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28 de julho de 1993
A chacina das crianças
da Candelária

Sete meninos de rua são assassinados no Rio,
o país se revolta, mas muitos aplaudem o fuzilamento

O nome que se dá ao que aconteceu na noite de quinta para sexta-feira no centro do Rio de Janeiro é chacina, coletivo de assassinato frio, brutal, premeditado. O chocante é que as vítimas foram sete crianças e jovens de 11 a 22 anos. O inominável é que todo dia quatro crianças brasileiras são chacinadas em condições parecidas. Passava da meia-noite e uns quarenta desses "meninos de rua", que a miséria privou de um teto, dormiam sob as marquises do generoso pé-direito de edifícios que margeiam a Igreja da Candelária. Estavam embrulhados em cobertores puídos no chão forrado por trapos de carpete. Chegaram dois Chevette, um claro, que na escuridão foi descrito como bege ou amarelo, outro café-com-leite, com uma faixa marrom nas laterais, confundido com um táxi. Do bege saíram quatro homens; do mais escuro, pouco depois, outros dois. Os homens foram direto em direção a um garoto de cabelo oxigenado.

- Você é o "Russo"?
- Não conheço nenhum Russo. Meu nome é Marco Antônio - respondeu com os olhos ainda semicerrados.
- Não adianta mentir - berrou o que parecia ser o líder do bando.

A gritaria assustou "Caveirinha", mulato franzino de 17 anos, siamês de cobertor do falso louro, que saiu correndo. Um dos homens mirou nele, mas o revólver engasgou duas vezes. Seguiu-se a barulheira de uma fuzilaria. Marco Antônio Russo e seus vizinhos foram os primeiros atingidos à queima-roupa, com precisão profissional. Tiros, quase sempre na cabeça, mataram três na hora. Um deles, cambaleante, ainda atravessou a rua e emborcou na grama, em frente à igreja. Russo, que se chama Marco Antônio da Silva, levou um balaço no olho direito e outro na coxa direita. Agoniza no CTI do hospital Souza Aguiar com mínimas chances de sobreviver. O caçula das vítimas, Paulo Roberto de Oliveira, o "Pimpolho", que faria 12 anos na próxima semana, também chegou vivo ao hospital - para morrer seis minutos depois.

DEUS E O DIABO - A madrugada saturada de horrores não ficou aí. Não se sabe direito se pouco antes ou pouco depois do banho de sangue um Chevette amarelo, muito possivelmente o mesmo da chacina, abordou três rapazes a 500 metros da Candelária. Enfiados no carro, eles foram baleados e atirados num canteiro em frente ao Museu de Arte Moderna, a 3 quilômetros da outra matança. Dois morreram. Wagner dos Santos, 22 anos, escapou com uma bala que se alojou na nuca, a milímetros da coluna cervical.

"Foi Deus que me trouxe de novo", diz Wagner, com o rosto deformado de hematomas e voz chorosa. Sua história: dos quatro homens do carro amarelo, dois desceram, um deles encapuzado, abriram o porta-malas, pegaram alguma coisa, talvez armas, e imprensaram Wagner e seus dois colegas, Paulo e "Gambazinho", que se presume tivessem 14 anos. O encapuzado tirou logo o capuz. Era um homem alto, com um dente da frente quebrado. "É a polícia", um deles gritou, antes de começar a distribuir tapas, socos e chutes. Os meninos foram enfiados no banco de trás do carro. Um homem franzino, branco, de nariz afilado, com boné escuro, sentou na barriga de Wagner e encostou o revólver na sua cabeça. A última cena que viu foi um dos homens que estavam no banco da frente, um moreno com cabelo "baixo, tipo militar", dizer: "Tu se lembra de mim, Paulo?" Levou um tiro e desmaiou. Acordou em frente ao museu. A seu lado estava o corpo inerte de Gambazinho. Ainda chutou o pé do companheiro para conferir se estava vivo. "Ele não acordou, eu saí andando e fui parar num posto de gasolina."

"Já vi o diabo aqui, mas um caso assim, nunca", conta Paulo César Afonso Ferreira, 57 anos, diretor do hospital Souza Aguiar. Se lá onde desfilam diariamente os horrores da violência o caso pareceu escabroso, imagine-se o choque que não foi para Yvonne Lofgren Bezerra de Mello, 46 anos, artista plástica, casada com álvaro Bezerra de Mello, um dos sócios da cadeia Othon de hotéis. Essa senhora elegante, que dedica boa parte de seu tempo a cuidar de meninos de rua, foi acordada por volta da 1 da manhã com um telefonema. "Tia, aconteceu uma coisa horrível, uma chacina", dizia do outro lado da linha um menino apavorado. Em menos de vinte minutos estava no cenário horripilante da Candelária.

