevique ensina que uma greve geral bem-sucedida, manifestações populares nas principais cidades e barricadas com gente disposta a morrer são o caminho mais curto para o socialismo. Na semana elas foram a rota do retorno ao capitalismo, a alma da revolução anticomunista que começou na União Soviética. A Junta golpista tentou um acordo de última hora e acabou na cadeia. Solto, Gorbachev tentou armar um governo do tipo PFL e foi praticamente deposto: Ieltsin nomeou quem quis. Estátuas de ícones do bolchevismo vieram abaixo, jornais e sedes do Partido Comunista foram interditados e se iniciava a caça aos agentes da KGB, a polícia política. Como em 1917, havia uma revolução em curso. Havia um outro ponto em comum com 1917, apesar da diferença radical de a primeira revolução ter implantado o comunismo e a da semana passada ter colocado um ponto final no leninismo. Outra vez, era o povo, o movimento das multidões, que irrompia na cena política, extravasando o quadro das instituições. Havia o sopro libertário, o ideal de se forjar uma vida melhor, fraterna, sem opressão. Conseguir realizar esse sonho, que só é possível dentro de um quadro de democracia e tolerância, é o desafio maior da revolução que explodiu o comunismo na União Soviética. A louca era de agosto A massa derruba estátuas, enterra os Felix de Ferro, o criador da repressão política na União Soviética, foi o primeiro. As ruas eram da massa - 20 000 pessoas -, e veio com aquela vontade de derrubar estátuas que o mundo já se acostumou a ver. Cada vez que um regime comunista cai, desde a Polônia até a Etiópia, lá se vão os bonecões de ferro. O encontro marcado do Felix Djerjinski de plantão na Praça Lubianka com a lata de lixo da História aconteceu às 11 e meia da noite da quinta-feira passada. O movimento da massa era espontâneo, mas nem tanto, já que não há registro na história das lutas populares de manifestantes que vão para passeatas carregando guindastes. Foi a prefeitura de Moscou que providenciou os cinco guindastes que botaram no chão o trambolho de 14 toneladas. "Abaixo a ditadura", diziam os cartazes colocados no pedestal da ex-estátua que não tem pés, já que o capotão de Djerjinski lhe cobria os sapatos. Na sexta-feira, numa manifestação verdadeiramente espontânea, moscovitas martelavam o pedestal da estátua de Djerjinski para, como aconteceu depois da derrubada do Muro de Berlim, guardar lascas de recordação. Novamente, os líderes da revolução intervieram: Boris leltsin em pessoa foi à Praça Lubianka e, de megafone em punho, pediu que os martelantes deixassem o pedestal em paz. Nos dicionários oficiais, Djerjinski ainda é apresentado como "destacada personalidade do partido e do Estado soviético, participante do movimento revolucionário russo e polonês". Para seus coveiros postmortem, era o fundador da Cheka, a célula mater de onde brotou a KGB, sobre cuja sede Felix de Ferro presidiu silenciosamente ao longo de décadas. O segundo foi lakov SverdIov, o cacique bolchevique que em 1918 assinou junto com Lênin a ordem de execução do czar Nicolau II, de sua mulher, das quatro filhas do casal, do pequeno herdeiro real, dos empregados, do médico e até do cachorro da família aprisionada. A massa voltou a se reunir na sexta-feira, na Praça Sverdlov. "Derruba, derruba", pedia. Não demorou muito e os providenciais guindastes da prefeitura reapareceram. Na enciclopédia soviética, escrita pelos herdeiros da Revolução de Outubro (de 1917), SverdIov aparece como "um dos excepcionais organizadores e construtores do Partido Comunista e do Estado soviético, verdadeiro discípulo e aliado de Vladimir Lênin". "Assassino do czar", condenava o cartaz pregado pela Revolução de Agosto (de 1991) antes que a estátua sumisse do mapa, levada pelos caminhões da prefeitura moscovita. Pode ter sido um caso de justiça estética, pois a estátua de SverdIov era uma das mais horrendas de Moscou. Pela lógica das massas em ação, um dos primeiros alvos do movimento antimonumentalidade bolchevique deveria ter sido