VENDETA - Depois que o rabecão levou os mortos, às 3h30, Yvonne ficou sozinha com aquele bando de meninos e meninas que entretém e ajuda a alfabetizar. Como não apareceu ninguém, fez várias viagens em sua Quantum levando cada vez grupos de oito crianças para a delegacia mais próxima, onde elas acabaram passando o restinho de noite. Enquanto estava de joelhos na calçada, Yvonne chorou toda a água do corpo ouvindo depoimentos como o de um menino que só não morreu porque estava embaixo de um dos baleados. Depois se controlou, foi para casa, mas às 8 da manhã os meninos telefonaram de novo pedindo para ela voltar. Só com sua presença dariam depoimento à polícia. às 10 da manhã, tudo terminado, foi correr uma hora na praia, "para não tomar um Lexotan" (tranqüilizante). à tarde, sempre com a corda da emoção esticada, faria desabafos: "O que este país está fazendo com a sua infância?"

Está abandonando e matando. No ano passado, só no Rio, foram mortos 424. Neste ano, só no primeiro semestre, mais 320. Dos males genéricos, mas verdadeiros, Yvonne citou a "omissão das elites" e a indiferença à pobreza. Mesmo longe da cidade, em Barra do Piraí, onde repousa por causa de uma estafa, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, avança mais. "Existe na sociedade brasileira uma parcela significativa de pessoas que defendem o extermínio de crianças", afirma. "E existem também nas corporações policiais pessoas dispostas a cumprir essa terrível tarefa."

Levanta-se no caso da Candelária a hipótese de uma vendeta policial. Na quinta-feira à tarde, um rapaz conhecido como Neilton, 19 anos, foi preso na Candelária vendendo três latas de cola de sapateiro, que entorpece o cotidiano sem horizontes de crianças que vivem nas ruas. Houve confusão. Os meninos jogaram pedras contra um carro da Polícia Militar, quebrando o vidro lateral traseiro e ferindo no rosto um soldado. Os PMs levaram Neilton e, no trajeto até a delegacia, um deles ameaçou: "Se você quiser continuar vivo, passa a noite fora daqui que o couro vai comer". Neilton tinha notas fiscais da compra da cola e foi solto. Voltou à Candelária e contou a Russo, o líder dos meninos da Candelária, a ameaça que ouviu.

Russo não deu muita bola. Era só mais uma das muitas ameaças que já ouvira. Na quinta-feira, menos de doze horas antes de ser baleado, declarou a uma repórter do jornal O Dia que estava ameaçado de morte por policiais. "Existe um grupo de extermínio de menores aqui no centro", denunciou. Nem um pingo de paranóia. Com outras palavras o secretário de Polícia Civil e Justiça, Nilo Batista, diz exatamente a mesma coisa: "Sabemos que existem pessoas nas redondezas da Candelária que se sentem incomodadas por esses meninos". Não diz quem. Semanas antes da Conferência sobre Meio Ambiente, promovida no Rio pela ONU em 1992, os meninos que dormiam nas calçadas perto da Candelária foram varridos dali. Sumiram. Yvonne, por exemplo, nunca mais os viu.

Funcionários da prefeitura ouviram a versão de que tudo foi obra de comerciantes da região que não queriam os meninos por ali. Eles teriam espalhado ameaças que afugentaram as crianças. Tudo sem dúvida muito vago, mas ao mesmo tempo muito próximo das suspeitas do próprio Nilo Batista. Só que há dois meses, aos poucos, outros meninos foram ocupando o lugar. E o incidente da quinta-feira à tarde pode ter sido a gota d'água para os que se aborrecem tanto com a presença deles. Yvonne admite que os meninos vivem de praticar pequenos furtos para sobreviver e aos sábados levar dinheiro para as mães ou as avós. "Não sei se ele mexia com drogas, se ele roubava, não sei de nada", dizia, desolada, Ana Maria de Oliveira, mãe de Pimpolho, ao deixar liquefeita em lágrimas a sala do Instituto Médico-Legal, onde reconheceu o corpo de um de seus cinco filhos. O que havia de concreto, até a manhã de sábado, era o retrato falado de um dos assassinos.

Ana Maria estava desarvorada demais para ouvir comentários esparsos de passantes na calçada em frente ao IML. Um deles repetia para quem quisesse ouvir: "Tem que matar mesmo". A sexta-feira não foi feita só de espanto e indignação. Trouxe à tona a patologia da violência. A partir das 17h15, o governo do Estado veiculou em rádios e emissoras de televisão um apelo para que quem soubesse de algum fato que contribuísse para a elucidação da chacina ligasse para o telefone 220-6442. Na primeira hora ligaram 25 pessoas, duas com denúncias sobre a matança. Mas o dobro delas telefonou para festejar a brutalidade. Diziam coisas do tipo: "Deviam ter matado todos", "Esses pivetes têm que morrer", "Ainda foi pouco, deviam arrancar a cabeça deles".

ANJOS E DEMÔNIOS - Que não se tomem essas manifestações como passatempo de alucinados que não têm mais o que fazer. Durante as três horas do programa Show de Notícias, apresentado pela jornalista Liliana Rodriguez na Rádio CBN, 23 pessoas ligaram para falar sobre a fuzilaria. Todas apoiaram a chacina. Liliana leu em tom indignado uma espécie de editorial, com uma metáfora infelicíssima. "As crianças geralmente dormem com os anjos. No caso das que estavam na Candelária, elas acordaram com os anjos." Uma ouvinte ligou para protestar: "Você confundiu anjo com demônio". Muito mais revelador sobre os sentimentos despertados com a aspereza do dia-a-dia foi o telefonema de uma senhora da Tijuca, Zona Norte da cidade. Seu único filho, contou, foi assaltado e morto na Praça Saens Peña, supostamente por meninos de rua. "Eles tiraram a única coisa que me restava na vida", disse. "Mereciam a morte."

Falava dos que mataram seu filho como se fossem os mesmos que dormiam e foram fuzilados na Candelária. Generalizava um sentimento que o coronel Carlos Magno Nazareth Cerqueira, secretário de Polícia Militar, também capta nas ruas. "Tem muita gente feliz com isso, achando que é isso mesmo." Na verdade, na chuvarada de declarações da sexta-feira apareceu muito mais vezes a palavra "barbárie" do que "bem feito". "Estou horrorizado", disse em nota o presidente Itamar Franco. Em sua sinuosa retórica, o governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, não deixou de aproveitar o ensejo para atirar a culpa em seu desafeto predileto, Roberto Marinho, e na Rede Globo. Mas também disse: "Há como nunca se viu uma vigorosa reação de repúdio e indignação da opinião pública frente a esse crime brutal".

A reação, de fato, foi imediata. No início da tarde de sexta-feira, pessoas ligadas a organizações de defesa dos direitos humanos, em geral, e dos meninos de rua, em particular, foram para a calçada ainda coberta de enormes manchas de sangue. Lá colocaram dois grandes caixões, cinco pratos de alumínio com cartuchos de balas e fincaram no gramado da Praça Pio X, em frente da Igreja da Candelária, uma cruz de madeira coberta por um pano preto. O grupo de manifestantes velava por meninos que mal têm nome e sobrenome e vivem desgarrados da família. A mãe de Pimpolho não via seu filho havia um mês. "Ele saiu de casa dizendo que ia comprar pão e sumiu", conta Ana Maria. Não era a primeira vez. Seu filho revoltado e fujão já havia aprontado outras vezes. O segundo de seus cinco filhos, Fábio, de 10 anos, também vive nas ruas e ela não vê o menino há tempos. E o pai dos meninos? "Acho que o nome é Rogério Menezes de... o resto eu não me lembro".

"Essas crianças foram excluídas da categoria de seres humanos, são animais perigosos que colocam em risco os adultos, e por isso querem eliminá-las", opina Betinho. Não se pode confundir o que aconteceu com a violência que vandaliza a rotina numa cidade como o Rio de Janeiro. Valério Polido, o frentista do posto de gasolina Maquiné que atendeu Wagner dos Santos, um dos dois sobreviventes, não se diz assustado por recolher um "morto-vivo". "Eu moro na Baixada Fluminense. Quem vive lá não pode se assustar com pouca coisa. Lá matam logo meia dúzia." Valério está enganado. O que aconteceu na Candelária foi uma afronta proposital. "Fizeram isso para chocar", diz Betinho. "E chocaram."