o próprio pai da Revolução de 1917, VIadimir Ilich Ulianov, Lênin. "Lênin foi o primeiro golpista", gritou uma moscovita na manifestação de 100 000 pessoas que na quinta-feira percorreram o Kremlin e a Praça Vermelha. Um punhado de gente chegou a atirar pedras no Mausoléu de Lênin, mas os organizadores do ato público não deixaram que o apedrejamento prosperasse. Os revolucionários também passaram ao largo da estátua de Stalin e não tocaram nos doze bustos de figurões comunistas que formam duas filas ao lado da muralha do Kremlin. Nas capitais da Lituânia e da Estônia, celeremente a caminho da independência, Lênin era laçado e derrubado a todo vapor. Lênin foi despejado do pedestal ao mesmo tempo em que as três repúblicas bálticas decretavam a ilegalidade do PC. Depois de caçar comunistas de ferro, a massa partiu atrás dos de carne e osso, pespegando safanões em funcionários identificados do Partidão. Na mesma velocidade com que os monumentos aos ícones da Revolução de Outubro vinham abaixo, Boris leltsin, o herói da Revolução de Agosto, assinava. E como assinava. Ucasses, decretos, resoluções jorraram qual sangria desatada de sua mão direita (a única que tem os cinco dedos) para dar forma concreta ao que a queda das estátuas simbolizava: o fim do comunismo. De quebra, acabava também o período de seis anos em que Gorbachev tentou a reforma por dentro do sistema, ora tomando medidas liberalizantes, ora se alinhando com a linha dura. A perestroika e a glasnost, o processo de abertura lenta, gradual e controlada para reestruturar o país, deu lugar ao escancaramento súbito, rumo a uma estruturação do país em novas bases. "A Rússia é um país onde coisas que simplesmente não podem acontecer acontecem", definiu no século XVIII o czar Pedro, o Grande. O czar Pedro era realmente grande em matéria de crueldade. Torturou o próprio filho, quando ele tentou um golpe contra o pai. Os generais golpistas que se aliaram ao seu filho foram torturados para confessar sua participação no complô. Confessaram, mas Pedro, o Grande ordenou que eles continuassem a ser torturados diariamente, durante cinco anos. Os revolucionários de 1917 e de 1991 deixaram intacta a estátua de Pedro em São Petersburgo. A saraivada de comandos desfechada por Boris, o Enorme, encerrou de forma estonteante a inacreditável semana em que tudo o que não podia acontecer aconteceu: o golpe de linha dura, a deposição do presidente Mikhail Gorbachev, a reação das massas encabeçada por Ieltsin, a derrota dos golpistas, a libertação de Gorbachev, o assalto ao poder do Partido Comunista, a humilhação de Gorbachev, o esboroamento das estruturas que sustentaram o sistema soviético durante 73 anos, o esfacelamento de um império mantido unido a ferro e fogo pelos burocratas da nomenklatura. É coisa demais, mas aconselha-se ter fôlego para enfrentar o que o furacão Boris preparou em seu papel de parteiro da nova era. Unido a Gorbachev numa espécie de governo de coalizão, chamado de "confiança popular" - em que leltsin entra com a confiança e com o popular -, ele ficou com todos os cargos ligados à segurança interna e à defesa. Não levou mais porque, até a tarde de sábado, outros postos importantes do governo ainda não haviam sido preenchidos. Faltavam, entre outros, os substitutos de Valentin Pavlov, o ex-primeiro-ministro golpista, preso no hospital onde se internou com uma crise de hipertensão, e do chanceler Alexander Bessmertnikh. Sumido na segunda-feira cedo, a manhã do golpe, ele só foi reaparecer no fim da quarta. "Eu estava doente e não era doença diplomática, era doença mesmo", explicou. Era mentira, mas caso fosse verdade o chanceler teve uma grande falta de sorte, não por ter adoecido na segunda, mas por ter ficado bom na quarta. Se tivesse continuado de cama, talvez passasse despercebido. Como levantou, foi demitido por Gorbachev, depois de confessar que "o presidente acha que eu não fui firme o suficiente durante o golpe". Mas o presidente que apertava também era apertado. "Nós chegamos a um acordo, depois de trocar opiniões, para desenvolver propostas comuns a esse respeito", explicou Gorbachev perante o Parlamento russo, onde leltsin fez as honras da casa, comandou o show e ditou as condições. Resultado das propostas comuns: o novo ministro do Interior (em lugar do golpista suicida Boris Pugo) é Viktor Baranikov, um ieltsinista que chefiava a polícia da Federação Russa. O ministro da Defesa indicado interinamente por Gorbachev, o general Mikhail Moisseiev, não esquentou lugar por mais de 24 horas e em seu lugar entrou Ievgeni Shapochnikov, ex-comandante da Força Aérea que se recusou a apoiar os golpistas. Para a chefia da KGB, numa escolha política inteligente e ao mesmo tempo numa provocação a seu "parceiro" no governo de coalizão, Ieltsin convocou Vadim Bakatim, que Gorbachev havia demitido como ministro do Interior em novembro do ano passado, quando embarcou na onda conservadora. Pouco depois, quando leu, diante da multidão postada frente à sede da KGB - já desprovida do Felix de Ferro -, os nomes dos três novos chefes do aparato militar e policial, leltsin foi interrompido por uma voz anônima. "Sem concessões", cobrou o homem da rua, no mais impecável estilo revolucionário. "Sem concessões", concordou Boris, na mesma linha. Quem fazia todas as concessões, àquela altura, era Gorbachev, constrangido por seu salvador a concordar com o desmantelamento do poder do Partido Comunista sobre as estruturas políticas da URSS. Uma vez garantido quem vai mandar nos tanques, na tropa e na polícia, leltsin atacou em outras frentes. Numa iniciativa que resvala para a ilegalidade - um paradoxo típico dos momentos de confusão revolucionária -, ele suspendeu por tempo indeterminado os principais jornais comunistas que vacilaram ou aderiram na hora do golpe, incluindo o Pravda (que tentou sair na frente, trocando sua definição de "órgão do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética" para "jornal político do PCUS". Tarde demais). "Eu fico inquieto quando vejo a turba destruindo estátuas e governos suspendendo jornais", alertou o professor Stephen Cohen, sovietólogo da Universidade de Princeton, que tivera uma semana gloriosa na televisão americana ao prever o colapso da junta golpista e que na sexta-feira estava tenso com o desenrolar da revolução. "O fechamento do Pravda não ajuda a democracia. Ajuda a vingança, mas não a democracia", dizia Cohen. A única conseqüência prática provocada pela suspensão do Pravda e de outros cinco jornais comunistas é a garantia, para leltsin, de menos críticos em circulação. Na sexta-feira, valendo-se do vácuo político, leltsin capturou a imprensa soviética através da demissão do diretor da agência Tass e da substituição do diretor da Novosti por um homem de sua confiança. Também confiscou centenas de gráficas que o PC tinha em toda a República Russa. Não há notícias de que pretenda privatizá-las ou democratizá-las. Pois foi em nome da defesa da democracia que Ieltsin prosseguiu em sua razia. Todas as empresas estatais soviéticas na República Russa passaram para o seu controle. Extinguiram-se os comitês políticos do Partido Comunista no Exército. A sede do Comitê Central do PCUS, em Moscou, foi lacrada, sob o argumento de que era necessário impedir o sumiço de documentos que incriminassem dirigentes do partido na intentona golpista. "Prédio fechado", dizia laconicamente o cartaz pregado mais do que depressa na porta do comitê, assediado por manifestantes. Como o que não podia ocorrer acontecia em progressão cada vez mais delirante, o fechamento teve o endosso humilde de Gorbachev - secretário-geral do partido que estava concordando em interditar, é bom que se lembre. Quanto mais ele fazia autocrítica, penitenciava-se pelo conúbio com os golpistas, prometia puni-los e assumia compromissos eternos com a democracia, mais tinha que repetir tudo de novo. "Acho que é meu dever com a memória desses rapazes continuar no caminho da democracia. Quanto aos responsáveis, não terão perdão", disse ele no