 

O anjo da guarda
dos mortos

Rica e bonita, a escultora
cuida dos abandonados

Desde maio, a artista plástica Yvonne Bezerra de Mello, 46 anos, é o anjo da guarda dos 45 meninos e meninas de rua que viviam na Candelária. Rica e bonita, poderia passar as tardes jogando tênis no Country Club. Não consegue. Há seis anos, Yvonne cuida de quinze meninos que vivem no Posto 6, em Copacabana, e acolhe em seu ateliê no Santo Cristo, na zona portuária, vinte crianças das redondezas. Sua lógica é simples. "Se todo mundo cuidasse dos menores abandonados que estão na sua porta, a situação da infância brasileira seria bem diferente", prega. "Os governantes têm culpa, mas nós, as elites, também".

Todos os dias, escoltada por um motorista, Yvonne sai de seu luxuoso apartamento na Gávea, na Zona Sul, levando a bordo de um Santana Quantum farto carregamento de pão, mortadela e suco de laranja para seus protegidos. Mas não é só. Leva carinho também. Rolex no pulso, faz curativos, ensina a desenhar e escrever, lê reportagens sobre violência e preconceito racial em voz alta e debate noções de cidadania. "Eu sou o elo deles com o mundo bonito", acredita essa ex-estudante de Letras que, aos 18 anos, militando no Projeto Rondon, foi apresentada à miséria no sertão do Ceará. Um dia, viu um bebê agonizando no chão de um casebre, o corpo coberto de picadas de formiga. "Se ele não for morrer, a senhora diz logo porque eu apago a vela", ouviu da mãe. "É a última que eu tenho." O bebê morreu. "Decidi ali que jamais ficaria de braços cruzados diante do sofrimento de uma criança", diz Yvonne.

O telefonema que recebeu de um sobrevivente da chacina na madrugada de sexta-feira foi o segundo em poucos dias. Segunda-feira, Yvonne tinha sido acordada para socorrer Jaqueline de Souza da Silva, 13 anos, também da Candelária, que teve um ataque epiléptico por cheirar cola. Na calçada que ainda ficaria encharcada com o sangue de seus companheiros, Jaqueline, instigada por Yvonne, tinha escrito uma redação falando em futuro: "Quando eu cresce eu quero ser uma boa menina e trabalhar em loja ou ser uma professora para eu ganhar um bom dinheiro e ajudar minha mãe e minha vó e meus irmões e toda minha família". Yvonne luta para que esse futuro tão improvável não deixe de ser possível. É um trabalho árduo. "É como se tivessem matado meus filhos", diz Yvonne.

 

A morte como rotina

A matança da Candelária é
apenas o símbolo de um crime
diário num país anestesiado

A reação surgiu primeiro fora do Brasil. Anestesiado diante do tratamento que se dá à infância pobre em suas metrópoles, o país vem se tornando objeto de espanto em fóruns internacionais. No seu relatório anual, divulgado há apenas duas semanas, a Anistia Internacional, mais respeitada organização de defesa dos direitos humanos do mundo, parecia estar fazendo uma premonição. A Anistia denunciou a matança de crianças no Brasil e citou a polícia e "os esquadrões da morte" como responsáveis por muitos desses crimes. "Em muitos casos, nenhum inquérito policial é concluído ou encaminhado ao Poder Judiciário", informa o relatório. O Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, também destacou o Brasil no seu último documento a respeito da situação em que se encontram as crianças no mundo.

Eis uma fama merecida. A chacina das crianças na Candelária, na sexta-feira passada, está longe de ser um acontecimento solitário na crônica criminal brasileira. Foi apenas o que mais chocou a opinião pública. No ano passado foram executados, em média, 4,2 menores por dia no Brasil. Nem na Bósnia estão morrendo tantas crianças assassinadas. Na véspera do Natal de 1990, três meninos foram mortos na Cinelândia em circunstâncias semelhantes às do ataque da Candelária. O fato causou pouca comoção. Em São Paulo, sete menores de rua jurados de morte apareceram mortos numa praça ao lado do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual, dois anos atrás. Comoção mínima outra vez. Foi preciso que sete garotos fossem mortos num mesmo ataque bem no centro do Rio de Janeiro, na vizinhança das autoridades e da classe média, para que a brutalidade ganhasse o efeito dramático que a dizimação de menores sempre reclama.