sábado, ao discursar no enterro dos três mortos pelos tanques golpistas durante a resistência popular, condecorados postumamente como heróis da União Soviética, galardão que Brejnev ganhou duas vezes. O mea-culpa de Gorbachev começou na quinta-feira, quando deu a primeira coletiva depois do golpe, e prosseguiu no dia seguinte diante do Parlamento russo. Foram noventa minutos memoráveis, transmitidos ao vivo pela televisão para dezenas de milhões de soviéticos, em que o homem que mudou a História da segunda metade do século XX pediu todas as desculpas por sua aliança com os rinocerontes conservadores que tentaram derrubá-lo, fez todas as concessões e caiu em todas as armadilhas. A mais ardilosa foi montada quando, depois de prometer castigar todos os golpistas, Gorbachev se viu coagido a citar os nomes dos traidores em seu próprio ministério. Atrapalhado, ele começou a mencionar algumas pessoas de cabeça e empacou. Calmamente, leltsin o interrompeu. "Mikhail Sergueievitch", disse ele, usando o nome e o patronímico, como é costume na Rússia, "Ieia a folha de papel que lhe dei". Na folha, cópia de uma ata da reunião mantida pelo gabinete no dia 19, todos os ministros apoiavam o golpe - com a honrosa exceção do titular da pasta da Ecologia, NikoIai Vorontsov. Um a um, Gorbachev leu todos os nomes. Gorbachev, o grande estadista, o manipulador brilhante de platéias, o genial condutor da abertura na União Soviética e pai da perestroika, levou o último puxão de orelhas de leltsin, o mal-ajambrado demagogo que conturbava a perestroika. Aproveitando uma rápida pausa na sessão que, se fosse um pouco mais carregada de eletricidade, correria o risco de mandar o Parlamento russo pelos ares, leltsin encaixou a sua deixa: "Camaradas, e quanto ao decreto suspendendo as atividades do Partido Comunista russo?" Gorbachev mal teve tempo de gaguejar "Boris Nicolaievitch". Com um floreio, leltsin meteu a caneta no decreto, redigido no dia 20, no calor da reação contra o golpe. "Está assinado", informou, sob aplausos retumbantes. Os protestos de Gorbachev, que apelava para a legalidade parlamentar, segundo as regras do jogo, enquanto leltsin e os deputados russos falavam em nome da legalidade revolucionária, resvalaram para o patético. "Não foi todo o Partido Comunista da Rússia que apoiou a conspiração", tentou argumentar Gorbachev. "Se for comprovado que algum comitê participou, então eu apoiaria esse decreto. Mas seria um erro proibir o Partido Comunista." Como o decreto já estava assinado e ele havia se comprometido a chancelar todas as decisões tomadas pelo Parlamento enquanto curtia a prisão domiciliar na Criméia, Gorbachev capitulou. Ao se aferrar à defesa do partido, que o apunhalou pelas costas, Gorbachev parecia cumprir seu destino histórico: o homem da transição, o líder - excepcional, no seu caso - que começa a mudança mas é ultrapassado pelas próprias forças que libera. Comemorando o que chamou de "dia mais feliz da minha vida", Stanislav Shatalin, autor do chamado plano dos 500 dias, um tratamento de choque para o ingresso na economia de mercado rejeitado por Gorbachev, encarou de frente o problema. "Esse é o fim do comunismo. O partido precisa ser varrido para fora do poder de uma vez por todas", disse ele. "Se Gorbachev não romper com o partido, vai perder todo o apoio." Caso fizesse ouvidos surdos aos argumentos dos políticos e intelectuais, aos quais não ouve mesmo há um bom tempo - a ruptura final foi em janeiro, com o ataque da repressão em ViIna, a capital da então república rebelde da Lituânia, com treze mortos -, Gorbachev dificilmente poderia ignorar a voz da massa. "Não se esqueça sob qual bandeira nós o libertamos", dizia um cartaz no meio da multidão que, depois de comemorar a vitória sobre os golpistas, se espalhou em revolução permanente pelas ruas. (A bandeira era a da Rússia pré-1917, vermelha, branca e azul, reinstaurada oficialmente por leltsin como pavilhão nacional.) "Renúncia, renúncia", gritaram-lhe ao ouvido as 2 000 pessoas de