"Não é possível que todos fiquem chocados diante da chacina do Rio de Janeiro, como se isso fosse uma novidade. O luto deve ser diário, porque esses meninos são mortos todos os dias", diz Ivanisa Martins, presidente da Fundação Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência, ligada ao Ministério do Bem-Estar Social. O extermínio físico é o lado mais visível da tragédia em que vivem as crianças miseráveis do país. Filhas de famílias abatidas pela pobreza extrema, elas nascem mal, em favelas ou cortiços, comem mal, educam-se muito mal. Nos piores casos, acabam desgarradas da família, numa situação de esgarçamento social e marginalidade, em convivência com bandos de delinqüentes.

ANJOS DA MORTE - Não há um cálculo muito confiável sobre o número de crianças de rua no Brasil, mas todos os números existentes apontam para alguma coisa como 1 milhão de garotos e garotas, talvez mais. Vivem na rua, alguns apenas durante o dia, outros também à noite, como os meninos mortos na sexta-feira na Candelária. Incomodam os vizinhos bem-postos pela própria presença, às vezes porque se transformam realmente numa ameaça. O que espanta é a solução que alguns misteriosos anjos da morte arranjam para tratar o problema. E também a resposta que as autoridades conseguem dar para o desafio. Uns matam. Outros olham para o outro lado.

Em julho do ano passado, aconteceu outro crime de grosso calibre no Estado do Rio, que demorou muito a ter repercussão. Onze menores foram seqüestrados num sítio na cidade de Magé. Nunca mais foram vistos. A história teve um desdobramento dramático: as mães das vítimas reuniram-se num grupo que ficou conhecido como Mães de Acari, para brigar por justiça, receber denúncias e apontar os criminosos. As Mães de Acari ganharam manchetes no exterior, mas a investigação sobre o sumiço das crianças não avançou. A dona de casa Edméia da Silva Eusébio, 47 anos, líder do grupo e mãe de um dos garotos desaparecidos, foi assassinada no centro do Rio no dia 15 de janeiro deste ano, num crime também sem solução.

O caso das Mães de Acari é um símbolo da tragédia dos meninos de rua. Nesse caso, como em outros, a impunidade realimenta os assassinatos de crianças. Poucos autores desses crimes são identificados. Quando há identificação, pouquíssimos são condenados. O Centro de Articulação das Populações Marginalizadas, uma organização civil carioca, contabilizou 424 garotos mortos no Rio em 1992. Nos seis primeiros meses deste ano, morreram 320 meninos e rapazes na cidade, que é hoje a capital federal da violência contra os menores.

SEM ANTECEDENTES - Atribui-se a maioria desses crimes a grupos de extermínio formados por policiais militares e bancados por comerciantes, empresários da hotelaria e do turismo que se ressentem da delinqüência praticada por muitos menores de rua. Ninguém duvida de que uma parte deles vive na criminalidade, mas há um problema estatístico nesse argumento. Os menores do Rio não cometeram mais de dez assassinatos neste ano. E 320 deles foram mortos. Estudos feitos pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas e pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo indicam que a maioria das crianças mortas não tinha antecedentes criminais nem envolvimento comprovado com drogas. "Os grupos de extermínio estão vinculados à falta de atendimento social à população carente. Quando o Estado se omite, surgem instituições paralelas para cuidar da segurança. Só que esses grupos matam todos que atrapalham seu trabalho", diz o deputado estadual Paulo Mello, que presidiu uma CPI sobre o extermínio de menores na Assembléia Legislativa do Rio. Detalhe: Mello é um ex-menino de rua.

Eliminem-se os grupos de extermínio e o que acontecerá? Outros surgirão, provavelmente. Há um segundo elemento de violência menos denunciado pelos grupos de defesa dos direitos humanos. Ele se origina no tráfico de drogas. Os traficantes que controlam os morros do Rio de Janeiro são responsáveis por boa fatia dos crimes. Um dos casos mais brutais de justiça feita pelas mãos dos traficantes aconteceu em novembro do ano passado no morro do Borel, na Tijuca: dezessete rapazes foram baleados numa ou nas duas mãos pelo chefe do tráfico na favela, Nelson da Silva, o "Bill". Ele foi preso em maio deste ano. Ninguém se iluda: já há outro líder em seu lugar.