plantão em frente ao Parlamento russo, depois da histórica sessão em que Gorbachev fez de tudo, menos optar por uma das duas únicas alternativas que satisfariam a massa - ruptura total com o partido ou demissão. "Não existe nada mais difícil de realizar, mais perigoso de conduzir ou mais incerto em seu sucesso do que assumir a liderança de uma nova ordem das coisas", definiu o florentino Nicolau Maquiavel, com clássica precisão. Gorbachev sentiu isso na pele - e como. Em seu momento de triunfo, leltsin deve ter lucidez suficiente para saber o peso do bastão de condutor da transformação que tomou em suas mãos. Se não souber, haverá quem o avise. "Agora, está tudo em nossas mãos", disse Gavril Popov, o baixinho e agitado prefeito de Moscou, no momento mesmo em que se velavam na Praça Manége os três mortos no golpe. "Como antes, temos pouca carne, poucos apartamentos, mas agora está tudo em nossas mãos." A questão, na União Soviética, não é só fazer a traumática transição para a economia de mercado, que, se ajudar, acabará pondo carne farta na mesa, para 290 milhões de pessoas, e apartamentos onde essas pessoas possam comer a carne - um problema já suficientemente enorme, como se comprova na Polônia ou na ex-Alemanha Oriental. Na URSS, tudo está acontecendo ao mesmo tempo. Além da revolução democrática (em desabalada carreira desde a semana passada) e da revolução do mercado (que precisa virar de cabeça para baixo a economia do maior país do planeta, enterrando o dirigismo em seu berço natal), é preciso lidar com a descolonização do império (a pedra no caminho que precipitou o golpe fracassado). "Tudo isso numa situação de emergência que se assemelha a um pós-guerra", arremata o jornalista francês Serge July, ao enumerar as quatro crises que a União Soviética vive simultaneamente. Na semana passada, o povo na rua derrubou a ditadura, derrubou os ícones do regime e, se a situação não estivesse sendo conduzida para um esfriamento dos ânimos, possivelmente derrubaria o que mais lhe aparecesse pela frente. Mesmo nesse clima de euforia, já surgiam avisos de que o processo de desmonte total do totalitarismo é longo. "Não devemos ter expectativas exageradas. O processo agora vai seguir em velocidade maior do que antes, mas há uma inércia enorme a ser vencida", avisava o analista político Rair Simonian. E sempre podem surgir novos candidatos às vagas abandonadas pelos totalitários de ontem. "Infelizmente, existem poucos democratas verdadeiros neste país", afirmou VIadimir Lukin, presidente da comissão de assuntos internacionais do Parlamento russo. "Já podemos ver as raízes de um populismo cínico, com gente dizendo: "Demitam esses aqui, confisquem aquilo ali, redistribuam aquilo lá. Não é assim que se consolida a democracia." Mas é assim, aos saltos no escuro, que avançam as revoluções, obscurecendo heróis que pareciam insuperáveis, criando novos heróis que também podem vir a ser superados. Quando chefiou o "governo dos 100 dias", depois da queda do czarismo, entre julho e outubro de 1917, Alexander Kerenski parecia ser o homem que ficaria para sempre como um gigante da História do século XX. Equilibrando-se no furacão revolucionário, ele apoiou-se à direita (o general Kornilov) contra a esquerda (Lênin e Trotsky). Um mês depois, quando Kornilov tentou passar-lhe a perna, apelou a Lênin. Três meses depois, estava deposto. Morreu em 1970, aos 89 anos, esquecido em Nova York e deixou uma profecia: "O comunismo russo sucumbirá, não através da propaganda anticomunista, mas pela ordem natural das coisas". O comunismo sucumbiu numa revolução. Como todas as revoluções, a de Agosto de 1991 liberta e democratiza, ao mesmo tempo em que busca o ajuste de contas com a ordem anterior. Em benefício da democracia, há limites para esse ajuste de contas, já que ele pode facilmente desandar em caça às bruxas, injustiças, opressão e autoritarismo. Pode, em suma, desandar numa sistemática típica da ordem derrubada. |
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