O que empurra os meninos para a alça de mira dos revólveres é, mais do que qualquer outro fator, a situação de miséria de suas famílias. Segundo o IBGE, existem no país cerca de 60 milhões de pessoas com menos de 17 anos. Desse total, cerca de 18 milhões de crianças e jovens vivem em famílias com renda per capita de no máximo um quarto do salário mínimo. Com esse dinheiro não se compra 1 litro de leite por dia. É nesse grupo que se registram os maiores índices de desnutrição, analfabetismo e abandono de crianças. Vem desse extrato social mais miserável a maioria das crianças que chegam às ruas numa idade em que deveriam estar freqüentando as aulas.

Tendo a calçada como escola e alguns bicos humilhantes como meio de vida, essas crianças adquirem muito cedo uma carga de experiências quase inimaginável para quem cresceu à sombra de uma educação convencional. Um levantamento feito pelo Unicef mostra que há em todo o país meio milhão de meninas menores que trabalham como prostitutas. Essa situação leva a criança a um quadro geral de degradação. É pela porta da miséria que muitas crianças de rua se acabam transformando em pivetes, trombadinhas e assassinos.

A Polícia Militar de São Paulo também tem estatísticas a respeito da situação da infância das ruas, mas encara o problema por um ângulo diferente. Segundo os números mais recentes divulgados pela PM, em dezembro passado os menores infratores da cidade de São Paulo praticaram nove assassinatos, 24 assaltos a mão armada e 150 furtos de pequenos objetos. Roubaram 21 carros, treze estabelecimentos comerciais e catorze casas de família. No período foram detidos 485 menores e 29 deles carregavam revólveres.

INVIOLABILIDADE - Nos últimos anos, o passo mais ousado do governo na tentativa de enfrentar o problema do menor foi a elaboração do Estatuto da Criança e do Adolescente, um documento assinado pelo ex-presidente Fernando Collor em dezembro de 1990. São 267 artigos (quase o tamanho da Constituição brasileira) que conferem centenas de direitos às crianças. São direitos apenas retóricos. Entre eles, figura o direito à inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, conforme a definição pomposa apresentada pelo estatuto. Pior ainda é o discurso derramado em que os autores do documento explicam a abrangência desse direito. Ele engloba, segundo o estatuto, "a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais". Diante dos corpos dos sete meninos e jovens chacinados na sexta-feira no Rio ou mesmo frente à massa de miseráveis brasileiros que nem consegue comer, essa grandiloqüência parece um deboche.

EFEITO PRÁTICO - O Estatuto da Criança tem efeito idêntico ao artigo da Constituição que garante o direito à assistência médica a todos os brasileiros. O artigo não menciona apenas o número de leitos disponíveis nos hospitais e o nome dos médicos, públicos e privados, dispostos a dispensar um minuto do seu tempo com os deserdados. A Fundação Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência, ligada ao Ministério do Bem-Estar Social, ajuda com verbas 880 agências ligadas aos governos estaduais e às prefeituras, além de 1.400 entidades assistenciais privadas. Segundo os cálculos oficiais, no ano passado meio milhão de crianças carentes foi atendida nos albergues, abrigos e casas que têm convênio com a fundação. Para avaliar o efeito prático desses serviços, basta observar o que acontece com a infância desgarrada do país.

Algumas iniciativas bem-sucedidas ajudam a evitar a catástrofe absoluta. O governo de Minas Gerais ganhou neste ano um prêmio do Unicef pelo projeto Curumim, programa que se destina a evitar que os filhos das famílias mais pobres sejam atraídos para a rua. O projeto já atende 6.000 crianças em Minas Gerais. Elas são estimuladas a praticar esportes e só podem participar se estiverem freqüentando a escola. Em Salvador, o italiano Cesare de Florio La Rocca já tirou mais de 1.800 meninos da rua com o seu Projeto Axé. É uma iniciativa barata, tocada por La Rocca com donativos e ajuda oficial. Cada criança atendida custa 37 dólares por mês, ganha casa e um lugar para dormir, estudar e aprender uma profissão. A esse custo, menos de 450.000 dólares por mês seriam suficientes para tirar todas as crianças das ruas de Salvador. Essas experiências mostram que a vontade e a criatividade valem mais do que a burocracia, o discurso e o estatuto na hora de enfrentar um dos mais graves problemas nacionais.


 
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